Um pontinho de luz



Amanda, 3 anos, anda mais sorridente, dando mais gargalhadas, distribuindo beijinhos e abraços como nunca se viu. Parece mais leve, dança o tempo todo, faz graça, conta histórias. Ainda adora uma boa birra e chora fácil, mas esses chiliques têm sido menos frequentes nos últimos dias.

Arthur está todo satisfeito e, se é possível, também tem andado mais doce e carinhoso.

A associação é inevitável. Desde a semana passada, malabarismos nos horários - um pouco menos de sono para mim e almoços na velocidade da luz para o Ulisses - permitem que passemos mais horas com as crianças, todos os dias. Estão sempre conosco, salvo no período da escola. Dormir menos e comer correndo? Tá barato. Hoje é sexta e eu deveria estar bem cansada. Mas o que sinto não vai bem com a palavra cansaço. Claro que é bom saber que amanhã vamos todos ficar mais tempo na cama e vamos almoçar calmamente, tagarelando. Mas acho que o que sinto hoje vai melhor com satisfação.

Encerramos nossa semana com uma historinha contada pelo papai, enquanto eu escovava os cabelos da pequena. Ali, todo mundo acampado no quarto dela, imaginei como seria se pudesse nos ver lá de cima, do espaço: a enorme esfera girando, a luz que saía pela janela do quarto da Amanda brilhando como um minúsculo pontinho. Lá dentro, entre as estrelas e o bicama, quatro pessoas juntas. Só isso.  

O carteiro outra vez


O Rogério é um leitor assíduo desse bloguito, quando aparece por aqui acrescenta comentários ora divertidos, ora reflexivos, sempre muito bem vindos. Outro dia comentou que tinha cunhada escritora e que ela tinha lançado um novo livro recentemente e, gentil como ele só, ofereceu-me um exemplar de presente. Hoje recebi meu presente (autografado, ai que luxo) e que vontade de começar a leitura! O livro O Aprendiz de Tiradentes, de Simone Athayde, tenta-nos assim em sua contracapa: "Um rapaz humilde, Hélio, vai aprender o ofício de cirurgião com Tiradentes e acaba por se tornar testemunha do desenrolar trágico que teriam os grandes planos dos inconfidentes." Tenho minha listinha de livros recém-adquiridos me olhando da estante e agora estou apreciando a prosa forte de Ana Miranda em seu Boca do Inferno. Espero que a fila ande logo para que eu possa em breve degustar meu presente da forma devida.

Olho para a estante e vejo presente de um leitor. Ah, essa blogosfera... eu não sei como agradecer tanto carinho e gentileza. Na semana passada mesmo, o Arthur estava às voltas com livros que a Borboleta mandou. Mimada, para sempre estragada, eu.

Rogério, muito obrigada. Simone, obrigada, querida. Sucesso para você, voltarei a falar de seu livro aqui depois de lê-lo.

Afagos

Caso seu dia não tenha tido flores

É, a correria não está pequena, meu povo. Por outro, lado, fazia tempo que a rotina não tinha um sabor tão doce. É claro que vocês vão me ver reclamar várias vezes de não ter tempo para me coçar, faz parte da condição humana exercer o bom e velho mimimi. Se minha mãe estivesse na área, perguntaria todos os dias "mas pelo menos você está se alimentando direito?", ao que eu responderia "olha não sei, mas a Amanda tá comendo que é uma beleza". Na prática, troquei uma hora de sono por duas horas a mais com as crianças por dia, além de assumir várias outras pequenas atividades que acabava delegando. Houve também alterações no trabalho, mas tá tudo certo ou, como reza o mantra do Ulisses, zero stress. Tá corrido, mas tá gostoso.

Hoje foi um dia médio, nem louco, nem tranquilo. De manhã cedo, passei os olhos pelo Reader e vi que a Luci tinha escrito um post meio deprê. Mandei um e-mail pra ela, meio na base do "não dá pra conversar muito agora, mas eu queria que você soubesse que bla bla bla", algo assim. E segui tocando minha manhã offline. Após o almoço, naqueles minutinhos que antecedem a saída para levar as crianças à escola, dei uma espiada nos meus e-mails, enquanto o marido escovava os dentes ou botava as mochilas das crianças no carro, sei lá. E vi uma resposta da Luci, bem curtinha, que li e interpretei errado. Por alguma razão, pareceu-me que minha mensagem mais tinha incomodado que ajudado e aí fiquei doida. Porque eu gosto dela pra caramba e não queria, de jeito nenhum, fazer qualquer coisa que a deixasse ainda mais pra baixo do que ela parecia estar. E respondi um e-mail bem desesperado pra ela (enquanto o Ulisses berrava lá de baixo que a gente ia se atrasar) pedindo desculpas sei lá por quê, dizendo que minha intenção tinha sido levantar o astral dela e dizer o quanto a admiro e tal e coisa. Escrevi assim, em dois segundos. E antes de correr pro carro, dei uma espiada no twitter para ver se ela estava lá e dizer "ei, Luci, você me entendeu mal e tal". Mas não precisei dizer nada no twitter, porque assim que abri o tweetdeck vi que algumas lindas da minha timeline estavam comentando justamente como tinha sido legal o segundo post da Luci - em que, entre outras coisas, ela agradecia o e-mail e tal. Ou seja, pessoas, eu entendi tudo errado e aí, coitado do Ulisses me esperando, escrevi outro e-mail a jato, algo como "ah, entendi, vi o outro post". Daí corri pro carro e no caminho para a escola li o tal segundo post fofo e isso fez meu dia.

Fez meu dia porque é isso que a gente fala que precisa fazer: desacelerar e olhar para o outro. E foi tão bom trocar palavras de carinho com essa amiga que a blogosfera me deu, ainda que com esse oceanão entre nós duas. Foi muito bom. No carro, li o post dela em voz alta pro Ulisses e fiquei toda emocionada porque, nossa, Luci e eu falamos a mesma língua. E isso é muito, muito precioso. É bem verdade que às vezes a gente não entende o que a outra diz, mas isso é só um detalhe.

Beijos, sua linda.

Rascunhos



Fui uma menina de diários, daqueles com cadeadinhos prateados e capas plastificadas onde se lia em letras de fontes rebuscadas Meu Querido Diário. Tive grandes e pequenos, houve os tempos de notas rápidas e os de longas confissões secretíssimas. Gostava de registrar para lembrar um dia e nada nesse mundo me apavorava mais que a possibilidade de minha mãe ter acesso àquelas páginas tão preciosas sem qualquer importância. Não que eu tivesse algum segredo capaz de chocá-la em potencial, mas a vergonha que me tomava cada vez que cogitava minhas letras lidas por outros olhos que não os meus... horror. Durante muito tempo os guardei em caixas dentro de caixas dentro de caixas em fundos de gaveta, protegendo meus pequenos segredos pelo tempo que eles importassem para mim, unicamente para mim. Anos, décadas depois, meus confidentes de páginas borradas e caligrafia infantil foram esquecidos no escuro daquelas mesmas caixas. Minha mãe certamente os leu todos e quase posso ouvir suas risadas. Ela guardou alguns deles, que encontrei entre objetos e papéis antigos acondicionados em velhos armários da casa onde cresci, logo após sua morte, em dezembro passado. Não valiam mais que alguns risos tristes.

Não lamento por não tê-los mais hoje em dia, eles que eram tantos. Porque o principal guardei comigo e não há chave capaz de abrir caminho a qualquer bisbilhotice além daquela que eu mesma displicentemente permitir. Trago comigo o mesmo prazer quase escondido (deve ser ilegal) de quando, à luz débil do meu abajur laranja, manuseava a caneta colorida e marcava no papel os desgostos e as alegrias dos meus dias previsíveis: trago comigo o prazer de olhar nos olhos das palavras e tentar enxergá-las, trago comigo o mesmo gosto pelo jogo de gato e rato a que chamam escrita. Leio e meu mundo cresce, escrevo e minha alma se forma. Eu queria usar a palavra "clandestino", mas Clarice o fez de forma tão precisa que eu não ousaria tamanho pecado. Mas mora aí, no que é oculto, turvo e suspeito aquilo que me põe em contato com meus mundos possíveis. Rascunhos; sou feliz com rascunhos.

There is a light that never goes out

  

Então o príncipe vai casar and I couldn't care less. Todo mundo falando da realeza inglesa e por mim tudo bem porque vejo pouca TV, tudo certo. Ainda assim ontem vi um tiquinho e lá estava ela, linda, elegante, absoluta: Londres. Não sei como falar sobre Londres sem parecer piegas ou deslocada, algo com ares de deslumbre terceiromundista ou coisa que o valha. Nunca fiquei na cidade por tempo suficiente para sentir seus reveses e se precisei lidar com algum grau de arrogância, sinto que o fiz com aquele conforto que o olhar minimamente crítico nos traz e que nos permite sorrir com paciência.

Meus anos de cursinho de inglês tinham aquele tempero de "preparação", eu estudava para viajar. Também cultivava uma profissão e me alegrava com os novos horizontes, mas viajar era o bicho, era o que me excitava e me fazia olhar pra frente, era o que me dava coceira: outras culturas, outro jeito de ver o mundo, gente falando um idioma que ainda hoje me soa como música, como poesia. Atualmente percebo a força das relações culturais e de poder que me faziam parecer mais óbvio visitar a Inglaterra antes de revirar a minha América do Sul, mas gosto de pensar que a vida é longa e temos planos de, a partir de 2012, preencher certas lacunas, digamos, latinas. Também é verdade que a música me puxava para aquele país de Cure & cia. Seja como for, meu imaginário sempre namorou as ruas de Londres e a culpa pode ser tanto de Agatha Christie, da voz do Mark Knopfler ou do livro de inglês da quinta série, não importa muito, não mais. Porque depois de ter passado meio ano lá, de ter voltado depois e renovado a paixonite, tudo agora tem certo sabor de melancolia e memórias de uma cidade que funciona.

Eu moraria em Londres e lá seria feliz porque gosto da dinâmica da cidade ou do pouco que pude perceber dela. Tanto há treze anos, como no ano passado, senti-me confortável, ativa, grande e pequena. A sensação de que tudo cabe no mesmo lugar, que inúmeras culturas repartem cada metro quadrado, que cada um dos muitos idiomas possíveis será ouvido em algum momento do dia faziam com que me sentisse maior, mais aberta, mais pensante. Ao mesmo tempo, a grandiosidade de sua arquitetura e as dimensões deliciosamente espichadas de suas ruas e parques (adoráveis) me tornavam pequenina e constantemente encantada, no melhor dos sentidos. Eu gosto de estar lá. Mas o que mais gosto é que esse é plural. Então "minha" Londres, cof, cof, não é a do príncipe que vai casar num ritual que não me diz nada*, mas, e eis onde esse post quer chegar, está bem mais para a Londres cantada pelo deprimido mais delicinha ever, meu adorável Morrissey, com ou sem a banda mais indispensável de qualquer Londres, os meninos dos Smiths.

Esses devaneios me chegaram hoje no carro, enquanto Hang The DJ embalava minha tarde. Sempre que ouço Morrissey e suas incuráveis lamentações, vejo de novo alguma rua de Fulham ou alguma esquina meio feiosa em um subúrbio mais afastado, tipo um que precisei visitar certa vez para recuperar a bolsa esquecida no taxi. Smiths, para mim, cheiram mais a Londres que aos anos 80, então meu deslocamento com eles é no espaço-tempo de minha cabeça saudosa. Talvez se eu tivesse ficado lá mais tempo, talvez se estivesse torta de saudades do Brasil, estivesse aqui xingando o metrô lotado nos horários de pico ou já estivesse contaminada pela mania de falar mal do clima da cidade - que, para mim, sempre se mostrou verde e azul, não cinza. Mas essa não sou eu porque comigo nunca foi assim. Comigo foi só beleza e descoberta, com ou sem dinheiro, com ou sem tomate no café da manhã. Comigo é Morrissey e sua voz absoluta enchendo minha cabeça e meu coração com aquela coisa maluca que a música faz com a gente.


"Take me out tonightBecause I want to see people
And I want to see life
Driving in your car
Oh please don't drop me home
Because it's not my home, it's their home
And I'm welcome no more


 And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well the pleasure, the privilege is mine"


Costumo dizer pro Ulisses que morro de achar graça dos dramões do Morrissey - ninguém consegue ser mais convincente que ele falando exageros chiliquentos, ask me why and i'll die, hahahahahaha! Ninguém consegue, como ele, ser exagerado e performático, afetado e melodramático e, ao mesmo tempo, cantar com a voz mais doce aquela frase que se parece tanto com nossas dores mais comuns, I was looking for a job and then I found a job, and heaven knows I'm miserable now. Oh my dear sweet lord, how much I absolutely adore him. O que pode ser mais universal que o sentimento expresso em how I dearly wish I was not here? Quem nunca se sentiu assim, por um segundo que fosse?

Ontem li que ele escreveu, e está prestes a lançar, sua autobiografia, mas não sabe se alguém terá saco para ler cerca de seiscentas páginas, oh, como ele sofre. Eu leio, my dear, juro que leio. :-)
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*E aí ontem estava eu lá olhando com preguiça para a TV, pescando cenas da deslumbrante Westminster Abbey, enquanto eles falavam que noiva isso e aquilo, e eis que alguém diz, como quem fala a verdade mais óbvia, que muita coisa mudou nos últimos tempos, mas toda mulher continua sonhando em entrar na igreja com seu vestido branco. Hehehe. #not. Achei graça.

O mundo na ponta dos dedos



Eu ainda me lembro do dia em que minha mãe comprou nosso primeiro telefone. Era vermelho, com disco e um fio preto que insistia em se enroscar todo. Na parte da frente, havia um pequeno espaço destinado ao número que minha mãe prontamente escreveu com caneta bic e sua caligrafia inconfundível em um pequeno pedaço de papel cartonado e colocou ali. Foi um evento. O telefone ganhou uma mesinha própria, com cadeira de palhinha para que pudéssemos conversar confortavelmente - ainda que rapidamente - e fico pensando nos designers premiados que inventaram o troço.

Eu fiquei em êxtase. Um telefone. Receberíamos telefonemas, falaríamos com outras pessoas que não estavam ali e a minha casa seria como a casa das amigas que já tinham a coisa. Uma ascensão social, praticamente. Eu gostava de limpá-lo muito bem limpo para que brilhasse ainda mais e parecesse sempre novinho. E quando ele tocava, ah, quanta euforia. Foi por semanas o melhor brinquedo da casa. Certa manhã minha mãe me disse que ligaria dali a algumas horas para me dizer tal coisa e passei a manhã rondando a tal mesinha: estava "esperando um telefonema". A internet só revolucionaria nossas vidas muitos anos depois e o telefone fixo (bem fixo, um modelo sem fio custava mais caro) reinou durante muito tempo, ao lado do videocassete, como o bonzão do pedaço. Eu tinha um telefone fixo e isso bastava para que eu fosse considerada uma pessoa conectada.

***

Hoje meus filhos se divertiram um monte com o Google Earth. Arthur queria encontrar nossa casa e a Amanda ria horrores com a Terra que girava com um toque na tela. "Passeamos" por ruas de Paris e sei lá mais por onde e logo tirávamos o zoom para que a Amanda fizesse o que ela faz melhor desde que nasceu: girar o mundo. Depois fui para a cozinha arrumar a mesa e fiquei me lembrando de mim, magricela e descabelada esperando um telefonema, sentada na cadeirinha de palha da mesinha "moderna". Mais ou menos 3 décadas me separam daquela manhã e hoje vejo meus filhos girando o planeta com a ponta dos dedos.

Deve ser isso que chamam de vidão.

Tanto



Ela dança na frente da TV e o sorriso que vem junto enche a sala inteira. Ela se mexe nos passos que inventa e nenhuma bailarina faria igual. Ela balança os cachos que ainda douram a casa, mas que logo serão marrons, e aquela cabeleira disforme é o retrato da paz que eu queria no mundo: bonita. Ela corre quebradinho e é impossível interromper, porque é como um poema, precisa ir até o fim. Ela fala palavras insuspeitas e nosso espanto tem sabor de bala escorrendo no canto da boca, porque há pressa, veja lá, é preciso falar agora. Ela sabe dos encantos e seu sorriso malicioso é um carinho longo arrepiando o coração. Ela derrama sua presença em nosso espaço e fica tudo certo. Ela acorda e a casa sente, o dia nasce quando seus olhos de sol decidem começar. Ela fala sozinha porque é preciso inventar outros mundos que acolham tanta meninice. Ela sobra. Ela espalha. Ela enche.

Minha filha. Eu, na plateia, sorriso discreto, olhos fixos, coração com ela. Tanto.


Tudo ao mesmo tempo agora

 
Minha rotina passou por algumas alterações recentes que incluem mudança para um setor com carga maior de trabalho, chegar ao trabalho mais cedo para poder estar em casa no final da manhã e ficar com as crianças e, consequentemente, dormir mais cedo. "Mais cedo" significa meia-noite, horário em que normalmente desligo tudo e vou ler meu livrinho ou ver meu filminho ou comer meu sanduichinho ou ficar de papinho, mas agora é hora de começar o soninho. Isso significa uma hora a menos de lazer associada a vários níveis a mais de correria. Se eu reclamar, prendam-me, está bom assim. Mas preciso controlar a ansiedade, oooooooommmmmmmmmm. Porque eu continuo com vontade de ler tudo e escrever um tiquinho, acompanhar a lista de discussões alucinantes que sigo (gente, como o povo fala!), entre outras coisinhas. E não dá. Pelo menos não dá para fazer tudo todo dia. Pensei em fazer uma tabela com horários e dias definidos para as atividades, mas... mas isso é mentira, pensei nada disso não. Segue a correria. Mas aceitar que não vou dar conta de tudo todo dia é absolutamente libertador. Não vou mesmo, vou falhar aqui e ali, mas estou tão feliz com essa história de ficar um pouco mais de tempo com as crianças que não vou nem cogitar em lamentar nada de nada. Nadica. Deixa assim. Já faz tanto tempo que desistir de ser certinha, não vai ser agora que vou ter uma recaída. Tá bom desse jeito, bem maluco, bem vivo, bem legal. E se você notar que fiz isso ou aquilo mal feito, esquenta não. Tô feliz até.

A long, long Tuesday



***

A Helô fez primeiro; a Amanda copiou; esse foi meu dia. E o seu?

A história


Algazarra no quarto da pequena. Risadagem, vozinhas afoitas demais para a hora de dormir. A voz do papai lê uma historinha que não conheço. Vou lá ver qual é, quero saber desse babado. Que livro será esse? Livro nenhum. É o papai inventando uma história lida em livro invisível.

Um livro invisível.

Bonitinho demais. :-)

Seleção


Ontem arrumei o armário. Era plano antigo, hehe. Sério, eu não sabia mais onde estavam os chinelos. Nem aquele cinto preto. Mas o pior não era isso, era o excesso. Eu odeio roupa sobrando, roupa que não uso e que fica ali me olhando de lado, ocupando um espaço que ela não tem mais na minha vida, um monte de blusas dobradas que tentam me encarar todos os dias e nunca serão. Detesto roupa pouco usada, eu gosto de comprar e usar bastante, do contrário me sinto jogando dinheiro fora. Minha vaidade vai e vem e às vezes vai longe, então é normal usar roupa surrada, eu não me importo. Às vezes ela volta, curto uma produçãozinha a mais e tudo certo. Gosto muito de conforto, então todo início de verão é a mesma festa, corro para os vestidos soltinhos que me permitem dançar dentro deles. Não tenho muita paciência para comprar roupas, então normalmente compro várias de uma vez e passo muito tempo sem entrar nas lojas. Acho que isso otimiza meu tempo e evita o entulho de coisas inúteis ou de que já não gosto mais; a cada compra, saem peças indesejadas. E aí, de vez em quando, reservo algumas horas para a grande limpeza e mando embora aquelas que ganharam sua segunda chance, mas sucumbiram ao meu descaso. A melhor parte vem depois, quando volto ao armário pela primeira vez após a limpeza: espaços livres. Tão simples encontrar o que a gente precisa.

Seria bom se fosse fácil assim com a cabeça da gente. Porque nem tudo que a gente mantém lá dentro tem serventia e muita coisa só atrapalha.

Tchau, Tia Neia


Pé de tomate do Arthur, plantado pelas crianças e pela Tia Neia.

Tia Neia vai embora, vai morar em outra cidade. As crianças dizem que sentirão saudades, mas desconfio que elas ainda nem sabem o quanto.

Eu preferia escolinhas a babás. Quer dizer, preferia ser duas e fazer tudo sozinha, mas essa opção não estava disponível. Quando o pediatra me falou que a pneumonia exigiria da Amanda três meses de "reclusão" em casa, precisei rever algumas decisões. Ela tinha onze meses e uma lesão grande no pulmão que levaria tempo para cicatrizar; gripar antes disso era risco alto demais. Então era preciso diminuir as chances de isso acontecer e quando dei por mim estava ligando para uma agência. Tirei uma licença curta para os dias que se seguiram à internação da Amanda e comecei a entrevistar as babás. Neia foi a primeira: veio, chegou e ficou. E agora, mais de dois anos depois, vai dar outros passos bons por outras estradas. Nós ficaremos aqui, torcendo por ela. Assim, meio bicudos e chorosos, mas querendo muito que ela siga seu coração.

Os pequenos vão sentir uma falta danada que vai ser um pouquinho maior cada vez que se lembrarem das caminhadas pelo bairro para curtir o sol da manhã, das plantinhas cultivadas nos vasos do jardim, dos DVDs disputados aos berros, dos desenhos e cartinhas colocados na caixa de correio para mim e Ulisses, das mil brincadeiras compartilhadas no tapete da sala, dos incomparáveis bolinhos de chuva no café da tarde, né, Amanda? Mas a gente está bem feliz. A vida faz essas coisas, ensina a gente a se separar sem lamentar, agradecendo o que teve e vibrando com a caminhada do outro. A falta que ela fará não nos impede de torcer muito para que suas escolhas a levem sempre por um caminho bem floridão. A Neia será assunto por aqui durante muito tempo, será nossa amiga pelo tempo que ela quiser. E tenho uma leve desconfiança de que ela sempre se lembrará de nossa casa com carinho também.

Boa sorte, Neia. Muito, muito, muito obrigada. Pra você, toda a felicidade deste mundo.

***

Agora vou brincar de ser duas, o Ulisses vai brincar de ser dois; e a gente vai ver no que dá. o/

Febre

(Prometo que responderei, assim que der, aos comentários nos últimos posts. Tá corrido. Beijos!)

***

Tá lá o Bono ajoeilhado no chão.

Nos anos 80 e 90, sempre que alguma banda de que eu gostava muito se apresentava no Brasil, eu suspirava, via pela TV e "avisava" à minha mãe que se, um dia, o U2 aterrissasse por aqui, eu iria ao show "de qualquer jeito". Minha mãe devia achar graça daquilo porque, né, ia como, dear, com que dinheiro, senhorita, etc. Bom, não precisamos descobrir a solução para o impasse porque o U2 nunca veio.

Veio muito tempo depois, em 2006, na turnê Vertigo, quando eu já morava em Florianópolis e ela, então, ligou pra mim: "bem que você falou que um dia ia ver esse povo, hein?". Dessa vez o impasse foi outro. O Arthur era um bebezão de sete ou oito meses e não contávamos com nenhuma estrutura do tipo "com quem deixar". A solução foi o revezamento: fui ao primeiro show e Ulisses foi ao segundo. Claro que curtimos, ambos fomos com amigos bons de farra e matamos a vontade de ver a banda. Mas, ah, que coisa.

Agora fomos juntos e foi tudo muito bom também. Eu queria escrever que foi fantástico, usar palavras como irretocável e maravilhoso, mas no final do post vocês vão saber o motivo por me contentar com "muito bom" - não me refiro ao show em si, mas a certa circunstância que interferiu muito na maneira como vou me lembrar dele. Mas há outra palavra que posso usar: inesquecível.

Por partes, então, o show primeiro. Pra falar o mais óbvio, quem vai a um show do U2 não vai curtir a música somente. A música certamente é o principal e se ela fosse ruim tudo aquilo seria parafernália desperdiçada. Essa semana li o post do Medina em que ele diz que não gosta do tipo de show que o U2 produz porque toda aquela grandiosidade quebra um pouco a magia do improviso, o sublime da apresentação imperfeita, tira a beleza da simplicidade e por aí vai. Bom, essa foi minha leitura, pode ser que o Medina tenha tentado falar outra coisa. Não sofro desse mal. Ainda guardo com carinho a lembrança do show, ahn, sublime dos Los Hermanos em um teatro de Floripa, mas uma coisa não me impede de apreciar a outra. E se Bono e The Edge sentarem em banquinhos para cantarolar Beautiful Day, vou achar lindo também. Seja como for, o que vimos no Morumbi foi bem espetacular mesmo. Em alguns momentos, arrepiante; em outros, só beleza; em outros, explosão.


O palco do 360º é a materialização de um delírio: uma gigantesca aeronave com suas pernas de aranha encravadas no solo. No centro, uma estrutura redonda que dava a todos os lados do estádio a possibilidade de ver cada detalhe do que se passava no palco - inclusive os tropeços que também aconteceram. À minha mãe eu teria dito e não é que aterrissaram mesmo? Antes do U2 entrar em cena, a banda Muse, que eu nunca tinha visto mais gorda, vejam vocês, arrebentou. Com suas guitarras arrebatadoras (ai, não conheço outra palavra), esquentou o clima na medida. Ali ao ladinho do palco fiquei imaginando como ia ser legal ver os caras do U2 logo ali, tão pertinho como nunquinha tinha sonhado em 1989. Nem em tempo algum. Olhava ao redor e via o estádio absolutamente lotado; olhava pro alto e via a lua, que mora longe, mas não é boba nem nada e também espiava tudo.

Muse

Os acordes de Even Better Than The Real Thing deram início ao show. Não tem jeito, o tempo passa, o tempo voa, mas o amor verdadeiro permanece, hohoho. E se a música é boa no carro ou em casa, ao vivo ganha um poder tal que nem consigo descrever. E logo depois, milhares de pessoas disseram ao Bono o que ele já sabe, if you walk away,walk away, I Will Folloooooow!! Daí pra frente, música boa atrás de música boa, um Bono simpatia, um Edge na medida, um Adam Clayton toooodo performático, hihi, e aquela bateria bombando dentro da minha caixa torácica, afe, Larry.



Para "perfeito" o show não serve. Não entendi o que Seu Jorge foi fazer ali, por exemplo, e pelo jeito o Bono também não sabia, senti zero afinidade entre estrela e convidado; sinceramente, se a intenção era dar um tom cool ao show, para mim virou um momento desconforto. Tudo deslocado, nada a ver com nada e, olha só, Medina, teve até microfonia. Felizmente durou pouco e logo estávamos aos pulos, so high, e-le-va-tion!



As coisas espetaculares estavam lá, claro. O imenso centro da nave, que pairava sobre o palco durante a maior parte do show, movia-se, dilatando-se em pontos de luz que desciam até o nível do palco (veja o vídeo aí embaixo). Como de costume, Bono usou seu espaço em prol das campanhas em que se engaja mundo afora. Tivemos Desmond Tutu nos telões pós-modernos, Anistia Internacional (homenagem a uma líder asiática que ficou anos em prisão domiciliar após vencer eleições em seu país), minidiscurso pelo combate à fome - enfim, Bono. E também não seria Bono se não houvesse uma garota emocionada pescada da plateia - que leu parte da letra traduzida de Beautiful Day - e um garoto igualmente pinçado para os seus dez segundos de fama. Isso, aliás, pareceu-me demais da conta: todo show tem um guri, com, sei lá, dez anos, colado no palco, e o Bono encontra esse guri? Hum, tá. Well, whatever.

De certa maneira foi muito bom ver que o Bono está ficando velho, parece que fica tudo certo assim: foi ídolo antigo e parte da delícia está aí, suas canções entoaram anos que já vão longe e é bacana ver os sinais nele também. Mesmo assim, ainda se pendura no microfone-pêndulo, com barriguinha evidente e muitas rugas a mais.


The Edge, tocando pra mim.

Bono, declarando-se.

Agora, pótietar? Aiiiiii, foi tão bom, The Edge tocou praticamente só para a galera que estava do lado de cá do palco, hohoho, o Bono estava logo ali e eu vou ficar velhinha gostando de she moooooves in mysterious ways, aaahan.... It's all right, it's all right, all right... E eu acho que deveria ser proibido a pessoa morrer sem ouvir Where The Streets Have No Name ao vivo. Eu acho.

Palhinha:


***

Minutos antes de Muse entrar no palco, liguei para casa pela última vez para dar boa noite às crianças e ter certeza de que estava tudo bem com a Amanda, que estava resfriada. Tava tudo bem, legal. O que eu só fiquei sabendo na manhã seguinte, é que ela teve febre alta durante a noite e enquanto eu saracutiava no show, minha pequena dormia mal. Sem mim. Comigo longe, em outra cidade. Ah, viu. Aperto é pouco.

Vai ser assim, em 2031:

- Lembra do show da turnê 360º?
- Ah, nem me fale. Inesquecível: enquanto eu dançava, Amanda estava com febre em casa. :-/

Não gosto nem de pensar no tamanho da bronca que a minha mãe me daria. Se bem que seria bem desnecessária, já me penitenciei um tantão. Desculpa, filhota. Desculpa mesmo.



 

Gravidade zero e encontrei a Lygia


Há dias em que me assombro com o acúmulo. Penso no tanto de estrada percorrida, nas pessoas com quem já cruzei, no tanto que mudei, no muito que aprendi. Penso nos planos, nas mudanças de rota, nos desencontros, nas dores. Lembro de mim sentada no batente do portão, na calçada daquela rua fria, olhando a lua. O que eu queria, olhando a lua? Lembro-me exatamente de como me sentia, mas não sei o que esperava. Que a lua acenasse de volta? Que também me visse? Se via ou vê, bem que deve achar graça das idas e vindas, tão segura lá em cima. Ainda olho a lua, quase sempre no trânsito, e lhe pisco um olho para que ela saiba, just in case; ainda é muito bom, mesmo que o batente do portão pareça de outra vida. E aí olho para o que eu acho que seja a frente e tento imaginar só um pouquinho o tanto que ainda virá. Tenho planos, projetos e anseios tão gostosos que só de imaginar a delícia me vem água à boca, pareço uma menina deslumbrada olhando a lua.

Quero dançar pela vida, como quem patina no gelo. Quero ficar na ponta dos pés sobre as estradas. Quero ir, arriscar e saltar. Depois rodopiar e descer mais leve, como quem flutua sem gravidade. Porque nem todo acúmulo pesa e às vezes a vida canta lindamente.

***

Hoje concluí a leitura do meu primeiro livro da Lygia Fagundes Telles, As Horas Nuas. E isso é o bom dos livros: eles estão por aí, não importa o tamanho do nosso atraso, sempre há tempo e, mais dia, menos dia, a gente abre a capa certa e segue em frente. Custa-me crer que atravessei um curso de Letras inteirinho sem me apaixonar por ela. Agora quero tudo dela. Li uns contos na internet também, esses dias e a sede só aumentou. Li por aí que ela completará 88 anos dentro de poucos dias, aí fuço a rede e vejo que ela diz que só não morreu ainda por causa da literatura. Bom, penso toda animada, isso pode significar que ela ainda escreve loucamente, né? Tomara. Agora vou por aí procurar mais dela e torcer que a fonte demore muito para secar... opa! Não seca, né - artista não morre. Lygia não morre. Nunquinha.

As Horas Nuas fala de Rosa Ambrósio, atriz em crise, alcoólatra, e as personagens que rondam suas memórias e seu presente: o gato Raul (com suas lembranças de outras encarnações - impagável!), o marido, o amante, a filha, a analista... os amores do passado, o palco, a bebida. Os capítulos compõem uma costura colorida com pontos de vista diversos - a analista, o gato (a-do-ro), a própria Rosa. O tempo da história é o tempo dos dramas da protagonista: ainda que divague pelas impressões do gato ou da analista Ananta, tudo sempre retorna à órbita de Rosa Ambrósio com sua mente fervilhante de medos e fantasmas. A laje que sustenta Horas, no entanto, é, para mim, o jogo irresistível da linguagem: ironia, perspicácia, lirismo - são muitos os elementos que recheiam a narrativa, tornando-a riquíssima. A escrita de Lygia é uma cachoeira de construções de tirar o fôlego e é um pouco como ler Clarice, é preciso respirar fundo e meter a cara. Parece-me viciante. Quero mais.

Dois pesos


Alerta: nunca fui, quis ser ou tive qualquer interesse em saber o que é uma mãe "modelo".

***


Adiei ou cancelei metade dos compromissos do dia - o que não consegue um termômetro na axila da filha, hein? Em troca ganhei uma baleia laranja desenhada em papel rosa. E, depois, uma febre que foi embora, tchau.

***

Na reunião da escola, a professora me olha e diz que a Amanda é superobediente. Super. Juro que dei uma olhadinha discreta na ficha para ter certeza de que estávamos falando da mesma criança. Porque, né? Super. Não é possível.

Aqui em casa Amanda põe nossa paciência à prova constantemente*. Reluta, insiste, teima, empaca, protesta, discorda, contesta, questiona, rejeita - escolha o verbo. Adulta, seria uma líder oposicionista top de linha. Criança, já viu. Não contem a ela, mas admiro muito sua personalidade forte e não são poucas as vezes em que me pergunto qual a maneira mais eficiente de se lidar com crianças, ahn, determinadas. Meu questionamento vem só da curiosidade mesmo; claro que estou aberta a estratégias eficientes, mas não tenho nenhuma pretensão de tentar ser uma mãe modelo (modelo pra quem, cara pálida? sei lá). Na real, faço o que sei fazer, combato suas birras, lanço mão de papos-cabeça (eu tenho longas conversas com minha filha de três anos, deixa), ponho de castigo (meu escudo está a postos), confisco brinquedos, olho para ela e falo "vai sonhando", olho para o teto e falo "ai, ai...". E há os momentos em que a paciência manda lembranças e levanto a voz mais do que gostaria. A professora dela não faz nada disso porque lá na escola, segundo consta, ela é... superobediente. Quer dizer. Quer dizer o quê, mesmo, gente? Sacanagem, né (comigo, não com a professora sortuda). Que coisa.

Eu sei (acho que sei) que tudo deve ter a ver com o fato de que a relação dela com os pais tem outros níveis que não estão presentes nas relações sociais que ela tem na escola, mas isso explica tudo? Ai, protesto.

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*É bem verdade que ela melhorou consideravelmente desde que escrevi o post linkado aí em cima. E, para ser justa com ela, preciso dizer que seus momentos de doçura e meiguice são cada vez mais abundantes; sem falar que, à medida que ela amadurece, responde bem melhor às nossas conversas. Mas não seria eu se não ficasse aqui de mimimi.

Bagunça


Certa vez minha terapeuta me falou que é preciso trabalhar esse lance (ela não falou assim "trabalhar esse lance", exatamente, relevem) de "comprar" as dores alheias. Que é bom e normal ser solidário, mas devemos ser capazes de nos separar da dor do outro - algo que dever ser imprescindível na profissão dela, por exemplo, sob pena de ela não ser capaz de tocar o bonde. Eu tenho mesmo esse problema. Eu sofro muito mesmo pelos outros, eu sou de ficar dias e dias impressionada com a dor de alguém que nem conheço - algo que ganhou proporções bem maiores depois que virei mãe, mas que já existia antes da maternidade. Eu não sei o que isso faz de mim, provavelmente é imaturidade emocional. Ou  não, não faço ideia. Nem sei se tem jeito, não me imagino diferente. Até que me esforço e em tempos de minhas próprias dores bem que fico alheia ao resto do mundo. Mas eu queria tirar o nó da garganta. Porque eu já chorei muito por aquelas crianças, já tentei bancar a descolada e mudar de assunto, já cuidei de minhas coisas e fui ao cinema. E hoje faz quatro meses que minha mãe foi embora e ainda é  um dia em que revivo os acontecimentos de 09 de dezembro (por essa hora isso, essa hora aquilo, tal hora ela estava assim, tal hora isso, etc.), mas hoje meu peito se aperta por aquelas famílias cariocas. E aí vou ao cinema e dou boas risadas vendo Rio e cinco minutos depois penso, gente, essa cidade está de luto. E sei que amanhã vou a uma festa infantil, que segunda-feira terei coisas a resolver no trabalho e que a semana me trará bons momentos. Mas que de vez em quando vou parar e suspirar pelas famílias das crianças, pelo mundo que produz situações assim e pelo horror disso tudo. Eu não vi nenhum telejornal (não vejo há meses, acho), não li nada além de meia reportagem num portal da internet que abandonei depois de três frases, logo que fiquei sabendo do que tinha acontecido, pelo twitter. Gosto muito de minha timeline e foi lá que fiquei sabendo do tipo de cobertura que a imprensa deu ao caso nos últimos dias. E ainda que eu tivesse condições emocionais de assistir a tudo, ler tudo e não me desmontar, eu não o faria. Porque repudio o sensacionalismo, o pouco profissionalismo e a mania doentia de entrevistar quem está chorando a perda de um filho, a perda que acabou de acontecer. Mas é como se eu estivesse vendo tudo, meu coração segue encolhido.

Eu vou ler meu livrinho, o cinema foi bom, essa semana tem show e amanhã vou comer brigadeiro. Mas o mundo é um lugar estranho.

Esse post não tem muito nexo, minha tristeza é assim mesmo, espalhada e misturada com minha vidinha tola.

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Gostei muito desse post do Alex porque também torço muito para que muitos estejam por aí, rindo completamente, de corpo inteiro e alma leve.

120


Hoje de manhã bem cedo, como que para me lembrar da data, você esteve em meu sonho. Não foi, ainda, o momento com o qual sonho acordada, em que você virá para conversar e sorrir. Você estava como esteve em seus últimos dias, enferma, no hospital, reclamando dos remédios. Mas tinha sua voz tão nítida e clara que acordei com o tempo suspenso. Era você, sua voz era você.

Penso em você todos os dias e há já uma lista enorme de coisas por contar e sobre as quais trocar impressões, mas essa semana eu falei "ainda bem que ela não viu isso que a traria tanta tristeza". São coisas que a gente diz quando gostaria de ter o poder de selecionar o que as pessoas que amamos levariam do mundo. Só a bonança, queremos camuflar as tempestades. Houve uma tempestade horrorosa essa semana, mas hoje ouvi sua voz e foi bom. Há dores impensáveis espalhadas pelo mundo e é sempre um alento ouvir sua voz. Nem que seja em um tempo que não sabemos medir, no subconsciente, sem chance para respostas. Mesmo assim. Foi um alento.

Eu não ajudo o Bob Esponja


Hoje, enquanto esperava o elevador, vi uma colega de trabalho soltando uma sonora gargalhada. Ela vinha pelo corredor conversando toda animada com outra colega que aparentemente narrava o fato mais hilário da semana. Entrei no elevador - enquanto ele descia pude ouvir mais risadas das duas no hall - e me vi pensando que há dias não dou uma risada genuinamente gostosa como aquela. Fiquei me perguntando se ando tensa demais, ansiosa demais, cheia de "demais".

Horas mais tarde, enquanto entrava no supermercado, falei com Ulisses sobre as risadas e minhas cismas. E perguntei se ele achava que eu estava tensa demais, etc. Ele falou um "será" interrogativo que não sei o que significa e fez cara de quem pensava no assunto. Continuei dizendo que, putz, eu queria uma gargalhada daquela, viu, tava tão boa e tal, e tudo bem, nem precisava ser hoje porque de ontem pra cá tudo deu mesmo uma caída, mas, pô, quando foi que ri daquele jeito mesmo, mimimi? E aí ele falou:

- Pô, mas também não é pra tanto e, a essas alturas, a menina já parou de rir e já deve ter tido uns três aborrecimentos...

E eu achei graça daquilo - porque veio à minha cabeça a imagem improvável das meninas gargalhando por três horas - e ri. E aí percebi que uma pessoa que estava saindo do supermercado, descendo na outra esteira paralela à nossa, estava me observando. Talvez aquela pessoa tenha saído do mercado com a impressão de ter visto alguém rindo porque o dia estava bem divertido. O velho caso do vizinho com a grama mais verde.

Mas ainda quero a gargalhada.

***

O creme dental infantil do Bob Esponja é mais caro. Daí pensei que só levaria se tivesse mesmo um teor menor de flúor blá blá blá. Mas não achei a informação na embalagem e peguei outra marca. E comentei com o Ulisses que não ia pagar mais caro só pra ter a cara do Bob Esponja enfeitando o banheiro do Arthur. Ele:

- Ah, mas tadinho, o dinheiro vai pro Bob Esponja, tão necessitado. O Senhor Siriguejo explora pra caramba, o Bob ganha supermal e os preços na Fenda do Biquini estão pela hora da morte...

Meu marido.

Silêncio



Para tentar chegar mais perto dos corações dos pais e mães de Realengo.

Do que importa


Hoje você me deu um abraço tão, mas tão gostoso, que a pressão dele está comigo até agora. Eu estava sentada na sua cama, meio de lado, e você, já deitado, estendeu os braços me chamando. Segurei suas mãos e trouxe você pra mim; aí você se aninhou no meu ombro e me envolveu com seus bracinhos com pijama de futebol. Eu quis mais e aí apertei você todinho, porque você cabe todo no meu abraço e isso é tão bom. Aí me aproveitei porque me veio o pensamento de que não vai ser sempre assim, sabe, as coisas mudam e tal. E não é que você vai deixar de gostar de me abraçar, mas é que há tempos em que a vida dispersa a gente, é assim mesmo. Mas agora você me chama, então eu aperto mesmo e me acabo na gostosura de ter seu cabelinho roçando minha bochecha. E aí eu falo muito e fui logo esparramando um tantão de eu te amo no seu ouvido e você falou com um ajuste em seu abraço, eu senti aquilo, foi delicioso. O resto você sabe, perdi o controle, deitei você no meu colo, ainda dá, e contei da canção pra você dormir, era um tempo desses. Você sorriu e seu olhar estava tão apaixonado por mim. Ah, filhote, como você pode ser tão, tão, mas tão lindo? Menino, eu te amo demais. Boa noite, viu.

A prova de natação


Ontem nós tivemos um daqueles dias em que a primeira coisa que faríamos ao voltar para casa, no início da noite, seria ligar para você. Seria difícil conversar por causa do barulho, da gritaria que a gente faz quando chega assim, todo mundo agitado porque alguma coisa legal aconteceu. Mas eu pegaria o telefone e seguiria para um canto mais quieto da casa para conseguir contar, do meu jeito, as aventuras do dia e deixá-la por dentro das últimas grandes novidades. E provavelmente já contaria fazendo piada e dizendo algo como "lá vai assunto pra senhora espalhar por aí, no telejornal da Vovó Berna" e você já abriria aquele sorrisão, antecipando o prazer da falação. E eu então contaria que tivemos um dia especial na natação, que o Arthur mandou muito bem na avaliação e mudou de touca - agora é touca vermelha e vai aprender umas paradas mais difíceis. Que a Amanda também mandou bem, mas não mudou de nível porque precisa prestar mais atenção nos tios... eu, na verdade, acho que ela precisa prestar mais atenção num monte de outras coisas também, mas foi muito bom ver que também foi bem avaliada - apesar do nado pipoca que ela executa durante noventa por cento do tempo de aula. E foi aquela presepada de tudo que é pai e mãe fotografando as crianças dentro d'água com as toucas coloridas e uns saltos desengonçados, braçadas tortas, um monte de caretas com cílios molhados e todo mundo achando tudo lindo. E Vovó Tereza foi, mas você não foi. E eu sei que você teria gostado. Voltamos para casa ostentando dois boletins cheios de "excelentes", uma menina faladeira como nunca e um garoto exultante. Eu quis muito ligar para você quando chegamos, de verdade, eu quis muito. Sei também que há quem espere que eu ligue, com desejo sincero de repartir comigo essas "notícias", mas eu não conseguiria falar muito, então deixei pra lá e vim aqui escrever alguma coisa sobre uns chiliques meus. Mas fica aqui o registro de que ontem seus netos estavam uma alegria só, que eu observei aquilo tudo com um desejo sincero de que, de alguma maneira, doida, improvável ou surpreendente, você partilhasse um pouco daqueles tantos sorrisos. Porque eles são frutos seus, são frutos seus.

Manchas da melancolia


Cor da pele.

Em algum dia do ano de 2001, senti uma forte pontada no fundo do estômago que se repetiria nos dias seguintes, em crescente intensidade. As dores compunham o ponto alto de um quadro que também incluía apetite perto de zero e uma consequente magreza de gerar comentários preocupados e/ou maldosos, dependendo do grau de amizade. Cerca de quatro ou cinco dias depois do início das dores, eu já estava tomando um medicamento para manter minha suposta úlcera sob controle, até que o final de semana passasse e eu pudesse ser examinada por um bom gastroenterologista. Eu não tinha dúvidas sobre a presença da úlcera - o que mais causaria tamanhas dores estomacais? - e me esforçava muito para não pensar nela. Mas os sobressaltos no meio da noite, quando eu acordava me contorcendo de dor, garantiam que eu não me esquecesse.

Quando o final de semana passou, fui submetida a uma endoscopia. Na terça-feira, vi-me sentada no consultório do tal gastro que, com o resultado do exame em mãos, observava-me em silêncio, provavelmente, pensava eu, procurando as melhores palavras para me dar a notícia.

- Pode falar, doutor.

Ele então pediu que eu confirmasse nome, idade, estado civil e algum outro detalhe qualquer para adiar a hora fatídica. Então, sem dizer uma palavra sobre úlceras, ácidos ou dietas, perguntou como andava a minha vida, assim, como quem reencontra um antigo colega da escola. Respondi o que me veio à cabeça, sei lá, que estava tudo normal, não fosse essa dor insuportável que estava acabando com minhas noites e me deixando bem preocupada e tal. Ele, então, perguntou algo como "e o que mais?". E aí veio com perguntas sobre eventuais fatos que tivessem me causado alguma tristeza mais espinhosa, por exemplo. Respondi dizendo que a única coisa que poderia se encaixar ali era a morte de meu pai, mas isso tinha passado há mais de seis meses. E então ele me passou o exame, dizendo que meu estômago era tão cor-de-rosa quanto o de um bebê e que aquelas manchas roxas que via em meus braços eram conhecidas pelos franceses, com sua mania de poetizar tudo, como "manchas da melancolia". Que meu problema era de fundo emocional, que eu procurasse um bom profissional da terapia, encarasse minhas dores de frente, as verdadeiras, e deixasse de lado essa pseudoúlcera porque ela nunca existiu. Cancelou imediatamente qualquer medicação e sugeriu, também, que eu buscasse ajuda de um bom nutricionista para recuperar algum peso e a autoestima.

Como num passe de mágica, a dor deixou de existir no exato segundo em que acreditei no que saía da boca daquele médico, no exato momento em que o peso que eu carregava comigo em meu estômago dissolveu-se como algodão doce na boca. Saí de lá estupefata com o alívio físico, examinando com outros olhos as manchas de pancadas que vinham surgindo misteriosamente pelo meu corpo, sem que doessem ou sem que eu me lembrasse onde tinha me esbarrado, hematomas sem pistas de suas origens.

Segui os passos sugeridos pelo gastro, recuperei sete quilos e, algum tempo depois, embarquei na terapia. As manchas sumiram logo e aprendi na pele e no estômago o poder da somatização.

Na noite do último sábado, algumas manchas vermelhas surgiram em meus braços, próximo à região das axilas. Queimavam e coçavam e não eram assim a pintura mais linda do mundo. Horas depois, acordei no meio da noite com os braços em fogo e só voltei a dormir depois de uma dose de anti-histamínico e a certeza de que minha glote não fecharia. No dia seguinte as manchas praticamente sumiram, mas retornaram com força total horas depois, a despeito da nova dose de remédio, e tomaram conta de todo meu corpo, com exceção do rosto. Cheguei a me perguntar se eu estava dentro de um filme de ficção, sei lá, um Distrito 9 da vida, prestes a me transformar em um ser alienígena casca grossa. Hoje fui a um alergista que diagnosticou a boa e velha urticária, sem causa aparente, que pode ir embora logo, voltar hoje ou amanhã, durar uma semana, um mês ou um ano, acrescentando que conexões entre urticárias e problemas emocionais somente vêm à tona por falta de melhor diagnóstico. Hum.

Acho que fico com os franceses. E um antialérgico por garantia.

Um barco por um teixe



Então Odisseus fez jus ao nome e voltou ao mar.

Concordamos em muitas coisas, mas sempre tive medo dessa história de barco (não, ninguém aqui tem dinheiro pra comprar um barco, são aqueles planos de longuíssimo prazo, tipo ir à Lua, fazer um safári ou comprar um barco, sabe). E não sou de ter espírito de porco, mas fiquei um tanto aliviada de ouvir da boca dele que o passeio de hoje mudou seus planos. Porque a ida foi suave, mas o retorno foi balançado, friorento e os peixes receberam muito alimento - e sei que vocês me entendem. Já tínhamos concordado em não voltar ao assunto até que as crianças fossem exímias nadadoras (não que eu veja garantias, mas todos concordamos que ganhei tempo, certo?), mas hoje ele voltou pra casa anunciando que não quer mais saber de barcos. >>> Espero que ele não esteja olhando: \o/

No mais, fui ouvinte das impressões trazidas para casa:

- Marrom. Os corais do Nordeste são mais coloridos;
- A tartaruga é muito legal;
- Deve ser muito chato ser peixe.

E ele trouxe uma ideia bem linda para um texto. Quem sabe. Tem gente que vai pro mar e traz peixes. Meu marido vai e me traz um texto. Vai ser um teixe. Um texto-peixe.

***

Agora ouça bem: as coisas mais caras do mundo, no melhor dos sentidos, são nossos sonhos, porque querê-las é justamente o que lhes confere valor. Então só eu sei quão caro era ter você em minha vida, por exemplo. Era a coisa mais cara do mundo. E me lembro bem que naquele dia em que nossa reaproximação começou, havia sobre sua mesa revistas de náutica e brancos e azuis. Eu me lembro direitinho da sua empolgação. Eu sei do seu lado Klink e sei que velejar é algo que lhe é muito caro, especial, desafiador. Você é Odisseus. Eu sei. Então eu encararia o medo e as ondas, a bússola seria minha pastora. Saiba disso. Daí que meu alívio tem um gostinho amargo de sonho naufragado. A Cecília fez assim:

"Chorarei quanto for preciso
Para fazer com que o mar cresça
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho desapareça"

Mas eu, amor, digo assim: deixe ir. Quem sabe volta. Se voltar, você saberá. Em qualquer circunstância, estarei aqui (pronta, ou, pelo menos, esperando que as crianças nadem).

Grande


Você se afasta e mergulha porque é preciso olhar nos olhos do mar. E os olhos do mar ficam lá no fundo, onde o mundo é longe e o som é outro. Você mergulha para ver outras coisas que a superfície não tem. E quando você desce minha superfície fica em suspenso. Olho e procuro pelo momento em que a água vai se mexer e me trazer sua cabeça molhada de volta. Enquanto isso, o mundo aqui em cima tem ventos que mudam e me fazem perceber mais uma vez as imensidões, as miudezas e minha própria capacidade de esperar. Porque eu sei que te esperaria a vida inteira.

***

Mas não gosto de saber que o barco só vai voltar à noite.

Pequenos Pinóquios


Meu filho de cinco-quase-seis anos passou o dia contando pequenas mentiras e encerrando as falsas anedotas com a célebre e imortalizada frase "primeiro de abri-il!". Tentei dar uns toques, explicando que se ele contasse quinze mentiras, uma atrás da outra, no mesmo intervalo de cinco minutos, ninguém mais cairia nelas. Não adiantou muita coisa e segui fingindo surpresa atrás de surpresa até o ponto em que só me restou dizer "ah, não, filhote, dá um tempo e depois você me engana de novo". Mas antes desse momento balde de água fria, curti a tentativa da Amanda, a pequena de três anos. Para imitá-lo, ela também tentou me surpreender (e foi logo depois de o Arthur me pegar de verdade), mas errou na dose. Ele conseguiu assim:

Arthur: - Mãe, seu colar tá tooodo enrolado.

(Levo a mão ao pescoço)

Arthur: - Primeiro de abrIL!

Fiz cara de pata, porque acreditei mesmo. Então ela:

Amanda: - Mãe, sua cabeça caiu!

 
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