Triz


A chuva nem estava assim tão forte, sabe. Mas já era noite, então a visibilidade estava péssima e era preciso atenção redobrada porque havia veículos e pedestres circulando bem perto. E os pedestres, vamos combinar, têm preferência absoluta, mas a água que caía nas cabeças parecia comprometer a orientação: ao invés de caminhar para longe dos veículos, alguns davam passos imprevisíveis, quase sempre rumo a um atropelamento ao contrário. Era preciso, na verdade, atenção triplicada: veículos, pedestres e uns poucos pedestres momentaneamente suicidas.

A manobra era arriscadíssima, qualquer deslize e a roda traseira do carro poderia a) ficar suspensa no ar, comprometendo a estabilidade física do veículo e emocional do motorista, b) colidir com outro veículo, c) atropelar alguém, d) subir o canteiro ou e) despencar de vez ladeira abaixo. Para onde se olhasse, vislumbrava-se uma opção côncava ou convexa demais, todas invariavelmente molhadas. Os ângulos disponíveis para circulação eram mínimos e o barulho ininterrupto que vinha do banco de trás funcionava como um perigoso elemento de distração em um momento onde atenção era tudo.

De repente, vários veículos começaram manobras semelhantes, disputando entre si o exíguo espaço disponível e elevando a níveis estratosféricos as chances reais de colisão. Parecia um balé molhado rumo à confusão. Era como se todo mundo tivesse decidido se mexer quando o mais recomendável seria ficar imóvel ou, no máximo, sinalizar para ajudar os que realmente precisavam se movimentar. O solo escorregadio parecia encomendado sob medida para avacalhar tudo de vez e o carro sempre se projetava um pouco além do pretendido, aproximando-se perigosamente das várias superfícies localizadas no nosso raio de ação. Vários “vai bateeer” foram vociferados ou engolidos entre dentes trincados, em meio à crescente tensão.

O estacionamento da academia onde as crianças fazem natação não é para os fracos. Mas o Ulisses conseguiu tirar o carro. E voltamos para casa ouvindo Zeca Baleiro.

***

"Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro, se bem me lembro
O melhor futuro: este hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o Tejo escorrendo das mãos"
Bandeira, Zeca Baleiro

(Nunca mais vou tirar do carro, assim, nunca mais.)

Meme da Tina - currículo sincero


A Tina Lopes, jornalista, blogueira, tuiteira e mãe da Nina, publicou em seu blog o Currículo Sincero, pensando no quanto seria interessante um currículo "sem disfarces, lacunas, clichês administrativos, mas com as verdadeiras informações sobre cada item". Achei a ideia ótima e me lembrei de quando, durante a preparação de um seminário na faculdade, eu e minha colega demos muitas risadas redigindo um texto honesto e completamente fora dos padrões acadêmicos, registrando o que realmente pensávamos sobre determinado disciplina absolutamente supérflua e desinteressante. Enfim, com a autorização da Tina, transformei o currículo sincero em meme e convido quem quiser a entrar na brincadeira. Segue o meu, imaginando que amanhã ou depois eu fique desempregada (toc toc) e saia batendo de porta em porta. Que chances eu teria?

***

Meu currículo sincero

Idade: boa, cheia de independência e tal, tô curtindo.

Objetivos: convencer você de que essa história de pontualidade está completamente fora de moda.

Disponibilidade para o trabalho: todas as quintas, das 14:30h às 15:30h.

Atuação: professora de inglês, tradutora, blogueira, tuiteira, comentarista de blogs alheios, leitora do GReader, mãe, namorada do marido, dona de casa meia boca e usuária do skype.

Diferenciais: persistência (veja próximo tópico)

Experiências anteriores: estudante de Agronomia, mas desisti; estudante de Jornalismo, mas desisti; professora de inglês, mas desisti; estudante de francês, espanhol, italiano e árabe, mas desisti; tradutora, mas desisti. Mas o blog continua.

Períodos - putz, é só dividir a idade boa pelo número de experiências anteriores e fazer a média. Dá um tanto estudando, um tanto trabalhando e um tantão blogando.

Línguas estrangeiras: inglês - pelo menos; francês - pas bon; italiano - no capisco; espanhol - solamiente um poquito; árabe -salamaleicon.

Conhecimentos: ponho minha filha de três anos para dormir em menos de meia hora. o/

Capacidade de liderança: ponho minha filha de três anos para dormir em menos de meia hora. o/

Pós-graduação ou cursos complementares: mestrado e doutorado em Estudos da Tradução, uma montueira de curso de línguas, mas o que conta mesmo é que eu ponho minha filha de três anos para dormir em menos de meia hora. o/

***

:-)

Miniconto displicente


Os links

Porque era final de tarde, naquela hora em que o sol se abaixa e fere os olhos, foi difícil ter certeza no primeiro momento. Mas depois de alguns passos, abrigando-se sob o toldo da loja de tintas, pôde ver que o moço comprido do outro lado da rua era mesmo ele. Reconheceu-o, apesar dos cabelos mais curtos e da distância da rua larga, porque as costas tinham mantido a mesma curvatura adolescente - e o andar deselegante era inconfundível. Respirou fundo, diminuiu o passo, aproximou-se do meio-fio desbotado. Decidida, contornou um carro velho estacionado e olhou para os lados, balançando os cabelos um pouco mais que o necessário. Então ergueu o queixo, suspirou e seguiu. Enquanto atravessava a rua, engoliu a saliva para acalmar as batidas do coração que relembrava os meses de choro sobre o travesseiro de fronha bege, anos antes, enquanto ele circulava inatingível para ela, menina esquálida e "nova demais".

Cruzou a rua e, a meia distância, percebeu que precisava apressar o passo ou botaria a perder o encontro casual. Mas nem precisou levar o segundo pé à outra calçada, ele já tinha visto. Viu e fez uma cara de adulto bobo quando se surpreende com a sabedoria dos mais jovens - e a perspicácia dela jamais perderia esse instante de vitória. Foi o que bastou para que ela armasse seu melhor sorriso:

- Oi, tudo bom? - Sua própria voz a surpreendeu, firme, uniforme, clara.

A resposta demorou um segundo a mais que o normal e ela, que já festejava a revanche, quase quatro anos depois, quem diria, uniu os lábios num sorriso provocante ao mesmo tempo em que já voltava o corpo para o outro lado da calçada, fingindo pressa.

- Oi, respondeu ele, completamente perplexo. - Tempo que não te via...

- É, né? Pois é. - E seguiu, deixando para ele a visão das costas elegantes semicobertas pela cabeleira negra e cacheada.

- Tchau - balbuciou, ligeiramente mais curvado, acenando um tchauzinho que ela nem viu.

Não viu porque precisava logo seguir na direção contrária, escondendo o rosto que já se abria num sorriso vitorioso, exultante. E assim experimentou pela primeira vez a insubstituível sensação de virada de jogo. Entendeu, levando a mão à boca para se conter e controlando-se para não saltitar de alegria na calçada de sua pequena cidade, que tinha o mundo inteiro à sua frente. O mundo inteiro. Aprendeu ali, enquanto o sol descia mais e dourava a rua, que paciência joga a seu favor, uma lição que ela usaria com maestria em várias áreas de sua vida. Porque ela pensava amplo, com links.

Já ele ficou parado por alguns segundos tentando entender por onde andara nos últimos quatro anos e de quem tinha sido a ideia de ir buscar fora dali o rumo de sua vida. E seguiu, pensativo. Sequer lembrava para onde estava indo.

De segunda a sexta



O dia parece feito em blocos: três pedaços distintos de tempo, separados por rápidos interlúdios de preparativos e deslocamentos. Manhã, tarde e noite, intercalados por cumprimentos apressados, avenidas rápidas ou estacionamentos complicados. Os blocos podem ser melhores ou piores, tudo depende mesmo da Lua, essa indecisa. Ou não, pode depender de mim, não decidi ainda. Mas hoje pensei que gosto mesmo é dos interlúdios, apesar de ter uma quedinha descarada pelo terceiro bloco, também.

Hoje, sob um céu nubladíssimo e preguiçoso, sobre um asfalto consequentemente ainda mais cinza, observei quase sem querer aquelas palmeiras do caminho, aquelas que parecem grades margeando a água da baía que dormia sem pressa, no nosso caminho para o segundo bloco. E vi que nosso caminho, olha só, é mais bonito que o bloco em si. Já sabíamos, tudo bem, mas hoje decidi subverter a minha relação com essas divisões de tempo, que às vezes saber não basta. De hoje em diante, o bloco vai ser tratado como aquilo que é: o pedaço de dia que me separa de nossos deliciosos interlúdios, que, por sua vez, a partir de hoje serão alçados à condição de chegada, não apenas de por enquanto. Porque, afinal, é no deslocamento que a música invade nosso carro e posso sentir sua mão e quase perco a hora de dizer “saúde”, porque você espirra no meio da música e eu preciso entender a letra. E também porque é no deslocamento que posso ver nosso filho correr no pátio antes da aula e ver que ele é o que as crianças são, descomprometido, leve e entregue. Nada disso há nos blocos. Pelo menos não nos dois primeiros, porque, como disse, o terceiro é mesmo aquela delícia toda.

Então tenho dito, a partir de hoje meus dias serão teoremas compostos de momentos ótimos, separados por dois blocos intrusos, porém necessários, onde o termo “necessários” não lhes confere nenhuma primazia. De agora em diante, será assim:

- Rita, o que você faz?
- Passeio pela cidade, todos os dias, feliz da vida, pra lá e pra cá.

***

E não por acaso, agorinha mesmo, enquanto escrevo, é sua voz que chega lá do quarto, são seus dedos que dançam as cordas e é sua presença que faz essa canção tão bonita.

Feira


No final da tarde de ontem fomos à livraria comprar livros para as crianças de todas as idades daqui de casa. Infelizmente só quando estava lá me lembrei do post cheio de sugestões deixadas pelos caminhantes deste blog e ainda não foi dessa vez que me aproveitei das dicas de vocês. Mas compramos um ótimo livro que rendeu muita risada na volta pra casa - a versão contada pelo Braguinha do clássico Festa no Céu, recomendo muito:

"'Eu nunca toquei tão mal
Em dias de minha vida.
Eu acho que o meu trombone
Está com a vara entupida.'

E soprou com tanta força
Da bochecha e do pulmão,
Que o Sapo saiu de dentro
Como um tiro de canhão.

Saiu e se desesperou
De lá de cima, o coitado!...
Vendo uma pedra cá embaixo,
Gritando desesperado:

'Afasta, pedra, senão te esborracho!"



Também rimos muito com o Arthur narrando piadas do Proibido para Maiores - As Melhores Piadas para Crianças, de Paulo Tadeu, Ed. Matrix. E pela primeira vez encontrei O Mistério do Coelho Pensante, livro infantil escrito pela Clarice Lispector. Comprei para começar a doutrinação, sabe como é que é. ;-)

Comprei alguns livros com os quais eu andava paquerando há um tempinho, um Agatha Christie para matar saudades (deixa) e encontrei clássicos ingleses editados pela Penguin a CINCO reais! Gente, cinco pila. Woolf, Austen, tudo cinco pila. \O/ Eu vivia reclamando que era um absurdo esses livros custarem caro aqui, porque lá fora eles custam muito baratinho mesmo, algo como três dólares ou duas libras. Agora parece que tá tudo certo.  (Aliás, quase sempre optamos por comprar livros mais caros pela internet, já que a diferença de preço pode ser gritante.)

Então, gente, bom domingo pra vocês, vou ali pro sofá. ;-)

Pequena Abelha


Não dever ser fácil (exceto para os gênios da literatura) criar bons personagens e, à medida que uma trama se desenvolve, mantê-los capazes de convencer os leitores de que são personagens, digamos, viáveis. Quem nunca leu um ou outro diálogo em um livro e pensou “hummm... é ruim, hein, que esse cara diria isso nessa situação”. Esse é um dos problemas do bom livro que acabei de ler.

Ao longo dos primeiros capítulos de Pequena Abelha, pensei ter comigo um livro daqueles, mas agora, finda a conversa, olho e vejo um bom livro apenas. O interesse permaneceu durante os onze capítulos, mas o arrebatamento das imagens que recheiam a primeira parte do livro diluiu-se consideravelmente à medida que cenários foram surgindo e o autor, aparentemente, foi perdendo o fôlego para as belas imagens e reflexões que deram o tom em boa parte da história. É fácil perceber que o forte de Chris Cleave não são os diálogos, mas as descrições e divagações metafóricas que usa para descrever a angústia de sua protagonista:

“Em seu país, quando vocês não são muito medrosos, podem ir assistir a um filme de terror. (...) O terror, o medo, em seu país é algo do qual você toma uma dose de vez em quando para se lembrar de que não sofre daquilo. Para mim e para as meninas de minha aldeia, o terror é uma doença e passamos mal com ele. (...) ... o filme na sua memória, desse não se pode livrar assim com tanta facilidade. Onde quer que você vá, ele está sempre passando dentro da sua cabeça. Portanto, quando digo que sou uma refugiada, você deve compreender que não existe refúgio.”

Em contrapartida, algumas cenas urbanas pautadas em diálogos supostamente dinâmicos e, hum, leves, soam Mariah Keyes demais pro meu gosto. Ou seja, são bem brochantes. E são em diálogos assim que um dos personagens absolutamente não funciona, pelo menos para mim. Ao final da história, fiquei com vontade de pedir “dá para explicar de novo qual era a desse cara?”.

Pequena Abelha me conquistou por causa da voz da protagonista. O livro é narrado em primeira pessoa, por duas personagens distintas. A primeira delas é Abelhinha, uma adolescente nigeriana que foge do horror quando seu país vira alvo do interesse de companhias petrolíferas e sua aldeia é destruída. Testemunha de atrocidades e atordoada por perdas pessoais, Abelhinha foge para o Reino Unido escondida em um navio de carga. Ela é o ponto forte do livro, sua voz é o que nos encanta e nos sustenta até o final da história. Temos vontade de conhecê-la, conversar com ela, abraçá-la, dizer que entendemos sua dor ou que pelo menos gostaríamos de ser capazes de entendê-la.

A outra narradora é Sarah, uma jornalista britânica, editora de uma revista londrina. Sua história se cruza com a de Abelhinha quando ela viaja com o marido para um curto período de férias em uma praia nigeriana. Sua voz é menos intensa que a de Abelhinha, mas ainda assim capaz de manter nossa empatia. No entanto, alguns diálogos entre Sarah e outros personagens urbanos são, para mim, o ponto mais fraco do livro, algo que li quase com pena de vê-los ali no meio daquela história interessante.

Acredito que o tema central do livro, a situação dos imigrantes ilegais no Reino Unido, seja muito caro aos britânicos que vivem às voltas com questões relacionadas às políticas de imigração. Gosto da maneira como a língua é apontada como um passaporte em potencial para a aceitação na cultura britânica; gosto da visão de mundo de Abelhinha, enriquecida por sua trajetória de menina estrangeira, ao mesmo tempo saudosa e fugitiva; gosto muito da forma como a dor a humaniza e aprimora sua capacidade de enxergar a beleza; adoro sua relação com a língua, sua consciência do poder que tem a linguagem. Gosto muito de várias imagens construídas ao longo da história, de novo, seu ponto forte.

Vale a pena conhecer Abelhinha, ainda que alguns diálogos sejam péssimos, ainda que nem todas as vozes sejam arrebatadoras. Vale a pena uma ou outra torcida de nariz, porque ao virar a página podemos ter o prazer de toparmos com coisas assim:

"Achei que isso também seria bonito, e peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas você e eu temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: 'Eu sobrevivi'."

É ou não é?

***

Pequena Abelha foi publicado no Brasil pela Intrínseca, com tradução de Maria Luiza Newlands.

A coruja

*O titulo deste post fala da canção infantil e da mãe de quem a canta.

***

Hoje é feriado, dia do aniversário da cidade para onde me mudei há doze anos. E aí fico por aqui, com eles, inventando coisas para passar o tempo e curtir a saudade do papai que foi ali, mas já volta.

Cantar é uma delas. Outra é dividir a coreografia com vocês.


Wonderfully pretty


Hoje me lembrei de Puppy, meu gato com nome de cachorro que tive na infância. Puppy veio pelo telhado e ficou, vindo provavelmente em um sábado atraído pelo cheiro da carne que meu pai trazia do mercado dentro do balde vermelho. Sua relação com o balde vermelho, aliás, foi uma das mais sólidas que já tive a honra de acompanhar de perto. Ele nunca deixou de se assanhar cada vez que meu pai pegava o balde para sair para o mercado, por volta das quatro e meia da manhã, todos os sábados. Esperava agitado, rebolando impaciente, com aquela certeza que os gatos têm porque sabia que se esbaldaria com restos engordurados horas mais tarde. Comia como se não houvesse outras seis vidas e passava o resto do dia espichado em alguma sombra do quintal, engordando. Dava gosto ver.

Puppy foi minha paixão de infância, eu era absolutamente deslumbrada por sua beleza. Adorava ficar espiando as carinhas fofas que ele fazia enquanto cochilava, nos noventa por cento do tempo de sua vida. Os outros dez por cento eram dedicados a me dar sustos, com pulos esquisitos e arranhões ardidos, e a se esconder dentro do guarda-roupa, o que lhe rendeu muitos xingamentos.

Puppy era guloso, teimoso, briguento e preguiçoso. Ou seja, era um gato. Mas era irresistivelmente charmoso. Parte de seu poder de sedução se devia à sua indestrutível autoconfiança. Puppy se bastava e os carinhos que lhe fazíamos nada mais eram do que doses de generosidade por parte dele, quando ele se prontificava a nos conceder a honra de alisar seu pelo lustroso e bem lambido. Com ele não existia isso de vem cá, pra eu te fazer um carinho, vem. Não, ele me tinha. Então ele mandava. E quando ele dizia aproveita e alisa agora, eu obedecia, feliz como quem ganha um pote de whiskas.

Puppy quebrou o tabu de uma casa onde animais de estimação não eram bem vindos porque minha mãe não gostava. E quebrou com estilo, gato em casa de asmáticos. Destruiu muitas cadeiras, desfiou várias cortinas, mas ficou. Era irresistível. No dia em que caiu doente, porque alguém que não gostava dele o iludiu com um alimento envenenado, precisei cobrir os ouvidos com almofadas para não sentir a dor que seu choro me causava. O veterinário não conseguiu fazer muita coisa. Minha mãe foi docinha, perguntou o que eu queria que fizesse com o corpo, mas eu não fazia a menor ideia e nem me lembro do que foi feito dele. Lembro que tive a certeza de que o pulo em meu pescoço no dia anterior não foi um susto dos que ele gostava de pregar, mas um abraço de despedida. Mas arranhou mesmo assim, o danado.

Sorvendo


Estou sorvendo um livro. Tem coisas assim:

"As cordas do balanço eram muito compridas, de modo que levava um tempo enorme para ela viajar de um extremo ao outro. Aquele balanço nunca parecia estar com pressa. Eu costumava olhá-lo o dia inteiro e nunca me dei conta de que estava vendo um pêndulo que contava as últimas temporadas de paz de minha aldeia."

Começa com um soco:

"Às vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana. Todo mundo ficaria satisfeito ao me ver."

Imigrantes, refugiados: "pessoas flutuantes", que vivem no cinza.

Quem sabe depois eu escrevo alguma coisa fora das aspas. Agora não dá.

Uma noiva animada, um livro bom e um tiquinho de Sampa


A primeira decisão que tomei foi não levar o livro que estava lendo comigo, porque não consigo gostar dele (perdão aos amigos queridíssimos que o deram de presente ao Ulisses - a amizade é a mesma e o Ulisses ainda não leu, então desconsiderem minha opinião, sou só uma intrometida que abriu o presente antes do dono). Então minha missão número um era comprar um livro no aeroporto. E aí comprei. E prometo um post sobre ele em breve.

Viajar com Ulisses tem sempre uma pitadinha de emoção. Dessa vez foi assim:

- Não vamos de taxi, vamos deixar o carro no estacionamento do aeroporto; é só um dia, fica baratinho.
- E se o estacionamento estiver lotado quando a gente chegar lá?
- Não vai estar lotado de jeito nenhum.
- E se estiver?
- Não vai estar lotado de jeito nenhum.

Estavam lotados o do aeroporto e todos os outros das proximidades. Aí deixamos na única vaga do estacionamento rotativo e não ficou tão baratinho. 

Seguimos para São Paulo, só nós dois, meio leves demais sem nossas crianças, cada um com a cara enfiada em seu livro. Chegamos a uma Sampa friorentinha, nubladona. Após o check-in a jato no hotel, almoçamos com alguns amigos e aquecemos a voz para as conversas que viriam. Algumas poucas horas depois fui direto para a câmara de tortura, digo, para o salão de beleza. Lá encontrei uma noiva tão tranquila quanto eu e uma mãe da noiva tão nervosa quanto uma noiva. Também havia irmã de noiva, cunhadas, sogra, primas, tias, cada uma empenhada em suportar, digo, curtir todos os passos que compõem o ritual de preparação para o que a noite traria, enquanto os homens da família curtiam com os amigos uma tarde de papos e cerveja. Quer dizer. Né? Enfim. 

Pausa: por que eu não estava com eles no bar, ao invés de estar no salão? Olha, na boa, não sei. Boa pergunta. Mas vamos à tortura, digo, ao penteado.

Eu queria um coque, sabe. Por nada, só para experimentar. Eu disse lá que era para realçar não sei o quê do vestido, mas era mentira, era só por curiosidade mesmo. Mas meus cabelos são longos e eu vou dizer a vocês quantos grampos o moço simpático colocou na minha cabeça para segurar a escultura que ele montou com minhas madeixas: trinta e cinco. Até aí, tudo bem, quem se submete aos 500 graus do instrumento de tortura que ele usou antes de me espetar não reclama de ir dançar com uma cabeça que jamais passaria pelo detector de metais. Mas eu não esperava que alguns desses grampos fossem intracranianos, sabe. Na boa, seria mais difícil me escalpelar ontem à noite. Mas matei minha curiosidade. E foi interessante observar toda a técnica de manuseio de cabelo que ele empregou enquanto esculpia minha cabeleira; quanto mais ele torcia as mãos e arranhava minha cabeça com as pontas dos grampos, mais eu imaginava "gente, imagina o trabalho do Michelangelo para fazer o Moisés..." 

Saí do salão com cabelo de oscar e olhos com todos os tons de azul, voltei ao hotel para me fantasiar, digo, me arrumar e encontrar um marido absolutamente relaxado, sem metais na cabeça nem tinta nos olhos, que se aprontou em dois minutos. Quer dizer. Né? Enfim.

Como foi a festa? Normalmente, não aprecio cerimônias de casamento. Todo o simbolismo religioso que não me diz muita coisa, toda a história da noiva de branco sendo entregue pelo pai ao marido é demais para minha cabeça de aspirante a feminista, etc. Mas não era meu casamento e tudo que estava ali faz parte, de alguma maneira, da vida de pessoas de quem gostamos muito, então me senti muito feliz por poder ver de perto uma festa que teve momentos muito emocionantes. Vi amigos queridos muito felizes e isso sempre faz bem. E se um dia eu deixar de apreciar a Ave Maria de Gounod por estar em uma cerimônia religiosa não haverá mais salvação para mim. Que. Coisa. Linda. Sempre me emociono, sempre, toda vez, toda vez, toda vez.

Depois a cerimônia acabou e fomos juntos festejar o casamento da noiva mais animada da história desse país, comer a comida mais saborosa do mundo inteirinho e desmanchar todos os penteados (não há grampo intracraniano que resista a um bom DJ), amarrar as barras dos vestidos e tomar outras decisões elegantes, vocês nem imaginam. Resumidamente, a festa foi fantástica, animadíssima, linda, tudo de bom. Adorei ter ido, fez um bem enorme para minha cabeça pesada e meu coração saudoso. Foi bom, muito bom. 

Hoje voltamos para nossos filhotes fofos de quem estávamos com uma saudade insuspeita para quem só tinha viajado ontem. Trocamos abraços barulhentos e curti o resto de meu fim de semana esparramada no sofá revezando colo e cafunés.

Não deu para ver a lua, mas não deixei de dizer aos noivos que eles escolheram a noite da lua enorme para se casarem. E lá no meio da muvuca, enquanto a noiva se esbaldava ao som de um sucesso que eu nunca tinha ouvido na vida, disse a ela que desejo para eles a felicidade que tenho com Ulisses. Eu tinha comentado isso com ele durante a festa, do luxo que é poder desejar isso para alguém. Hoje no ônibus que nos levou ao aeroporto, fiquei sem saber direito como dizer a ele do prazer que é olhar a cidade cinza e bege com ele ao lado, meu braço no dele, o mundo passando pela janela e eu me sentindo do jeito que me sinto quando estou com ele. E ele então comentou sobre a dor de morar na rua e eu, que já estava sem entender por que cargas d'água sigo pelo caminho que sigo em um mundo tão confuso, nem soube o que dizer. Pessoas moram na rua enquanto eu sigo para pegar o avião que me trouxe de volta para minha sala quentinha. E fico me perguntando sobre a parte que me cabe nessa carga que é ver aquelas pessoas morando na rua. A festa foi boa, mas viver não é fácil, não. Se a festa de ontem fosse um pó, eu gostaria de pegar um punhadinho desse pó e espalhar sobre aquelas calçadas. Mas não posso e é preciso enfrentar meus pobres pensamentos confusos.

E isso me traz de volta ao livro que estou lendo, de cuja história prometo tratar em um próximo post.


A festa


Vou por aí. Vou sair com ele, encontrar amigos que não vemos há tanto tempo que nem imaginamos os cabelos. Curtir como quem merece. Parabenizar os donos da festa, abraçar um monte. Vou até usar aquele vestido pra ver se me sinto leve. Se, por acaso, eu me distrair e alguém perceber, “o que foi, Rita?”, sempre posso responder “nada, é só a música”. E sair dançando.

Vamos por aí celebrar tudo que há para ser celebrado, com terno e salto alto, cobertos de normalidade, mas com os corações cheios de subversão. Ou não é uma subversão ir à festa enquanto o coração insiste em bater curvado?


***

Update: daí que antes de ir dormir, fiz as compras da semana pela internet (feijão, biscoito, vocês sabem); e enquanto eu digitava "cebola", vi que tinha chegado uma nova mensagem em minha caixa de entrada. Segui com as compras e depois fui ver o que era. Era a Ângela, pra me avisar que hoje a lua está maior*. É a maior lua nos últimos 20 anos. E eu fiquei aqui rindo, porque no início da noite eu tinha mostrado a lua às crianças, linda, brincando de se esconder por trás das nuvens apressadas. As crianças brincaram de uivar dentro do carro e quando chegamos ao pequeno morro que nos traz para casa ela já seguia mais alta, toda prateada, humilhando. E eu falei pro Ulisses: será que se ela fosse cheia todo dia, a gente ainda se deslumbraria? E logo falei: ah, sim, né, o pôr do sol tá aí pra dizer que sim.

As amigas que eu tenho. Mandam e-mail para eu não perder a maior lua. Como não amar, gente?

*Na real, o grande dia é amanhã, mas o deslumbre já começou hoje.

***

A festa? É amanhã.

UPDATE: Fotos da superlua por aí.

Para onde?



Ando perdida de mim. Não sei onde me coloquei, em que prateleira. É possível que eu tenha me derrubado sem perceber e esteja agora coberta de pó, num cantinho escuro atrás do móvel. Mas não em uma queda rápida, assim, zás, tum. Foi em câmera lenta e às vezes acho que ainda estou caindo para me perder mais Talvez nem seja um cantinho, mas uma passagem. Talvez eu pare e retorne depois, empoeirada; talvez eu descubra outro caminho e não volte mais. Mas agora não sei de nada. Se caída ou caindo, se voltarei ou não. Olho para os lados, quase curiosa, mas não reconheço muita coisa. Algo me anestesia enquanto caio.

Tenho planos que não executo e decisões inertes, como todo mundo. Tenho meus buracos e minhas construções inacabadas, como qualquer um. Não há nada muito exótico ou distinto a meu respeito, é só uma menina caminhando, com cabelos soltos. Mas eu gosto de fantasiar a estrada e às vezes ela tem tons de anil como um céu sobre Gaza: é bonito, mas é triste. Guardo alguns desenhos lindos para a beira do caminho, mas alguns passos são sempre mais urgentes, mais importantes, alguns até indispensáveis, veja bem. Há milhões de perguntas e meu único consolo é que a estrada não tem fim, então trago os desenhos no bolso, quem sabe.

Há alguns momentos, muito breves, em que percebo pequenas luzes. São intermitentes, como minha crença nelas. Elas se escondem também, mas sempre voltam. Posso brincar de que são estrelas e colocá-las lá em cima, para que eu não me perca mais. Mas isso é só mais uma ideia.

E há momentos em que desejo que tivesse me quebrado toda, mas que aquela camada mais profunda tivesse ficado intacta. Então ela sairia, avaliaria os pedaços todos de uma perspectiva toda nova e montaria tudo de outra forma, com os ajustes que jamais poderei fazer. E seria eu de novo, mas pelo menos as cicatrizes seriam fresquinhas.



Cocô e coincidências


Understanding life, by Amanda, 3, & Arthur, 5:

- Mano, sabia que o cocô é a comida?
- Como é que é?
- O cocô. É a comida!
- O cocô é a comida?! De quem??
- Da gente! A comida da gente é o cocôôô!
- Ah, a gente come e depois vira cocô, sei. É, é assim, Amanda.

***

Sabem aquelas pequenas coincidências que não significam muita coisa, não mudam nossa vida nem dariam um livro, mas fazem a gente pensar "olha!"? A de hoje foi assim: eu tinha lido o imperdível blog da Luci e, quando fui deixar meu comentário, vi que a Ana Duarte tinha comentado lá também. E como a Ana costumava comentar por aqui, mas anda sumida, olhei para o avatar dela e pensei: "olha a Ana, gente, ela anda sumida, faz tempo que não comenta lá no Estrada". Li todos os comentários por lá, das pessoas que "conheço" e das outras também, mas no da Ana eu me detive por aqueles segundos a mais, sabe, direcionando o pensamento para ela. E aí vejam quem foi a primeira pessoa a comentar no post de ontem. Tchan-ans! Não é assim algo impressionante, eu sei, mas, pô, por que essas coisas acontecem, né? Acho fofo.

Daí comentei com o Ulisses no trânsito, dando a maior valorizada ao evento: "amoooor, você não a-cre-di-ta na coincidência! Olha só: blá blá blá blá. Que coisa, né?", ao que ele respondeu: "água, Rita, pensa na água: água, áááágua, áááágua...". Quer dizer, vocês viram que eu tentei acreditar em algo maior, intrigante, mas o meu marido tirou todo o clima.

Mas, de novo, o que será isso, pessoas?

***

Minutos depois, chego em casa e... descubro que a água voltou no exato momento em que o carro-pipa tinha acabado de abastecer minha caixa d'água, o que foi ótimo porque eu tinha acordado com uma vontade danada de rasgar trezentos e sessenta reais. #not Certas coincidências não são fofas.

 

Sem banho, cheia de ideias e nem aí pro Johnny Depp


Meu bairro está sem água desde a sexta-feira passada. O abastecimento foi cortado sabe-se lá por que razão e nossa caixa deve ter agora cerca de 200ml de água. Não dá para desperdiçar, vocês não acham? Então tomamos banho na casa do amigo, almoçamos fora, escovamos os dentes de forma alternativa, essas coisas. Tá bem divertido. Ainda bem que amanhã as crianças têm natação e podem tomar banho na academia. \o/Alegria é uma coisa relativa, gente. Nossa meta é fazer a água do cano da torneira da pia do banheiro durar até sábado.

***

Eu faço parte de uma lista de discussões. Se eu tivesse alguma noção, certamente seguiria calada, só lendo e refletindo e aprendendo porque há por lá muita gente boa cheia de ideias. Mas minha língua às vezes pula da boca e enlaça meus dedos e quando dou por mim estou lá, teclando meus pobres achismos. Essa semana tem sido especialmente rica por lá, porque tem rolado uma conversa muito pertinente sobre relações de poder e trabalho doméstico. E é sempre muito bom, ainda que difícil, às vezes, encarar um assunto que joga em nossa cara nossa posição de privilegiado. Faz pensar, repensar, revisitar um monte de conceitos. É algo tão naturalizado em nossa cultura o fato de contar com alguém para executar as tarefas domésticas enquanto fazemos qualquer outra coisa que muitas vezes sequer pensamos na enorme desigualdade social que sustenta a estrutura. Eu, que usufruo disso, com maior ou menor (des)conforto, lido com o quadro da forma que sei, tentando humanizar ao máximo minha relação com quem trabalha em minha casa (no meu caso em particular algo facílimo de se fazer porque tenho sorte e almas muito boas por perto). Mas ainda que eu adote essa visão sobre as relações sociais em minha casa, a discussão toda na tal lista tem me feito pensar muito sobre o assunto, tem me levado a reavaliar meu discurso e a trocar ótimas ideias com pessoas cujos argumentos me enriquecem demais. E, mais uma vez, tenho tido a oportunidade de relembrar que quem se prende a estereótipos desperdiça grandes chances de crescer.

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No sábado passado Ulisses sugeriu um cineminha com as crianças. Fui ao cinema comprar os ingressos para o dia seguinte. Como só havia uma opção de desenho animado dublado, nem precisei pensar muito: comprei ingressos para um tal Rango. No panfleto, apenas a inútil informação "dublado por Johnny Depp" - inútil porque, né, assistiríamos ao filme em português. Mas desenho, tal, tá valendo. E lá fomos nós com as crianças ao cinema ver Rango, aquele filme todo esquisito, cheio de personagens horrendos, facas, facões e revólveres, piadas "sutis" de duplo sentido (- " o que ele disse, mãe?" - "não sei, também não entendi, filho"), personagem se gabando de ter matado sete irmãos com uma só bala e coisas agradáveis como uma figurinha simpática que tem uma flecha cravada NO OLHO. Então, foi bem divertido. Tal qual a falta d'água aqui de casa (ah, o filme trata disso, da falta d'água). Enfim, nota mental: sempre ler sobre o enredo do filme antes de comprar a pipoca das crianças. Sempre.

Todo o romantismo de minha visita a Veneza

O último post da Mari Biddle me fez viajar no tempo e relembrar um rápido passeio que fiz por Veneza muitos anos atrás. No post da Biddle, ela descreve um superhotel de Las Vegas que reproduz a cidade italiana em um de seus cenários, com direito a céu, réplicas da arquitetura do lugar e, claro, suas gôndolas e gondoleiros. E achei graça da foto que ela usou para ilustrar o post (inclusive comentei sobre isso lá) porque nela o gondoleiro é muito mais "típico" que aquele que me conduziu em meu inevitável-superclichê passeio de gôndola. Aliás, minha visita a Veneza foi um divertido baque no ideal romantizado da cidade que habitava minha cabeça antes de pôr meus pezinhos lá.

Cheguei a Veneza com um grupo animadíssimo de turistas, na maioria australianos, conduzidos por uma guia neozelandesa que tinha tentado nos preparar para algo que talvez não tivéssemos em mente no momento em que planejamos nossa visita à cidade: a multidão. Veneza é destino de milhares de pessoas do mundo inteiro todos os dias, claro. Mas, né, a nossa visita é sempre tão especial que não pensamos muito nisso, mas sim na beleza dos mosaicos da Basílica de San Marco e nos românticos passeios de gôndolas pelo cenário d'O Mercador de Veneza. Então apreciei muito a boa intenção de nossa guia, mas me lembro que sua boa vontade não impediu de todo o choque. Era muita gente. Muita gente tipo feira, sabe. Mas turista animado é turista animado e a gente queria mesmo era tomar vinho na gôndola então quem liga pra multidão na piazza, certo? Certo. Eu, pelo menos, desliguei dos encontrões e tratei de babar com o que podia e, junto com dois ou três companheiros de aventura, separei-me do grande grupo e fui curtir o dia.

Lembro-me do céu muito escuro, da chuva que ia e vinha e dos pombos. Dos muitos pombos. Visitei a pequena parte da Basílica que estava aberta ao público, subi no Campanário para apreciar a vista da cidade e dei um basta aos grandes monumentos. Se havia mais, não sei, eu queria me perder pelas ruelas e parar diante das lojas de máscaras e o que mais eles vendessem. Em Veneza eu não quis museus ou galerias, quis respirar a atmosfera daquele lugar singular. Mas é óbvio que dei meu jeito de arrumar uma gôndola para flutuar pelos canais da cidade (não me lembro de ter sentido cheiro ruim) e acho que fiz isso logo depois de lavar o cabelo na pia do banheiro do restaurante que me franqueou a entrada: eu precisava me livrar da enorme cagada de pombo veneziano que ganhei no cabelo.

E então, quando dei por mim, lá estava eu na minha gôndola oscilante, olhando intrigada para o gondoleiro. Diferente dos caprichosos rapazes do hotel que a Biddle visitou, com camiseta listrada e chapéu panamá, meu gondoleiro era um sujeito vestido com desleixo e que falava sem parar, sem entoar uma peça sequer do cancioneiro popular de Veneza. Ora, bolas. Eu estava sob o efeito do vinho maravilhoso que rodava de mão em mão entre meus companheiros australianos - duas garotas e um menino - então achava tudo lindo, mas o gondoleiro, pelamordedeus, não tinha condições e destruía anos e anos de romantismo cuidadosamente alimentado por histórias fantásticas com cenários perfeitos. Até uma rosa nós tínhamos a bordo, era entrar no clima ou pedir o dinheiro de volta! Então pedi que cantasse alguma coisa, quando então o cidadão me perguntou de onde eu era. Após minha resposta, veio com: "Brazilian!! Okay: Madalena, Madalenaaaaaaa, você é mô bem querêêêêêêê.... Ô vô contá pa todo mundo, vô contá pa todo mundo, que só quero vocêêêêê..." Quer dizer, não era exatamente o que eu estava esperando. Mas imitei os meninos do grupo que viajava comigo: diante da multidão molhada e apressada na praça central da cidade, entreolhavam-se, abriam os braços em cruz, soltavam um profundo suspiro e declamavam um romântico "aaaah, Venice!". Então, ao som de Madalena, suspirei meu melhor "aaaah, Venice!" e passamos a brincar de vira-não-vira a gôndola. Bem romântico. E olha que minha adolescência já tinha passado há muito tempo.

Espero um dia voltar a Veneza, dessa vez com o Ulisses, para trocar um beijo ou dois em alguma pontezinha daquelas e assim resgatar anos e anos da imagem romantizada que larguei por lá naquele dia. :-) 

Bolo de maçã com coco e canela - ou bolo da sogra da vizinha


Enquanto a chuva insiste, persisto com os bolos. Os últimos dois que fiz tiveram resultados bem meia-boca: um de cenoura, que ficou meio, sei lá, baixinho; e o de leite condensado que ficou meio unido demais da conta. Hoje experimentei uma receita nova para mim, bolo de maçã com coco e canela, feito a partir da receita passada pela sogra da vizinha. Na semana passada, pulamos o muro para conhecer o novo vizinho, o recém-nascido Arthur (meus vizinhos têm muito bom gosto para os nomes dos filhos), irmão da amiguinha do meu Arthur. Bom, o novo Arthurzinho do bairro é a coisa mais linda e gulosa do planeta. Que bebê de sete dias mama mais de 90 ml de leite por mamada???? Sua mamãe está feliz da vida, às voltas com uma amamentação tranquila e eu acho que isso é motivo de muita alegria, nem sei dizer o quanto. Parabéns a eles todos pelo novo presentinho e muito obrigada pela receitinha que ganhei de brinde. Como não consigo trazer o cheirinho do recém-nascido para o lado de cá do muro, contento-me com o cheiro do bolo que também encheu a casa.


Receitinha, para quem quiser experimentar:

120 gramas de manteiga amolecida (na próxima vez colocarei mais que isso, talvez 200 g, pois, apesar de bem gostoso, achamos que o bolo poderia ter ficado mais molhadinho)
3/4 de xícara de açúcar mascavo
2 ovos
3 colheres de sopa de iogurte natural
1 xícara (chá) de maçã descascada e cortada em pequenos pedaços não muito finos (uma maçã será suficiente)
2 xícaras (chá) de farinha de trigo integral (não tinha e usei a branca)
2 colheres de chá de fermento em pó
1 colher de chá de bicarbonato
2 colheres de chá de canela em pó
100 g de coco ralado
1 colher de sopa de aveia para polvilhar (não tinha e, claro, não usei)

Unte e forre com uma folha de papel manteiga uma forma de aro removível de 20cm. Na batedeira, bata a manteiga, o açúcar e os ovos até tudo ficar bem cremoso. Coloque a farinha e o iogurte, alternadamente, e siga batendo. Adicione a maçã e o coco e bata mais (os pedaços de maçã não serão totalmente triturados; aqui aponto outra alteração para uma próxima vez: não triturarei a maçã na batedeira, mas apenas acrescentarei à massa, mexendo com uma espátula - adoro sentir os pedacinhos de maçã). Por fim, acrescente a canela, o bicarbonato e o fermento. Transfira a massa para a forma, uniformizando a superfície com uma espátula. Leve ao forno por 45 minutos, a 170 C. Voilá!

Os detetives, as flores, a sola do sapato e a Borboleta


Para ela.

Hoje choveu o dia inteiro, ora forte com barulho de cachoeira, ora fininho como um lamento. Foi um daqueles dias que aprecio com força: vou para a sacada, vejo a chuva escurecendo a rua no meio da manhã e despencando sobre os eucaliptos, fecho os olhos e sinto seus cheiros; volto a abri-los, olho para os lados e vejo meus amores. Alguém diria que estou velha, mas aviso que meu gosto por dias chuvosos vem desde a infância. E, claro, se eu estiver no trânsito vou torcer pelo sol, mas em pleno sábado de preguiça e abraços, ah, fico com ela.

Hoje, quando olhei para o lado, vi um casal de detetives. Enquanto a cidade se encharcava, minha pequena examinava com a lupa (que o mano herdou da vovó Berna) um pobre besouro caído no chão da sacada, debatendo-se de pernas para cima. Ao lado dela, o tal mano desenhava o besouro aumentado pela lupa e, logo depois, exibia satisfeito seus desenhos para mim. Enquanto isso, ela já seguia para outro cômodo e berrava pelo ajudante: "detetive manoooooooooo, vem!". Passaram boa parte da manhã assim e colecionaram nos preciosos registros uma formiga grande, uma lagarta que só viram pelo vidro da porta, duas casinhas de maribondo, uns tantos besouros, um mosquito e uma baleia "de brincadeira". Eu falei que estavam brincando de cientistas, mas eles insistiram que quem usa lupa é detetive.

E só escrevi isso aqui agora para que eles possam ler um dia quando, por alguma razão, suas memórias tiverem selecionado outras lembranças para o rol das mais vívidas. Quero que saibam que estavam especialmente charmosos andando pela casa, com lupa, caderneta e lápis na mão, examinando nossos minúsculos inquilinos.

***

Ao lado do restaurante onde almoçamos hoje, há um garden center. Adoro o lugar, passeio por lá de vez em quando. Hoje havia muitos crisântemos e eram tão lindos quanto simples. Se pudesse, teria comprado alguns e levado ao túmulo de minha mãe. Lá não anda caindo a chuva daqui, talvez eles sentissem rapidamente o efeito do calor, mas eu adoraria poder levá-los lá mesmo assim. Hoje pensei tanto nela, tinha várias coisas para contar, pequenas novidades desimportantes que nos deixavam penduradas no telefone em dias molhados como o de hoje. Mas não me sinto triste. Hoje não. E é engraçado isso.

***

No final do dia tentei provar um par de sapatos em uma loja, mas o sapato sequer entrou no meu pé, apesar de ser de meu número. Percebendo que eu tinha desistido do produto, o vendedor lançou mão de um argumento, digamos, curioso: "ah, esse você não pode perder, o solado é vermelho, tá super na moda." Né? Sou uma tola mesmo, o solado era vermelho, gente. Como deixei passar? E se eu cair de pernas para cima, como o besouro, e todo mundo perceber que meus sapatos não têm solado vermelho?

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Hoje é aniversário da Borboleta. Ela havia pedido para que alguns amigos escrevessem posts temáticos em seu blog durante a semana que antecedia o dia de hoje. O meu foi esse. Hoje ela deve estar longe da blogosfera, acabando-se em festa. Torço para que seu dia tenha sido do jeito dela: vibrante. Sua amizade tem se mostrado coisa valiosa. Para a esvoaçante amiga, todo meu carinho.

Tudo certo, já





Trânsito lento rende papo.

- Mãe, imagina o trabalhão que não teve a pessoa que construiu esses prédios todos aí...
- Ah, é, um montão de gente participa, filho. Sabe como começa? Com um desenho.
- É, né, senão a pessoa não sabe como vai ser o prédio!
- Isso mesmo. Quando você crescer, se quiser, pode estudar pra desenhar prédios tamb...
- Não, eu que não vou dar esse trabalhão pro povo. Quando crescer vou ser mecânico, vou trabalhar numa oficina.
- Ah, legal, então.

Ela entra na história:

- Mããããe, sabe o que vou ser cando crescer?
- O quê, minha linda?
- Médica!
- Uia, jura? Beleza, vai ajudar um montão de gente e..

Ele:

- Mudei de ideia! Quando crescer vou ser o assistente da Amanda!
- Ah, legal também.

Ela:

- Nã, nã, nã, mudei de ideia, vou ser pintora!
Eu: - Ah, que lindo! É muito legal, você pode fazer um montão de quadros!

Ele, ensinando a boba aqui:

- Não, mãe! Mudei de ideia de novo, vou ser mecânico mesmo e a Amanda vai pintar os carros que eu consertar! Né, Amanda?
- É! Vou pintar meu carro de vermelho!

Então tá combinado.

The light


Quando eu conheci o Ulisses nós éramos alunos do mesmo campus da Universidade Federal da Paraíba; eu fazia Letras, ele fazia Ciências da Computação. Aparentemente, nossa aproximação seguiu algumas etapas convencionais: olhares, uma dança, um primeiro beijo, etc. Aparentemente. Porque, na verdade, dentro de mim o vínculo se criou no primeiro olhar. Digamos que nunca tivéssemos passado daquele primeiro olhar, ainda assim eu me lembraria dele. É claro, e verdadeiro dizer, que o vínculo se aprofundou com o tempo e os acontecimentos, mas trago comigo um caso de amor à primeira vista. Eu olhei, vi e desejei desde o primeiro dia. Eu vi e quis pra mim já, ali, naquela hora. E, de novo, digamos que eu tivesse me decepcionado ao me aproximar dele, ainda assim traria comigo um exemplo de desejo imenso por alguém que nunca tinha visto antes na vida. Então foi tudo à primeira vista. Foi tudo na passarela do campus, a caminho da biblioteca.

Quando nos aproximamos e começamos a namorar, passei a experimentar um misto de felicidade e medo porque, com minhas manifestações mais ou menos intensas de baixa autoestima, não acreditava que meu caminhãozinho desse conta de carregar aquela areia toda por muito tempo. Tipo, eu não merecia. Meu primeiro namoro com Ulisses me mostrou que eu tinha conhecido alguém verdadeiramente diferenciado, uma pessoa luxuosa, no melhor sentido que alguém consiga dar à palavra. Eu me sentia profundamente feliz por ser capaz de enxergar além do homem bonito e inteligente que todo mundo via; eu conseguia ver o coração dele. Eu sabia. E por isso, também, lamentei tanto nossa separação anos depois. Porque não ia acontecer de novo. Não haveria outro e eu teria que dar meu jeito e aprender a viver sem.

Foi o que fiz. Guardei não sei como toda minha história com ele embaixo de camadas de caminhos alternativos. E fui cuidar da minha vida, fazer meus cursos, minhas viagens, minhas descobertas, conhecer outras pessoas. Lutei muito comigo mesma para assimilar a ideia de que encontraria a boa felicidade grande outra vez, em outras terras, outras almas. Fui uma garota esforçada e cheguei a acreditar durante certo tempo que, de verdade, tinha conseguido. 

Quando nos reencontramos, sete anos depois de nossa separação, vi o mesmo cara da faculdade. Vi que seus caminhos só tinham evidenciado sua força, seu jeito, seu sorriso. Era ele de novo, só que mais brilhante. Todo pra mim. Eu ainda não sei descrever. Ficamos juntos, dessa vez sem intervalos comerciais ou de qualquer tipo, e tratamos de fazer tudo isso que fazemos juntos todos os dias - the end, violinos. 

***

Hoje você está bem cansado, tem tido uma rotina bem puxada ultimamente. Você tem sido ombro e suporte muito mais do que talvez já tenha sonhado que seria, temos exigido muito de você, todos nós. Tenho andado escondida em certas dores e saudades, tenho me permitido ficar mais quieta, mais introspectiva. Tenho me permitido falhar porque não quero brincar de forte. (Não quero brincar de fraca também, mas vou levando, hoje assim, ontem pior, amanhã bem melhor, como der.) Mas não você: você tem sido forte todo dia, tem sido esse filho tão dedicado que é impossível não tocar nossos corações e continua, cada dia mais, sendo o melhor pai de que já me dei conta. Você segue escolhendo como ninguém as peças que usa para construir seu caminho e o faz com louvor. E continua gato, cheiroso e gostoso também.

Outro dia você se disse desanimado. Há dias em que é fácil se sentir assim: algo dá errado, tira o entusiasmo, emperra. Mas nós dois sabemos que ainda há muita água e muita ponte. E eu queria que você soubesse que hoje, vendo você se desdobrando mais uma vez, pensei em todo esse seu brilho e como você consegue transformar a vida das pessoas. Pensei em como sou sortuda nessa vida e mesmo com tanta dor consigo me sentir uma pessoa feliz e é só por causa de você e do que você trouxe à minha vida. Sei de meus valores, meus próprios méritos, mas ter você para dividir tudo comigo é, sim, a maior razão da consciência que tenho de ser tão feliz. Eu queria que você se lembrasse disso hoje, naquele trânsito infernal ou naquele compromisso que atrasa a tarde e bagunça o dia, ou na hora em que as crianças tirarem sua paciência, que você não está sozinho. Eu ando triste e saudosa, mas não largo sua mão por nada, você sabe que pode contar comigo.

***

Em um tempo em que você andava por aí, longe de mim, e eu habitava o reino dos caminhos incertos, uma canção me lembrava, de vez em quando, daquilo que eu tinha escondido no quartinho mais escuro do meu coração. Vinha pela voz do Morrissey e dizia assim: there is a light and it never goes out. Serve para o que sinto, sempre serviu. Mas serve também para o seu brilho. Dias melhores virão. Vumbora.

Nos jardins


Hoje minha prima Marina me escreveu para contar do sonho que teve com minha mãe. Até pouco tempo atrás, Marina morava na cidade onde nasci. As duas eram amigas, confidentes, parceiras. Minha mãe gostava dela como se gosta de uma filha. Marina a amava. Várias vezes minha mãe partilhou comigo suas preocupações, suas torcidas, suas alegrias pelas lutas e vitórias dela. E sempre vi minha prima entrar lá em casa lançando olhares de carinho para sua Tia Berna. Eu me lembro de quando ela nasceu. A diferença de idade entre nós duas não nos fez grandes amigas desde sempre, mas, depois que ela também se tornou adulta, reconhecemos com tranquilidade uma afinidade silenciosa, uma amizade que cresceria sem pressa. Minha prima me ajudou a me manter de pé e assim acompanhar o enterro de minha mãe, dividiu comigo as piores horas de minha vida. Nos dias seguintes foi ombro e ouvidos e toda carinho. A ela confiei objetos preciosos para nós: está com ela a velha máquina de datilografia, o abajur que enfeitava o quarto de minha mãe, algumas de suas roupas. Pedacinhos que compunham o quadro onde ela morava e que têm para nós valor inestimável. Ela nem sabe de minha gratidão, porque eu nunca conseguiria expressá-la. Mas torço que ela saiba do carinho, igualmente imenso. Com a despedida de minha mãe, ela perdeu mais que a companhia da Tia Berna; perdeu uma amiga valiosa que a amava com sinceridade, perdeu a companheira de confidências, a ouvinte atenta, a torcedora. Mas bem sabe que certas coisas podem ser mantidas conosco para sempre. Com sua permissão, relato o sonho aqui.

Marina foi até a casa de minha mãe, onde agora habitam seus pais. Logo na entrada, ouviu a voz de minha mãe, mas não conseguia vê-la. Voltou à rua e depois de algum tempo percebeu que a voz vinha do cemitério e para lá se dirigiu. Do cemitério, minha mãe a acompanhou até a casa e pediu que ela lhe mostrasse todos os cômodos, como faria com um estranho que nunca tivesse estado ali. As duas então entraram na casa, mas ninguém, além da Marina, via minha mãe. Seguiram comentários sobre alguns móveis, um birô que permanece no lugar de sempre. Minha mãe afirmou que tudo pode ser mudado, que ela  não precisa mais daquilo; e que não há motivo para preocupações outras porque ela não precisa mais respirar. Repetiu várias vezes que minha prima não precisa temer nada e que está muito feliz. Estava tranquila, brincalhona, sorridente, serena. Em sua mensagem, minha prima disse que o sonho era nítido, claro e colorido. E que minha mãe se despediu dela dizendo que nunca iria embora porque minha prima podia senti-la, para, logo depois, desaparecer como fumaça. Na porta do jardim.

Marina encerrou sua mensagem com as seguintes palavras: "Não sei nada sobre a vida. Mas cri em tudo que sonhei."

Também não sei nada, Marina. Só posso dizer que seu sonho está gravado em mim e que sou muito grata por você partilhá-lo comigo. E que eu gostaria muito de também sonhar assim.

O livro da cunhada

Quando o livro da Lílian chegou às minhas mãos eu não estava em condições de apreciá-lo. Tinha acabado de me despedir de minha mãe, interrompido a leitura d'A Ilha Sob o Mar, mergulhado em tristeza. É uma pena que eu não tenha tido o espírito pronto para parabenizar minha cunhada pela publicação de seu (primeiro) livro.

O Histórias de "Mulherzinha" foi ficando por ali, entre malas, por algumas semanas. Lembro de ter dado uma espiada em um ou dois textos quando ainda estava no Nordeste, de ter adiado a leitura para dias de clima mais suave, de ter gostado da capa, da apresentação do livro. Quando voltei a Florianópolis, retomei minha leitura da Allende e, aqui e ali, lia alguns trechos do Histórias...; depois emendei uma leitura atrás da outra, sempre intercalando com o exemplar do livro que o Ulisses estava lendo; e esse foi meu jeito de ir avançando em seus textos.  Histórias de "Mulherzinha" é uma coletânea de textos que narram episódios vividos pela Lílian ou, nas palavras dela, "crônicas e metáforas para a vida real de mulheres que são - ou pretendem ser - felizes". É também uma exposição de seu estilo de vida, suas crenças, seus gostos e amores.

Para mim, a leitura está inevitavelmente contaminada pela "convivência" com a autora. Moramos em cidades diferentes, mas nossos laços familiares nos mantêm ora mais, ora menos conectadas - mas sempre ali. O resultado é a voz da Lílian em minha cabeça à medida que leio os textos. É também a familiaridade com personagens reais que passeiam por suas crônicas: todos os textos do livro são relatos pessoais em ocasiões variadas, quadros cotidianos, como em um blog. E, portanto, viro a página e lá está meu marido; ou a minha sogra; ou aquela prima; ou o meu blog! Percebam, pessoas, que não tenho meios de emitir uma opinião minimamente isenta do livro da minha cunhada! Mas, né, tentemos:

A Lílian tem uma escrita fluente, gostosa de ler. Ela tem sensibilidade e enxerga o detalhe, a referência, a sutileza. E tem um monte de história pra contar. Então imagino que, para quem não a conhece, ler seu livro seja uma experiência relaxante, pontilhada de momentos emocionantes e de risadas também. Para mim, é um pouquinho mais: é o reconhecimento da mãe dedicada quando a Lílian se refere à minha sogra; é o derretimento pelo sobrinho grandão do meu marido quando ela fala do próprio filho; é achar graça das ideias, algumas inusitadas, que povoam sua cabeça; é perceber boas sacadas através de seu olhar. As "crônicas ou metáforas" estão agrupadas em cinco capítulos, que mais ou menos se moldam pelo tema, ou pelas "mulherzinhas", que permeiam os grupos de textos: a mãe, a turista, a amiga, etc.

Minhas ressalvas em relação ao Histórias... passam mais pela visão de mundo que a Lílian adota do que pelo livro em si. Lílian é uma pessoa muito religiosa e muitas de suas ideias e atitudes são pautadas por sua fé. Eu, por outro lado, passeio pelo questionamento constante diante de um mundo cujo funcionamento me intriga e para o qual não consigo encontrar respostas plausíveis em nenhum fundamento religioso. Então quando me deparo com alguns textos, especialmente os do último capítulo ("Amando e Sendo Amada"), torço o nariz como se estivesse diante dela, numa mesa de um sushibar qualquer, perguntando-lhe: "você realmente acredita que isso explica tudo?" - ao que ela certamente responderia, com um sorriso lindo, "mas é lógico!".:-) Então, para os que compartilham da fé da Lílian, seu livro tem sabores especiais e, onde eu vejo poréns, esses leitores encontrarão um motivo a mais para se agarrar às suas páginas.

Mas nenhuma ressalva muda o fato de que minha cunhada é escritora, ora! (E que me diverti entrando na livraria e perguntando "vocês têm o Histórias de 'Mulherzinha' aí?" só para ter o prazer de espiar por sobre o ombro do moço enquanto ele consultava a maquininha e ver o nome do livro lá. É, eu faço essas coisas, deixa.)

Lílian, querida, parabéns. Devo dizer que minha parte favorita é a página 97, quando você fala da sobrinha, também conhecida como minha filha, hahaha! [Aff, minha cara de pau não tem limites.] Desejo sucesso ao seu livro, que ele seja o primeiro de muitos e que traga alegrias ainda insuspeitas - a você e a quem se dedicar a lê-lo.

***

Noventa dias. Amor eterno.

Certos sons



Eu gosto de chuva. Gosto do barulho, acho bonito, gosto do cheiro. Em casa, jogando baralho, dando risadas, com uma taça de vinho, gosto de chuva. Gosto da solidão que a presença da chuva traz. Um dia ensolarado nos convida a sair por aí encarando o mundo, mas um dia de chuva nos convida a olhar para dentro. E gosto muito desse olhar. Acho lindo quando o morro que vejo lá do meu quintal se esconde na neblina e anuncia a chuva que vai cair daqui a pouquinho. É bonito, como se o céu descesse um tiquinho. E aí acho bom estar em casa, sem pressa, a louca que curte chuva no feriado. Mas é que a musiquinha da chuva embala como nenhuma outra meus pensamentos misturados. Gosto muito da rua onde moro, com seus eucaliptos compridos que veem tudo, tão discretos. Gosto das palmeiras desmilinguindo-se no telhado lá atrás, insistindo em invadir as janelas, mais curiosas que o impassível ipê. Eles se lavam e se renovam em cada chuvarada e nem desconfiam que a chuva que bebem também me banha e me renova. Gosto da chuva e, como as plantas, preciso dela. Preciso que ela venha e caia barulhenta para que eu olhe com mais atenção para dentro e arrume um pouco as coisas. Que às vezes a gente é assim, tão simples.

***

Li uns textos ótimos por aí hoje, dia 08. Fiquei me perguntando, então, o que meu feminismo tem me trazido de bom. E a resposta vem quase instantânea: tem me trazido certezas. Hoje torço, como todo dia, para que cada vez mais pessoas enxerguem as benesses de uma filosofia de vida que prega igualdade, respeito e construção. Torço para que meus filhos encontrem lá na frente muitos frutos bons gerados pela jornada de homens e mulheres de visão que gritam todo dia que bom mesmo é caminhar junto, olhando pra frente, sim, mas também para os lados. Torço para que o machismo ainda reinante em tantos lares mundo afora vire coisa do passado, algo como máquina de datilografia ou fita cassete, e que a violência contra a mulher, desencadeada por posturas machistas e preconceito de gênero, tenha seus absurdos índices empurrados ladeira abaixo a cada dia. Como muito bem disse a Lola hoje, não preciso ser cachorro para defender que eles sejam bem tratados; não preciso ser vítima de preconceito ou de violência doméstica para enxergar o tamanho do problema. Nosso feminismo não precisa ser em causa própria - e essa pode ser sua maior beleza.

***

Amanhã é dia 09. Noventa dias "sem você". Até agora, apenas dois sonhos, bem curtinhos. Talvez seja porque sonho com você quase o tempo inteiro, acordada mesmo. Talvez seja porque simplesmente não me lembre dos sonhos quando acordo. Talvez. Seja como for, seguimos juntas, cada dia mais. Como se sua presença agora estivesse se misturando com minha pessoa. Descobri outras maneiras de conversar, a gente conversa e você me diz que o maior de tudo fica. Fica, sim, mãe. Mesmo assim, quanta saudade de você... É que tem essa coisa da sua voz, sabe, que, em certos dias, era um pouco como o som da chuva, tinha o mesmo efeito bom. Ah, se o sonho vier com o som da sua voz... continuo esperando. Vê se não demora, bonitinha.

 
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