Ninguém perguntou, mas eu quis dizer

Coisas que aprendi (ou relembrei) durante o último final de semana:

a calda do pudim faz diferença, não é um mero detalhe: pudim albino não é tão gostoso quanto pudim com calda caramelizada;

quando se assa um bolo numa forma grande de aro removível, é preciso espetar o palito no meio da massa; o fato de que o bolo já está assado próximo às bordas não significa que está assado no meio; e aí quando você for desenformar, pode quebrar o bolo e descobrir aquele tanto de massa crua no meio (não estou dizendo que aconteceu comigo, estou apenas especulando; também não estou dizendo que não aconteceu);

não adianta dizer à Amanda que ela pode experimentar só um pouquinho da massa crua do bolo;

não adianta se programar para terminar de ler o livro, ir para a cozinha, brincar com os filhos, blogar, ver dois filmes e assistir à cerimônia do Oscar no mesmo final de semana, mesmo com chuva: alguma coisa vai ser adiada;

não adianta respirar fundo e prometer que não vai se emocionar ao ligar para a melhor amiga da mãe no dia do aniversário dela (da amiga): você vai pensar na sua mãe, vai se emocionar e vai chegar ao trabalho com nariz de palhaço (feliz aniversário, Verônica);

não adianta torcer, Oscar é coisa doida; e o Leonardo DiCaprio só vai à cerimônia quando é indicado ao prêmio de melhor ator (sim, eu assisto);

por mais que eu me esforce, nunca consigo ver o filme vencedor antes do dia da premiação; vi o cisne, o das duas mães, o do facebook, o faroeste, o desenho e o dos sonhos - ganhou o do rei, claro;

sou meio claustrofóbica - sempre que penso em ver o filme do menino que cai no buraco já fico agoniada;

A Origem ganhou quatro oscars - yes! (mas ainda não sei a diferença entre mixagem de som e edição de som - sei que não estou sozinha e se ninguém me explicar vou achar que nenhum de vocês sabe, rá!);

e uma última coisinha que aprendi na quinta: o filme Mary & Max é fofo até não mais poder. Sobre amizade, solidão, superações e crianças abandonadas dentro da própria casa. Eu não conheço o termo técnico correto, então chamo de “animação de massinha”; baseado em história real, para ver sem as crianças.

***

p.s. Aconteceu, sim. Voltei com o meu primeiro bolo de laranja para a forma e assei por mais 15 minutos. Salvei o danado e ficou uma delícia. Remendado, mas bem gostoso. Oscar de melhor salvamento épico de bolo. o/

Dicas de livros infantis



A Ângela me pediu dicas de livros infantis editados em português, brasileiros ou não, para rechear a hora da história na casa dela. Como eu, Anginha tem um casal de filhos. Seu pimpolho mais velho é o Max (o da esquerda, na foto aí em cima, hohoho), uma esculturinha com grandes olhos, os mais vivos do planeta, uma cabeleira de anjinhos de Rafael e toda a energia do mundo; a pequena se chama Julia e causaria oooohhhhs infinitos de todos vocês. As coisas mais fofas, imaginem aí. Acontece que ela mora nos EUA e muitos dos livros que usa para a bedtime story dos filhotes são editados em inglês, mesmo que ela sempre compre livros brasileiros quando vem aqui ou pela internet - mas, segundo me contou, ela não tem tido muita sorte nas escolhas e tem achado alguns dos livros escritos em português bem ruins. Eu ia responder o e-mail dela com outro e-mail, mas pensei que outras pessoas também poderiam dar dicas boas nos comentários ou usufruir das dicas que eu daria pra ela. Não sou nenhuma especialista, mas este blog é o barraco dos pitacos, então vamos lá. Dei uma vasculhada nos quartos do Arthur e da Amanda e sugiro esses:

Viagem ao Mundo em 80 Histórias - como já falei nesse post.

Tato, o Gato - também mencionei no mesmo post; é a história de um gato que tem um rato como animal de estimação e enfrenta alguns probleminhas no primeiro dia de aula. A história é fofa, mas as ilustrações são mesmo o ponto forte do livro. Dá vontade de comer. Editora Rocco.

A Árvore Generosa - também já mencionado aqui. Continua sendo um dos meus favoritos. História linda sobre a amizade, o tempo, a vida. Imperdível, não pode deixar de ter. Editora Cosacnaify (isso mesmo).

Histórias à Brasileira, Ana Maria Machado. Ulisses adora essas histórias, mais longas, cheias de personagens meio fantásticos. Ed. Companhia das Letrinhas.

A Casa Sonolenta, um clássico. Amo muito! As ilustrações, chuva lá fora, o povo dormindo... até que chega a pulga. E o sol. Lindo. Wood & Wood, Editora Ática.

O Carteiro Chegou - falei recentemente dele aqui. Maravilhoso.

Maneco Caneco Chapéu de Funil, de Luís Camargo. Esse livro fez parte da lista de livros que a escola do Arthur sugeriu no ano passado. Gosto demais, o Arthur adora e quase decorou a história. Pra rir.

Brincando com as Estrelas, de Almir Mota, com ilustrações de S. Rodrigues. É um dos livros que a Borboleta nos enviou. Pra você, Anginha, que adora São João e pode querer mostrar gravuras das festas juninas do Nordeste para seus filhotes. E contar a história do menino que não tinha par para dançar a quadrilha, mas tinha amigas no céu. Fofo. Editora Casa da Prosa.

As Letras, de Lalau e Laurabeatriz. Para apresentar o alfabeto com palavras que remetem ao universo brasileiro, nossa fauna e flora, nossas lendas e mitos. Foi um dos primeiros livros que o Arthur leu para a Amanda, na íntegra. :-) Para cada letrinha, um versinho com referências nacionais. Bonitinho e bem colorido. Editora Amarilys.

"A letra D pegou
Um punhado de raios de sol,
jogou no meio do rio,
e desse jeito nasceu o dourado."

Bem, por ora é isso. Os clássicos dispensam sugestões e tenho certeza de que você, Ângela, encontra fácil em qualquer idioma. Aguardemos as sugestões de quem passa por aqui - que também ando doida para renovar o estoque das crianças.

Do mesmo saco

 
O assunto e as dicas (na caixa de comentários) no não-post de ontem me fizeram lembrar de algumas febres dos meus tempos de menina. Eu tinha essa coisa de começar a ler um livro e não querer saber de mais nada e ainda gosto dessas lembranças, mesmo que elas venham com certo tremor diante de alguns títulos. Bem sei que não deveria confessar essas coisas assim em público, mas já perdi a vergonha faz tempo. A verdade é que eu lia de tudo, qualquer coisa que parasse na minha mão, qualquer livro bom ou porcaria. Posso estar enganada, tudo aqui baseado em achismo, mas me parece que antes da chegada da fase adulta, quando nossos gostos tendem a se sedimentar um pouco (nunca para sempre, não), qualquer tipo de leitura é bem vinda. Acho que é na infância e/ou na adolescência que o hábito de ler se forma. Hoje em dia penso um pouco (nem sempre) antes de selecionar algo para ler porque enfrento a ansiedade diante de tudo de bom que ainda não li - e também porque meu tempo já não se divide apenas entre escola e lazer. Mas lá na infância, na adolescência e no início da vida adulta, ah, acho que vale qualquer coisa mesmo, tudo é um pouco preparação de terreno. E criança que gosta de ler tem mais de meio caminho andado nos desafios da escola - acho. Claro que se o cidadão só experimenta tranqueiras, pode até achar que não gosta do babado, mas é pouco provável que nada de bom caia nas mãos de quem se aventura com frequência.

Algumas febres que experimentei quando ainda usava aparelho nos dentes (naquela época, apenas crianças e adolescentes faziam tratamento ortodôntico) foram mais intensas ou mais duradouras, outras não foram além de dois ou três títulos. Eu me lembro da fase das Sabrinas, Júlias e Biancas, romances açucaradérrimos que seguiam a fórmula mulher-linda-encontra-moço-belo-e-viril-mas-o-amor-é-impossível-e-eles-vão-se-odiar-até-a-guinada-final. Ah, os cabelos das protagonistas! Ah, as profissões moderníssimas - todas eram fotógrafas ou cinegrafistas ou modelos ou qualquer coisa cool e inatingível para mim. Nenhuma usava aparelho. O horror, gente, o fim do mundo. Numa época em que usávamos os cortes de cabelo medonhos dos anos 80, líamos sobre cabelos longos, com toque de seda e brilho de lua. De lá para os livretos da série Momentos Íntimos foi um pulo: era a mesmíssima coisa, mas com uma ou outra passagem mais picante, sabe como é que é. Li dezenas desses livrinhos, que eu pegava emprestados na biblioteca da escola, entenderam? Na sala de aula, Machado e Alencar, na biblioteca, Sabrina e Momentos Íntimos, tudo para absorver bem o modelo de que só é feliz a mulher que encontra o príncipe encantado e tem cabelos sedosos, uma tragédia (as Sabrinas, não o Machado). O verdadeiro Realismo Fantástico. Enfim. Aí um dia Capitães da Areia entrou na lista de leitura da aula de Literatura e me salvou daquele torpor. Descobrir Jorge Amado, naquela época, foi como perceber que o mundo era maior, que as pessoas eram melhores. E apesar de ter me familiarizado um pouco mais com a literatura nacional anos depois, não me lembro dessa fase Amado ter durado muito porque foi mais ou menos por aí que descobri Agatha Christie e seu Poirot e mergulhei no mundo dos romances policiais. Nessa época, almoçar era um suplício como se o assassino fosse fugir do livro se eu interrompesse a leitura. A pior tragédia desses dias se dava quando o ônibus para a escola estava lotado e eu precisava ler em pé. Mas quando conseguia um assento junto à janela, o/, torcia muito para que a escola fosse um pouquinho mais distante... Sentar era fundamental se o livro fosse do Sidney Sheldon (argh!), porque eles eram bem pesados. :-) Devo ter passado fome lendo O Reverso da Medalha - era impossível largar aquilo. Gente, será que tinha alguma droga nas páginas - além da escrita dele, quero dizer (essa sou eu, cuspindo no prato em que comi muito...)??

Talvez eu tivesse mergulhado em uma febre de livros de terror também se a experiência com a leitura d’O Exorcista não tivesse sido tão traumática. Eu não conseguia ficar sozinha lendo o livro, tampouco conseguia parar de ler. Para resolver o impasse, seguia minha mãe pela casa, lendo na cozinha enquanto ela passava um café, ao lado dela no escritório e acampando na porta do banheiro enquanto ela interrompia seu trabalho para fazer xixi. Morrer de medo não me fez largar o livro, mas prometi a mim mesma que não repetiria a dose. Ainda comecei um tal Profecia, mas fui mais forte e larguei. Sai pra lá.

Houve outras febres (como todo mundo, passei uns tempos na Avalon de Marion Z. Bradley) que prepararam terreno para caminhadas mais longas depois, mas nunca mais encontrei livro nenhum com notas de rodapé tão longas quanto as de Zuenir Ventura em sua série Operação Cavalo de Tróia (quem não leu não vai pro céu)! Algumas tomavam páginas e páginas inteiras, questionando seu status de “nota” de “rodapé”, e eu me maravilhava com tanto detalhamento técnico (que ninguém entendia) para convencer o leitor de que o protagonista tinha mesmo viajado no tempo e visitado a Galileia de Jesus. Mas, ah, eu tirava o chapéu para a paciência do Ventura; pena que a minha acabou no terceiro livro da série de seis. Algum herói aí pra me dizer aonde o protagonista foi nos três últimos livros da série? Não? Pois é, desconfiei.

Já cheguei a pensar que o tempo gasto com as Sabrinas da biblioteca do colégio poderia ter sido bem melhor aproveitado, mas já passei dessa fase. Muitos anos depois, tentei ler um Sidney Sheldon e não consegui - e fiquei impressionada como o troço era ruim. Mas não posso negar que um dia, lá na sexta série, era mesmo Se Houver Amanhã que me deixava toda animada, com a cara enfiada num mundo longe onde tudo era possível. E era bom demais.

Tudo isso pra dizer que fico vendo a história se repetir:

- Arthur, vem escovar os dentes.
- A-hã.
- Arthur?
- Tô indo...
- Arthur, já estou com a pasta na escova.
Entra o banheiro com o gibi na mão, posiciona-se na minha frente, cabeça baixa, gibi aberto, lendo baixinho.
- Arthur, larga o gibi e abre a boca.
Abre a boca bem molenga, segue lendo.
- Licença - arranco retiro delicadamente o gibi da mão dele, ponho em cima da pia, mas nem tenho tempo de falar nada.
- MÃEEEEEEE, você desmarcou a página!!

Aff, falei que é i-gual? A mesma farinha.

***

E apesar de eu não classificar tudo que mencionei aí em cima como tranqueira (gosto muito d'As Brumas de Avalon, por exemplo), vou perguntar outra coisinha (sem querer ser a chata que só pergunta): qual a pior tranqueira com a qual você já desperdiçou seu precioso tempinho? De imediato, lembro-de me de uma: Um Bestseller pra Chamar de Meu. M Keyes nunca mais. Também, né, peguei pesado.

Pode ser amanhã?


Sabe quando o livro que você está lendo chega naquele ponto em que você gostaria de matar o trabalho para ficar em casa lendo? Ou ler enquanto almoça? Ou tomar banho mais rapidinho para voltar correndo pra cama ou pro sofá e se agarrar com ele de novo?

E aí o marido chama para ver aquele filme que você quer ver já há um tempão?

Sabe?

Pois é, hoje não tem post.

(Mas vocês bem que poderiam aproveitar a deixa e me dizer qual o livro que vocês leram assim, sem querer saber de mais nada. Ou quase nada.)


Bem-me-quer, bem-me-quer...



Quero flores para brincar de bem-me-quer. Quero me sentar no alto do morro de onde eu possa ver minha vida lá embaixo e então arrancar as pétalas e apostar no acaso. Se for bem-me-quer, vou sorrir. Vou me erguer e dançar descalça na grama, erguendo a saia com uma das mãos - não por medo de tropeçar; é só uma forma de sentir o bico de renda roçar minha canela. Na outra mão, estarão os talinhos e as pétalas que sobrarem (certamente vou forçar a barra e deixar que sobrem, sabe, vai que o acaso se engana). Meus cabelos estarão soltos para atrapalhar minha visão enquanto rodopio porque não quero olhar com os olhos. No alto do morro é diferente. Vou ouvir o vento e prestar bem atenção ao que ele sopra. Já posso até adivinhar: ele dirá "vá".

Quando o vento parar, vou deixar que os talos caiam na grama, afastar o cabelo dos olhos, soltar a saia, suspirar e descer o morro. Olhando em frente, trarei em mim o som do vento e a vontade de voar. (No bolso, algumas pétalas por garantia.)

Vai dar tudo certo.

Esvoaçante



Tudo nela é intenso: seu blog é vermelho, sua risada é alta e sua presença se multiplica - mesmo, tente acompanhar e verá. Eu disse “seu blog?” Não, seus blogs. Ela tem um monte deles. Como pode uma pessoa ter um monte de blogs, minha nossa senhora dos blogs? Pois ela tem. Ela já leu (quase) tudo e talvez por isso, também, sua escrita seja aquela coisa tão rica. Mas esses são os detalhes.

Ela é linda, dá pra ver. Ela pega as palavras e espalha na mesa e sem usar farinha consegue moldar umas coisas que só vendo. E só quem é lindo faz isso. Vou chamar de alma, tá? Só quem tem a alma boa faz coisas assim.

Aí hoje, com licença, estou toda vaidosa porque ganhei um texto dela. E eu gostei tanto pelas razões óbvias - também - mas, principalmente, porque o texto, claro, é um mimo. E ela escolheu uma imagem adorável para se comunicar com o post que fiz ontem e foi um carinho tão bom. Ela é especialista em abraços à distância, essa borboleta. É bonito.

(Ela disse que cresci. Acho que é porque andei tentando voar e consigo iludi-la de vez em quando. Adorei. Mas, né, sou bem pequena.)

Mas não foi o primeiro. Houve outros carinhos blog(s) dela afora, mas o que vocês ainda desconhecem é a história do pacote. Vou contar:

Um dia ela pegou meu endereço. Tempos depois, meses depois, quando eu andava mergulhada lá no sem fim da tristeza, o carteiro veio e me entregou um pacote. Era um pacote de livros mandados por ela. Um pacote de livros infantis, escritos por alguém da vida dela - que ela atrai artistas, claro. Um, dois, três - eu nem acreditava - quatro... sete livros. Eu estava esperando ler todos para poder contar aqui, mas hoje não resisti, olhem aí:

Tesourinhos que a Borboleta enviou.

Eles moram na estante do Arthur que já leu uns dois ou três, junto comigo. O Arthur é assim, de vez em quando se posta em frente à estante, que fica ao pé de sua cama: joelhos no colchão, ou mesmo na própria estante, passeia, passeia e escolhe um. De vez em quando vem um que a Borboleta mandou. E fico olhando e vendo que tanta coisa boa que esse blog me traz e o quanto eu gosto de gente e o quanto amizade deixa a nossa vida cheia de cores.

Faz um tempinho, sou amiga de borboletas. Obrigada, menina.
 

Útero



Acho que a sensação de tranquilidade que experimentava no fundo da piscina vinha um pouco do som da água ao meu redor, ou do que a água fazia com os sons que me cercavam. Tudo em baixa rotação, câmera lenta. Meu "exercício" consistia em pôr a cabeça para fora da água, puxar o ar pela boca, sentar-me no fundo da piscina, soltar o ar, voltar. Levantar, encher-me de ar, descer, soltar, voltar. Com os braços abertos em asas, era como se eu bailasse ou voasse e aquele contato intermitente com os barulhos que vinham de fora evidenciava a calmaria lá embaixo quando tudo que chegava aos meus ouvidos era o barulho das bolhas que eu produzia e um som surdo de fundo. Eu subia no ritmo do impulso para buscar o ar, mas descia lentamente até me sentar e tocar o chão. Lá fora, gritos de crianças, vento, vozes. Lá embaixo, eu. O olho do filtro na parede da piscina era a única testemunha de meu voo-balé. Desde que acordara, muitas horas antes, tinha planejado um mergulho para me encontrar lá no fundo e naquele momento senti a felicidade tranquila de quem reconhece o bom. Experimentando aquele prazer muito íntimo, pensei que estava tendo a chance de voltar os olhos para dentro, como quando meditamos. Senti essa coisa cujo nome desconheço e que me mantém viva - minha consciência, meu eu, minha pessoa, minha vida. E lá no fundo pensava pela milésima vez que foi isso que escapou do corpo da minha mãe, foi isso que se apagou, foi o que se extinguiu ou se transformou sabe-se lá em quê, foi isso que se afastou dela, é isso que nos mantém conscientes, é isso que ela não tem mais.

O fundo da água foi minha pequena epifania num dia tão rico quanto simples. Passei parte da manhã sujando o chão da sala de massinha, moldando carrinhos, frutas e todo tipo de formas coloridas com as crianças, rindo de bobices; comemos barulhentamente; acampamos na cozinha tagarelando para sempre enquanto eu fazia um bolo que só foi para a forma depois que Arthur e Amanda o batizaram com seus dedinhos, pescando pequenas quantidades para lamber. Se minha mãe estivesse viva e pudesse usufruir desses pequenos eventos, tenho certeza de que seu sorriso viria fácil. Era disso que ela gostava, de gente perto.

Atualmente minha sogra usufrui de tudo isso. Está conosco, faz parte de nossa rotina, enche-nos de alegria com sua presença, nós que gostamos tanto dela. Mas apesar de também ela gostar de nos ter por perto, de amar seus netos como minha mãe os amava, de ter o privilégio de vê-los crescer como minha mãe adoraria fazê-lo, minha sogra anda triste, cabisbaixa, angustiada.  Acompanhamos sua brava luta diante do abismo da depressão e da ansiedade e temos certeza absoluta de que vamos vê-la recuperar o ânimo que, por tanto tempo, pelo menos para mim, foi sua marca registrada.  Mas no meio de tudo, sinto-me vazia.

Eu não me reconheço aqui, nesse ponto, agora. Não me reconheço cada vez que me calo ao invés de abraçá-la e repetir milhões de vezes, tantas quantas forem necessárias, que ela vai ficar boa, que tudo vai passar. Era isso que eu fazia antes de dezembro. Mas agora me sinto incapaz de lhe passar a força e o apoio que sei que, em condições normais, eu passaria para ela. Olho ao redor, vejo tudo que minha mãe adoraria ter, tudo no colo de minha sogra, e não sei o que fazer disso. Eu sei o que eu queria fazer: ter força e vontade de olhar em seus olhos toda hora e lhe dizer palavras de ânimo, empurrá-la morro acima, carregá-la nos ombros, se pudesse. Mas não tenho feito muita coisa além de torcer muito. Eu adoraria ver toda a dedicação de Odisseus se transformar em dança de comemoração pela total recuperação dela, mas não tenho mexido um dedo nos últimos dias para gerar conforto. Eu simplesmente ando morna, com culpa e saudade. Culpa por não ser a fortaleza que minha sogra precisaria que eu fosse agora, saudade infinita de conversar sobre tudo isso com minha mãe.

Hoje ela me disse que não sabe como dizer à minha mãe que sou agora sua filha também. Diante de coisa tão linda, de tanto carinho, de tanta ternura, abracei-a rapidamente, muda como uma porta fechada que nem o vento balança. Cruzamo-nos na escada e seguimos nossos caminhos, ela mais doce, eu mais pesada. Como posso me sentir pesada depois de tamanha declaração de afeto? O que posso fazer para não deixar que minha tristeza pela partida de minha mãe me impeça de me desdobrar para ajudar minha sogra que está aqui, completamente aqui, ao alcance da minha mão? E eu a amo tanto. Como fazê-la de novo deleitar-se com a riqueza de sua rotina e afastar a tristeza que vem sabe-se lá de onde? O peso que sinto diante do carinho dela nada mais é do que meu reconhecimento de que estou fazendo muito pouco. 

Hoje, no fundo da piscina, entreguei-me ao jogo de sentir a vida e penso que, enquanto eu flutuava em meus devaneios, a presença de minha mãe me nutria e me preparava para seguir em frente. Era eu de novo no útero recebendo seus cuidados e me preparando para o mundo. O engraçado é que nunca estamos prontos.

Nojo


Às vezes reluto em escrever sobre algo que já foi tema de vários outros blogs, seja para não soar enfadonha, seja por não ter muito a acrescentar à discussão, etc. Mas hoje vou falar nem que seja por exercício terapêutico para, ao verbalizar, tentar organizar melhor o desconforto. Mas vou ser breve, porque não vou contar a história, vou só me posicionar sobre. Se você ainda não está por dentro do caso do abuso sofrido pela ex-escrivã da Polícia Civil de São Paulo, peço que se informe antes em outras fontes - há vários sites e blogs tratando do caso, para entender do que estou falando (você pode ler o post do Blogueiras Feministas, por exemplo). Peço desculpas, mas não quero mesmo descrever as cenas. 

Quero apenas expressar minha repulsa pelo ocorrido e pelo discurso que tenta justificar a ação dos policiais envolvidos. Desconheço outros detalhes do caso além dos apresentados pela reportagem do Jornal da Band, mas me parece que ela era mesmo culpada da corrupção de que lhe acusavam. Se assim for, isso a torna uma criminosa, um exemplo lamentável de agente público pago pelo Estado para defender a população de condutas criminosas e que, no entanto, age contra os cidadãos. Repudio sua conduta, supondo que assim seja - repito que só conheço os fatos sob a ótica exposta pela reportagem da Band. Mas isso não justifica, sob nenhum prisma, a atitude violenta e abusiva assumida pelos policiais que a expuseram à tamanha humilhação. Não justifica, tampouco, o silêncio de quem estava presente e não moveu um dedo para evitar o abuso. Ela não se recusou à revista, ela apenas pediu que o ato fosse feito como pede a lei. E se não havia policiais civis femininas presentes na sala, havia pelo menos uma militar e, certamente, muitas outras policiais civis no prédio onde eles se encontravam. O que se vê é um circo de horror e não sei se fico mais enojada diante do que aconteceu ou diante das tentativas de justificar o ato sob o argumento de "mas o dinheiro estava lá". Vê-la gritando para não ter suas roupas arrancadas por seus colegas diante de cerca de dez pessoas é revoltante. Inacreditável ver tantas pessoas insistindo de que foi tudo feito dentro da legalidade. Triste, muito triste.


Porta aberta


 
Blue

Ontem você veio e se instalou. E não importa o que eu faça, do que fale, o que leia, você está aqui comigo e não me deixa divagar muito. Ando falando de outras coisas, estrelas e tal, e a tudo você assiste impassível, espaçosa e quase tangível. Você não faz nada, só se manifesta, meio disforme, em minha mente. Você ocupa tudo e eu preciso falar de você. Preciso verbalizar isso para que você se torne mais perceptível para outras pessoas e, através da troca, eu possa moldar essa sensação, transformá-la em algo diferente de tristeza.

Então vou falar assim: lembro-me de que você colocou o pacote grande com a boneca no pé da minha cama na noite de Natal. Eu fingi surpresa no outro dia, mas eu vi a hora em que você entrou no quarto, eu ainda estava acordada. Achei bonito aquilo. Agora você também chega ao meu quarto à noite. Seria tão bom se fosse sua consciência, de alguma maneira. Seria tão bom se fosse mais que a minha saudade insistente. Eu não fingiria surpresa nenhuma. Eu diria assim: entre, fique aí.

***

Do que mantém a leveza:

Vira e mexe alguém sempre acaba falando que é preciso fechar a torneira ou apressar o banho porque a água do planeta um dia acaba. E aí:

- Vem, Amanda, vamos lavar as mãos.

Ela vem, repara que o sabonete líquido do recipiente está quase no fim e me avisa:

- Olha, mãe, vai acabar o sabonete do planeta.


Estrada tão bonita

 

Eu caio muito, sou bem desengonçada. Tropeço na escada e bato nas quinas dos móveis todos os dias. Tenho manchas pelas pernas regularmente e até me espanto quando não tenho nenhuma, fico procurando, deve estar ali em algum lugar. Sendo um pouco mais generosa comigo mesma, vejo que nem tenho caído tanto assim ultimamente, com exceção da aula de yoga na segunda-feira passada em que praticamente não consegui me manter em pé. Nota mental: deixar o mundo do lado de fora da sala de yoga.
 
Mas é fato que coleciono algumas quedinhas memoráveis. Já mergulhei loja adentro e não foi bonito. Já despenquei na escada da escola, na quarta série, e acho que meus coleguinhas riem até hoje. Já caí na rua, correndo para pegar ônibus e vi todos os livros que carregava esparramados e pisoteados pela calçada. Já caí no supermercado e quase levei uma criança junto comigo - a criança e a mãe riram tanto que me contagiaram e nos divertimos muito às custas dos meus joelhos. Caí de novo, outro dia, no mesmo supermercado, mas sem levar ninguém ao chão, estou melhorando.

Mas há dias em que caio por dentro. E fico sentada olhando ao redor. Não há gelinho que alivie.

***

Tive o segundo sonho com minha mãe. Mas ela não falou comigo. Estava frágil, doente e eu a carregava no colo, como se ela fosse um bebê. Ela era muito pequena no sonho, como se as coisas estivessem distorcidas e eu fosse muito grande, tal qual um avatar do filme. Tudo era grande, exceto ela. Acordei e vi que tudo é grande, só eu sou pequena.

***

Vi Bravura Indômita e há uma cena no filme em que o céu aparece completamente estrelado, daquele jeito que só somos capazes de ver se estivermos bem afastados das luzes da cidade. Foi só ver aquele cenário e, apesar de estar chorando e torcendo, lembrei-me imediatamente da primeira vez em que vi o céu assim. Foi há muitos anos, eu namorava Odisseus, minha vida já era dele e nós estávamos indo para a Serra do Cipó, no interior de Minas Gerais. A noite caiu quando seguíamos por uma estrada de chão, longe de tudo. Longe. Era meu conceito de felicidade naquela época: eu e ele, longe de tudo. Lá íamos nós; e depois de seguir mais um pouco e mergulhar no breu, Odisseus percebeu a belezura acima de nossas cabeças, parou o carro e apagou os faróis por alguns instantes. E foi a primeira vez em que a expressão Via Láctea fez inteiro sentido para mim, porque pude ver a via. Láctea, sim. Fotografei com meus olhos e guardei em minha cabeça a imagem daquele caminho de estrelas que fica sobre as nossas cabeças e que quase nunca vemos. Não vemos a coisa mais linda do mundo apesar de ela estar ali em cima porque nossas noites não são mais escuras. E eu penso nisso como uma alegoria para muitas outras coisas. Não é raro ofuscarmos algumas belezas porque acendemos um montão de outras luzes. E é meio inevitável, talvez. Mas seria bom, muito bom, dar um jeitinho de ver a Via de vez em quando. É inesquecível e muda um pouco a perspectiva. De vez em quando é bom apagar a luz.

(E há quem discorde, mas eu acho que o Jeff Bridges tá ótimo.)

Together



 
Alerta vermelho: post com grau altíssimo de corujice, só leia se estiver vacinada/o.

É uma notícia velha, mas preciso registrar para a posteridade.

Na semana passada, a Fada do Dente veio e deixou uma moedinha sob o travesseiro do Arthur. Era de pequeno valor, porque a Fada entendeu que era apenas um gesto simbólico, ela não tinha associado o dinheiro ao poder de compra, mas à comemoração somente. Há fadas bem ingênuas, ainda. Eu tinha dito ao Arthur que, se a fada viesse, ele poderia abrir o cofrinho dele, juntar a nova moeda às outras e comprar o que quisesse com seu dinheiro. E assim foi.

Era sábado e eu fiquei em casa fazendo um bolo, enquanto todo o restante de população da casa foi à loja de brinquedo. Então eu não estava lá, mas vou contar a coisa como o Ulisses me disse que aconteceu.

O Arthur tinha cerca de trinta e sete reais em moedas que eu havia colocado em uma niqueleira que herdei da vovó Berna (depois de retiradas do porco-cofre). Com a niqueleira na mão, ele passeava pelos corredores, escolhia um brinquedo e perguntava ao pai se conseguiria pagar por aquilo e se sobraria algum dinheiro para dar um presentinho para a Amanda. O Ulisses me disse que a ideia veio do próprio Arthur e que, por causa dessa decisão, ele deixou pra trás vários bonequinhos e carrinhos escolhidos pelos quais até poderia pagar com seu dinheirinho, mas que não o deixariam comprar outra coisa para a irmã. Em certo momento, ele escolheu uma boneca para ela, que custava dez reais. Andou por algum tempo com a boneca na mão, procurando pelo brinquedo que seria dele. (Pausa. Ulisses me contou que, a essas alturas, Amanda reclamava que não tinha gostado da boneca, enquanto ele explicava que seria um presente do mano e que quando ganhamos presentes não escolhemos nem pitacamos nada.) Então Arthur finalmente viu um Homem de Ferro. Pronto, achou. Trinta e cinco reais, mais ou menos.

- Dá, pai?
- Dá, filho. Não dá para comprar outra coisa pra Amanda, mas dá pra pagar com seu dinheiro, sim.

Olhou mais um pouco. Um Homem de Ferro menor. Vinte e nove reais.

- Dá, pai?
- Dá, filho. E ainda sobra.

Arthur pegou  o Homem de Ferro menor, circulou mais um pouco e encontrou um pote de massinha pula-pula não-melequenta, pelo qual a Amanda morreu de amores, por cinco reais, olha que menino de sorte. E rumou satisfeito para o caixa, entregou a niqueleira para o moço e me encheu de orgulho, fim.

Eu vivo me perguntando se estou agindo de modo a passar para os meus filhos a noção de que as coisas não estão ali sempre à mão, que é preciso conquistá-las; mais do que isso, pergunto-me se consigo demonstrar que coisas importam menos do que parece. Em episódios assim, vejo que é possível que estejamos caminhando bem. Seria absolutamente comum e aceitável se o Arthur só se preocupasse com seu próprio presentinho, já que ele tem cinco anos e os pequenos são egocêntricos, sim. Mas, assim como no episódio do chocolate no primeiro dia de aula, Arthur pensou na irmã e eu acho isso um indício muito, muito bom.

Generosidade, filho. É por aí, sempre. Generosidade. Te amo demais, seu pititico.

Pequena divagação sobre os abismos


Uma terapeuta me falou que anda se assustando com o número de jovens que trata em seu consultório vítimas de ansiedade. De acordo com ela, atualmente há mais ansiosos que deprimidos por aí e isso estaria diretamente relacionado com a correria, a competição, as cobranças que impomos a nós mesmos todo santo dia. Penso sobre isso e acho que "é preciso" ser e ter tanta coisa nesse mundo que é mesmo um espanto que parte de nós ainda consiga controlar a tal ansiedade (na realidade, nós inventamos muitas de nossas necessidades, mas se acreditarmos que são necessidades...). 

Faço uma varredura rápida em minha mente e me lembro, sem qualquer esforço, de quase quinze pessoas (na esmagadora maioria, mulheres) que conheço e que já lidaram ou lidam com depressão ou ansiedade. É muita coisa. 

O que raios está acontecendo com o mundo? Por que tanta gente inteligente, com vida social e cultural ativa, perde as rédeas da ansiedade (certo grau de ansiedade é até bem normal e saudável, sim?), por que tanta gente é derrubada pela tristeza e desânimo profundos da depressão? E por que isso ocorre com tantas mulheres - ou minha amostra não é significativa? Não estou aqui, claro, procurando razões clínicas, pontuais, caso a caso. Estou me perguntando o porquê dessa aparente epidemia - aquela terapeuta me disse que é mesmo espantoso o número de jovens ansiosos em seu consultório, incapazes de tocar suas vidas porque têm medo, sem que saibam exatamente do quê.  

O que é isso? Que valores cultivamos que nos empurram para esses abismos? E quem está imune? 

Mosca morta



Não, não jogo tênis.

Hoje confirmei minha tese (facilmente contestável por quem quiser fazê-lo, tô só puxando assunto; na verdade, não há tese alguma) de que criar dois filhos é mais fácil que criar um só. Da hora em que acordaram de manhã até agora, início da noite, Arthur e Amanda brincaram o dia inteiro. É muito bom brincar com eles, mas também adoro vê-los brincar sozinhos, desenvolvendo seus códigos, suas normas, resolvendo pequenos conflitos, enfim, ensaiando, né. Gosto demais. Descontando-se os intervalos para almoço, lanches e banho, foram longas horas de espalhação no tapete e interação ininterrupta. É bem verdade que se eu tivesse um só filho ou uma só filha ninguém teria atirado o trinco da porta na cabeça do outro, mas esse foi o único percalço do dia - felizmente sem grandes consequências, já que "largou" é um verbo mais apropriado para descrever o que aconteceu do que "atirou" - e crianças que brincam sozinhas também se machucam (olha eu aí forçando para segurar a tese inexistente, perceberam?). Houve sermão, confisco de brinquedo e castigo.

(Durante o castigo do mais velho, presenciei uma cena daquelas que, aí sim, só mesmo com dois em casa: enquanto ele, proibido de brincar por alguns instantes, sentado para refletir sobre o que havia feito, etc., amargava aqueles momentos sem graça, toca o telefone. E fiquei ali pendurada com a amiga num papo bom, sentada estrategicamente próximo à porta do escritório, de modo que conseguisse ver o ambiente do castigo e os movimentos da outra. E eis que presencio uma cena de contrabando de brinquedos: esgueirando-se pelo corredor, de quatro como um gatinho, Amanda levava um livro e um quebra-cabeças para o irmão que estava impedido de circular. As risadas abafadas e as carinhas de espertice mereciam um filminho caseiro. Eu não deveria admitir assim em público, mas por alguns instantes fingi que não vi porque a cena tava fofa demais. Por isso que sociedade fica daquele jeito depois, né. Shame on me. Tudo bem, tudo bem, depois dei duro e acabei com a festa.)

Então, findo o castigo, bonde seguindo, voltemos à sala. Como estavam os dois entretidos, apesar do brinquedo confiscado, e o marido tinha saído em um passeio com minha sogra e familiares que estavam em visita por aqui, joguei-me no sofá para conversar com Catherine Heathcliff. Com a chuva despencando lá fora (que não chegou a melar o tal passeio do marido, pois estavam no outro lado da ilha) e o vento uivando pra valer (e enlouquecendo nosso cachorro), ler Wuthering Heights parecia a pedida ideal para minha tarde dominguenta. Perfeito, pensei. Mas aí veio a mosca.

Ó senhor, eu sou uma moça limpinha, não havia comida na sala, a casa estava toda fechada por causa da chuva, what the hell! A princípio tentei ignorar, dar uma abanada aqui outra ali quando fosse preciso, seguir com a leitura e a preguiça. Mas foi impossível manter a pretensa indiferença, porque aquela era uma mosca obstinada. Aliás, típica. Não tive alternativa senão fechar o livro após dois parágrafos, bufar, xingar baixinho por causa das crianças e sacar o supermatador elétrico em forma de raquete. E, olha, eu queria ter os reflexos de uma mosca, viu. Mas se o lance é ser obstinada, presente!, cá estou. Zup, zuup, zuuup, acertei, e deixei de ser a única mosca morta deste domingo, fritei a danada! Fri-tei, perdoem-me as defensoras e defensores da ideia de que não se deve matar nem mosca. Eu mato moscas. Preferia não matá-las, é verdade, se pudesse optar por nunca vê-las, mas se invadirem meu espaço, sorry. (Muitas vezes vou errar as raquetadas, mas desistir, jamais. Quer dizer, desistir, só de vez em quando, nos dias de pontaria ruim - a maioria deles.)

E pude enfim retomar meu livro, para, duas páginas depois... cochilar com ele despencado no nariz. A culpa foi das TV que as crianças ligaram e que me embalou, não do livro, claro está. Mas nem tudo estava perdido porque dois minutos depois meu cachorro enlouqueceu pra valer e me acordou de vez. Outra meia página vencida, marido voltou cheio de eficiência, deu banho nas crianças e nos mudamos para a cozinha para encher a barriga, falar mal das moscas, trocar informações sobre passeios e castigos, anoitecer juntos.

A noite já chegou mais cedo por causa da chuva e das nuvens negras, os pequenos baixaram um pouco a pilha, o sofá agora é do marido. O livro me espera, o calor me derrete e há vários assuntos me cantando para um post. Mas sentei aqui e antes que conseguisse escrever a primeira linha sobre um assunto sério, pensei que refletir demais hoje seria quase uma mancha nesse dia tão largado em que a maior aventura foi matar uma mosca.  Deixa assim.


Quando o carteiro chegou

Talvez ao ler este post você fique com a impressão de que não passo de uma criança. É por aí.


***



Então o dente caiu na escola, provavelmente na hora do lanche. O dono do dente nem percebeu; só se deu conta quando sentiu a boca "estranha". E contou que foi assim:

- Fulano, meu dente caiu?
- Dá uma risada pra eu ver.
- :-D
- Caiu!

E o rebuliço foi total, todo mundo procurando pelo chão. Daí surgiu a história de que só pode estar na barriga, porque ninguém encontrou. Teremos fada do dente.

***


Já faz alguns anos comprei O Carteiro Chegou (The Jolly Postman), de Janet & Allan Ahlberg. Na época, não sabia nada sobre o casal de autores ou sobre a obra. Não sabia que os dois passaram cinco anos preparando o livro (ele escreveu os textos, ela ilustrou), nem que eram ingleses ou que a primeira edição foi publicada em 1986. Eu não sabia que estava comprando uma obra premiada e badalada, que já vendeu milhões de cópias mundo afora, em várias línguas, porque eu nunca tinha ouvido falar do tal Carteiro. Mas comprei porque me apaixonei à primeira folheada. Apaixonei-me pelo formato, pelas gravuras e pela ideia da história - um carteiro que segue em sua bicicleta, com sua sacola cheia de cartas e cartões, distribuindo a correspondência de personagens de diversas histórias infantis - cartas e cartões que estão em envelopes dentro do livro, soltinhos para serem retirados e apreciados à moda antiga.


Li alguns trechos e gostei do texto levemente divertido, sem grandes pretensões, mas alegre e com muito combustível para a imaginação: Joãozinho mandando um cartão-postal para o Gigante, a Bruxa Malvada recebendo um panfleto do Empório da Bruxaria divulgando as últimas promoções imperdíveis (megavassourão, pó de sapo, etc.) ou Chapeuzinho Vermelho enviando um cartão de aniversário para Cachinhos Dourados, assim:

"Quem me dera ter agora
um cavalo de vento,
para dar um galopinho
onde está meu pensamento."

Comprei o livro e guardei lacradinho porque achei que Arthur ainda era muito novo para apreciá-lo. Ainda não lia nada de nada e não conhecia todas as histórias referenciadas pelos autores. E foi muito bom ter essa carta na manga hoje, no dia em que ele tanto vibrou com seu primeiro dente despencado. Presenteei meu banguelento com o pequeno tesouro, ele adorou e juntos nos esparramamos no sofá. Ele lia uma parte, eu lia outra; ele explorava todos os envelopes dentro do livro, abrindo cada correspondência como se fosse ele o destinatário; eu babava com as ilustrações fofíssimas (tô nem aí, pófalar). Gostei de tudo, mas adorei a carta dos advogados dos Três Porquinhos cobrando do Lobo Mau uma indenização por perdas e danos, hohoho.

O Lobo Mau recebendo, dentro de uma história, as más notícias vindas da outra.

Carta da editora para Cinderela, comunicando que vão publicar sua história! Go girl!

Arthur leu tudo de novo depois e acho que sua correspondência preferida é o grande panfleto com ofertas para bruxas, mas pode ser que mude de ideia nas próximas leituras que, desconfio, serão muitas. E eu estou muito orgulhosa por ter me comportado tão bem e nunca ter violado a embalagem do livro antes de dar para ele. Lutei bravamente contra as muitas tentações.


Detalhe da bicicleta do carteiro estacionada junto ao pé de feijão, enquanto o carteiro visita o gigante.


Fico viajando (ninguém me segura) na imagem do casal preparando o livro durante vários invernos ingleses, ele bolando as cartas, ela cuidando de cada detalhe das gravuras lindas e cheias de capricho. Se alguém souber de alguma história sobre a vida desse casal que possa destruir a imagem romantizada que criei, por favor, não me conte. Olho para cada pedacinho do livro e só vejo ternura - e tá bem bom assim... :-)

No Brasil o livro é publicado pela Companhia das Letrinhas, com tradução de Eduardo Brandão. Recomendadíssimo, não importa quantos dentes você tenha na boca.


O tempo


Li na Wikipedia que tempo, na Física, é definido como "a grandeza física diretamente associada ao sequenciamento, mediante ordem de ocorrência, de eventos coincidentes (...)."

Mas hoje, para nós aqui de casa, o tempo - aquele que voa - é definido assim: nosso filho Arthur, de cinco anos, está com seu primeiro dente mole. :-)



On canvas


An eye with a view, Dali.

Estou caminhando por uma passarela rente a um ancoradouro. Estou bem impressionada com o tamanho daqueles navios gigantescos, à minha direita. Caminho por um bom tempo, sempre mirando os navios. Alguns são brancos, outros são cor de chumbo. A certa altura, olho à minha frente e percebo que a passarela onde caminho se elevou e não estou mais no chão, como supunha, mas sobre uma estreita barra de ferro a muitos metros do chão. Como uma ponte quebrada, meu caminho se interrompe no meio do nada. Com muito medo, sentindo a barra oscilar levemente, evito olhar para baixo e me concentro em caminhar para trás até retomar o caminho seguro lá embaixo. Corta a cena. Estou de novo no chão, olho para os meus pés e me concentro em dar a partida, como se fossem um carro. Recomeço a andar, aliviada por ver que estou de novo em terra firme e que o caminho branco é aparentemente sem fim. Volto a olhar para os navios.

***

Um bingo. Não como os de cassinos, é mais uma feira, uma quermesse. Não sei quem são essas pessoas, o ambiente está bem apertado e tento me concentrar nos números sorteados. 03, 05, 06... eu não tenho o seis, mas estou indo bem. Tudo parou e um barulho esquisito chamou a atenção de todos que estão comigo. Começamos a olhar para os lados, movendo nossas cabeças em câmera lenta; é uma sirene? E no melhor estilo A Origem, percebo que é a centrífuga na cozinha. Acordo, atrasada.

***

Meu pai está com medo das velas. Há velas pela casa, mas eu não dou muito bola para esse papo; nem minha tia. Mas quando nós duas entramos na despensa, vemos as duas velas se acenderem sozinhas, com uma lufada de calor. E meio segundo depois as chamas somem. Então nos entreolhamos e percebemos que ele está falando a verdade e, nesse momento, compartilhamos de seu pavor. No quadro seguinte, eu e ele tentamos controlar uma grande chama que flutua a nossa frente. Todo o ambiente é muito escuro, só há a luz da chama, muito parecida com uma grande tulipa, que ilumina o grande, nítido rosto de meu pai.

***

Ah, se eu fosse pintora. Rita Dali. Toda noite um quadro novo.

Dois meses


- Alô?
- Oi, minha filha, sou eu.
- E eu num sei... :-) Tudo bem?
- Tudo.
- Alguma novidade por aí?
- Não, a gente já se falou ontem, né? Liguei só pra ouvir tua voz!
- Bonitinha...

***

Saudade é um penhasco.


Só o limão


Certa vez meu tio nos contou como era dura sua rotina de menino que acompanhava o pai em longas viagens de burro e carroça até a zona rural onde vendiam ou compravam nem me lembro bem o quê (ajuda aí, primos!). Ainda vou contar essa história direito, mas sei que tudo era longe, a viagem durava um dia, a estrada era ruim e o sol na cabeça não devia ser fácil - estamos falando de algum interior da Paraíba. Esse cenário hoje tem estradas e grandes mercados, mas foi dos tempos das carroças de que me lembrei agora há pouco.

É que liguei o ar-condicionado do escritório, sentei-me em frente ao computador, acessei o site do supermercado que frequento toda semana e, para diminuir a correria de amanhã, fiz as compras online. O site melhorou muito sua interface com o cliente, então gostei bem, selecionei produtos, paguei com o cartão de crédito e finalizei a compra em cerca de 40 minutos (sou lerda, dá para fazer em menos). Amanhã as compras serão entregues na nossa casa e vou elogiar as maçãs "tão vermelhinhas".

Se eu fosse uma pessoa bacana, tudo estaria tinindo. Mas a verdade é que foi só sentar em frente ao computador para eu soltar um "droga de mercado, eu queria era ler blogs!". Quer dizer, o mundo é bem complicado, mas às vezes é só a gente que azeda. ;-)

O primeiro dia de aula


Porta da sala da Amanda, Infantil C. 

Radiante é a melhor palavra. Finalmente ela poderia acompanhar o irmão na tão esperada ida à escola. Não iria mais se despedir dele após o almoço, conformando-se com um repetido "ano que vem você vai também". Hoje ela também tinha uniforme novinho, tênis com meias da escola, mochila e lancheira. Tinha lindas maria-chiquinhas que deixavam seu rostinho aceso completamente à mostra para o nosso total, irrestrito e megacoruja deleite. O irmão, veterano do mundo das escolas, dava dicas importantes e desfilava toda sua experiência em frases como "na hora do lanche você vai tomar o suco, tá?" e "hoje não é dia de levar brinquedo". 

Eu não cabia em mim de orgulho do meu pequeno garoto tão vivido, todo gatinho em seu próprio uniforme, feliz por retomar a rotina de vai-e-vem, confortável em sua vida de aluno. Mas estreias têm o seu charme e hoje ele vibrou com o fato de que era o primeiro dia de sua irmã. E lá fomos nós, depois de várias fotos para a posteridade, deixando em casa uma vovó chorosa e uma tia Neia orgulhosa por ver a Amandinha partindo para os primeiros voos imprevisíveis. E imprevisível é outra palavra boa aqui.

Porta da sala do Arthur, 1º ano.

Antecipei tudo: apesar de todo o entusiasmo, seria normal certa hesitação na hora H, um bico aqui, um ensaio de chorinho ali, insegurança clichê de quem até hoje passava os dias em casa. Por isso o unicórnio rosa foi junto pro carro - e claro que a professora permitiria - e por isso avisei ao chefe que certamente chegaria tarde ao serviço porque não fazia ideia a que horas eu conseguiria me desvencilhar da pequena, se é que teria coragem de deixá-la lá. Como a aula de natação seria logo após a escola, planejei um lanche já na academia, porque, obviamente, ela estaria moooorta de sono após um dia tão fora da rotina à que está habituada, caso conseguisse passar a tarde toda na escola, claro, e fatalmente adormeceria no carro a caminho de casa.

O estacionamento da escola estava algo entre lotado e abarrotado, então largamos o carro já  na calçada e seguimos a pé por alguns metros. Cada um com sua mochila de rodinhas e eu com meu nó na garganta. Meus planejamentos se mostraram absolutamente inúteis já aí, porque o unicórnio nem chegou a sair do carro. "Não vai levar, Amanda?" "Não", respondeu olhando para o grande prédio na esquina.


Até a entrada do prédio das salas de aula, a caminhada foi guiada por Odisseus e por mim, em meio a um estacionamento inquieto demais pro nosso gosto. Mas foi só se deparar com a rampa que ela associava, em sua cabeça, às salas de aula (certamente lembranças das poucas vezes em que a levamos conosco à escola no ano passado para buscar o Arthur) e ela disparou correndo rampa acima, puxando a mochila, deixando-nos para trás. Arthur ria, satisfeito "mãe, ela tá doida pra achar a sala dela!", enquanto eu driblava pais e alunos. Consegui alcançá-la no topo da rampa, quase em frente à sua sala. Ela já sabia que sua sala seria "a sala dos três porquinhos". Diante das figurinhas na porta, não teve dúvidas. Abriu um sorrisão e me mostrou, linda demais: "Ó, mãe! Os tês poquinhos! É aqui!" E entrou. Ignorada, segui atrás, mostrei-lhe onde pôr lancheira e mochila e apresentei-lhe a professora. Ela abraçou a professora. Abraçou a professora... Mirou a estante de brinquedos, os coleguinhas que já estavam ali, catou uma bolsinha, uma hello kitty e sei lá mais o quê e nunca mais me viu. Fiquei por ali, sem palavras, de cócoras em meio a várias crianças lindas e exploradoras de brinquedos, suspirando e segurando o choro. Saí de fininho (certamente para que eu mesma não me visse, porque a essas alturas Amanda nem se lembrava mais que tinha casa, família, essas coisas) e fui até a sala do Arthur. O pai já o levara lá e ele já estava sentado ao lado do amigão (que está cheio de dentes novos!), todo falante e sorridente. Cumprimentei a professora, fiquei por ali, sendo ignorada pelo outro filho menos de dois minutos depois de a Amanda também ter me esquecido.


Transitei pelas duas salas por alguns instantes, a louca da máquina fotográfica, revendo pais, colegas do Arthur, professoras. Depois que a professora do Arthur fechou a porta da sala, plantei-me à porta da sala da Amanda e fiquei ali. Vi uma menina segura, linda, curiosa, grande. Gente, ela tá tão grande. Odisseus fez o que eu queria fazer, pegou o telefone e ligou para a mãe dele, contando tudo. Voltei a entrar na sala, fiz um carinho em suas maria-chiquinhas, disse que iria trabalhar e logo voltaria, mas ela não me deu a mínima porque estava fazendo pizza. Cerca de meia-hora depois fomos embora. Nossos amores ficaram ali, plantando as sementinhas de suas asas.

Fomos tocar nossa tarde e quando voltamos à escola foi preciso lembrar à Amanda que dali ela iria para a natação, não para casa. Só assim largou o brinquedo, também incentivada pelo meio chocolate que o irmão lhe deu (assim que recebeu o doce da professora, na hora da saída, olhou para mim e falou: "mãe, vou comer metade e dar a outra parte pra Amanda" *suspiro*). Seguimos para a academia, eu e Odisseus cansados, eles a mil. Depois de nadar e lanchar (lembram do plano?), seguiram conosco para casa, ao som da voz da Amanda que cantou durante TODO o trajeto. Brincaram pela sala até não mais poder, passaram da hora de ir para a cama e Amanda só se calou porque avisei a ela que é preciso descansar para ter energia e ir para a escola amanhã de novo.


Não tirei minha mãe do pensamento um só minuto. Teríamos trocados muitos telefonemas hoje, muitos. Lutei muito para conter o choro na escola hoje, profundamente emocionada com esse dia que seria tão divulgado por ela. Ela contaria a todos, toda orgulhosa, esperaria ansiosa pelas fotos que fiz e daria os parabéns à neta por telefone. Lembraria do primeiro dia em que me levou à escola, de como chorei tanto, de que a escola se chamava Pequeno Príncipe, isso e aquilo. Eu adoraria dividir minha emoção de hoje com ela, adoraria. Em meio a tudo, é uma solidão imensa, imensa, imensa.

Eu, em foto providenciada por minha mãe; se ela tivesse tido um blog, certamente teria incluído em um post. 

Ao mesmo tempo, penso que todo esse turbilhão em meu coração só acontece porque vê-los felizes e ativos me acaricia a alma. E ela gostaria de me ver sorrir. Vejo lampejos de serenidade porque hoje ficou muito evidente que sempre vou dividir tudo com ela.  

Ansiosa, eu??!!


Acabaram-se as férias do Arthur. Amanhã ele volta, agora no 1º ano, e a Amanda começa sua história com a escola; e meu coração está aos pulos.

***

- Mãe, acho que esse ano vou ter só um pouquinho de parque na escola.
- É, por quê, filho?
- Porque o livro de Matemática é deeeesse tamanho!
...
- Que você tá fazendo, mãe?
- Bolo, filhota. Aí você vai poder levar uma fatia pra escola, na sua lancheira.
- ÊêêêêêêBAAAAAAAAAAAAA!!! Manoooooooo! A mamãe tá fazendo bolo e a gente vai pa escola AGOLA!!! 
- Não, filha, não é agora! É só amanhã, minha linda. Hoje ainda é domingo.
- Ah, mãããããeee...

Calma, florzinha. Tá chegando. 

***

Ai, vovó Berna, cadê você? 



De cisnes e outras belezas



Está tudo pronto para a volta às aulas. Ontem fomos à escola entregar o material escolar, conhecer as novas professoras e também as salas-de-aula. A mochila está a postos, a lancheira aguarda as comidinhas e os uniformes descansam na gaveta, curtindo seus últimos dias de tecidos sem mancha. Enquanto o Arthur anseia por reencontrar os amigos, Amanda devaneia sobre o que a espera, os olhinhos voltados para o teto, filosofando "é, vou obedecer à pofessola, senão vou pa sala da Isabel..." - como, vocês podem perceber, o irmão já tratou de ensinar a ela o nome da coordenadora.

Foi bom ver que as salas são praticamente vizinhas, o que deve facilitar bastante a logística na hora da chegada. Talvez seja bom para a Amanda saber que o irmão está logo ali, ao lado; talvez isso seja ruim para a professora dela. Talvez isso atrapalhe a concentração do Arthur. Talvez eu devesse parar de tentar adivinhar chuva. Talvez eu devesse simplesmente me lembrar de como eu amava tudo isso quando tinha a idade deles. Talvez eu devesse acreditar que minha mãe estará vendo a Amanda em seu primeiro dia de aula.

Infantil C e 1º ano: meus assuntos para 2011.

***

Amanhã Tia Maria faz 81 anos. Vocês já sabem dela, porque em seus 80 eu espalhei aqui. E pode ser que amanhã seja triste por causa do abraço que ela certamente receberia ao nascer do sol, enquanto levasse o café da manhã para minha mãe em sua cama. Pode ser que ela sinta tanta falta desse abraço que seu sorriso fique amarelo ao receber os muitos outros abraços que virão. Pode ser que me falte a voz ao telefone. Pode ser que ela nem consiga me ouvir em meio às suas próprias lágrimas. Mas também pode ser que a gente consiga suspender o choro e celebrar sua vida longa que nos traz tanta alegria. Porque mesmo com todo o tamanho da falta que mamãe fará amanhã, nossa felicidade por ter minha tia conosco é imensa também. Feliz aniversário, tia. Muitas saudades.

***

Ontem fomos ao cinema ver Cisne Negro. Não vi nenhuma das atuações das outras atrizes que concorrem ao Oscar de melhor atriz, mas fico me perguntando quem irá superar a Natalie Portman. E o cisne negro surgindo é uma daquelas cenas que entram para a história do cinema. Lindo. Andei lendo no blog da Caminhante algumas histórias interessantes sobre o mundo da dança - o mundo que eu gostaria de ter frequentado, mas que não estava no script que me foi dado quando nasci e que não cabia mais na refilmagem que fiz depois - e, vendo Cisne Negro, chego a ficar arrepiada diante do potencial destrutivo que competição e vaidade carregam consigo. Mesmo que seja Tchaikovsky tocando, mesmo que seja a bailarina voando, plainando sobre seus pés magoados por tantos sautés, ali está a vaidade nos rondando e nos lembrando que seria bom, sim, se o mundo fosse só leveza e arte, mas que, infelizmente, lá estão os bastidores (os do teatro e os da nossa cabeça) cheios dos fantasmas mais tenebrosos. Ainda bem que sou teimosa e a beleza me desarma.

***

Fevereiro já está atravessando a rua e só agora agradeço um mimo que me foi dado em dezembro. Veio da leitora Danielle, de seu blog colorido. Danielle, querida, muito obrigada por seu carinho, não repare no atraso nem na minha mania de não seguir todas as regrinhas dos tais selinhos, viu? A gratidão não é menor, acredite. Quanto à imagem que seja significativa para mim, que deve acompanhar o selo (para não dizer que não falei de regras), vou ficar com o poderoso cisne negro da Portman, minha dor de cotovelo particular por não ter sido bailarina. De texto ficam os acordes inebriantes da música de Tchaikovsky que não saem da minha cabeça desde ontem, sorte minha. :-)



 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }