Escola, religião e amor



Vamos ver se consigo falar disso sem chocar muita gente: meus filhos estudam em uma escola católica, ainda que aqui em casa sejamos agnósticos (oops, alerta de possível choque para todos: para a parte religiosa da família e para os amigos agnósticos, mas vamos em frente). Fui criada em uma família católica, estudei em colégio católico, tenho parentes de outras religiões, mas, até onde sei, sou a única na família que se considera à margem da crença e da adoração. Respeito todas as vertentes da fé, sejam elas cristãs, islâmicas ou budistas, vejo nitidamente que a religião faz muito bem a várias pessoas que conheço e não tento convencer ninguém de que minha visão é mais ou menos certa do que essa ou aquela outra forma de enxergar a vida - até porque, né, ninguém sabe nada; a gente meramente acredita, não acredita, acha ou supõe. Mas, por ora, não compro o que nenhuma religião vende e cá comigo acho que ser “do bem” e alimentar o amor universal, o respeito pelo outro e a solidariedade, entre outros valores, não têm necessariamente algo a ver com religiosidade. Não quero amar o próximo porque espero benefícios eternos ou porque temo punições, mas porque não concebo nossa passagem por aqui se for para cuidar apenas do nosso umbigo. E obviamente essa conversa é infinita, de onde viemos, para onde vamos, essa coisa toda, mas o papo aqui agora é bem mais específico do que o sentido da vida: o lance da escola.

Participo de uma lista de discussões que, de ontem para cá, andou tocando no assunto. Algumas participantes trocaram ideias sobre matricular ou não filhos em escolas onde a religiosidade se faz presente, ainda que, em casa, pretendam passar para os filhos uma formação agnóstica. Mencionei que meus filhos estudam em uma escola católica, mas que, até agora, isso não gerou nenhum conflito, pelo menos nada muito evidente, e que acredito que seja assim por conta do enfoque multicultural dado ao ensino religioso por lá, como falei aqui nesse post do ano passado. (Pausa para vocês lerem o post, se quiserem.)

Disse lá e repito aqui que a questão religiosa é tratada na escola dos meus filhos muito mais como um fenômeno sócio-cultural do que como dogma a ser transmitido de forma inquestionável (o oposto do que ocorria na escola onde eu estudei, que tinha freiras como professoras e onde religião era sinônimo de catolicismo) e que isso também é conhecimento e cultura - e é bom. Acho mesmo que faz diferença: a partir do momento que a criança percebe que as manifestações religiosas variam profundamente de um contexto social para outro, ela tem a chance de desenvolver um olhar crítico sobre o assunto e, tchan-ans, questionar o fenômeno da religiosidade. Nada é natural, óbvio, intocável, mas construído socialmente. Bem diferente de termos rituais católicos ensinados como se fossem a forma oficial de ter contato com Deus, por exemplo. Então apesar do nome e das tradições que rondam a escola do meu filho, lá está em sua “concepção de escola”: “pensamento crítico, desmistificando a verdade única e imutável”.

O grande foco da conversa de ontem, contudo, foi um pouco além. Porque nos parece que aceitar manifestações variadas de fé no ambiente escolar tem se tornado relativamente comum - uma tendência em um mundo onde discursos pluralistas ganham cada vez mais espaço - desde que a fé esteja presente. Mas a discussão do grupo se voltou para o espaço dado à criança de formação familiar agnóstica e aí é quase consenso a noção de que o ideal é, afinal, uma escola laica. Bom, eu até concordo, mas infelizmente não encontrei esse ideal.

É claro que, acreditando que o Estado deva ser laico e sendo eu mesma agnóstica, e pretendendo deixar meus filhos inteiramente à vontade para seguirem na crença que melhor lhes convier (se alguma lhes convier, claro está), seria natural que eu mesma fizesse questão de matriculá-los em uma escola laica, onde ensino religioso não integrasse o currículo e onde questionar a existência de Deus não fosse encarado como heresia. Mas, honestamente, pelo menos no meu caso, o fator “religiosidade” não se sobrepôs a outros fatores que considero importantes na educação formal das minhas crianças. Naturalmente, se a escola onde estudam adotasse uma postura doutrinadora, exclusivamente católica, bla bla bla, eu dificilmente os manteria por lá, mas não é o caso.

Incomoda-me muito mais o fato de eu recorrer a um escola particular em detrimento de uma boa escola pública (e, aí sim, necessariamente laica) que nos garantisse a tranquilidade de fortalecer em nossos filhos a importância de um Estado presente da forma adequada em nossas vidas. Porque, de um jeito ou de outro, nunca vou obrigar que meus filhos concordem com minha visão agnóstica de mundo. Eles serão livres para manifestar seus questionamentos e suas crenças em nossa casa e não faltará diálogo para esclarecer o que pensamos acerca dos mais variados assuntos relacionados com transcendência, vida após a morte, criação do universo, o que for. Então entre uma escola “religiosa” com bom projeto pedagógico e boa estrutura e uma laica mal administrada, fico com a primeira e mantenho os olhos bem abertos às discussões em torno das religiões. Porque, no fim das contas, não somos religiosos, mas não nos importamos de conviver com pessoas que o sejam. Além disso, o fato de ter filhos matriculados em uma escola laica não é garantia de que eles estarão de todo livres de “ameaças” impostas por professoras carolas que, cedo ou tarde, saquem um “não faço isso que Deus castiga”. Claro que estou simplificando (e claro que rola aqui uma pequena dor de cotovelo por não ter encontrado a boa escola laica que eu gostaria), mas a verdade é que garantia é espécie em extinção.

Aposto no poder da conversa e em uma escola que amplie as chances de meus filhos desenvolverem aquela simpatia pelo pensamento científico, ao mesmo tempo em que percebem que o mundo é tão variado que ficamos tontos só de pensar. E que isso é muito bom.

***

- Mãe, quando a gente morre, nasce de novo?
- Ninguém sabe, filho. Mas muita gente acredita que sim.
- A minha amiga (vou preservar o nome da fofura) acredita. E eu acredito também.
- Tudo bem, filhote, pode ser. A ideia é bonita, seria bom, né?
- É, seria muito bom. Me dá água? Gelada, hein!
- Por favor, o quê?
- Por favoooor, me dá uma água geladinha...
- Seu pititico.
- :-)

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Quando alguém que me conhece, e que acredita em Deus, tenta me consolar pela perda de minha mãe com palavras como "Deus te dará forças" e outras nesse sentido, sinto-me recebendo um carinho, um abraço. Sei que essa pessoa está me oferecendo o que ela tem de melhor para aquele momento: ela está usando sua fé para tentar me fazer bem e de forma alguma isso me incomoda. Não acho que sou dona da verdade. Sou só uma pessoa cheia de dúvidas, com a cabeça fervendo de questionamentos. Espero que, lendo este post, ninguém passe a achar que suas manifestações de religiosidade me incomodam. Muito pelo contrário, tenho recebido diversas manifestações de carinho desde que minha mãe foi embora e em muitas delas a ideia de Deus está muito presente. Recebo todas, com amor no coração e profunda gratidão. Sinto-me, digamos, abençoada por receber tanto carinho. Se eu tivesse o hábito de fazer orações, essas pessoas estariam em todas elas.

Enrolação


Enquanto o planeta cozinha lentamente, aqui em nossa toca fazemos o possível para não deixar que os miolos derretam. Pelo menos os miolos. E por falar em pelo menos, pelo menos hoje tivemos vento. E molho de camarão no macarrão. "Camarão no macarrão" - é demais para minha pequena de três anos, que luta, luta, luta, mas só consegue dizer macarrão no macarrão. "Papai, não quero maca... carra... macarrão no meu macar... Ai, pai, não quero assim, quero só esse".

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Mas ela já sabe prender a respiração embaixo d'água e preciso dar um jeito de filmar isso. No concurso de A Imagem Mais Fofa do Mundo, vou enviar uma sequência da minha menina com a carinha enfiada na água, com boinhas de braço, contorcendo-se sobre a água num nado só seu. Fico lá no fundo da piscina, olhando pra cima e me deleitando com minha peixinha que, mal ergue a cabeça, já fala, ofegante, enquanto afasta os cabelos grudados nos óculos de natação: "mamãe, vamu de novo!!". Na boa, é muito lindo. Sabe aquelas imagens que nos deixam leves como almas? Pronto, é dessas.  

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Em segundo lugar, o concurso d'A Imagem Mais Fofa do Mundo pode eleger a sequência final de Toy Story 3, o que vocês acham? O coração até aperta. Como é que pode, gente? É um desenho animado, mas o coração aperta. Eu fico com o coração apertado por causa de um tiranossauro rex de plástico que não existe. Minha vida é assim.

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E aí vi A Origem. Fiquei em êxtase. Chorei um rio inteiro. Eu choro fácil, mas mesmo assim. Leonardo Di Caprio, você é o cara. Não, Nolan, você é o cara. Entrar nos sonhos. E não saber mais se é ou não sonho. Confundi-los com a realidade... acordar pra quê se pudéssemos construir outra vida, inteirinha, em nossos sonhos... gente, que delícia de filme. Se eu soubesse como, escreveria sobre ele. Mas não consigo, então vocês ficam com meu 'ah' e 'oh' e quem não viu ainda, dá um jeito, combinado? Daqueles. E claro que tudo em mim ainda se contamina com meu luto, mas sei que me emocionaria com esse filme mesmo em outras épocas. Dizer que filme tal é um filme "de amor" parece piegas, burro e clichê. Mas eu digo: bons filmes de amor me emocionam. E A Origem é puro amor.

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Eu ia fazer um bolo, mas fiquei com preguiça. Na verdade, calor e preguiça. Eu ia ler, mas estava com sono. E eu ia escrever um post sobre um papo muito bom que está rolando na lista das blogueiras feministas, sobre religião nas escolas, mas também fiquei com preguiça. Ou seja, sou quase uma não-pessoa de tanto que não fiz de ontem pra cá. Só enrolação. Em outra palavras, o final de semana foi ótimo.

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Desconfio que ando sonhando com a minha mãe, apesar de não me lembrar dos sonhos. É que acordo com ela na minha cabeça, quase como se estivesse ali. Pode ser. Eu queria me lembrar. Procura-se livro: Como Lembrar dos Sonhos.

Emaranhada


Então há os cabelos cacheados de minha filha. Acho que combinam com ela, que também é cacheada: Amanda não é lisinha, uniforme, previsível. É montanha-russa, com picos de choro bravo e retornos íngremes à risada dobrada que sacode nosso coração, tudo de um segundo para outro. Acho simbólico que sua cabecinha de pensamentos rápidos e curiosidade perguntadeira seja coberta por uma mantinha de molinhas, que já foram douradas e caminham rumo a um tom qualquer de castanho esperto, porque é como se deixassem transparecer as caraminholas que habitam e se agitam naquela cachola bonitinha.

Acho lindo quando lavo seus cabelos e quase me surpreendo com a lonjura que, molhados, alcançam em suas costas: é bonitinho o jeito desengonçadinho com que ela se retorce diante do espelho enquanto me pergunta, quase ansiosa, “já voltaram meus cachinhos, mamãe?”. E sempre voltam, é só o tempo da toalha. Mas também gosto das tranças de moleca, por mais desafiador que seja manipular as molinhas para que se abracem - sempre vale a pena e a espera nem é assim tão longa.

Adoro passar a mão na cabecinha dela e enfiar meu nariz naquele emaranhado com cheiro de jardim quase distante. Gosto de vê-la dormir com a ex-penugem cada vez mais abundante espalhada sobre o travesseiro e acho graça das pontinhas mais curiosas que tentam escapar da redoma da touca de natação. Acho divertido e me entrego longamente às escolhas e disposições das miúdas presilhas e espalho muitos pontinhos coloridos em sua cabeça. E adoro seu jeito maluquíssimo de pentear os cabelos, passando o pente de baixo para cima.

Em dias de saudades mais doídas, fico assim, procurando nos pequenos as semelhanças que vieram dela: minha mãe também tinha cabelos lindos.

Pequenos leitores


Arthuuur, o almoço tá na mesa!

Meu filho aprendeu a ler com quatro anos e meio. Começou devagar, lendo palavras mais fáceis, juntando sílabas mais óbvias, deduzindo, adivinhando, associando. Ninguém parou para ensiná-lo, mas a avalanche de estímulos - contação de histórias na hora de dormir, letrinhas de brinquedo, exposição de palavras na escolinha, além de outras várias interações com palavras de todo tipo em rótulos, brinquedos, TV, etc. - unida à curiosidade aguçada típica da idade nem me deixaram ficar surpresa; parecia inevitável, ele mostrava sinais de que logo ficaria íntimo daquilo.

A coisa foi evoluindo a seu tempo, observávamos à distância, respondíamos às suas dúvidas e logo o Arthur passou a ler frases, pequenos parágrafos em livros infantis, mais e mais frases por aí. Hoje está com cinco anos e oito meses e há alguns meses tornou-se o que eu considero um leitor fluente (levando-se em conta a idade dele). Lê com desembaraço palavras de estrutura mais complexa, conta historinhas para a irmã (coisa-mais-linda-do-mundo), dá entonação adequada à maioria das frases, devora gibis, lê e entende regras de joguinhos, lê tudo que cai em sua mão e que tenha apelo visual conivente com sua cabecinha de idade delícia. Se isso é bom ou ruim, não sei, porque sou do tempo em que atingíamos esse nível de desembaraço lá pelos sete anos de idade e admito que ando um pouco apreensiva.

Em fevereiro Arthur ingressará no 1º ano, que agora corresponde à alfabetização, e junto com sua turma iniciará a "descoberta" da leitura. Fico me perguntando como será esse processo para ele, que já lê com fluência e rejeita um ou outro passatempo que classifica como “fácil demais, coisas da Amanda”. Sei que outra criança do grupo também lê e torço para que permaneça na turma, mas nem sei se isso fará diferença. Vários amigos do Arthur estão em níveis diferentes no que se refere à relação com a leitura e acho que tanto o Arthur quanto seus amigos estão em níveis adequados de desenvolvimento cognitivo para a idade deles, mais ou menos como quando caminharam ou falaram em tempos diferentes, uns engatinhando aos nove meses enquanto outros já davam os primeiros passos, ou falando com desembaraço enquanto outros, na mesma idade, mal balbuciavam sílabas - e hoje, todos interagem em harmonia. Acredito que daqui a alguns meses todos estarão em pé de igualdade no que se refere à leitura, mas meu receio é que, antes disso, o Arthur se sinta entediado diante de tarefas que lhe pareçam simples demais.

Folheando o livro novo, há alguns dias, meu pititico já ficou todo ouriçado para experimentar o traçado das letras cursivas e, brincando em casa, escreveu algumas palavras. Mas não sei se devo estimular isso agora, sob pena de, quando realmente chegar a hora de fazê-lo na escola, ela venha a se sentir desestimulado e se torne um aluno desatento. Mas também não sei se devo ignorar o fato de que ele demonstra interesse genuíno pela coisa, uai.

Talvez eu esteja viajando na maionese (ou talvez não esteja bem informada quanto à relação com a leitura por parte de outros coleguinhas seus), mas tanto o pediatra quanto minha terapeuta consideram meio precoce todo esse desembaraço - o pediatra chegou a perguntar como andava o relacionamento social com as demais crianças da turma, mas o Arthur não apresenta qualquer problema em relação a isso (salvo eventuais conflitos normais da fase). Se é precoce ou não, não sei, não tenho parâmetro, ele é meu filho mais velho, mas é fato que o mundo anda meio maluco e tenho a impressão de que as crianças se desenvolvem cada vez mais cedo. Daqui a pouco esse povo já nasce com livro na mão e dente permanente.

Desconfio um pouco desses saltos muito rápidos. Já me explicaram certa vez que o desenvolvimento de certas áreas do cérebro importantes na noção de lateralidade se completa ali por volta dos seis, sete anos, e que é isso que, em certa medida, vai permitir a aquisição da leitura e da escrita com naturalidade (desde que os estímulos existam), e que por isso não faz muito sentido esperar que crianças leiam antes disso. Mas o fato é que ninguém esperou nada do Arthur, o processo foi inteiramente seu e no ritmo dele; para o Arthur, ler é  uma brincadeira a mais. Na verdade, o maior salto de qualidade em sua leitura, se bem observei, deu-se nas férias, quando ele estava mais relaxado e passando mais tempo com a gente. Ele simplesmente gosta do troço.

Bom, não somos robôs e as variações no desenvolvimento infantil podem ser imensas em um pequeno grupo de crianças. Mas aguardo com certa expectativa a primeira reunião escolar do ano porque quero me certificar de que a escola saberá lidar com os alunos que já conseguem ler antes mesmo do processo formal de alfabetização ter se iniciado. Enquanto isso, torço para que vocês venham aqui trocar ideias e dar pitacos, sejam ou não mamães.

E, sim, sim, sim, morro de babar com meu pequeno. Que mais posso fazer diante dele, quando corre os dedinhos sobre o índice do "grande e pesado" livro de histórias, primeiro murmurando e depois berrando:

O Amigo Perdiiido... huumm... A Estrela dos Desejos... nãããão... A Canção do Tatu... JÁ SEI! Essa, ó: Um Sapo no Céu! Pronto, escolhi.



Yoga forever


Virabhadrasana 1, ou postura do guerreiro 1

Depois de quase dois meses de completo sedentarismo, Odisseus e eu retomamos nossas aulas de yoga. Coincidentemente, yoga foi o assunto de um rápido papo ontem no twitter com algumas @s queridas e também de um comentário que fiz no blog da Amanda, em um post muito interessante que ela escreveu. Basicamente, eu disse por lá que pratico Hatha yoga há alguns anos (já falei disso antes, talvez vocês se lembrem) e que o considero uma forma de exercício bem completa (para muitos praticantes yoga é bem mais que isso, mas para mim é basicamente uma maneira de cuidar da saúde), já que os benefícios da prática regular abrangem várias frentes.

"Conheço" duas linhas diferentes de yoga, da maneira como é praticada no Brasil (mas pode haver outras): a Swasthya Yoga e a Hatha Yoga. Eu não saberia apontar nem meia-dúzia das diferenças existentes entre as duas linhas, além do fato de que a primeira tem raízes bem mais antigas e que há limitações quanto ao seu público-alvo. Por outro lado, a Hatha, respeitando-se limitações físicas eventuais, acolhe qualquer pessoa interessada em praticá-la.

Na primeira vez em que me interessei por yoga, visitei uma escola de Swasthya e, honestamente, detestei o clima do lugar. Senti certa aura de superioridade do ser iluminado que me atendeu e que tratou logo de me explicar que, antes de praticar a maravilhosa Swasthya, eu teria de preparar meu corpo e minha mente para tal, através de aulas preliminares que me deixariam apta a buscar a luz. Ele se referia à yoga como algo muito especial, para poucos, sabe, e não deixou de ressaltar que aquele lugar era uma universidade e que eu faria um curso mesmo, algo para ser levado muito a sério e sei lá mais o quê porque me desconcentrei enquanto observava os quadros que decoravam o ambiente sublime: quadros e mais quadros de pessoas saradérrimas em posturas dificílimas. Quer dizer, encontrei em dez minutos de papo tudo que eu jamais procuraria na yoga, já que fui em busca dela para, entre outras coisas, fugir das academias e seus narcisos. Fui embora dizendo que voltaria no dia seguinte.

Por causa da bendita insistência de uma amiga, aceitei, tempos depois, experimentar aulas de Hatha. E aí, sim. Achei. Lembro-me até hoje de minha primeira impressão: uma aula tranquila, com posturas viáveis, exercícios interessantes de respiração e postura, dicas para manter o foco e a concentração. Um mantra no final da aula que não me disse muita coisa. Namasté. Saí de lá relaxada, animada com a possibilidade de evoluir no alongamento, algo que eu lamentava ter negligenciado depois de interromper as finadas aulas de dança, e de fortalecer a musculatura sem as famigeradas repetições da musculação. Voltei, experimentei aulas com professores e modalidades diferentes e nunca mais quis saber de outra forma de me exercitar.

Dentro da Hatha, há várias modalidades e eu gosto muito de Ashtanga, mas já fiz aula de Iyengar e Vinyasa e também adorei. É fácil perceber que muito depende do preparo da professora ou professor, já que é fundamental que as posturas sejam corrigidas, que a respiração seja mantida, que as contrações do abdome e do baixo ventre sejam observadas, etc. É muito fácil fazer yoga mal feito e aí perde-se a chance de evoluir na prática como normalmente se deseja. No caso específico do Ashtanga, o praticante segue uma série pré-estabelecida de posturas, sempre aliando o movimento à respiração: toda mudança de posição é feita em uniformidade com uma inspiração ou expiração (normalmente com a respiração "sussurrante", feita exclusivamente pelo nariz, mas com a glote levemente contraída, o que ajuda a manter o foco em nosso corpo). Como eu disse lá no blog da Amanda, as posturas do Ashtanga, feitas em sequência, ajudam a respirar melhor, controlar a ansiedade, melhorar o equilíbrio e a concentração e, de quebra, vão fundo na flexibilidade e ainda fortalecem a musculatura (algo que, antes de praticar, eu jamais suspeitava que o yoga fizesse).

Algumas pessoas (como eu, antigamente) torcem o nariz para o clima de meditação, mantras e todo aquele papo em torno de imaginar um vale verde. Devo ter tido, nos últimos anos, seis ou sete professores e professoras de yoga e apenas um deles gostava de bancar o pregador, o que, em minha opinião, comprometia muito sua aula - eu considerava tempo jogado fora. Não fiz mais que duas aulas com ele. Não sou vegetariana, não quero ir meditar na Índia e não acho que yoga é o caminho da luz. Mas sinto em meu corpo o benefício da prática e por isso sou entusiasta e recomendo sem medo. Com uma boa professora ou bom professor e uma modalidade que se encaixe nas preferências do aluno, a coisa fica muito prazerosa. No local onde pratico, as aulas sempre se iniciam com o mantra ommm e geralmente são encerradas com outro mantra, seja o da paz ou outro qualquer. Não me importo, acho bonitos, entoo sem medo de virar faquir. São breves momentos de concentração e relaxamento que fazem parte do pacote no qual está o que realmente gosto, as posturas lindas do Ashtanga, sua fluidez, seu conjunto inteligente. Cada postura cuida do corpo todo: coluna, pernas, braços, pescoço, respiração, abdome, assoalho pélvico, ombros, pode imaginar. Nenhum professor me manda pensar no vale verde. E se mandar, desobedeço, ora. 

Dito isso, comunico que estou quebrada, hohoho, vejam só. A nossa nova professora não tem ossos no corpo, é toda de elástico. Então ela acha que nós também somos. E, né, como era a primeira aula depois de dois meses, ela pegou "leve". E eu tentei acompanhar tudo. Pronto. Hoje ela teve de pular algumas posturas porque eu não dava conta de fazer determinados movimentos com os braços... quer dizer, ao contrário do que prego por aí, forcei e exagerei. Mas eu sou humana, posso me contradizer à vontade. 

Virabhadrasana 2, ou postura do guerreiro 2 

Namasté.  


Memória seletiva


Lá pelas cinco horas da tarde meu celular toca. Estou no serviço, é meu filho de cinco anos.

- Alô?
- Oi, mamãe! Posso falar?
- Pode, meu amor. Fale. Tudo bem?
- Eh... você se leeeembra que hoje mais ceeedo... eh, você falou que ia me ligar aqui pra casa... pra saber se eu tinha me comportado bem... pra eu poder ver televisão de novo...
- Hum, sei.
- E eu me comportei superbem agora no banho...
- Hum. Que bom, muito bem.
- E aí?

E eu:

- Filho, você se lembra que hoje, logo depois dessa conversa aí que a gente teve, você foi lá pra sala e bateu na sua irmã de novo?
- ...
- Lembra?
- Oi?
- :-) Bonitinho. Fique bem aí, filhote. Comporte-se e mais tarde a gente conversa. Te amo.
- Tchaaau, mãe. (Bem emburrado)
- Te amo, viu filho?
- Tá. (Emburradíssimo)

Click.


A flor do meu umbigo


É claro que, vivendo no Brasil, eu não poderia deixar de saber e, por conseguinte, emocionar-me com o que ocorreu na Região Serrana do Rio. É natural que eu sinta curiosidade pela formação do ministério da presidenta, tendo eu me envolvido tanto na campanha como me envolvi no ano passado. É normal que eu tenha ficado feliz por minhas amigas que foram ver a festa da posse. Também é absolutamente banal que eu vibre com a alegria alheia, pensando na amiga que foi passear em Paris, na outra que está prestes a ter um bebê. Eu fiquei preocupada com a intensidade das chuvas aqui em Santa Catarina no último final de semana e isso também é perfeitamente aceitável. Etc.

Fiquei sabendo que anda rolando uma revolução popular importante na Tunísia e que ela pode gerar um processo antes impensável naquela parte do mundo, mas não parei para ler a respeito por mais que três parágrafos. Hoje alguém escreveu alguma coisa no twitter sobre um atentado em Moscou; uma colega comentou que várias pessoas morreram. Etc.

Tudo assim, superficial. Ouço falar, mas não me envolvo.

As boas notícias e as alegrias são mais fáceis, entram suavemente em minha cabeça, gosto de ver as pessoas bem. Mas não, não agora, pelo menos, não consigo me deter, naquele nível de detalhamento deprimente, nas notícias que envolvem tragédias e mortes e sofrimento aos montes. Eu não sei o que isso faz de mim, mas também não quero me questionar muito a respeito disso agora. Não acho que a minha dor é a maior do mundo - nossa, sei tanto que não é, sei, sim - mas ela é legítima e me permito a alienação que vem com ela. Não consigo agora sofrer por quem perdeu tanto, sou assim limitada. Como muito bem definiu a Amanda, ouvindo meus mimimis, meu mundo pessoal parou enquanto o mundo todo continuou girando, a mil. E até que eu comece a me refazer, sou essa coisa encerrada em minhas próprias saudades. Chame de egoísmo, eu chamo de perda.

Desconfio que o conforto da distância me permita a dormência: se, ao meu lado, alguém desmontar, talvez eu não sente para chorar e, afinal, faça alguma coisa. Mas ando fugindo do noticiário, numa vibe "não me contem, não quero saber".

Há vários momentos em que fujo do meu mundo, mas permaneço no meu umbigo. Tenho lido muito e apesar de a leitura ter seu lugar cativo em minha vida, percebo com nitidez o potencial de escape que ela tem assumido ultimamente. E aí pode ser sofrido, tenebroso, assustador, suave, engraçado, o que for - são outros mundos. Alimentam minha cabeça, suavizam meu coração.

O mergulho que dei em meu círculo familiar nas últimas semanas foi um prolongamento da despedida da minha mãe. Veio tudo junto, o passado, a infância, a casa, as pessoas, as cartas, as fotos. A imagem parece maluca, mas é como uma flor enorme que se abre e segue crescendo enquanto eu afundo nas pétalas e passeio por elas, tentando tocar minha mãe, sua vida, sentir ou intuir o rastro que sua passagem deixou. Eu toco as pétalas, fecho os olhos e ela vem.

E o mundo “verdadeiro” lá fora se apequena enquanto meu umbigo só cresce. Olho ao lado e só vejo a mim e os prolongamentos mais imediatos. Mas hoje acordei inquieta, com a sensação de que estou absolutamente alienada e perdida e desinformada e emburrecida. Não sei ainda o tanto que essa inquietação vai me resgatar do meu micromundo e me defenestrar vida afora. Mas é assim que me sinto hoje e gostaria muito de ser capaz de escrever sobre assuntos outros. Não é exatamente uma cobrança, que seria absurda e rejeitada de pronto. Mas pode ser um indício de que estou prestes a iniciar um doloroso processo de reconhecimento de que será preciso, cedo ou tarde, sair um pouco da flor. Ou, melhor, deixar que uma mão siga tocando as pétalas, enquanto a outra luta para afastar a cortina e me permitir dar uma espiada lá fora.

Ou, que nada, talvez amanhã eu acorde com o desejo de voltar a ser botão.
 

Nham!



Essa foi a minha cara durante todo o final de semana. Ou quase todo.



Não tive tempo de acessar o blog durante o final de semana porque estava comendo.

***

Uns amigos comilões nos convidaram para uma rodada de massas na casa deles no sábado à noite. Antes disso, no sábado à tarde, depois de experimentarmos o bolo com cobertura de canela que eu tinha acabado de fazer, Odisseus encarregou-se das compras no mercado enquanto eu dormia no sofá, quer dizer, tomava conta das crianças; eis que, no início da noite, meu valente dono de casa voltou com fome, tadinho. Como ele não tinha condições físicas ou biológicas de aguardar até o horário do jantar, tratou de “forrar o estômago” com um lanchinho. Quando dei por mim, havia um sanduíche com hambúrguer, queijo e salada na minha frente e eu não sei o que aconteceu, mas minutos depois o sanduíche desapareceu. (Nham!)

Mais tarde fomos ao tal jantar de massas e comemos, ó céus, comemos. Mas não assim até morrer, porque precisávamos reservar um espacinho no barrigão para abrigar uma porção de estrogonofe de chocolate – vou repetir: estrogonofe de chocolate – que outra comilona tinha levado de sobremesa. Sabe o céu? Pronto.

Aí no domingo pegamos leve e almoçamos um churrasquinho - e aí eu como pouco mesmo, já que carne não é lá minha paixão. Ainda bem. Porque no meio da tarde Jeanne chegou. Quem? Pausa para contextualização.

***


Durante vários anos de minha infância e pré-adolescência, o início das minhas férias de verão era marcado por uma questão existencial profunda: “mãe, esse ano eu vou para Maceió?”. É que meus padrinhos, os pais da minha prima Jeanne, moravam na "terra do sol” e a casa deles funcionava como um ponto de encontro das crianças/adolescentes da família que se reuniam para semanas de pa-ra-í-so. Férias sem uma passadinha, nem que fosse de uma semana, em Maceió não eram férias propriamente ditas, eram apenas um intervalo das aulas. Porque era lá que a vida acontecia para a parte barulhenta da família. Era na casa da minha madrinha que o bicho pegava. Era lá onde morava a diversão. Só lá era possível passar dias e dias na companhia de tantos primos que eu não conseguiria contar nem que tentasse, porque ninguém parava quieto. E foram várias fases, desde aquelas em que meninos e meninas não se misturam até as outras dos inesquecíveis bailinhos. Só na casa dos meus padrinhos conseguíamos transformar uma simples dormida na casa da prima em acampamentos dentro dos quartos, com comida escondida, filmes de terror, madrugadas compridas cheias de risadas abafadas nos lençóis e aquela sensação de que o resto do mundo não conhecia a verdadeira felicidade. Nunca parávamos de brincar, inventar, fazer festa, apostar com os meninos quem teria medo primeiro, confabular, fantasiar e passear – sempre havia um adulto corajoso, digo, gente boa por perto, disposto a nos levar ao cinema, à fazenda, à praia, ao passeio disso e daquilo, ao acampamento, tudo sempre com muito barulho. As férias de Maceió geralmente eram em janeiro ou fevereiro, mas ocupavam minhas lembranças até os outubros mais distantes. Era tudo de bom.

A comida era um capítulo à parte naqueles verões, naquela casa onde a mesa era bonita não só pela criançada bronzeada e barulhenta que a cercava, mas também pelos pratos coloridos, deliciosos e igualmente variados que compunham nossas refeições (até parece que eu era uma criança boa de garfo, mas pula essa parte). E quando não estávamos aprontando nada muito grave, a Jeanne inventava umas incursões à cozinha, território onde ela sempre transitou com a tranqüilidade de quem sabe misturar bem os ingredientes, e lá nós, suas primas, virávamos suas ajudantes para a confecção de tortas inesquecíveis e jantares, digamos, mais ou menos.

***


Mas eu estava dizendo que Jeanne chegou. Depois de milhões de voltas daquelas que só o mundo dá, meus padrinhos se mudaram para Curitiba, quando eu já morava em Florianópolis há mais ou menos um ano. Olha, que legal, estávamos morando pertinho de novo. Mas a vida é o que é e só ontem, depois de quase onze anos de “vizinhança”, eu e Jeanne nos reunimos para trocar umas idéias outra vez. Veio com seu filhote fofo que, juntamente com meus filhos, tratou de perpetuar a tradição de que é brincando junto que a bagunça fica melhor.

E aí a comilança. Jeanne foi portadora de uma encomenda preciosíssima que minha madrinha mandou pra mim: um bolo de rolo, vê se eu posso com isso, com receita vinda lá das bandas de Recife, que virou especialidade da família nos últimos anos, produzido no restaurante que montaram em Curitiba e fornecido para vários pontos da cidade. E não é rocambole, não, o nome é bolo de rolo mesmo; atenção às diferenças técnicas, mas não me perguntem quais são.


O tal bolo de rolo é o suprassumo da delicadeza, como vocês podem conferir na foto que mostra o labirinto das mil camadas. E minha prima corta a delícia assim, em fatias bem finas – argumento que a gente sempre pode usar para comer inúmeras (são tão fininhas, não é?).


Bom, eu comi. Inúmeras. (É impossível olhar para a tal guloseima labiríntica e não tentar adivinhar como se enrola aquela coisa. A curiosidade da clientela já levou minha prima a um programa de TV local onde ela mostra o milagre da enrolação – quem quiser pode ver o vídeo aqui; vocês podem aprender a receita e ainda dar uma espiada nos meus padrinhos, minhas primas e no filhote da Jeanne, todos à mesa saboreando as delicinhas.) Mas eu não podia receber minha visita sem preparar pelo menos um bolinho, então eu estava desenformando um bolo formigueiro (porque crianças adoram, sabe como é que é) quando o interfone tocou. E aí faltou tarde para tantas guloseimas, porque a Jeanne ainda inventou uns bombons de bolo de rolo, onde isso vai parar, com cobertura de chocolate. Bombom de bolo de rolo. Socorro.


Em breve nos melhores cafés de Curitiba.


***


Não se consegue relembrar anos e anos de férias em apenas uma tarde, mas nós nos prometemos não deixar passar mais onze anos até o próximo encontro. Quero, assim que puder, visitar meus padrinhos, por quem tenho um carinho infinito – esse casal que se uniu com o dedinho de Dona Berna: minha mãe e minha madrinha trabalhavam no mesmo lugar e, com o pretexto descarado de visitar a tia, meu padrinho ia lá paquerar com a minha madrinha. O romance gerou uma família linda, um mar infinito de amor e generosidade e muita história boa pra contar.


Olho pra trás e vejo a criança que fui, com minhas tristezas e medos, minhas inseguranças enormes, minhas perguntas sem fim; também vejo minhas alegrias, meus sonhos inconfessáveis, minha vontade de voar. No meio disso tudo vejo aquelas férias, quadrinhos coloridos guardados com carinho em minha memória. Era muito bom. Melhor que bolo de rolo.


(Jeja, um beijo pra você. Mamãe teria adorado saber de sua visita.)



 

Lógica em quatro lições


Capítulo I

Tarde da noite senti fome.
A cozinha fica lá embaixo.
Havia uma barata na escada (semimorta, observe).
Fui dormir com fome.

Capítulo II

Quando sinto fome, não consigo dormir.
Havia uma barata semimorta na escada.
Dormi mal.

Capítulo III

Quando durmo mal, sinto fome no meio da noite ou tenho pesadelos.
Havia uma... etc.
Senti fome, lembrei-me da escada e tive pesadelos.

Capítulo IV

Havia uma... etc.
Minha noite foi péssima, passei o dia com sono.
Preciso manter um pote de biscoitos no meu quarto. Ou criar vergonha na cara, o que vier primeiro.

***

O irônico? À luz do dia, tive sérias dúvidas de ser mesmo uma barata. Parecia mais um besourinho comprido. Às vezes aparência é tudo nessa vida.

***

Eu sei que é ridículo e não me orgulho de minha impotência. Mas isso não muda muita coisa.

"Ninguém consegue botar só meia gota de café"




Aos pouquinhos vou entendendo que a saudade é parte de mim, que não vai passar, apenas vou aprender a olhar para ela como olho para minha sombra projetada na parede. Há momentos em que é forte e nítida, há outros em que permanece escondida à espera de um pensamento ou palavra que a faça surgir. Minha mãe permanece em mim como se estivesse viva e isso é uma nova forma de eu tocar a minha vida. Porque ela não está mais aqui, não faço ideia do que lhe aconteceu, não entendo a morte. Mas ela permanece em mim porque penso nela, lembro dela, carrego comigo esse carinho profundo que às vezes toma conta de mim tão inteiramente que me desconheço fora dele.

Aos poucos também vou entendendo que as lágrimas são infinitas. Já cheguei a pensar, sinceramente, que cessariam porque seria um absurdo se não cessassem. Mas hoje vi que não, que brotam como lavas quando falo de dezembro. Hoje vi que meu coração continua pesado, que o vazio é isso mesmo, vazio.

Também estou aprendendo que não posso substituí-la para ninguém. Ninguém pode substituí-la para mim.

Perdi minha mãe. Essa frase é estranha. Porque, de certa forma, não a perdi. O que trago comigo que me foi dado e ensinado por ela, das mais diversas maneiras e nas mais variadas intensidades, ficará comigo enquanto eu me dispuser a buscar dentro de mim suas sombras espaçosas. Então, em certa medida, não a perdi.

Ontem à noite tive um pesadelo e no sonho eu chamava por ela, procurava desesperadamente no meio da noite, mas não era seu quarto, era só o escritório e ela não estava aqui. Acordei e entendi e detestei. Senti cansaço de ter de me lembrar de novo e de novo que não está mais aqui. Eu não queria esquecer mais: foi embora, foi embora, foi embora. Porque se eu fixar bem isso não vou ter mais os sustos que tenho quando me levanto do sofá para telefonar para ela e aí me lembro.

Tenho exercitado as lembranças de momentos felizes. Tenho buscado momentos de relaxadas conversas, frases leves, bate-papo. E, principalmente, os raríssimos momentos de transgressões. Minha mãe era a pessoa mais correta e reta e certa e pontual e metódica que conheci. Então gosto de ficar procurando na memória os minúsculos deslizes que a tornavam uma destemida desbravadora de novas possibilidades. Como quando, dois ou três dia antes de ir embora, pediu que eu pusesse café no seu leite. Ela não podia tomar café há sei lá quantos anos. Nem acreditei. Pus um fino, mas generoso, jatinho de café em seu leite, feliz por poder lhe proporcionar o pequeno crime, mas falei "pus só meia gota, não se preocupe, pode tomar". Mas ela sabia mais: riu e falou "ninguém consegue botar só meia gota de café!" e tomou mesmo assim, enquanto eu descaradamente desconversava. Como eu não sabia de nada, achei que ela estivesse levando em conta meus discursos de "não se preocupe tanto". Eu não entendi naquele momento o significado de seu gesto. Se eu soubesse, teria feito mais. Teria lhe passado a xícara olhando no fundo de seus olhos de céu. Ela só pediu o café porque já sabia.

Se Eu Fechar os Olhos Agora

Rita, você gostou do livro Se Eu Fechar os Olhos Agora, do Edney Silvestre? Ah, gostei, mas não amei, sabe como é? Sei. Por que será, hein? Acho que foi por causa das mulheres. Como assim? Ah, as mulheres no livro, reparou? Ou tá morta ou tá muda. Nenhuma define seu destino, toma as rédeas de nada. Todas exploradas, abusadas. Ou simplesmente caladas, o que não é pouco. É verdade. Mas o livro é bom. Né? Ah, sei lá. A história é boa. Mas não tem nada demais, também. Uma trama policial sem muitas camadas, sem grandes reviravoltas, mas bem costuradinha, isso é. A forma como a história é contada vale mais do que a história em si; nesse livro, quero dizer. É, acho que você tem razão. Pois é. E os homens, hein? Nossa Senhora! Tirando os meninos, tudo um horror. Pois, é, que coisa... Você acha que o livro queria só explicitar um discurso machista, mas, no fundo, criticá-lo, ou o livro em si é machista? Ah, eu acho que se o autor quisesse problematizar a coisa teria de ir bem mais longe e dar outras camadas às personagens femininas, porque do jeito que ficou, é complicado... até nos momentos mais ternos do livro as mulheres são descritas como objetos sexuais! Reparou? Reparei. Bom, eu terminei de ler com a sensação de que o autor idolatra o tal "universo masculino" (o que é isso? ah, sei lá, na falta de termo melhor. hum) e enxerga o mundo como algo totalmente dominado por eles, onde nós somos coadjuvantes e brinquedinhos para quando eles estão entediados. Serááá? Ah, eu achei, você não achou, não? Hum, é, pensando bem, ficou complicado. Tem uma freira, uma mãe intocada de quem não se fala, uma prostituta, uma assassinada e várias mulheres abusadas... é, complicado. Mas os homens também não são todos heróis, né? Não, de jeito nenhum; mas, para o bem, ou para o mal, dão as cartas durante praticamente toda a história. Pois é. Mas isso em si não quer dizer que a história tem um discurso machista, ora. Há grandes livros todos envoltos no tal "universo masculino" e nem por isso... Ah pois é, mas aí é que tá: grandes livros, com outros trunfos, outras riquezas. Hum, é. E o problema está no tratamento dado à voz das mulheres, né. É. Pode-se escrever um livro sobre a exploração da mulher sem se perpetuar o discurso machista, ora. Claro. Não é o caso, vamos combinar... Não, não é, não. Bom, mas valeu a leitura, né? Claro, sempre vale. Agora sei do que se trata, sei de que livro falaram tanto na época do Jabuti, lembra? Ah, é, todo mundo discutindo, dizendo que era melhor que o do Chico, mas que o Chico ganhou porque era o Chico. Pois é. Agora posso dizer que prefiro o do Chico, mesmo não achando lá grandes coisas também - mas é bem poético, hum, bem bom. É. Mas esse é bom também. É, legalzinho. O final é bem bonitinho. Verdade, bem docinho, né. É, isso, bem docinho. Beleza. E agora, vai ler o quê? Hum, uns contos do Poe. Hoje é noite de lua cheia, mas as nuvens estão bem carregadas, mal dá pra ver o céu: bem no clima. Boa leitura, então. Valeu.

"Uma mulher, aquele ser quase abstrato, formado pelas imagens de suas mães, estátuas da Virgem Maria, sorrisos prometedores de atrizes de cinema e traços imprecisos de desenhos de revistas eróticas..." (A frase descreve o que passa pela cabeça dos meninos protagonistas, mas também serve para definir de forma quase precisa o "universo feminino" - na falta de termo melhor - em Se Eu Fechar os Olhos Agora.)


O Tempo



Sabe cheiro de livro novo, no dia em que a mãe (ou o pai) da gente chegava em casa com o material didático fresquinho? Sabe aquela descoberta ansiosa, sem saber o que examinar primeiro? Eu chegava a prender a respiração. De todos, meu preferido era o de Português, por causa dos textos. Mas também adorava o de Ciências, por causa dos planetas. E dos bichos.

Arthur vai para o 1º ano, meu menino. Seu livro, comprado hoje, tem textos "grandes", já. Coisa mais linda. Estou mais ansiosa que ele. E curiosa também. Qualquer dia divido com vocês umas dúvidas que trago cá comigo. Mas os livros, ai... o do Arthur tem fábulas, contos e versos. E ele também tem um livro de Matemática. Matemática. O Arthur tem um livro de Matemática. Mas não foi ontem que meu leite empedrou e ele teve cólicas? Não?

Amanda vai estrear: "Infantil C". Também tem livrinhos de flores, estrelinhas e arco-íris. Minha menina vai pra escola de mochila da Penélope e canetinhas coloridas. E ainda não tem livro de Matemática, mas já conta nos dedinhos, que mal consegue dobrar para fazer a conta, os patinhos da música. E canta assim: “...nenhum patinhos voltaram de lá...”. Nenhum patinhos. Ter filhos torna a gramática mais charmosa.

Minha sala hoje tem cheiro de livro novo e um tantinho de viagem no tempo. E meus filhos, crescendo. 

***

(Pequeno inevitável pensamento inquietante: e o tanto que a vovó Berna ia babar na foto da Amanda com uniforme de short-saia, meias curtas e camiseta branca?)

"Tão bom!"


Certa vez fui ao Nordeste visitar minha mãe e passei para ela a receita do bolo de leite condensado que eu tinha aprendido a fazer no TK. Pensei que ela iria gostar, já que não comia chocolate ou bolo que contivesse coco, amendoim, abacaxi, morango, maracujá ou outra infinidade de ingredientes dos quais não gostava ou que, por alguma alergia, não podia consumir. O bolo de leite condensado, pensei, serviria na medida para ela, além de ser de preparo superfácil. E ela adorou.

O tempo foi passando e minha mãe, de vez em quando, comentava comigo que Rosa tinha feito o bolo e que tinha ficado “tão bom”, e eu ficava toda satisfeita. Até que.

Até que dia desses, em dezembro, tomando café na casa da minha mãe, papeando na cozinha sobre a despedida dela, Rosa serviu o tal bolo. E comentei:

- Lembra, Rosa, quando eu trouxe essa receita?

E Rosa:

- Lembro demais. Sabia que D. Bernadete não gostava desse bolo? Achava muito doce. Mas te dizia que gostava pra tu não ficar triste...
- …

Vocês acreditam na picaretagem? “Tão bom”!!! Na maior cara dura!! E eu certa de que estava arrasando quarteirões com o bolo! Aff...

(Linda, né? Carinho, puro.) Se eu tivesse como, diria a ela que não me importaria de jeito nenhum. Eu teria procurado outra receita, ora. Ai, ai, viu. As mães...

(A quem interessar possa: eu adoro o bolo, não acho muito doce e faz o maior sucesso com as crianças aqui em casa. Bom, pelo menos elas dizem que adoram... e comem tudo.)

O primeiro



Nós aproveitamos a manhã ensolarada de sábado ao ar livre, pedimos comida chinesa pelo telefone e nos entregamos à preguiça depois do almoço. Eu tinha tido outra noite ruim, com sonhos picados, sem sonhar com o que eu queria, acordando várias vezes durante a madrugada, de modo que estava quebrada e, mal terminei de almoçar, devorei um pedaço de chocolate e anunciei que tiraria uma soneca. As crianças ficaram pela sala brincando, Ulisses se esparramou no sofá para ver um filme qualquer e minha sogra ficou por ali. Subi. 

Fui para a cama com o livro que estou lendo, li algumas páginas e logo minhas pálpebras despencaram. Mas, de novo, nada de sono tranquilo porque o vizinho adolescente estava bravo com alguém e falava alto, os cachorros se assanhavam, o vento balançava a porta da sacada. Cochilo. As crianças gritavam, subiam a escada, entravam no quarto, batiam na porta. Cochilo. O vento outra vez, o vizinho xingando. Senti que estava perdendo o clima para soneca, já tinha se passado sei lá quanto tempo. Cochilo. Vento na porta. A tarde foi avançando e já não havia mais posição na cama. Comecei a pensar que logo teria de levantar para ir ao mercado e teria de dar adeus aos planos de um sono profundo. Preguiça. Cansaço. Calor. Silêncio. Adormeci outra vez. E aí aconteceu. Ela no meu sonho. 

Sonhei que estava em Esperança, no altar da igreja local para onde tinha ido fazer uma homenagem à minha mãe. Falei para o povo que estava lá, relembrando que ela era muito vaidosa e gostava de ser fotografada e que eu achava engraçado como ela tinha tantas fotos tiradas nos anos de sua juventude. Parte de minha fala era sem sentido e não recordo as palavras. Ao fim da homenagem, desci do altar e me encaminhei para o banco onde tinha visto que Arthur e Amanda estavam. Mas quando cheguei ao banco eles não estavam lá. Estavam ela e minha prima. Juntei-me a elas, conversamos algo de que não me lembro e logo o cenário mudou. Estávamos agora no interior do carro de minha prima, estacionando na frente da casa da minha mãe. Era minha prima quem dirigia, mas, ao mesmo tempo, estávamos as três no banco de trás, eu, mamãe e Marina (a prima). E eu passei o pente no meu cabelo, que no sonho era mais curto e mais claro. E minha mãe falou pra mim: vai estragar seu cabelo. Falou tranquila, toda conversadora. Estava bem, não estava doente, parecia feliz. Começamos a sair do carro e minha prima perguntou: as crianças ficaram em casa sozinhas? Minha mãe pareceu constrangida com tamanho descuido e começou a falar do restaurante que, no sonho, ficava ao lado da casa dela, comentando alguma coisa sobre a iluminação das mesas (!!!??). Minha prima repetiu a pergunta e minha mãe ficou visivelmente sem graça. Eu achei graça daquilo e, para salvá-la do embaraço, respondi: nada, ficaram com tia Maria, ao que minha mãe, completou rapidamente: é ficaram com Maria! Nós duas, cúmplices. E fim. 

Acordei imediatamente e um segundo depois me lembrei nitidamente do sonho e, ao contrário do que, até hoje, suspeitei que aconteceria quando sonhasse com ela, senti uma enorme alegria. Comecei a sorrir sozinha na cama e, à medida que repassava as imagens na cabeça, comecei a sentir uma vontade enorme de contar o sonho pro Ulisses que, como se soubesse, abriu a porta do quarto para avisar que precisávamos ir ao mercado. Encontrou-me com cara de tola, com um sorriso de orelha a orelha. 

- Acabei de sonhar com minha mãe.
- Ah, é?????!!! Parabéns!!

O resto do dia seguiu e, até agora, tenho uma cara boba e o coração leve pela primeira vez no ano. Vi seu rosto nitidamente, ela falou comigo, nós conversamos, tudo nos meandros do meu subconsciente, imagens confusas construídas pela minha cabeça. Não importa. Para quem não pode mais nem dar um telefonema, isso vale tanto que nem consigo dizer. Que tenha sido apenas o primeiro. 
  

A Menina Que Não Sabia Ler



Responda rápido: quando você viu o título A Menina que Não Sabia Ler, de John Harding, você se lembrou de A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zusak? Bom, eu me lembrei. E foi só ver o título original de A Menina Que Não Sabia Ler (Florence and Giles) para confirmar a suspeita de que minha reação tinha sido prevista pela editora brasileira que certamente tem todos os dedos na tradução do título - títulos precisam vender bem, sabe como é, então se for possível dar uma forçadinha e ecoar um bestseller, melhor. Acontece que “A Menina Que Não Sabia Ler” tem muito pouco a ver com a história de suspense que é Florence and Giles e isso me irrita um pouco. Tudo bem que o título precisa ter lá seu apelo, mas dessa vez acho que forçaram a barra um pouco demais. Acabei de ler o livro e posso afirmar que a história é sobre a relação entre a menina Florence e seu irmão Giles, e não sobre o fato de Florence não ter permissão de seu tio para se alfabetizar - o suposto analfabetismo de Florence é um detalhe agarrado a unhas e dentes pelos tradutores do título. A arte gráfica da capa também passa longe de ser honesta com o leitor. Quem, olhando para aquela capa e aquele título, não vai pensar tratar-se de uma história que envolve muito a relação de uma menina com o mundo literário? Quem lê o livro, no entanto, logo vê que se trata de um escape que o autor encontrou para homenagear vários autores clássicos de quem obviamente é fã. E apesar de esse elemento estar presente na história, tem cada vez menor relevância à medida que a trama de horror se desenrola. (Li várias resenhas do livro em inglês, nenhuma faz qualquer alusão significativa ao fato de Florence não saber ler. Pois é, porque não importa muito. Mas para os leitores brasileiros, esse detalhe determinou o título da obra.)

Pelo menos a contracapa da edição brasileira mantém alusões ao fato de que o livro passeia pelo sobrenatural - a referência a Edgar Alan Poe e Henry James é mantida (afinal isso também vende, né?); ainda assim, lá está:

“Florence precisa encontrar muitas respostas - sejam elas inventadas ou não, e soluções nem sempre fáceis para proteger Giles, e o seu amor pelos livros, antes que alguém descubra quem ousou abrir as portas do mundo literário.”

Mas não se enganem. Pouco importa. Florence and Giles é uma história de suspense, uma trama de horror e manifestações sobrenaturais, algo a que a capa original do livro é bem mais fiel, com sua gralha negra (mencionada na história) remetendo o leitor ao famoso corvo de Poe, escritor mencionado várias vezes na primeira parte do livro.



Mas enfim, a história. A trama se passa em 1891, na Nova Inglaterra, Estados Unidos. Tudo é contado na primeira pessoa, narrado por Florence, uma garota de 12 anos que vive com seu irmão mais novo, Giles, por quem é fortemente afeiçoada, em um casarão antigo - daquele jeitinho mesmo, escuro, com paredes cobertas por espelhos e velhas fotografias, com madeira velha que range à noite e corujas que piam do lado de fora assim que a noite cai. Além das crianças, vive na casa um grupo de criados bondosos e ingênuos, entre eles uma cozinheira sorridente e um inevitável cocheiro. O responsável legal pelas crianças, tio delas, vive em Nova Iorque e pouco se relaciona com o grupo, o que não o impede de proibir Flora de se alfabetizar - sabe como é que eram as coisas, mulheres letradas eram um perigo à sociedade. Então.

Tudo vai muito bem, Florence dá seu jeito de regularmente visitar a enorme biblioteca da casa às escondidas, aprende a ler sozinha (ah, mulheres), inicia uma tímida amizade com o garoto da casa vizinha, toca sua vida. Até que Giles é enviado à escola, o que contribui para a melancolia da garota que conta os dias para tê-lo de volta nas férias. Acontece que Giles não se adapta ao ambiente escolar e logo Florence volta a ter a companhia diária do irmão. E aí entram em cena as preceptoras, as tutoras que vêm ao casarão para cuidar da formação e educação do garoto. Primeiro, há a Sra. Whitaker, mas algo sai errado e... bem, vocês vão ver. Depois, entra em cena a Srta. Taylor - sim, ela se veste de preto, é magra e de semblante severo - e aí o bicho pega, já que Florence vê evidências de que a nova preceptora tem péssimas intenções em relação a Giles e pretende, na verdade, afastá-lo dela. Até aqui, a história segue num ritmo tranquilo, com a rotina de Florence cercando a trama e preparando o terreno para o clima de suspense que se estabelece a partir da chegada da Srta. Taylor.

E o suspense vem: caminhadas noturnas pelos corredores à luz de velas, sons inexplicáveis, canções de ninar do outro lado da porta, diálogos nervosos, feições fantasmagóricas, visões intrigantes, suspeitas terríveis, acidentes. O fato de tudo ser narrado por Florence nos leva ao limbo entre a realidade e a imaginação da garota, elemento bem explorado pelo autor. Como leitores, nossa relação com a história passa inevitavelmente pelo olhar de Florence e nossos medos e sustos são os dela, o passado nos chega através da memória dela, só vemos o casarão com seus cantos escuros através dos olhos dela e é ela quem nos mostra os riscos que cercam o pequeno Giles... e tudo caminha para um final surpreendente. Parei. Há vários pontos que eu adoraria comentar com outros leitores, mas não posso fazer isso aqui, sob pena de vocês me deletarem. Por isso já empurrei o livro pro Ulisses e vou esperar que ele leia para trocar umas ideias - quem já leu aí levanta a mão.

Harding tem pelo menos um mérito: consegue atiçar nossa curiosidade, de modo que esse é um livro para ser lido rapidamente: um capítulo chama outro e mais um e logo devoramos tudo. Outro mérito é ter me deixado com uma vontade danada de ler Henry James outra vez. Sobre as várias semelhanças (obviamente propositais) entre elementos de Florence and Giles e o famoso The Turn of the Screw, leia aqui e em muitos outros lugares internet afora. Ah, e não esqueça: na próxima vez que você estiver sozinha ou sozinho em casa e precisar se olhar no espelho, preste bem atenção: nunca se sabe quando você pode ver mais do que seu próprio reflexo... uuuuuuhhhhhhh... Boo!

“E lá estava, ainda, seu reflexo preso no espelho, com a cabeça para trás,
rindo um sorriso terrível, silencioso.”

***

(Antes de (re)ler The Turn of the Screw, o livro do Edney Silvestre escorregou na minha mão. Vamos a ele então.)

Do que existe



Há uma coisa que eu já queria ter contado a vocês antes, mas todas as vezes que começo a escrever sobre isso, sou tomada pela emoção de tal forma que preciso parar, guardar a história comigo mais um pouco e adiar o momento de transferi-la para cá. Já contei o fato a várias pessoas, porque me faz bem falar e porque acho que é uma experiência para ser dividida, já que pode fazer bem a outras pessoas um dia - assim como aconteceu comigo; mas ainda não consegui transcrevê-la aqui. Talvez eu o consiga agora. Quero contar a vocês o que aconteceu no dia anterior à morte de minha mãe.

A lembrança de alguns fatos daqueles dias, dos que vieram imediatamente antes e imediatamente depois, é um pouco confusa em minha cabeça. Lembro bem de certas coisas, de outras tenho mais impressões que lembranças. Então não sei ao certo como minha amiga Ângela ficou sabendo que minha mãe estava na UTI - não sei se ela leu aqui no blog, se eu liguei para ela ou se mandei um e-mail lá da casa da minha mãe. Mas o fato é que soube e na noite da quarta-feira, dia 08 de dezembro, ela me ligou.

Ângela me ligou porque queria se solidarizar com minha angústia, mostrar que estava comigo apesar da distância, torcer junto pela recuperação. Conversamos longamente, já que as visitas à UTI são limitadas e eu estava na casa da minha mãe enquanto seu corpo lutava com aparelhos e medicamentos para encontrar forças e seguir por aqui - não sabíamos ao certo por onde andava a consciência dela naquelas horas. Mas Ângela ligou, principalmente, para dividir comigo uma história pessoal dela e garantir que eu não deixaria de fazer algo fundamental.

Anos atrás, por causa de um acidente de carro, o pai da Ângela passou meses internado em uma UTI. Teve inúmeros ferimentos graves, inclusive edema cerebral, esteve em coma, mas reagiu, lutou e acordou. Infelizmente e de forma um tanto quanto inacreditável, depois de vencer um coma, sucumbiu a infecções que não puderam ser controladas e faleceu. E a Ângela me ligou para dizer que sua família costumava conversar com ele durante o coma, indiferente às evidências de que sua consciência estava adormecida, repousando para que seu corpo tivesse forças de se concentrar no combate ao edema e outras graves lesões. Eles seguiam conversando e, a cada visita, os papos unilaterais rolavam sem parar. Em um desses dias, o cunhado da Ângela, de forma brincalhona e tratando de estabelecer uma atmosfera positiva, desafiou o pai dela a se recuperar logo, já que havia muito a ser feito fora dali, ora, as meninas andavam às voltas com contas a pagar, coisas a resolver, e o senhor vai tratando logo de sair daqui ou pelo menos dê seu jeito e libere aí a senha do banco porque o a coisa aqui tá complicada e bla bla bla. No dia seguinte ou dias depois, não sei ao certo, no rodízio estabelecido pela família para que todos pudessem passar horas com o pai dela, a irmã da Ângela o visitou. Nesse dia, o pai delas deu sinal de melhora e falou ou balbuciou alguma coisa, aparentemente sem sentido, uma palavra qualquer. Ângela me conta que todos ficaram um pouco preocupados com possíveis sequelas geradas pelo acidente, já que o que ele dizia não fazia sentido algum - apesar de saberem que o fato de falar por si só já era algo a se comemorar. E a palavra foi repetida por ele, aqui e ali, durante as visitas que se seguiram.

Semanas após a morte de seu pai, Ângela e suas irmãs encontraram documentos, bilhetes, papéis guardados a sete chaves por ele. Precisaram, obviamente, remexer tudo, dar destino às coisas, resolver pendências. E eis que ali, em um pedaço de papel, estava anotada a palavra dita na UTI, a reação à brincadeira do genro: a tal palavra aparentemente sem nexo era a senha do banco, a resposta ao cunhado da Ângela.

Ângela já tinha dividido essa história comigo antes, mas ela fez questão de me lembrar disso naquele dia. E, como um anjo, ela falou assim no telefone:

- Rita, amanhã você entre naquela UTI e fale com ela. Não importa se ela estiver inconsciente, sedada ou semiacordada; não importa o que os médicos vão dizer a você, que ela não pode ouvir, ignore. Fale com ela porque a gente não sabe onde está a consciência dela. Ninguém sabe. Fale com ela o tempo todo, diga o que você estiver sentindo, o que você quiser dizer, dê recados a ela, diga que vocês estão lá com ela, esperando, o tempo que for, etc.

E assim eu fiz. No dia seguinte, usei todo o tempo de que dispus na UTI para tocá-la e conversar com ela. E eu nunca em minha vida vou conseguir dizer a Ângela, apesar de já ter tentado várias vezes nas últimas semanas, o quanto lhe sou grata por isso. Porque eu certamente diria uma ou outra coisa à minha mãe naquele dia, mas as palavras da Ângela e a lembrança do episódio com seu pai fizeram com que eu me concentrasse em não me calar. Então eu tentei tranquilizar minha mãe, disse-lhe que estávamos todos com ela, esperando, cuidando de tudo, que estávamos com muita vontade de que ela se recuperasse, mas que não havia pressa, que nós faríamos o que fosse necessário fazer. E que ela não reparasse, mas éramos todos chorões e que chorávamos, sim, mas que acreditávamos em sua recuperação. E lhe passei todo carinho que consegui passar, disse-lhe que a amava e escolhi as palavras mais doces de que consegui me lembrar e foi isso que dei a ela naquele dia.

Cerca de vinte minutos depois que saímos da UTI, ela foi embora. E para o resto de minha vida vou levar comigo a lembrança de pouco mais de uma hora de troca, porque vou morrer acreditando que ela decidiu parar de lutar e se permitiu ir e finalmente descansar naquele momento porque se sentiu amada, confortada e acalentada, inteiramente.

Anjos existem, sim. Tenho vários em minha vida. Há momentos em que eles me telefonam e fazem toda a diferença.

***

Se vocês não lembram ou ainda não leram, essa é a Ângela.


 
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