Coragem


Contei as horas durante o dia para poder dizer "estou de férias". Quando o final da tarde veio, segui para o colégio das crianças para buscá-las. Lá conversei com a professora de meu filho e meu coração se quebrou em mil pedacinhos ao saber o quanto ele se sentiu chateado durante o penúltimo (ou último) ensaio antes da apresentação do final do ano. Ele não irá participar do evento que encerra o ano letivo, na próxima quinta-feira, dia 08. Nesse dia estaremos voando para o Nordeste, para a casa de minha mãe. O dia seguinte marcará um ano da morte dela e planejamos a viagem para estar lá na sexta-feira. Ainda não sabíamos da data da apresentação das crianças quando compramos as passagens, nem sei se teríamos feito diferente se já soubéssemos. Estar ou não estar lá no dia 09 não muda muita coisa, mas eu quis assim por razões que eu mesma desconheço. Agora lamento tanto privar meus filhos da festinha de encerramento na escola. Seria a primeira apresentação da Amanda, que, segundo a professora, tem na ponta da língua a musiquinha e na ponta dos pés cada passinho. Seria um momento especial para o Arthur, todo empolgado, ele que tem cantado a música tema de sua participação há semanas. Morro de pena. Eles já sabem. Fazem bico, mas logo mudam de assunto, desconfio que sofro mais que eles - não consigo evitar. O Arthur participou de quase todos os ensaios, mas as professoras que estão organizando entenderam que ele não deveria participar dos últimos para não confundir os colegas que o seguiriam na apresentação. No ano passado, não pude estar presente; enquanto ele dançava, eu acompanhava minha mãe na UTI, torcendo, esperando. Não quero que eles percebam o quanto estou triste pela infeliz coincidência nas datas, talvez nem tenha para eles o peso que suspeito. Enfim. Estou de férias.

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"Lembro da ampulheta quebrada, entrei no escritório do pai pra pegar o lápis vermelho e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico vendo o tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e cacos. Passado e futuro. (...) Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em trânsito sem se comprometer com os extremos. Livre."

Hoje concluí a leitura d'As Meninas, de Lygia Fagundes Telles (Ed. Rocco). Lia, Lorena, Ana Clara; e Lygia, conduzindo com suas letras afiadas as vidas dessas meninas, dando-lhe cargas pesadas demais, humanas demais. É tanta angústia e, talvez por isso, tanta beleza. Porque não é mesmo assim, há um punhado bom de beleza na tristeza? É o que dizem. É o que nos diz Lorena com seus amores invisíveis e suas histórias que não sabemos se são ou não são; ou Lia, com seu mundo todo por transformar e tantos inimigos no caminho; ou Ana, que prefere olhar pro lado e imaginar cenários. Ou eu, que leio, sinto e acho mesmo que a tristeza pode ser uma semente. E que a ampulheta quebrada é uma linda imagem.


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Eu vou. Vou com medo, muito medo. Mas vou. Vou entrar na casa que ela construiu, onde morei, onde cresci, de onde parti com sementes nos bolsos. Não há ampulhetas quebradas, o tempo escorre e escapa, sim, mas dentro de mim: volto e toco meu passado. Não é a própria definição de coragem, enfrentar nossos medos? Eu vou.

3 comentários:

Tina Lopes disse...

Certamente você sofre mais que eles com isso. Vai com coragem. Beijo.

Liliane disse...

Aqui na torcida por voce!

Luciana Nepomuceno disse...

Vai levando meu carinho e meu abraço. Criança entende amor e é isso que você é.

 
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