Conchas



Há muitas ranhuras na casa onde morei no início de minha juventude. Leva tempo para remover toda a areia. 

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Não havia marcas na areia porque eu tinha caminhado pela linha espelhada onde morrem as ondas. Entoando sua canção de sempre, a água do mar massageava meus tornozelos e apagava meus rastros. Com o frescor dos respingos em minhas pernas, tentava apreender tudo de uma vez: o verde sem fim, o azul sobre ele, o balanço de dois barcos pesqueiros corajosos diante do mar imenso, dezenas, centenas de pequenas conchas espalhadas na areia brilhante, as cócegas do vento em minha testa, as mãos das ondas em minhas canelas, palmeiras e mesmo os prédios para além delas. Tudo cabia, não havia sobras naquela manhã quente de verão.  Minha pele absorvia os raios e eu sabia que mais tarde, naquela noite, ela seria morna e levemente rubra, como minha alma naquele mês. Meus cabelos se embaraçavam e cheiravam a sal, meus olhos bebiam tudo que viam como se pudessem hidratar minha vida com aquele cenário. Parada, meus pés afundando na areia movediça que cedia ao vai e vem das águas, mirei as cabeças que pintavam o mar da praia vizinha e me senti grata pelo vento que carregava as vozes para longe de mim. Olhei para minhas mãos. Seis conchas se amontoavam e tilintavam, todas já lavadas ali mesmo, nas ondas que se quebravam aos meus pés. Três praticamente idênticas, com manchas uniformes em vários tons de marrom e preto, uma rosada como romã, uma perolada como cetim e outra bege, áspera, grande, ocupando metade da palma de minha mão. Uma concha é uma ex-casa e gosto de pensar que alguém partiu porque ficou grande. Ou porque sua forma não o permitia mais viver ali. Ou porque a vida é assim mesmo e conchas cumprem seu prazo de validade para depois serem levadas à praia onde compõem aquele quadro que me enebriava. Revirando meia dúzia de conchas abandonadas em minha mão, pude perceber que, apesar de tê-las banhado cuidadosamente minutos atrás, muitos minúsculos grãos de areia ainda incrustavam suas finas ranhuras. Pensei que tudo bem, algumas casas precisam de tempo para ter todos os rastros apagados, enquanto seus ex-moradores exploram outros chãos, outras casas. E as marés garantem: é tudo a mesma areia.


3 comentários:

Cissa disse...

sabe, por mais que o tempo passe eu fico na dúvida se é possível remover toda a areia.

Jarid Arraes disse...

Por que eu ainda me impressiono? Já sei há tanto tempo que teu blog é assim incrível.

<3

Juliana disse...

Oi, Rita! Cê lembra do sorteio do meu blog? Então, eu acho que vc deveria aparecer lá no blog e olhar o resultado. =) Acho que vc vai gostar...

 
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