Colo


E eis que dezembro chega com suas sombras. Costumo fazer pouco caso do calendário, mas dessa vez não tive chances. Dezembro chega e seus dias se anunciam pesados. Hoje ventou muito forte nesta ilha, ventou muito mais dentro de mim. Arrastada para o último dezembro, revivo hipnotizada esses dias em que, um ano atrás, eu tinha tanta esperança. 

2011 foi um ano de montanhas russas. Dos penhascos mais profundos cavados pelas saudades e solidões de janeiro, fui alçada por mãos generosas para uma superfície que ainda me é tão cara. Minha vida segue sem minha mãe, mas dizer isso é tão difícil. Do que é feita essa magia da linguagem? Por que expressar uma dor que mantemos nas gavetas da alma nos faz chorar tanto? Minha vida segue sem minha mãe, escrevo e me vejo descendo os declives novamente. Tanta falta. O telefone tão mais quieto.

Na semana que vem vou rever nossa casa, onde passei parte de minha infância, onde cresci e de onde parti deixando a mãe mais saudosa do mundo torcendo por mim. Não há preço para isso, ter alguém a quem você possa sempre atribuir torcida constante, suporte, porto. Seu amor chegava aqui em ventos bons, em palavras certas. Seu amor me dava um conforto indescritível. Seu olhar de mar me dava o mundo, fui muito, muito amada. 

Há algumas semanas me cerquei de fotos antigas, molhei muitas. Selecionei algumas em que ela aparece com pessoas que fizeram parte de sua vida, imprimi um pequeno álbum para que amigos e parentes próximos possam guardar de lembrança. Sempre me impressiono com a quantidade de fotos que ela tirou em sua juventude, em um tempo onde "tirar um retrato" exigia agendamento com um fotógrafo e uma boa dose de produção beirando o cinematográfico.  Sempre gostei dessas fotos antigas, dos lenços no cabelo, da cintura marcada, dos sapatos altos ressaltando suas pernas torneadas, tão famosas na cidade. Olho e tento associá-las às histórias que ouvi na mesa da cozinha: teria essa foto sido tirada no tempo daquele namorado especial? seria essa a amiga mais querida? com que sonhava essa moça bonita? onde comprou esse tecido? quem costurou esse vestido? a que festa iria? Tanto assunto. Poderíamos ficar naquela mesa por anos, o mundo girando ao nosso redor, a tagarelice ininterrupta: ela, orgulhosa de seus feitos, narrando tudo com brilho no olho; meu coração prestando atenção.

2011 trouxe projetos que já contei a ela inúmeras vezes em minhas conversas inventadas. Trouxe viagens divertidas que teriam gerado horas infinitas de papos ao telefone, muitas recomendações e preocupações com os netos soltos "nesse meio de mundo". Trouxe muitas lamúrias também e a tudo ela teria ouvido com paciência e solidariedade. Não mais. Perdi minha torcedora mais fiel, minha amiga mais verdadeira. Perdi e agora renovo lembranças, invento conversas, choro todas as lágrimas que me cabem, espero paciente o coração se desapertar - e ele volta ao ritmo, a vida é tão generosa comigo. Mas ficam as sombras dessa saudade sem fim, dessa pintura incompleta, uma história inacabada. Insisto em lembranças boas, choro quando as difíceis me dominam, lamento, supero e choro tudo outra vez. Dor faz parte da vida, carrego a minha da única maneira que sei, um jeito que aprendi: dando-lhe colo quando ela me pede. 

As fotos me olham, ouvem caladas e enxergam fundo dentro de mim.

Berna, tão linda.




 

10 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Tão lindas. No plural, baby, no plural...

Renata disse...

Ai, ai, escrevi um recado aqui, mas não sei se chegou...vou fazer de novo sim.
Nossa como gostei desse post, quando começei a ler me identifiquei com o trecho em que você fala que 2011 foi um ano de montanhas russas, porque? Porque o meu ano teria sido cheio de montanhas russas, em razão da minha mãe ter emtrado em mais uma crise de depressão e dessa vez, optei por cuidar dela, em casa, isto porque das outras vezes,como eu e meus irmãos eramos pequenos, a única alternativa era a internação, mas dessa vez parei tudo e passei quatro meses me dedicando exclusivamente a ela.
E ai, por isso, estava pensando, que chegou dezembro, meio que fazendo uma analise do ano, que 2011 nao tinha sido muito bom, seja porque não conclui minha pós, seja porque não estudei tanto quanto quero e preciso para passar em um outro concurso, seja porque nao trabalahei muito para ter dinheiro para pagar as minhas contas e fazer outras coisas, como viajar, seja porque com esse problema da minha mãe meu casamento deu uma balançada, mas depois de ler seu post, tive certeza que meu ano foi sim bom, porque consegui ver de novo minha mãe alegre, animada, depois de uma crise grave, vi ela sorrir de novo, voltar a ocupar o posto dela de mãe preocupada, ve-la sentir vontade de se arrumar, como sempre foi, desde que ela era nova, quando me mostrava suas fotos antigas, comentando, exatamente como você falou que sua mae fazia, dos vestidos, dos saltos, dos namoradinhos, então tenho sim que lhe agradecer, me compadecendo com sua dor...porque agora sei que 2011 me trouxe muitas alegrias, só por ter minha mãe aqui, do meu lado...estou chorando, mas feliz e goi graças ao seu texto, de novo, obrigada.
bjus

Cecilia disse...

Rita,
Quando você fala da sua mãe, fico aqui pensando que pessoa genial ela deve ter sido para conquistar a sua admiração incondicional. Acho que essa seria a minha ambição suprema como mãe, ser mais do que um modelo para o meu filho, ser inspiração mesmo.

Infelizmente minha relação com a minha mãe nunca chegou nem perto disso. Não sei se é insensível eu dizer que, mesmo na dor, você teve a sorte de ter tido esse porto seguro na sua vida, que certamente fez de você essa pessoa sensível e de alto astral que a gente percebe ao ler seus posts.

Se eu pudesse te fazer uma sugestão, diria pra escrever a história dela, pedacinho por pedacinho. Tenho certeza de que inspiraria a muitas mães meio sem rumo como eu.

Fique bem! Um abraço apertado!

Patricia Scarpin disse...

Ai, querida, com olhos cheios de lágrimas leio o teu post, me identifico com as tuas palavras em alguns momentos. Sinto a sua dor. Queria poder te dar um abraço bem apertado agora.

xx

Glória Maria Vieira disse...

Ai, Rita! Sua mãe e você me emocionam...
Veja só que linda é você e veja só que linda é sua mãe. (É, porque ela não deixou de ser linda, né?!)

Tina Lopes disse...

Nunca sei o que te escrever quando você fala dela. Só me dá vontade de te dar a mão, um abraço. =***

luci disse...

gosto quando tu escreve sobre tua mae, é tao bonitinho! mas fico muda. parece ser tao dificil! :(

Rita disse...

Pessoas, obrigada pelo carinho. E não reparem, fico tão coruja quando falo dela quanto fico quando falo de meus filhos. :-)

Bjs
Rita

socorro rocha disse...

Carissima Rita, se pudesse te dar o colo neste momento, como fazia lá no pequeno príncipe... bjs

Angela disse...

O coracao ta apertado aqui tambem. Penso nos acontecimentos, no desenrolar daqueles dias. A dor nao passa, mas se transforma. Ainda esta cedo, mas te desejo serenidade, mesmo que ainda nao seja plena.

 
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