Quando o melhor é perder a piada


É tremendamente fácil, no meio em que vivo - na minha família, no trabalho, entre amigos - esquecer por completo a questão da violência contra a mulher. Não vivo em uma família com histórico de violência. Sou casada com um marido feminista (né, mô?), não convivo atualmente com nenhum casal que tenha enfrentado qualquer conflito desse tipo, não falo sobre o assunto no trabalho, não testemunho casos de agressão. A violência contra a mulher é praticamente invisível, parece mesmo que inexistente, nos espaços por onde normalmente circulo. Não fosse a internet, a mídia em geral, eu poderia apostar que o troço é coisa do passado. É só me manter desatenta.

Na chegada desse 25 de novembro, mais um dia de ativismo pelo fim da violência contra a mulher, quase desisto de escrever sobre o assunto, já que dezenas de ótimos textos vão pipocar internet afora nas próximas horas. Tanto será dito, muito melhor e mais embasado do que quaisquer dados que eu queira apontar aqui. Quase desisto. Até que me lembro: das sutilezas. Das piadinhas. Das falas carregadas de misoginia que escapam quase sem querer e, puf, arregalam meus olhos. E ainda que os piadistas jamais cometam um ato sequer de violência física, ainda assim contribuem para a banalização do tema e o conforto dos que vão além da agressão verbal. A violência não nasce do nada. Antes da mão erguida, do gatilho puxado, existe o discurso. Um homem que mata pela "honra" não inventou o motivo de seu crime sozinho, em sua cabeça desocupada e mal resolvida. Ele encontrou no meio social em que está inserido o suporte para levar seu machismo a limites insustentáveis. Ali, na aura que se mantém em torno de piadas e discursos machistas. Ali, numa sociedade que parece moldada para enxergar o corpo da mulher com uma única e insubstituível função: satisfazer os desejos masculinos. Ali, no mundo que ainda hoje, em 2011, celebra a virilidade dos garotos e julga com dedo cristão a sexualidade das meninas. Ali, na vida que diz ao agressor, todo dia, que ele detém os poderes sobre as escolhas de sua companheira. 

Não dá para fazer pouco caso do poder da palavra. Nossas falas moldam nossas vivências porque nos representam e disseminam nossas convicções, opiniões, acertos, equívocos. Indo mais longe, posso cometer um crime com minha boca ao proferir uma fala racista; posso caluniar; posso ferir; posso humilhar. Ou posso ser mais sutil e "apenas" preparar o terreno para que as assertivas mais violentas encontrem espaço e se consolidem. Assim, posso fazer piadinhas misóginas e, literalmente, rir da desgraça alheia. Porque a misoginia muitas vezes está na base de muitos casos de agressão à mulher. Posso difundir piadas de cunho machista, pseudomoralistas, e perpetuar o controle social sobre o corpo da mulher, sobre sua sexualidade, tolhendo seu direito inalienável de vivenciá-la como bem lhe aprouver. Posso oprimir com piadas. Posso quase justificar agressões. 

Há alguns meses, não me lembro se através da lista de discussão das blogueiras feministas, ou se através da minha ótima timeline no twitter, conheci um site que divulga a articulação de um grupo de homens engajados em diminuir os índices de estupro e agressão doméstica. Acredito que esse é um momento mais do que oportuno para divulgar o site Men Can Stop Rape. É uma boa hora para difundir a ideia de que homens sensíveis ao tema têm um papel fundamental na diminuição da violência contra a mulher. Juntos, podemos avançar no combate ao discurso misógino e machista que, muitas vezes, alimenta a triste cadeia de agressões diárias que vitimam milhares de meninas e mulheres mundo afora. Quem se detém por um minuto a analisar os números horrorosos dos índices de agressão doméstica não tem dúvida: piada machista não tem a menor graça.  



4 comentários:

Alessandra disse...

Gostei muitíssimo. Compartilhei.

crocomila disse...

Amei! Compartilhei viu...

Xad Camomila disse...

Oi, Rita! Gostei muito do texto! Vai lá ver:

http://scmcampinas.blogspot.com/2011/11/eu-elas-e-blogagem-coletiva-pelo-fim-da.html

Gde abraço.

Dária disse...

Belo texto. Gosto de discussões que giram em torno do poder das palavras. É incrível o quanto as pessoas falam coisas sem para pra refletir sobre seus significados e seus impactos.
Me irrita particularmente quando além de não refletir, as pessoas que são chamadas a atenção em relação a uma fala já começam a te acusar de fazer uma "patrulha do politicamente correto". Como se ser correto fosse errado, numa grande inversão de valores que existe por aí, que acha que bom mesmo é ser livre para falar todas as merdas, e ruim é ter de respeitar os direitos dos outros.


Ah, desta vez consegui participar da blogagem coletiva também (Viva! hahah)

 
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