Letra bonita



Hoje vi o que vou para sempre lembrar como sendo a primeira redação do Arthur. Pode não ter sido a primeiríssima, ele já fez outros textos na escola, mas esse tinha o status de redação. Com tema, título, essas coisas. Gostei muito do que vi e não falo só da dele; fiquei babando com os textos dos colegas de sua sala, todos expostos no corredor das salas de aula, ilustrados com desenhos que são a cara deles e caprichosamente escritos com letrinhas (de forma) que considerei firmes até demais para crianças com apenas seis ou sete anos de idade.

Tenho pensado nisso, na letra. A letra cursiva já aparece em parte dos textos dos livros escolares do Arthur, ele já consegue desenhá-la e aos poucos vai adquirindo confiança e dominando seus segredos - sem pressa, já acho demais que eles consigam escrever tanto em letra de forma! O que tem me deixado curiosa é que serventia terá a letra cursiva para a geração dos meus filhos.

Hoje, para fazer uma tarefa do curso de francês, imprimi as questões que o professor me mandara por e-mail, peguei caneta e papel, abri dicionário de papel, instalei-me na mesa da sala e mandei ver. Depois, ó que ridículo, digitei tudo e mandei para ele. Funciono assim, quando estudo: quero escrever. A mão. Parece que percebo melhor as palavras quando faço assim. Caso contrário, elas se perdem mais rápido. Não funciona da mesma maneira quando escrevo um post ou conto, por exemplo. Mas é assim que gosto de estudar, talvez por condicionamento, vá saber. Eu poderia perfeitamente estudar sem escrever uma linha sequer, minhas aulas são feitas via skype e todos os textos e exercícios estão armazenados em meu computador. Além disso, há excelentes fontes de consulta na web, então meus dicionários e gramáticas poderiam muito bem se aposentar. Se. Se eu não sentisse necessidade de escrever de próprio punho para melhor apreender tanto vocabulário novo. E é nesses momentos que percebo como minha caligrafia sofreu alterações desastrosas nos últimos anos. Como minha mão se impacienta e quer logo terminar de escrever. A lista de compras semanal parece cada vez mais uma sequência ininteligível de hieróglifos. Feijão pode ser lido como fijo, manteiga como mantiz. São rabiscos impacientes onde deveriam estar palavras bem torneadas. Deveriam?

Que papel terá a caligrafia, a letra cursiva, nas gerações que estão crescendo com o I-Pad na mão? Que não anotam mais números de telefone, apenas os incluem na caixa postal do celular? Que vão à faculdade com laptops? Que mandam e-mails e torpedos ao invés de cartões postais e cartinhas de amor? Uma amiga hoje comentou que leu em algum lugar que alguns estados americanos tornaram facultativo o ensino da letra cursiva às crianças. Penso em meus diários com letras redondas e me pergunto quanto tempo falta para os diários digitais... nenhum, né.

Aprendi que o domínio da escrita, para além da alfabetização, desempenha uma função importante no desenvolvimento infantil. A chamada motricidade fina é reconhecida como competência fundamental para desenvolvimentos futuros no raciocínio lógico, por exemplo. Como pessoa idosa experiente nascida na década de setenta, que se emociona cada vez que escuta O Caderno, experimento certa melancolia diante de notícias como a que minha amiga comentou, mas me pergunto de verdade o quanto devo importunar meus filhos com o bom e velho "capricha na letra, hein". A resposta vem em seguida quando penso que eles têm pela frente longos anos de vida escolar nos quais, espero, lápis, pincéis e canetas terão papel central. Uma boa letra, apresentável e facilmente legível, só facilita a vida. Ainda assim, não acho absurdo questionar que espaço, fora da sala de aula, a letra cursiva ocupará em suas vidas.

***

Off topic - Já viram que o meme tá pegando fogo? 


5 comentários:

Juliana disse...

tem que aprender a escrever com etra cursiva sim porque, quando a bateria do celular acaba, o cabo do note quebra, tudo o mais falha, a salvação vem do lápis e do papel.

Eu não lembro quando foi a última vez que escrevi em papel sem por trabalho.Esse seu post me deu um desespero! =)

Aline Mariane disse...

Sobre a letra cursiva: por aqui, entre os adultos estrangeiros que convivi nos meus muitos cursos de francês, reparei uma tendência: latinos (latino-americanos, espanhóis, italianos e claro, os próprios franceses) escrevem em letra cursiva. Ingleses, norte-americanos, alemães e asiáticos exrevem em letra de forma. No Senegal, ex-colônia francesa, as crianças aprendem letra cursiva. No Quênia, ex-colônia inglesa, as crianças só aprendem letra de forma, nem os professores usam cursiva. Fiquei pensando se não tem uma relação com o idioma escrito... será?!?
Muitas linhas para o pequeno escritor! ;) Bjss!

Ricardo Moraleida disse...

Minha letra cursiva aos 28 anos ainda se parece com a de uma criança de uns 10 ou 12 fazer o quê? Eu custei muito a aceitar que a letra cursiva não era pra mim.

Acho engraçado hoje pensar que usei caderno de caligrafia até a 8ª série (recomendado ano após ano pelos professores e caridosamente comprados pela minha mãe), mas a letra cursiva, ou melhor, a obrigação de escrever em cursivas quase matou meu prazer de escrever, eu acho.

Eu gosto de papel e de caneta. O que eu nunca gostei era da frustração de ser obrigado a escrever em letra cursiva sendo que eu era capaz de me expressar muito melhor em letras de forma.

Minha experiência diz que letras cursivas são lindas, um super "asset" a ser ensinado, mas deviam ser plenamente opcionais, colaborando com a sanidade mental das crianças (e adultos) com menos coordenação motora. :)

Anônimo disse...

Um intetessante tudo isso. Agora estou me fazendo as mesmas perguntas. Ah, lendo seu post é que esses dias estava questionando que minha letra tem piorado a cada dia. Acontece exatamente isso que vc falou, imapciência, pressa e sai a cada dia pior.
Beijos,
Ju

Angela disse...

Adoro o simples poder da comunicacao. Cursiva, de forma, digital, no papel, deu para o outro entender, missao cumprida. Talvez por isso tenha letra nao muito caprichada. E quando escrevo so para mim mesmo, a caligrafia torna-se criptografia e so eu decifro.

Acho que Max vai querer aprender a escrever em letras cursivas. Ontem mesmo ele planejava reproduzir as "fancy letters" da capa do livrinho que estava lendo. Por enquanto ele escreve em letra de forma, bastante legivel. Leio direitinho: Mom is old. Dad is fat. Mom is fat. Dad is old. Nao vejo a hora de ele comecar a aprender cursivas, vou torcer para nao entender nada.

 
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