Do conforto



Há certo conforto na minha sala que nada tem a ver com o sofá. Nada é novidade, já há tempos sei desse conforto, pois usufruo dele em doses que colho com a mão à medida da necessidade da vez - e, às vezes, com abundância, porém nunca com desperdício. Mas ontem o escurinho da sala fez tudo ficar muito nítido e me peguei ali, à margem do quadro, olhando e sorvendo. Havia uma tv ligada e nela um desenho animado repetido cujos diálogos povoam as cabecinhas cacheadas da minha casa. Havia mãos sujas de uma pipoca caseira que encheu a casa com aquele cheiro adorado mundialmente (menos por mim), um pai, uma avó.  Havia o silêncio preenchido pelas vozes da tv, havia olhos atentos, boquinhas que mastigavam de va gar. Na cozinha, eu. Que reneguei a pipoca e fiquei ali com meu pote de cereal marginal. O filme passando, além do da tv, e eu olhando minha vida. Minha vida ali no sofá me mostrando um retrato, quase todo preto, do meu caminho. Havia sido uma manhã de fotos antigas, outros retratos de outros trechos; uma manhã de lembranças ora espinhosas, ora ingênuas (já que tão boas). E à noite, na penumbra, em pé, na cozinha, eu segurava o pote de cereal que pesava nada porque eu só sentia o peso no peito que chegara de manhã. Acho que eu também mastigava devagar quando senti a fotografia do filme da sala se juntar ao volume do peito e me lembrar de que a vida é assim, com caminhos, filmes e lembranças confusas. E que é muito bom ter tanto conforto. Que não tem nada a ver com o sofá. 

 

3 comentários:

Dária disse...

Sou apaixonada pela maneira como você escreve! =)

Anônimo disse...

Lindo, lindo!

Rita disse...

Obrigada, gente. :-)

 
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