Cores de pele




Na escola onde meus filhos estudam o lápis de cor bege é conhecido com cor de pele. Eu estranhei a primeira vez que ouvi o termo, mas não dei muita bola. Achei esquisito, mas deixei pra lá. O tempo vai passando e o que nos incomoda cedo ou tarde se torna espinhoso e a gente verbaliza. Então num dia qualquer falei para os meus filhos que aquela denominação estava errada, o nome da cor é bege. Ou rosa clarinho, como quiser. Qualquer coisa, mas não é cor de pele. Porque pele pode ter várias cores, tanto mais num país arco-íris como o nosso. A pele pode ser vermelha, marrom, preta, branquela ou amarela. Pode ser bege também. E pode vir em muitas nuanças. E brinco e digo que o marciano é verde, olha aí, bege não serve. Nenhuma cor é colorida o suficiente para merecer o título de cor de pele. Não aqui, nesse país. E vou aí na campanha, porque acho que é importante. De vez em quando, eles repetem: cor de pele; vou lá e digo nananinanão, isso aí é bege. Tanta gente diria: "que bobagem".

Daí a filha de 6 anos de minha amiga voltou para casa chorando porque ela estava "namorando" o (único) amiguinho negro da turma e suas amigas tinham dito que ela não podia fazer isso. As amiguinhas estavam pressionando. Não pode. Porque ele não é "cor de pele". Esse episódio, que gerou um nó no meu estômago e indignação na minha amiga (que conversou com a professora), é um grito pra mim. Um grito de que não, sinto muito, eu até gostaria que fosse bobagem, mas não é. É a bolha. A grande bolha opaca que nos impede de ver além dela. Meus filhos estão crescendo com o pé nessa bolha. Então o assunto me interessa demais e o dia da consciência negra é muito meu também. Porque a gente precisa, por muitas razões, passar aos nossos filhos um discurso que não exclua ninguém pela cor da pele. E, quase desnecessário dizer, não estou demonizando as crianças da turma - elas apenas reproduziram um lógica muito clara para elas. Estou, sim, salientando o que um episódio como esse evidencia: é muito mais do que ser politicamente correto. Muito mais. É da infância de qualquer cor que estou falando. (Eu ia falar do fato de o garoto ser o único negro na turma, mesmo levando em conta o fato de que moro no sul de maioria branca. É maioria, mas não é quase totalidade. Eu ia falar, mas vou só ecoar a Iara.)

Outros textos da blogagem coletiva pelo Dia da Consciência Negra aqui.

E, professores, atenção: é cores; no plural. ;-)





13 comentários:

Juliana disse...

ah, rita, me deu até um nó.

hoje aconteceu uma situação desse tipo dentro da minha sala de aula que ainda não digeri e esse seu post tocou aqui ó.

Tina Lopes disse...

Já passei por essa situação do lápis e hoje a Nina sempre ensina que não é cor de pele - aliás, aquele bege é cor de pele de boneca, não existe. Enfim. Que situação horrível essa que você contou, que triste.

Renata Lins disse...

Ai, Rita, que dor de viver isso. Minha irmã já me contou de uma situação vivida com os pais da creche do filho dela, em que os pais é que discriminavam o pequeno "diferente" da turma. De uma reunião de pais em que ela teve que ser a voz dissonante, e depois a professora foi agradecer a ela por ter feito esse papel. E é sim, com essa idade pequena que a gente educa os olhos de ver todas as cores. Depois, a gente já vê do jeito que a gente vê, e acha que é "natural". Um beijo muito grande pra você.

Luciana Nepomuceno disse...

Menina, que dor que me deu. E, putz, que sorte louca que eu tive, viu. Lá em casa tem de todas as cores.

Bárbara Lopes disse...

O Ziraldo conta que escreveu o Menino Marrom porque um dia mandou um desenho pro colorista indicando "cor de pele", e o cara perguntou "cor de pele branca ou cor de pele negra?". E o livro é todo lindo.

Angela disse...

Importantissimo desfazer esses detalhes "sutis" (para alguns) e muitas vezes inocentes. Muito triste o que voce descreveu.

Criancas sao donas de mentes abertas, precisamos alimenta-las com banhos de diversidade.

Na escola de Max so ha uma criancas negra (apesar de muitas outras "cores de peles", culturas, religioes, etc...). Porem o cartaz de pinguim com calcao de surf, oculos escuros e o dizer "Dare to be different" anuncia que a diversidade precisa rolar solta por la. E rola.

O mes de Outubro foi todo sobre a Africa. Max fez kufis de papel, cabaças africanas de papel marche, mascaras, bonecas akua-ba, Kentes de papel, carimbos de Adinkra e aprendeu a cantar musiquinhas infantis em swahili. Eu convidei meu vizinho que faz documentarios e ajuda refugiados a trazer um pouco da Africa para a sala dele e assisti a doze criancas fascinadas pelos amigos Africanos durante uma hora inteira. No nosso carro rolou Timbalada o mes todo, pela qual Max eh alucinado, principalmente com a Levada do Timbau "a musica cheia de sons". Na escola o livro infantil lido era sobre a Civil War, e Max me contou historias sobre a escravidao. Na hora de dormir o livro infantil que liamos era sobre Louis Armstrong, durante a qual ele aprendeu, e para minha felicidade nao entendeu, que naquela epoca os descendentes de Africanos tinham que sentar nos bancos de tras do onibus so por que eram de uma cor diferente. O olhar de Max carregou um mar de interrogacoes... Ouvimos e assistimos a videos de Louis na internet (Max tambem adora o King of Jazz), durante os quais chamei atencao varias vezes ao sorriso enorme de Louis, principalmente nas fotos de quando era crianca.

Em troca, Max me convidou muito gravemente para acompanha-lo a um espetaculo do African Childrens Choir, durante o qual me mostrou os muitos sorrisos que nem o do Louis em lindas criancas "desprevilegiadas" (ou privilegiadas) Africanas que me surpreenderam com em ritmos e cores e dancas de tirar o folego. Nas poltronas ao nosso lado estava um casal gay estravagante da nossa cidade, bem conhecidos por se transportarem em uma bicicleta tandem (ate na neve do inverno), e se vestirem iguais em trajes estrambolicas com chapeus mirabolantes todos os dias. Max sequer notou que eram "diferentes" e eu deixei assim. A porta da mente dele continua escancarada!

Nos temos a capacidade de criar o que quisermos ao nosso redor. Podemos fazer muito para manter o universo desses pequenos abertos e expandidos.

Missao importante que ganhou ainda mais o meu foco esse outubro, depois de eu ter chorado alto no meu carro, na volta de uma sessao com o meu quiropata na ultima semana de setembro, durante a qual ele me contou sobre suas mais recentes viajens a Africa com outros voluntarios, pastores, ex-militares, ex-KGBs, para resgatar criancas escravas. As mais novas com apenas cinco anos, trabalham algemadas dezesseis horas por dia e muitos mau tratos. Muitas nao conseguem chegar aos dez anos. Novas criancas sao compradas por merrecas para substitui-las. Ha centenas de milhares delas por onde ele vai.

Desigualdade social e abuso de poder mundo afora ja sao dificeis o bastante, nao precisamos complicar ainda mais adicionando problemas de diferencas de cor.

Me desculpa a invasao na sua caixa de comentarios. Mas ja estava inchando com o post das roupas infantis, ai veio esse e nao consegui segurar tanta indignacao. Cor de pele uma porcaria. É bege e pronto.

Dária disse...

Rita, que coisa, eu tava pensando exatamente nisso estes dias... as cores dos lápis. Assim como seus filhos, me dei conta recentemente que passei a infância inteira chamando o bege de "cor de pele". Também aqui fui ensinada com esta expressão. E talvez aquela seja mesmo a cor da minha pele em específico, mas sou filha de uma negra, sobrinha e neta de tantos outros, que nunca me corrigiram. Fico tentando me lembrar quem me ensinou como se chamava aquela cor, tendo a apostar na escola também, ou ao menos a escola tenha me viciado no termo, que eu deixei de usar já adolescente quando começava a raciocinar algumas coisas.

Muito bom ver pais como vc corrigindo tais comportamentos. Gostaria de saber como a mãe da menina tratou o lance do namorado. Que tipo de conversa teve com ela. Sou completamente apaixonada por estes detalhes da formação e educação infantil, vivo imaginando como sofrerei quando forem meus filhos!

Beijos

Dária disse...

Não resisti. Os dois textos do blog (de ontem e de hoje) foram pro meu status do facebook. O de ontem já foi até repassado pelas amigas rss ;)

Dária disse...

Fiz um textinho minúsculo pra não passar em branco, citando o teu:
http://menestrelinventa.wordpress.com/2011/11/22/um-corpo-de-mil-cores/

NILMA disse...

Muito interessante Rita seu texto, infelizmente essas situações acontecem muito, principalmente em sala de aula, se não lutarmos por mudança de atitudes e pensamentos das nossas crianças, como será o futuro? como professora e como mãe faço minha parte.Gostei muito do texto, pretendo passar essa ideia adiante.
Abração.
Estamos esperando ansiosos sua chegada.

Rita disse...

Meninas todas,

adorei a discussão toda que o post gerou por aí. Muito obrigada a quem divulgou e contribuiu pro papo.

Babi, não conheço esse livro do Ziraldo, mas fiquei cheia de vontade de comprar.

Anginha, seu comentário me deixou tão tão emocionada que você nem imagina. Vide e-mail.

Dária, comentei lá em seu blog. Muito obrigada pelos links.

Eu fico muito triste quando vejo episódios de crianças reproduzindo discursos preconceituosos, porque, ne´, eles não fazem ideia do tipo de coisa que perpetuamos com certos comentários. E às vezes reproduzem os pais, mas em outras só ecoam outras crianças e o círculo vai crescendo e se mantendo. Por isso ações na linha em que a Ângela exemplificou são tão importantes para manter suas cabecinhas fofas abertíssimas. E a escola, meldels, tem um papel fundamental nisso aí - por isso a omissão me incomoda tanto. Vumbora cutucar essas escolas então, né.

Beijos
Rita

caso me esquecam disse...

isso ainda existe?! porque quando eu era guria, sim, a gente chamava cor de pele os lapis beges. e claro, sempre pintavamos com ele os desenhos. e inclusive, a gente nunca usava preto ou marrom pra pintar nem mesmo os cabelos! todos os cabelos eram sempre loiros. sempre... achei que isso tivesse mudado. mas por que diabos eu pensei isso? bobinha

Camila disse...

Sabe o que me deixou mais triste? É pensar que (o pior da) História se repete. Não faz muito tempo, encontrei meu primeiro diário. Eu tinha 6 anos quando escrevi assim: "tem uns neguinhos na minha classe, mas eu nunca vou namorar com eles!!!". Ler isso vinte e tantos anos depois doeu. Constatar que a geração da sua filha poderia ter escrito exatamente a mesma frase doeu ainda mais. Um beijo enorme, Rita.

 
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