Os Irmãos Karamázov


<3 Acabou. Não sei o que fazer.

Depois de mais de um mês, encerrei hoje minha leitura da obra-prima de Fiódor Dostoiévski. Entreguei-me com prazer à narrativa sobre a família Karamázov e minha única lamentação é não ter lido o livro antes. Hoje fiquei um pouco sem rumo. Terminada a leitura, voltei a abrir o livro na última página e reli o último diálogo. E vi a neve e a meninada, e quase ouvi o vento. E me senti grata.

Deve haver uma infinidade de tratados, dissertações e teses sobre os elementos, a narrativa, os personagens, os confrontos filosóficos, religiosos e sociais, o papel fundamental da psicologia e tudo mais que compõe a saga dos Karamázov. Como disse meu digníssimo marido, não é clássico à toa. Não, não é.

Aprendi, alguns anos atrás, com Crime & Castigo, que Dostoiévski era um ás na construção de seus personagens. Suas descrições e caracterizações são multifacetadas, complexas - como nós aqui no mundo real. Isso é fundamental para a experiência do leitor: os personagens são tão intensos que nosso envolvimento com a obra também se intensifica. A cada apresentação de um novo personagem, paro, respiro e suspiro: caramba, o cara mandava muito bem. Esse talento extraordinário em descascar a alma humana (vamos chamar de alma, okay) abunda em cada página d'Os Irmãos Karamázov. As caracterizações dos personagens, a construção de suas falas e as descrições de seus conflitos são nada menos que geniais. E aí ele dá um passo além: esses personagens tão bem construídos são também personificações de posicionamentos filosóficos diversos que se cruzam, enfrentam-se e dialogam em páginas que são verdadeiros embates filosóficos e existenciais. Delirante.

A história do livro é a história dos filhos de Fiódor Pávlovitch Karamázov, pessoa que podemos descrever a partir de adjetivos como egoísta desprezível ou outros correlatos. Os irmãos Dmitri, Ivan e Aliócha se criam apesar do pai, órfãos de mãe, tomam rumos distintos, crescem praticamente sem vínculos entre si e voltam a se encontrar na vida adulta, quando seus destinos se cruzam de maneira trágica com o do pai. Muitos outros personagens cruzam os caminhos dos Karamázov, como o criado Smierdiakóv e as mulheres que ocupam papéis centrais na trama, Catierina Ivánovna e a sedutora Grúchenka - e ninguém aparece na história por acaso. Os rumos distintos seguidos pelos irmãos antes do reencontro formam adultos com convicções distintas e personalidade conflitantes. Essas caracterizações dissonantes são um deleite para o leitor, pois é a partir das convicções de cada um dos irmãos que Dostoiévski constrói passagens memoráveis, como a parábola do Grande Inquisidor em que o intelectualizado Ivan (meu personagem favorito, muito amor por ele!*) confronta a fé e a moral do mundo idealizado pelo místico Aliócha (um fofo também): páginas saborosas para ler e reler muitas vezes.

Gostei muito do narrador da história, figura interessantíssima e que me arrancou, inclusive, algumas risadas. Apesar de onipresente, aqui e ali declara-se incapaz de se aprofundar muito em alguns pontos por não se lembrar de tudo (a narrativa se dá treze anos após o desenrolar dos fatos) e assim coloca pulgas atrás de nossas orelhas: haverá mais? Oh, my god! Gostei também de sua parcialidade - narrador que tem personagem favorito! - e dos momentos em que se coloca como coadjuvante da história, puxando para si um pouco da excitação em determinadas partes da trama, um pouco da profunda tristeza em outros momentos.

Os Irmãos Karamázov não é "só" filosofia e psicologia: é uma história envolvente, magistralmente bem construída e surpreendente. Na reta final quase dei pulos do sofá e odiei com todas as minhas forças... não vou dizer quem. Há passagens emocionantes e ainda personagens infantis adoráveis. A linda sequência final nos deixa com um gostinho bom de fraternidade, de esperança na humanidade, com um olhar para a infância como campo de boas sementes. Entrou fazendo barulho para a lista dos meus favoritos, com lugar de honra.

Como se não bastasse, a edição que tenho é linda e primorosa. Trata-se, segundo consta no posfácio do tradutor, da única edição integral da obra em língua portuguesa. Editada pela Editora 34 (a mesma da edição de Crime e Castigo de que falei aqui), tem tradução de Paulo Bezerra e ilustrações (já falei que adoro livros ilustrados?) de Ulysses Bôscolo. Bem sei que dispensa recomendações, então me limito a engrossar o coro: fundamental.

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*Em seu posfácio, Paulo Bezerra se refere a Ivan Karamázov como "uma das criações mais geniais de toda a história da literatura".  

7 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Post irretocável. Também amo Ivan. Também amo Dostô. E, sintonia, das sintonias, estava aqui escrevendo como os bons livros - pra mim - nem são as melhores histórias (embora esse seja também) mas os que me trazem personagens que me deixam com saudade (isso por causa do post da Renata Lima).

Pri S. disse...

Nossa, que vontade de ler esse livro! Ainda estou ensaiando pra ler "Crime e Castigo" que eu tenho aqui. Agora até me animei! rs Quem sabe nas férias de Janeiro quando meu mundo se acalma... rs Ótimo texto! Bjos!

Angela disse...

Depois desse post estou desconfiada que pela primeira vez vou ler um livro pela segunda vez. :)

Rita disse...

Lu, muita saudade do Ivan, mimimimi.

Pri, obrigada. E boa leitura!

Anginha, esse vale, hein. Putz, guria, gostei TANTO, tanto, tanto, daquele jeito.

Beijão, pessoas.
Rita

disse...

Tenho um sério problema de nao lembrar muito bem dos livros que leio. So' lembro que gostei bastante também. E agora fiquei com vontade de ler de novo. ;)

Renata Lins disse...

Esse é daquela série "clássicos que deveria ter lido e não li" - tem um monte nessa série. Tenho a sensação de que ia adorar, mas ele e eu nunca nos encontramos em tempo hábil. E nem vou dizer "um dia desses".... se bem que nunca se sabe... mas tenho também a sensação de que o tempo de eu ler isso passou. Será? Por enquanto, gosto de ler resenhas bem feitas...
Beijos!

Rita disse...

De, taí um que vale a pena ler de novo, viu.

Re, tem cer-te-za de que não quer ler, tipo... agora? ;-) Hein?

Bj
Rita

 
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