Onilda


Ontem o Arthur voltou da escola com um livro emprestado da biblioteca, tal qual acontece toda quarta-feira. Sentou-se no sofá ao meu lado para ler a história nova pra mim e eu lá, mais contente que ele. E foi lendo, todo animado, tirando uma dúvida aqui outra ali sobre palavrinhas que eram novidade; foi lendo e meu entusiasmo foi morrendo. Porque o livro era forte concorrente ao prêmio literatura sem qualquer noção.

Não quero que me entendam mal, pelamordedeus, não precisa me acusar de defensora da censura, censura! absurdo! a rita quer censurar o livro, corram para as montanhas, onde esse mundo vai parar, socorro!! Não, não precisa nada disso. Menos. Prestenção. Estou dizendo que não gostei do livro. Pronto, já terminou.

O livro integra a série de títulos com a Bruxa Onilda - só pelo nome, já gosto dela demais. Da Onilda. Mas gostar não significa engolir todos os sapos, concorda? Pois bem. O da vez chama-se Os amores da Bruxa Onilda. Eu fiquei curiosa, você não ficaria? Livro indicado para crianças a partir de 7 anos. Arthur tem 6, tá valendo. Bom, lê aí, Arthur. 

O livro tem duas histórias: Anjo ou demônio? e Um patinador fora de série. Na primeira, a bruxa recebe a visita de um "diabo travesso", fã da bruxa, que é, nessas exatas palavras, o "filho do demônio". A bruxa se queixa, diz que o diabo não foi convidado e que viver com ele é um "verdadeiro inferno". Mãe, o que é demônio? Mãe, o que é inferno? etc. Daí o diabo apronta um monte e a bruxa resolva fazer um feitiço e transformá-lo em um diabo bonzinho. Lindo. Mas ele não pode ser bom, porque é um diabo e então ele acaba sendo expulso do inferno. Ex-pul-so-do-in-fer-no. Ri e tal. Para finalizar, a bruxa, sentindo-se culpada com o destino do filho do demo, consegue "arranjar um emprego" para o diabo que passa a assustar crianças no túnel do trem fantasma. Fim. Ah, o diabo passa a escrever cartas "ardentes" para a bruxa. Olha, na boa. Ruim e sem noção (o duplo sentido de "ardentes", baby, não é captado pela criança de sete anos, sabe), mas passa. O "melhor" ainda estava por vir. 

Vamos à segunda, Um patinador fora de série. Resumindo: um entregador de pizza que a bruxa chama de "cabeça de vento" esbarra nela. Ela se apaixona por ele. Depois de perceber a falta de talento do moço para o universo das bruxarias, Onilda faz crescer em sua boca dois dentes de vampiro. Orgulhosa de seu trabalho, Onilda suspira: "Eu bem que poderia me tornar dentista. Dizem que isso dá muito dinheiro!" (As pérolas abundam: "Enfim, pude apresentar meu novo amor à sociedade. Minhas colegas ficaram se roendo de inveja!") Oi? Saem para patinar. O moço se interessa por uma garota e "troca a bruxa por ela". Na última página, o desabafo de Onilda: "Eu só podia esperar isso de um cara tão insignificante como ele!". Olha. No meu mundo, um livro infantil não terminaria com a personagem principal rotulando alguém como "insignificante", call me fresca. Nem essa mesma personagem suspiraria por dinheiro. Call me fresca again.

O livro é baseado em ideia original de E. Larreula e R. Capdevila (esta última ilustra o livro também), traduzido por Irami B. Silva e publicado aqui pela Scipione. E comprado pela biblioteca da escola do meu filho. E trazido para a nossa casa por ele. E xingado por mim. Mas lido, relido, comentado e tal, tá, pessoas? Ganhou até post.

No fim das contas, acho que vale a diversidade, a chance de conhecer mais e mais. Quero que ele leia tudo e construa seus gostos ao longo do tempo. Que desenvolva seu senso crítico, que aprenda a enxergar nuanças e que se divirta com a leitura de seus títulos favoritos (que podem ser bem diferentes dos meus). E, principalmente, lendo muito ou lendo pouco, que tenha mais noção que o povo que escreveu esse livro aí. Mas, sinceramente, achei o livro horroroso e, se eu fosse responsável pela biblioteca da escola, no mínimo deixaria o volume láááá embaixo, bem escondidinho na última prateleira. Sem dó, que não falta nesse mundo livro legal para a criançada.





7 comentários:

Niara de Oliveira disse...

Comecei a ler e a chorar e me deixei levar pela imagem de ter o filho chegando da escola e lendo uma história pra mim...
Desculpa. Volto depois e tento ler de novo e fazer um comentário decente.
Beijo.

Luciana Nepomuceno disse...

Tem horas que tem que respirar, viu.

Grazi disse...

Nossa Rita nunca imaginei que os livros da Bruxa Onilda fosssem tão sem noção desse jeito !!!

Angela disse...

UAU

Isa disse...

ô credo. A Helena já pegou um da Bruxa Onilda, mas a história era bonitinha, nem se compara com isso que você descreveu... reclama lá na escola, assim eles avaliam melhor!
Bjos!

Juliana disse...

eu duvido que as pessoas que compram livros pras escolas leiam os livros antes. Estou generalizando , eu sei, mas já vi cada um.

disse...

Tô meio sumidinha por conta da correria, mas leio tudo! No sabado lembrei desse seu post pq fomos na biblioteca e o Rô leu uma historia muito estranha que ele achou na parte das crianças.

Saca so': uma cobra tinha o sonho de viver no meio dos humanos mas todo mundo tinha medo dela e ela era muito infeliz. Dai' ela leu o livro do Pequeno Principe e viu que a cobra comeu o elefante e ficou parecendo um chapeu. Ela achou que parecendo um chapeu poderia ser aceita pelos humanos. Ela nao achou um elefante entao comeu um onibus, mas o onibus acelerou e a cobra explodiu. Dai' ela virou sapatos e bolsas e viveu feliz para sempre ao lado dos humanos. The end.

Rita, acredita numa historia dessas numa biblioteca publica francesa??? Mon dieu! #medo

 
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