A Inconfidência com prazer


Durante alguns anos não fui muito fã de História do Brasil na escola. Não quero me eximir de minha parcela de "culpa", mas sei que parte de minha alienação em relação à disciplina vinha da forma enfadonha com que a grande maioria das aulas eram ministradas. Cheguei a ter professores que permaneciam sentados durante toda a aula, pediam que um ou outro aluno lesse certo trecho do livro e mandava que sublinhássemos a parte que seria cobrada nas provaszzzzzzzz. Era o preâmbulo da decoreba e assim, no ano seguinte, passávamos adiante na matéria sem fazer qualquer conexão com o conteúdo visto no ano anterior. Nada de mapas, gráficos, encenações ou qualquer outro recurso ou abordagem que de fato envolvesse os alunos em discussões apetitosas ou que acendesse aquela vontade de conhecer mais, saber o que viria depois. Felizmente esse não foi o caso de todos os professores de História que tive, mas sei que esse quadro não é exceção. Enfim, nem era disso que eu ia falar, olhem o tanto que divago.

Ia falar do livro que li nessa semana que passou, O Aprendiz de Tiradentes, da escritora goiana Simone Athayde. Inevitável pensar na soneira das aulas de História em contraste com o prazer de ler, com vontade de passar logo à próxima página, sobre um fato tão relevante na história da formação de nossa nação como foi a Inconfidência Mineira. Ia lendo e imaginando como seria legal se aos alunos dos ensinos fundamental e médio fosse dada a chance de se aproximar da História assim, com sabor. Vejam que estou imaginando que o quadro atual das aulas de História mantém alguma semelhança com parte de minha própria experiência no passado, pois não tenho conhecimento de causa para afirmar que de fato ainda é assim ou assado. Não sei como escolas públicas e particulares lidam como o ensino da História para a geração atual de alunos, mas acho que, com alguma margem de acerto, é possível imaginar que os dois quadros não difiram em tudo. O fato é que O Aprendiz de Tiradentes resgatou meu interesse por um período fascinante de nossa história e só por isso já teria valido a pena a leitura.

O livro mescla ficção com pesquisa histórica e conta a saga pessoal de Hélio, um garoto muito pobre que se torna ajudante de Joaquim José, cirurgião-dentista atuante em Vila Rica na reta final do século XVIII. Aprendiz e amigo de seu mestre, o garoto acompanha bem de perto o desenrolar das tramas que culminaram com o trágico fim dos inconfidentes. Paralelamente, Hélio vive sua história de amor com Ana, cuja mãe, Joana, também se envolve com Joaquim José, o Tiradentes. Meu lado docinho gostou muito do Tiradentes do livro, apaixonado e ansioso; aos meus olhos, a imagem casa muito bem com a figura do idealista que queria ver seu povo livre do julgo (insano) da coroa portuguesa.  E achei que o envolvimento de Tiradentes com Joana teve peso certo na trama: a história de fundo, com amor impossível , servindo de tempero ao fundo histórico, central no livro. A prosa de Simone tem trechos assim:

"A feira consistia em um amontoado desorganizado de barracas improvisadas, mesinhas de madeira ordinária e tapetes grosseiros atirados ao chão, nos quais os comerciantes expunham, de maneira precária, suas mercadorias. Tudo ali se vendia ou se trocava. Animais vivos, como porcos, galinhas e cabras, misturavam-se aos seus congêneres mortos, ali mesmo abatidos e limpos pelas mãos experientes e nada higiênicas de vendedores de carnes. As carcaças, jogadas ao chão, eram disputadas por miseráveis e por urubus que, pela constância do acontecimento, já não se estranhavam. Prostituas negras e brancas ofereciam-se a quem pudesse pagar-lhes pelo menos o que de comer. Outros gêneros, como o café e o açúcar, mais caros e, por esse motivo, mais nobres, eram dispostos em área afastada da balbúrdia.
O lugar era barulhento, sujo e mal cheiroso, como tantos outros de Vila Rica e das outras cidades da colônia. Para os moradores, acostumados com situações insalubres, havia muito a se ver, comprar ou provar num lugar desses. Porém, quando Hélio chegou à feira, não pôde ver mais nada, nem pensar em outra coisa que não fosse aquela menina bonita que, de pé, ao lado de outra mulher, vendia ervas na barraca em frente àquela a qual deveria ir."


Gostei de ler sobre Tomás Antônio Gonzaga e sua infeliz história de amor nunca concretizada com sua Marília e de visualizar Claudio Manuel da Costa e seus parceiros idealizando as Cartas Chilenas. Foi ótimo também entender de verdade as razões que levaram o sacana Silvério dos Reis a delatar os inconfidentes. Esses e outros personagens históricos circulam, assim como Hélio, Ana e Joana, por uma Vila Rica miserável, mais uma das cidades que amargavam a condição de colônia de um reino que sugava até o último grama de nosso ouro. Lendo O Aprendiz, e levando em conta que a pesquisa de Simone nos renda um quadro verossímil das posições sociais dos principais inconfidentes, também fica fácil supor as razões que levaram Tiradentes a ser o único sacrificado na forca, enquanto aos outros foi concedida a permuta da pena de morte pelo degredo na África: sem relações com o governo ou posto de poder, sobrou-lhe o título de idealizador da inconfidência. Tiradentes certamente foi uma voz forte na tentativa de levante, mas parece evidente que seus parceiros de ideias tiveram papel igualmente relevante no movimento, afoitos que estavam com a novíssima independência dos Estados Unidos. O reles alferes que nunca avançou na hierarquia militar, o cirurgião-dentista que tratava a população paupérrima em troca de pouco, foi a cabeça premiada para servir de exemplo a quem ousasse sonhar em questionar o poder da coroa portuguesa. Tempos difíceis, ui. Não que ser forçado a deixar família, trabalho e sua terra para viver sozinho do outro lado do oceano seja pena leve, mas o enforcamento de Tiradentes tem certo ar de "vamos mostrar quem manda", algo além da punição.

Se eu fosse professora do ensino médio atualmente, adotaria o livro de Simone como leitura. Mataria dois coelhos: colocaria nas mãos dos alunos um bom exemplar da literatura brasileira que se produz atualmente e mostraria como pode ser gostoso aprender História.

***

Meus dois exemplares d'O Aprendiz de Tiradentes foram presentes: um do leitor desse blog, Rogério, e outro da própria autora. Ganhei ainda seu livro de contos, A Ilha Triste e outras histórias. Tudo autografado, ó que chique. ;-)  Adorei.

 

5 comentários:

Jaquee Ribeiro disse...

Oi Rita! Eu sou inegavelmente apaixonada por história, tive professores ótimos (e outros ruins também não nego)e não os culpo pelo desinteresse dos alunos muitos passaram o ano todo durante as aulas resgatando o sono perdido. Sabe quando só se escuta uma voz e como música ambiente um 'cri, cri', pois assim transcorreram a maioria das aulas.
Seu comentário me despertou interesse mesmo que a história de Minas não me chame muita atenção. Li "De Mário a Tiradentes" e "Confidências de um inconfidente" e me senti um pouco cansada desse período, ainda colonial.

Rogério disse...

A suspeição que paira sobre meus ombros será eterna, daí eu não ter ainda escrito nada sobre o livro em meu blog. Estava à espera de uma opinião isenta, uma crítica feita por quem é do ramo e não conhece a autora pessoalmente. Devo dizer que fiquei muito feliz por você ter apreciado a leitura, principalmente porque de certa forma alivia minha cisma quando publico algo sobre os escritos de Simone. Fico com medo de ser parcial, movido pelos laços afetivos de cunhados-quase-irmãos que nos unem. Antes da publicação devo ter livo 'O Aprendiz...' uma cinco ou seis vezes, fiz algumas sugestões, revisei uma parte, e o sentimento reinante era que eu não tinha aprendido nada na escola. História do Brasil, no meu tempo de estudante - que coincidiu com os anos de chumbo -, era uma matéria morta feita para não pensar, não havia debate em sala nem espaço para uma leitura crítica. Os livros, aliás, eram feitos de encomenda, sem aprofundamentos, pouco mais que contos da carochinha. Continuo sob um espesso véu de suspeição, mas também adotaria O Aprendiz de Tiradentes como livro didático. Agradeço muito sua gentileza de ter postado um texto tão saboroso, falando sobre o trabalho da minha cunhada.

Angela disse...

Tambem nunca gostei muito de estudar o periodo da inconfidencia mineira, mas esse livro me deu agua na boca!!!!

Lilian disse...

Oi Rita,
que legal a indicação, eu sou professora de história e também adoro boas obras literárias com abordagem de situações históricas. Algumas uso com meus alunos, ou trechos ao menos, mas sempre comento quais estou lendo e sugiro para leitura.
Recentemente li Equador, do Miguel de Souza Tavares, vc conhece? Delícia de livro, e traz uma discussão ótima sobre a eliminação do trabalho escravo nas colônias portuguesas, no começo do século XX.
um abço e venha conhecer também o meu blog
Lilian

Rita disse...

Ois!

Jaquee, também tive alguns bons professores, mas, na maioria dos casos, as aulas eram muito monótonas.

Rogério, muito obrigada pelo presente, li com muito prazer.

Anginha, você iria gostar, acredito.

Lilian, obrigada pela visita. Visitarei seu blog, sim.

beijos
Rita

 
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