Desde sempre



Tenho uma foto da Tia Socorro. Na foto ela me segura no colo, na festinha de meu aniversário de cinco anos. Meu conceito de festa infantil incluía a mesa de nossa própria sala, os colegas da escola de uniforme (porque a escola era logo ali e eles tinham sido levados pela professora para minha casa), um bolo simples com a vela e um copo plástico para cada criança. E alguns balões. E minha professora, Tia Socorro, em minha casa. Seu sorriso era uma coisa assim, fora desse mundo, e vai ver que vem daí minha alegria em ir à escola ao longo da infância inteira. Talvez não explique tudo, claro, mas é uma das lembranças boas: o sorriso da Tia Socorro. Não faço ideia dos rumos que ela seguiu, mas sei que nenhum outro teve o sorriso dela. Houve o bonzão de inglês, a terrorista de matemática, a rigorosa do português, a simpática da geografia, a perdida de história, o showman do cursinho, a irmãzinha dos trabalhos manuais, a talentosa da dança, os amigos do curso de inglês, a entusiasmada do mestrado, os gênios e os confusos do doutorado e de todas as fases, os colegas do outro curso de inglês; hoje em dia há o ótimo de francês, meus filhos, tudo que me cerca. Mas o sorriso da Tia Socorro me olhando na foto é algo que extrapola o aprendizado. É algo assim: vai, Rita, vale a pena.

Ando com muitas saudades da sala de aula, dos dois lados. Ando pensando muito no formato de escola que estou oferecendo a meus filhos. Leio relatos de professores de vários cantos do país e seus desafios são algo que não deveríamos mais admitir. E todos sabem que não adianta sonhar com uma escola revolucionária se não revolucionarmos a maneira como a profissão de professor é encarada em nosso meio. Não há milagre possível. Há trabalho a ser feito e preconceitos a derrubar.

Mas em meio ao pessimismo que me assombra de vez em quando, hoje quero pensar na beleza de não saber e depois aprender, no processo que os professores fazem possível. E quero me lembrar de como me sentia envolvida por aquele sorriso da Tia Socorro; como, de alguma maneira, com cinco anos de idade, eu sentia que valia a pena. Ainda sinto.

Obrigada por tudo e feliz Dia dos Professores.



7 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

E por falar em sorriso, você plantou um aqui na minha cara.

Anônimo disse...

Rita, lindo post.
Um dia desses eu encontrei a Tia Socorro, ela tem dois filhos lindos e ainda é professora. Ela ensina matemática no Colégio Damas, em Campina. Mainha disse que vai procurá-la e mostrar esse post.
Beijos!
Larissa

Angela disse...

Ih, olha so a Tia Socorro nas salas de aulas que frequentei por anos!

Que post maravilhoso, Rita! E karma bom nao tem jeito: imagina so esse post chegando nas maos da Tia Socorro trinta e tantos anos depois...

Professores sao mesmo tudo de bom. Tanto poder de tocar tantas pessoas, e quando tocam, nunca sao esquecidos. Tenho a lista de muitos queridos, e agora ando acrescentando os de Max.

Beijao!

Rita disse...

Larissa, não duvido nada da eficiência da sua mãe. :-)

Beijos, pessoas.
Rita

Rogério disse...

Meio atrasadinho, mas lá vai: há 43 anos fiz minha estréia na escola, onde (acho que era a prática corrente na época) iniciei o primeiro ano primário absolutamente analfabeto. Apesar do tempo já decorrido e das dezenas de professores que tive, lembro-me que quem me ensinou o beabá foi a dona Nilda. O fato de me lembrar ainda hoje até da fisionomia dela é algo bem emblemático, né?

Socorro Rocha disse...

Oi, sou a tia socorro.
Larissa me enviou a mensagem.
Você pode imaginar minha emoção?!
Querida, ainda está em minha memória também o seu sorriso puro, ingênuo e seu jeitinho delicado e muito educado de ser. Confesso-lhe que a quero muito bem. Fico feliz em vê-la tão bem sucedida em sua profissão. E muito me honra saber que no dia dos professores você me faz esta homenagem.
Um "xeiro"

p.s. me envie por gentileza as fotos. (soccorrocha@yahoo.com.br)

Rita disse...

Tia Socorro!!

Olá, seja muito bem vinda. Nossa, como minha mãe adoraria saber desse nosso "encontro". Bom receber notícias suas, muito bom mesmo. Quem sabe qualquer dia desses a gente não se encontra de novo, ao vivo?

Um beijo grande!
Rita

 
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