Virginia

Day 16: Favorite book that was made into a movie

Vou burlar as regras agorinha mesmo, na maior cara de pau, fiquem só olhando.


Essa semana assisti As Horas, filme de 2002, pela segunda vez. A primeira vez foi no cinema, logo após seu lançamento, quando ele era um badalado filme indicado a nove Oscars e tinha Nicole Kidman com um nariz diferente. Naquela época eu ainda não tinha lido Mrs. Dalloway, então considero que só agora vi, de verdade, o filme - na primeira vez só olhei para ele. 

Mrs. Dalloway é um livro redondo, um círculo fechadinho. É uma história tão impecavelmente bem costurada que me custa crer que sua autora enfrentava profundas perturbações psicológicas enquanto o escrevia. Ou talvez a dor seja justamente a base de tanta sensibilidade, como saber? A história do livro se passa em apenas um dia e descreve as horas que antecedem uma festa dada por Mrs. Dalloway em sua casa. Entre o momento em que ela sai para comprar flores para a festa e o finalzinho da noite, os demais personagens vão surgindo, todos mais ou menos relacionados com a personagem central, todos  pretextos para Woolf desenvolver suas análises de nossos conflitos internos, nossas falsas certezas e aquele tanto bom de valores equivocados. A narrativa passeia de um personagem para outro assim como os pensamentos desses personagens deslizam na pena de Virginia Woolf no estilo que ela mais celebrava em sua escrita, o chamado fluxo da consciência (e que Clarice Lispector tão bem transportou para nossa língua). Então Clarissa Dalloway sai para comprar flores, Septimus Smith passa pela calçada e lá se vai a narrativa junto com ele para o parque; mais adiante surge, casualmente, Peter Walsh e a narrativa segue com ele como seguem sucessivas descrições psicológicas, devaneios angustiados, questionamentos, saudades, dúvidas, loucuras, deslocamentos, enfim, nossa matéria-prima. Várias vezes a narrativa retorna para Clarissa em sua casa e suas lembranças do passado, do amor que ela rejeitou, do casamento socialmente perfeito. Seus pensamentos em torno de sua família, da festa. Tudo se reúne na festa. Tudo se costura. A amiga vai. O ex-amor talvez. Todos vão. Ou quase todos.  


"Sitting at little tables round vases, dressed or not dressed, with their shawls and bags laid beside them, with their air of false composure, for they were not used to so many courses at dinner; and confidence, for they were able to pay for it; and strain, for they had been running about London all day shopping, sightseeing; and their natural curiosity, for they looked round and up as the nice-looking gentleman in horn-rimmed spectacles came in; and their good nature, for they would have been glad to do any little service, such as lend a time-table or impart useful information; and their desire, pulsing in them, tugging at them subterraneously, somehow to establish connections if it were only a birthplace (Liverpool, for example), in common or friends of the same name; with their furtive glances, odd silences, and sudden withdrawals into family jocularity and isolation; there they sat eating dinner when Mr. Walsh came in and took his seat at a little table by the curtain." (Parece que vem tradução nova por aí.)

É preciso ter um olho bom e saber dosar a medida certa de sensibilidade e ironia para escrever uma descrição assim. Li e reli esse parágrafo várias vezes, por puro prazer. Mr. Walsh, antigo amor de Clarissa Dalloway, sai de seu quarto de hotel e vai até o restaurante, momentos antes de decidir se vai ou não à festa. Adoro a pequena amostra de tipos humanos, representando seus minúsculos papéis.

E aí o filme. E aqui eu burlo: porque As Horas não é uma adaptação de Mrs. Dalloway, mas uma adaptação de... As Horas, escrito por Michael Cunningham (ganhador do prêmio Pulitzer com o livro) e que ainda não li. Mas vocês vão ser legais comigo e aceitar que Mrs. Dalloway está lá, via livro de Cunningham, mas, né, é Mrs. Dalloway. O elenco tem todas, Meryl Streep, Julianne Moore, Toni Collette (ai, adoro), Nicole Kidman. Tem um Ed Harris, hum, bom. Sei que muita gente detestou a atuação de Kidman, mas gostei. Obviamente, minha opinião, como crítica, vale nada, pois vi o filme embevecida pela história, feliz da vida de estar vendo "Virginia", então relevem, por favor. E foi tão bom ver o livro nascendo no filme, delicioso. Não sei como o filme se relaciona com a leitura que o próprio Cunningham fez do livro de V. Woolf, mas adorei ver alguns personagens espalhados em um só, ao mesmo tempo  em que há mais de uma Clarissa (e não há?).

(Enquanto lia o livro, comentei com o Ulisses que, de certa forma, uma camada da história parece uma homenagem a Londres, tamanha a frequência com que ruas e pontos famosos da cidade são mencionados. Os personagens caminham pela Bond Street, por Kensington, Bloomsbury; estão lá Buckingham Palace, Westminster, Tottenham Court Road, Hyde Park, quase um guia turístico; o Big Ben marca as horas de Clarissa. E lá está Woolf/Kidman no filme, angustiada pela distância da cidade que amou, lá está Londres no coração dela para sempre. Eu sei, Virgina, eu sei.) [Todos suspiram.]

Mrs. Dalloway poderia entrar em várias categorias desse meme (já entrou em lista de outras blogueiras que seguem o meme), mas vou tentar seguir as regras... depois. Pronto, burlei. 
  

6 comentários:

Tina Lopes disse...

Ai, boa ideia, vou reler As Horas agora que tenho encontro marcado com Londres =)

Juliana disse...

ó, eu vou ler Mrs. Dalloway só por sua causa. =) Tenho aqui em casa, mas tentei uma vez só. Acho que comecei a ler numa época em que não tinha maturidade pra isso

Tenho a Vírginia como aquela autora que hei de amar um dia. Tenho certeza.

denise bottmann disse...

que belo comentário, e tão sensível!

obg pela menção à nova tradução

Angela disse...

the motorcycle diaries
atonement
frida

sao uns "do meu favorito", burlando regras, viram tres, dos que me lembro.

Ha muito nem leio nem assisto filmes :'O Ai vida.

Dária disse...

nunca li a Virginia... e há uns anos tenho vontade de ler. Sabe aqueles livros que vc não sabe porque ainda não comprou?
Meu aniversário tá perto... pedirei para me darem o seu Mrs. Dalloway de presente.

Rita disse...

Tina, ai, que amor...

Juliana, ai, que amor... (hehehehe)

Denise, que honra sua visita! Obrigada. :-)

Anginha, tudo a seu tempo.

Dária, boa pedida!

Beijos
Rita

 
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