São os olhos (e uma nota importante sobre traduções)


Day 10: Favorite classic


Por pouco o livro que escolhi para este meme não perde o posto. É que há poucos dias concluí a leitura de Mrs. Dalloway e, olha, estou em estado de graça. O livro de Virginia Woolf entrou com força na minha lista de favoritos, mas já arrumei outro cantinho para ele no meme e falarei dele em breve (é o favorito da Niara, olhem lá). Primoroso, alguns de seus parágrafos são obras primas e a história inteira parece um... um quadro, harmonioso, preciso, onde nada sobra, nada falta. A gente senta e fica ali, admirando.

Por ora, fico com os olhos de Capitu, as dúvidas, um coração descompassado pela angústia do ciúme e a linguagem saborosa de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Li sofrendo junto com Bentinho. Lia e pensava "tadinho". Essa sou eu. O Machado faz uma obra prima e meu comentário é "tadinho do Bentinho". Dez vivas para a melhor dúvida da literatura brasileira: e aí, rolou? Ou não rolou? De qualquer forma... tadinho do Bentinho!!

Daquelas obras que, quando a gente termina de ler, reconhece: não é clássico à toa. Ave, Machado.



"Escapei ao agregado, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama, e rolava comigo, e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez. Via-me já ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo, muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles. Da cama ouvi a voz dela, que viera passar o resto da tarde com minha mãe, e naturalmente comigo, como das outras vezes; mas, por maior que fosse o abalo que me deu, não me fez sair do quarto e Capitu ria alto, falava alto, como se me avisasse; eu continuei surdo, a sós comigo e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue..."

(Tadinho...)


***

Em um comentário excelente no post de ontem, o leitor e amigo (não necessariamente nessa ordem) Nakereba me deu um tapa com luva de pelica. Tendo passado quatro anos de minha vida passeando pelos chamados Estudos da Tradução é mesmo uma vergonha que eu tenha deixado de mencionar os tradutores de algumas obras que tenho citado no meme. Na minha época de pós-graduação, a questão da visibilidade do tradutor era uma das coisas mais caras para mim - e ainda o é, mesmo que eu tenha me afastado tanto de minha área de formação. Em minha defesa, digo que, sempre que faço um post sobre algum livro que tenha acabado de ler, menciono os tradutores (pode ter havido deslizes, claro, mas sempre tenho a intenção de mencioná-los), a não ser que eu tenha lido a obra no original em língua inglesa, e o faço por concordar completamente com o comentário do Nakereba (vejam lá). Faço o mesmo na listinha que mantenho na barra lateral do blog com minhas leituras mais recentes. Já voltei aos posts que publiquei no meme até aqui e acrescentei os nomes daqueles que fizeram as pontes para que eu tivesse contato com obras de Allende, Marquez, Hosseini ou Dostoiévsky. Merci, Nakereba!

6 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Primeiro: amo Crime e Castigo (perdi o timming de comentar aí embaixo, rs)

Segundo: Machadão é o cara e Capitu é top 10 entre personagens e Bentinho é um dos eleitos do meu coração, com seu mau humor, zanga, insegurança, etc.

Terceiro: que sabidas vocês que planejam posts, que sabem onde vão colocar que livros porque já viram o meme todo. Eu vou fazendo dia a dia, vendo só a proposta do momento...invejinha da sua sagacidade.

Tina Lopes disse...

Sabe que eu tava pensando na mesma coisa sobre tradução? De fato é uma tremenda sacanagem, falta de respeito, não destacarmos esse trabalho. Vou passar a prestar atenção.

Anália disse...

Oi, Rita!
Tb adoro Capitu. Li duas vezes: para a escola, quando adolescente e já adulta, depois de ter virado mãe. Nooossa, o impacto dessa segunda vez foi enorme!
Mas eu acho que a Capitu era inocente. Esse livro seria um daqueles que Freud adoraria analisar (já leu alguma análise de livro dele? Muito legal!). Se vc notar, numa noite o Bentinho se sente atraído pela esposa do Escobar e este morre no dia seguinte. Fica a impressão que ele projeta o seu próprio desejo de traição na esposa.
Viajei, né? rsrs
Bjs,
Anália

Deise Luz disse...

Quando li Dom Casmurro fiquei pensando que colocaria o nome Bento no meu futuro filho, tamanho meu amor por Bentinho. Hoje continuo amando o personagem e o livro, mas tenho dúvidas quanto ao nome... porque agora ele me lembra o Papa! rsrs

Rita disse...

Anália, eu sinceramente acho que não resposta para o lance da Capitu com Escobar. E também acho que a intenção do Machado era essa mesmo, abrir portas, permitir um montão de possibilidades dentro da cabeça do leitor. Será que não? As análises psicológicas são tão numerosas e todas, ou quase todas, podem encotrar respaldo no texto...

Deise, morri de rir com seu comentário! Hahahaha, o papa é seu estraga-prazeres, hehehe.

Beijos
Rita

caso.me.esqueçam disse...

dom casmurro foi o unico livro obrigatorio na escola que nao me fez vomitar. alias, livro lindo :)

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }