Por onde anda

Day 14: A book that reminds you of someone


Ulisses e eu temos um amigo em comum chamado João. Eu o conheci por intermédio do Ulisses durante nosso primeiro namoro nos tempos da faculdade. Os dois eram, além de amigos, colegas de curso - quer dizer, foram colegas por um tempo, já que o Ulisses abandonou a faculdade de Engenharia e ficou mesmo no curso de Ciências da Computação. Nós três estudávamos no Campus da Universidade Federal da Paraíba, apesar de cada um morar em uma cidade diferente: eu em Campina Grande, Ulisses em João Pessoa e João em Recife. E era lá em Recife que, de vez em quando, rolavam uns finais de semana que guardo com carinho na memória até hoje; João nos hospedava e a gente fazia o percurso básico: cinema e, em seguida, balada num velho casarão do Recife Antigo. Eram tempos maravilhosos aqueles, viu. Enfim, o tempo passou, Ulisses foi pra Minas, eu vim pra Santa Catarina, depois Ulisses também veio para Santa Catarina e o resto vocês já sabem. Mas ninguém sabe do João. A gente tem pistas, parece que ele anda pelo Canadá fazendo alguma coisa com desenhos animados. Esse é nosso grau de precisão: a gente "acha" que é no Canadá, mas pode ser no Chipre. E parece que é desenho animado, mas pode ser desenho industrial também (mas não era engenharia que ele fazia? ah, sei lá, viu). É por aí. Bem, em algum final de semana daqueles, voltei para Campina Grande com um livro do João emprestado. O livro, claro, nunca foi devolvido, mas não me julguem: eu não tive a intenção de surrupiar nada, apenas perdi contato com o João antes de minha vida mudar do jeito que mudou. O livro tá aqui até hoje, tem páginas amareladas e uma capa plástica (eu que pus, acho): O Farol no Fim do Mundo, de Júlio Verne. É uma edição de 1978! Pego nele agora e vejo o marca-páginas na página 73 e não consigo me lembrar do final da história. Grandes chances de eu ter abandonado o livro no meio do caminho, assim, sem mais nem menos. Parece, né? Enfim, inevitavelmente, sempre me pergunto por onde anda o João quando passo os olhos pela lombada do livro na estante. O Ulisses tem histórias ótimas para contar dos dois, todas grandes roubadas em que eles se metiam, sempre ideias de jerico do João: subir um morro tal pra ver não sei o quê, no meio do mato, à tarde. Claro que o morro é longe, a fome chega e a noite também, etc. Ir de bicicleta não sei de onde para não sei qual lonjura: furada. Tudo furada. João só arrumava programa de índio. Uma vez ele foi de bicicleta não sei pra que chapada dormir numa pedra. (!) Em outra história foi à cata de um castelo no interior dos confins do sertão não sei de onde, acho que Pernambuco. Enfim. Nós gostamos demais dele e adoraríamos manter contato com ele outra vez, apresentá-lo nossos filhos. Por onde anda João? Preciso devolver o livro antes que ele sinta falta.


"O sol estava prestes a sumir atrás das colinas que demarcavam o horizonte a oeste. O tempo estava lindo. Do lado oposto, sobre o mar que se confundia com o céu a leste e nordeste, algumas pequenas nuvesn refletiam os últimos raios que logo se apagariam nas sombras do crepúsculo bastante prolongado naquela elevada latitude do 55º grau do hemisfério austral". (Tradução de Attílio Cancian)

6 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Que delícia que é ter você como amiga, que sortudo esse João. Surrupia um livro meu, please?

Vivien Morgato : disse...

Eu emprestei O Amor nos Tempos do Cólera para uma amiga. Um ano depois, em um bar, pergunto do livro, ela me diz, super zen: ih, Vivien, tá em cima do guarda roupa, em pedaços. *glup*


Acredita que nunca li Julio Verne?

Juliana disse...

até eu fiquei curiosa de saber cadÊ o joão. Nenhuma rede social dá conta dele, não?


Contrata um detetive e devolva o livro, rita! =p

Angela disse...

Ufa! Hoje ninguem morreu...
Enquanto nos aqui tomamos um folego, tenho vindo aqui e me distraido com os otimos posts sobre muita leitura boa.

Hah lembro do Joao. Gente e se o ele tiver aqui vizinho?

O castelo em Pernambuco existe, o Castelo de Brennand e tem uma das maiores colecoes de armaria do mundo, alem de outras coisitas mais: http://www.institutoricardobrennand.org.br

Com a quantidade de informacoes acessiveis hoje em dia na Internet, imaginas so quantas pernas ele deve estar batendo, e quem sabe ate com menos furadas.

Nunca li esse mas curto Julio Verne.

Beijao p todos!

Rogério disse...

Minha única vantagem sobre a Vivien é que eu li UM livro do Júlio Verne: Vinte Mil Léguas Submarinas. Achei chato.
Minha história com livros emprestados é oposta à sua: eu adoraria receber de volta Coração de Onça, de Ofélia e Narbal Fontes, que emprestei para meu brother Chicão (doido de pedra), que cismou de ir embora para os States nos anos 80 e de quem nunca mais tive notícias. Seu post fez ressurgir lá do fundo do inconsciente adormecido a figura do Chicão, sempre disposto a uma aventura. Na verdade, o livro que emprestei é o de menos; bateu foi saudade do meu amigo.

Rita disse...

Da série livros emprestados que não voltaram mais: Do Amor e Outros Demônios, G. G. Marquez, emprestado a um aluno do curso de inglês para nunca mais voltar.

bjs
Rita

 
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