Nunca mais

Day 13: A book that reminds you of something/sometime

Nasci no início da década de 70 em uma família que não achava a ditadura algo "tão ruim assim". Foi só quando a década de 80 já ia no meio do caminho, e eu tinha visto pela TV o retorno dos anistiados, que realmente comecei a me dar conta do que tinha acontecido em meu país enquanto eu crescia segura no seio de uma família classe média (baixa) que aprovava a censura e achava que só se dava mal quem desobedecia (eu sei). Aos poucos comecei a questionar minha mãe e a duvidar que tanta gente tivesse sido expulsa do país ou simplesmente desaparecido se a coisa não fosse mesmo tenebrosa. Comecei a realmente entender o que significava aquele carimbo preto e branco e enorme na tela da TV antes de alguns programas: "LIVRE". O crivo. Comecei a entender o crivo, a me dar conta do manto que tinha coberto os olhos de tanta gente, por tanto tempo. A escola aprofundava pouco, os debates eram rasos e eu ainda decorava nomes dos generais presidentes. O tempo seguiu e enquanto a adolescência me enchia de rebeldia por causas bem menores, conheci alguns amigos que foram fundamentais em minha formação. Pessoas que me sacudiram, aprofundaram a conversa e me botaram pra pensar em uma época em que seria bem fácil seguir dormindo ou simplesmente brigando para ir ao baile. Uma dessas pessoas me emprestou o livro Brasil: Nunca Mais. E nunca mais as conversas sobre a ditadura com a minha mãe foram as mesmas. O bom foi que ela também aprofundou sua própria visão do assunto e mais tarde compreendeu que, em certos aspectos, ela vivia em um mundo cor de rosa enquanto pessoas eram mortas por acreditar na liberdade. Brasil: Nunca Mais me chocou profundamente. Eu lia trancada no quarto e ficava longos minutos fitando a parede tentando visualizar os horrores descritos em alguns registros. Sempre que vejo a capa dele por aí me lembro da adolescente que fui: boba, medrosa, confusa, raivosa, curiosa, apaixonada e, a partir de certo ponto, indignada, desconcertada, impressionada. Impressionada.




"A senhora mais idosa me fez a pergunta que já vinha repetindo há meses: “O senhor tem alguma notícia do paradeiro de meu filho?” Logo após o sequestro, ela vinha todas as semanas. Depois reaparecia de mês em mês. Sua figura se parecia sempre mais com a de todas as mães de desaparecidos. Durante mais de cinco anos, acompanhei a busca de seu filho, através da Comissão Justiça e Paz e mesmo do Chefe da Casa Civil da Presidência da República. O corpo da mãe parecia diminuir, de visita em visita. Um dia também ela desapareceu. Mas seu olhar suplicante de mãe jamais se apagara de minha retina." (Do prefácio, por Dom Paulo Evaristo Arns) 

***

Quem também está seguindo o meme: Suzana, Renata, Mari, Grazi, Lu, Niara e Tina (e quem mais?)


9 comentários:

caso.me.esqueçam disse...

aarr... a parte das torturas embrulha o estomago ate nao poder mais. e quanto mais embrulhado voce fica, mais voce lê... e depois se da conta: nao, isso nao eh ficcao. nao eh.

Jaquee Ribeiro disse...

Quero lê-lo. Ainda não tive oportunidade de ler um livro desse estilo e adoraria tê-lo em mãos.

Tina Lopes disse...

Nunca tive coragem de ler: tinha um exemplar sempre à mão, na estante de um tio, sabia do que se tratava e tudo, e por isso mesmo, não tinha coragem.

disse...

Nunca li um livro sobre a época da ditadura. Embora pareça dificil de digerir, todo mundo devia conhecer um pouco melhor essa parte da nossa historia. Mais um pra listinha (que so' aumenta!).

Rita disse...

Oi, gente. Depois vi que esse livro está em outras listas desse meme também. Não tem jeito, quem lê se impressiona. Terror.

beijos
Rita

Luciana Nepomuceno disse...

Eu não esqueço, não quero esquecer.

Niara de Oliveira disse...

Parece que tanto faz a classificação que dermos a este livro nesse meme, ele sempre causa as mesmas sensações, uma coisa de despertencimento humano... Sei lá. Tortura não é coisa de gente. =((

Beijo!

Rogério disse...

Eu vivi essa época horrorosa na adolescência. Cheguei a pegar uma cana, mas foi coisa leve, sem maiores consequências (além da indignação e 'pequenas' agressões físicas). O livro que você comenta talvez seja o mais pesado sobre o período. Como é difícil classificar como "leitura obrigatória" um livro que pode revirar o estômago de pessoas mais sensíveis, deixo como sugestão a leitura de "O Dossiê Herzog" (não dá para não ler), de Fernando Jordão e "1968, o ano que não terminou", cujo autor me parece que é Zuenir Ventura (desculpe a memória falha, junta a idade com o fato de tê-lo lido há muitos anos, e dá nisso). Mesmo assim, esses dois livros retratam o que foram os anos de chumbro no Brasil, colocando o livro do Gabeira na galeria dos romances de ação.

Rita disse...

Luciana e Niara, não esquecemos, né. E tortura me choca tanto que nem cenas de filmes consigo ver. Sempre saio da sala ou fecho os olhos totalmente, não dou conta.

Rogério, boas dicas, obrigada!

Rita

 
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