No tempo das mitocôndrias



Então houve um tempo de minha vida em que acreditei que queria ser agrônoma. Na mesma cidade onde ficava o colégio em que estudei havia uma faculdade de agronomia e zootecnia (há ainda), um complexo bonito que me acostumei a admirar da janela do ônibus a caminho da escola. Muitos estudantes da faculdade vinham de outros estados, passavam semanas ou meses sem voltar para casa e alguns deles ficavam hospedados em alojamentos localizados no meu colégio (muitos outros ficavam alojados no próprio campus). Assim era comum nossa turma do ensino médio do colégio se aproximar dos estudantes da Escola de Agronomia. No meu mundinho minúsculo, Agronomia era assunto, dava barato e rendia amizades e planos. Envolvida nesse ambiente, nem pensei muito na hora de fazer a inscrição para o vestibular. Para dar uma amostra do grau de maturidade e certeza de que eu dispunha na época, fiz a inscrição em outra universidade para... biologia? Não, jornalismo. Uma pessoa que sabia o que queria da vida.

The book is on the table, isn't it?

Com dezessete anos e um planeta inteiro borbulhando na cabeça, entrei naquela universidade sei lá em busca de quê. Estudava sem rumo, para passar em cada disciplina somente. Sofria para me entender com as disciplinas pautadas no mundo das exatas - parte da grade do curso andava de mãos dadas com as engenharias da vida e precisei introduzir física e matemática ao meu mundinho bom feito todinho de biologia e literatura. Fiz um milhão de amigos, flertei com um movimento estudantil disperso e meio caótico, conheci pessoas brilhantes e um tanto bom de gente mais perdida do que eu. Adorava a biblioteca, o orquidário e o oceano verde que cercava o campus. Aliás, o campus era o próprio verde. Sem carro, eu não era muito fã das ladeiras, mas cada passo era dado em meio a um cenário pra ninguém botar defeito: mata, grama, canteiros, passarada.

Ainda me lembro que, no primeiro semestre, minhas semanas começavam às sete da manhã com uma aula de citologia em que eu aguardava com ansiedade de criança o momento de manusear os microscópios. Essas mesmas semanas se encerravam numa aula de desenho técnico com três horas de duração em que cada segundo beirava o insuportável - eu detestava as tardes de sexta-feira e não era à toa.

No terceiro semestre decidi, porque precisava decidir alguma coisa, que me engajaria em um projeto de pesquisa. Eu já andava às voltas com aulas de química de solos e resolvi que dedicaria a boa sorte de meus neurônios ao estudo das minhocas. É, meu povo, eu quis as minhocas um dia. Persegui o professor entendido do assunto (uma figura histórica que, rezava a lenda vigente da época, usava o mesmo terno azul há seis anos, todos os dias) e pedi uma orientação introdutória de como nessa vida de meu deus a gente inicia um projeto de pesquisa. Ele deve ter ficado com pena de mim e me receitou umas leiturinhas iniciais. Eu não entendia muito o que se falava naqueles textos, mas gostava de praticar o inglês brincando de traduzir a coisa.

No semestre seguinte, passei a frequentar as aulas da disciplina mais badalada e ao mesmo tempo mais temida do curso, um divisor de águas na trajetória de todo aluno dali: as aulas de Fisiologia Vegetal. Era como passar por um portal, quase tão grandioso quanto passar no próprio vestibular. As aulas de Fisiologia do meu curso de Agronomia eram célebres por vários motivos: eram ministradas por um professor que tinha a fama de elaborar as provas mais difíceis da galáxia; eram aulas diferenciadas pelo grau de detalhamento da disciplina, na qual cada palavra poderia definir seu futuro profissional ou pelo menos seu desempenho no resto do curso; entender de Fisiologia era condição para entender o mundo da Agronomia, da Genética, de todo o resto; todos anotavam tudo, cada vírgula, o silêncio entre os alunos era absoluto e todo o ambiente era dominado pela voz do professor; e, pra completar, o índice de reprovação era considerável e isso atrapalhava muita gente, já que a disciplina era pré-requisito para boa parte das disciplinas mais avançadas da segunda metade do curso. Já no primeiro dia percebi que o professor era um pouco artista também e eu ficava babando com as células desenhadas no quadro, em giz colorido, com cada uma das minúsculas partículas representadas com primor - vejam no que eu me ligava.

Pois bem, foi exatamente nesse semestre que o professor do terno azul conseguiu me encaixar em seu grupo de estudos, o que significaria bolsa e mais estudo. E minhocas. Os trâmites burocráticos mal tiveram início e precisamos suspender tudo porque as federais entraram em greve e fiquei seis meses em casa. Foram seis meses dedicados ao curso de inglês que eu já amava. Seis meses de muita angústia também, porque eu precisava encarar o inegável: apesar de toda badalação, de toda beleza das mitocôndrias, eu não compartilhava daquele entusiasmo todo do grupo em relação à Fisiologia; nem em relação ao curso, quiçá às minhocas. A greve veio no momento certo - apesar de alguns colegas terem me dito que ela estava me confundido, que o entusiasmo voltaria com as aulas, eu sabia que não. O mais legal dos textos sobre as minhocas era mesmo o fato de que estavam escritos em inglês.

Foi um susto enorme para os colegas que me olhavam incrédulos: como assim, desperdiçar dois anos de curso já feitos? Não era desperdício, no entanto. Eu certamente faria tudo igual, eu me lembro da euforia do início: entrar para a Faculdade de Agronomia foi um debut na minha vida, mesmo. Foi romper, foi avançar, foi amadurecer em vários aspectos. Mas, né, teria sido assim em qualquer primeira faculdade, acho. O fato é que encarei o comichão que me chamava para o curso de inglês, tranquei a matrícula, comecei a ensinar inglês em uma pequena escola na cidade onde morava, dediquei-me como nunca à língua, senti-me leve, leve. Prestei novo vestibular, entrei no curso de Letras, mudei de cidade e muitos etecéteras. (O curso de jornalismo já tinha sido abandonado no primeiro semestre porque a faculdade era péssima.)

Enfim, essas lembranças me visitaram agora há pouco por causa de uma brincadeira no twitter (oi, @Lucianahn, tudo bem?), mas é verdade que de vez em quando penso na crueldade de se exigir de um jovem de 17 anos que decida os rumos de sua vida profissional Deveria existir um sistema que nos permitisse escolher a profissão aos 25 anos - no entanto, em condições normais de temperatura e pressão, aos 25 já concluímos nossas faculdades escolhidas no calor da adolescência. Claro, nada impede as mudanças, olha eu aqui, mas sei que várias pessoas concluem cursos pelo simples fato de terem começado - sendo bem simplista, cada um sabe onde o próprio sapato aperta, é claro. De minha parte, espero conseguir amenizar a ansiedade inevitável do final do ensino médio quando chegar a vez de meus filhos: é bom saber o que se quer, claro - e há aqueles casos de dúvida zero, o cara vai ser jornalista e pronto -, mas não custa tentar lembrar de que o mundo gira e que numa dessas voltas a gente vê tudo por outros ângulos.

_________

Como achar tudo insignificante: escrevo essas coisas e penso em quem não pode se dar ao luxo de escolher nada, trabalha desde que se conhece por gente e vive um dia de cada vez, do jeito que dá, the end.  

6 comentários:

Grazi disse...

Lindo texto !
E é assim mesmo, muitas pessoas começam uma faculdade e só terminam por terminar mesmo.
Eu tb acho 17 anos muito cedo para se escolher o que quer da vida, acho que o Ensino Médio deveria ser já voltado para a área que o estudante deseja, assim pelo menos ele já vai ser familiarizando.
bjs.

Luciana Nepomuceno disse...

Também considero cedo 16, 17 anos pra decidir a profissão. E tarde :P

Ao contrário da Grazi eu acho que o ensino médio e mais uns anos pra frente devíamos ler literatura clássica, ver pinturas, filmes, estudar história, política, tudo de mais distante de um conhecimento "usável" possível.

Como isso seria realizável? Não faço a mínima idéia, mas tenho claro que o fim da adolescência convergindo com a definição de profissão é resultante de uma sociedade estruturada para a produção e lucro e que se concretiza neste tipo de organização e divisão do trabalho.

E que peculiar você e os Golgis, tadinhos, tão complexados...

Rita disse...

Tendo a concordar com a Lu, viu, Grazi. É tanta ênfase no lucro e na produção que ninguém nem tem chance de saber se gosta de outra coisa...

Mas, ó, dona Lu, você e eu: lá fora, agora! Ora, ora, ora.... :-P

bjs
Rita

Dária disse...

Eu tive dúvidas do curso, mas nunca da área. Detestava biologia com todas as minhas forças, nunca entendi citologia, tinha raiva de estudar plantas rss enfim. Das exatas me dava muito bem em matemática e física, por sabe-se lá deus que razão. Mas paixão... paixão eram história e literatura. Eu aparecia na escola com Eric Hobsbawn ou Elio Gaspari debaixo do braço e era realmente paparicada pelos profs de história por isso. Acabou sendo uma das minhas opções de curso depois, junto com letras, jornalismo, e em algum caminho que encerrou no disputado Direito. E foi! rss

De fato também acho cedo a escolha. Queria uns dois anos só conhecendo estes cursos para me definir realmente, mas tenho sorte de realmente ter me identificado com o meu.

No mais, belo texto! ;)
Estou tentando ressucitar meu blog (na verdade dar vida a ele pela primeira vez rss) se um dia conseguir, aviso

Beijos

Rita disse...

Daria, pra você ver como minha confusão era pesada, nem a área foi a mesma... :-)

beijocas
rita

caso.me.esqueçam disse...

opa, isso em areia?

 
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