Lygia felina

Day 11: Favorite animal book


Não sei se entendi bem esse item, mas vamos lá - já avisando que se alguém me perguntar meu favorite vegetal book ou mineral book, eu vou pular.
 
Uma das coisas que mais curti em As Horas Nuas, de Lygia Fagundes Telles, foi o gato Raul. Raul não é um gato qualquer - ou eu é que sei pouco dos gatos, vá saber. Raul tem sensibilidade aguçada (é, outros também) e, pasmem, memórias de outras vidas (aí já não sei). Os capítulos narrados por Raul são uma graça: um gato sarcástico que zomba dos dramas de sua dona, a atriz Rosa Ambrósio, a quem "chama" de Rosona; zomba das manias da criada Dionísia, zomba, zomba, zomba. De vez em quando Raul se perde em suas memórias de outras vidas; depois volta a fazer referências a diálogos dos humanos que o cercam em sua vida atual que ele testemunha de sua posição privilegiada de peludo que se esgueira por todos os recantos da casa... As descrições do ambiente feitas por Raul são um primor e ele acaba conferindo certo tom de humor a Horas Nuas, ainda que ao longo da história haja mais motivos para rir dos desatinos e desencontros humanos do que dos pulos e sacadas do bichano. A vantagem de Raul está em seu afastamento, sua independência (mesmo que reclame do leite gelado em sua tigelinha), sua... superioridade. Irônico, abusado, convencido e, no entanto, sensível, Raul é tudo de bom. (Vocês aí que têm gatos em casa, fiquem ligadinhos.)


"A poltrona fria. A sala enorme, toda branca com suas sombras azuladas mais frias ainda, é madrugada. Vou todo arrepiado para a cozinha que é o lugar mais quente deste apartamento gelado. No calendário da Dionísia há sempre receitas tropicais escritas nas costas do dia. País tropical. Ainda bem que tenho este meu casaco de pele que Rosa Ambrósio considera uma pele vagabunda mas sou um gato vagabundo. E completamente inútil, na opinião da Lili que prefere ter um cachorro a um gato, O cachorro é tão mais amoroso!, vive repetindo. Rosona faz aquela cara de falsa distraída e fica me olhando. Sorrio por dentro, concordo, língua de gato é áspera, imprópria para consolar as velhotas solitárias."
(Hahahahaha!)


***


5 comentários:

Caminhante disse...

Vocês se queixam do animal book, mas o que eu achei sem noção mesmo foi o holiday book - que li em dois dias? Pra ler só durante o fim de semana? Que dá uma idéia de relaxamento?

Lílian disse...

'Língua de gato é imprópria para velhotas'...kkkkk..... Eu, de plantão e dando graças porque, até o momento, ainda não posso ser considerada tão idosa - ah, porque aqui nessa noite nada fria, nem gato para "não-consolar" tem!

:***

Juliana disse...

ah, os gatos da lygia... =)

Anônimo disse...

Será que Animal Farm (Revolução dos Bichos), de George Orwell, conta como "animal book"?
Ainda estou intrigado com aquele livro que você mencionou, en passant, em um outro post. Algo sobre um grilo que habitava um tronco de uma árvore e que aterrorizava a floresta com ameaças horríveis.

Nakereba

Rita disse...

Lygia é tudo de bom, pessoas. Tudo de bom.

Rita

 
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