I've got the power

Amor é um troço mágico. Eu pensava nisso quando era pequena, geralmente curtindo uma dorzinha de cotovelo enquanto atravessava um ou outro conflito familiar. Eu achava que amor resolvia muita coisa. Eu estava certíssima, apesar de só muito tempo depois experimentar e pôr à prova a sensação pressentida na infância. Amor resolve muita coisa. Tudo bem, não sei se "resolve", mas conforta. Torna mais fácil. Amacia.

Tenho tido dias bem corridos, a rotina anda meio conturbada e de segunda a sexta conto minutos. Tantos minutos para arrumar as crianças; tantos minutos para tomar café da manhã; tantos minutos para chegar ao trabalho; tantos segundos para ir ao banheiro. A vida anda boa demais, enxergo isso. Mas lamento tanto tempo dedicado ao trabalho, infelizmente. Talvez se ao final de uma semana eu olhasse para trás e visse um capítulo escrito, uma coisa construída, um projeto desenrolado ou, sei lá, uma pessoa diretamente beneficiada por uma ação minha, aí talvez eu me sentisse melhor e nem percebesse a correria. Porque o que realmente anda me incomodando não é o tempo dedicado ao trabalho, à ideia de trabalho; é o muito tempo dedicado a um trabalho que não me satisfaz, que é essencialmente burocrático e envolto em um sistema no qual não acredito. Não me falta vontade de fazer coisas, falta-me entusiasmo em fazer as coisas que preciso fazer todos os dias. Tenho brincado de dizer que não me importo mais, que, mesmo exercendo minhas funções da melhor maneira que conseguir, meu emprego é apenas minha fonte de renda  e que busco satisfações pessoais em outras áreas (em certo grau, usufruindo da renda que vem do trabalho, claro). É verdade, mas quando ponho na balança a quantidade de horas semanais dedicadas à fonte de renda e aquela dedicada às tais satisfações pessoais, entro em crise outra vez. Porque a vida passa rápido. Então se eu trabalhasse metade do dia e dedicasse a outra metade aos prazeres, voilá. Infelizmente, a conta não é bem essa. A solução seria unir as duas pontas e dar um laço bem dado, trabalhar no que gosto. Mas não vai acontecer agora.

Não liguem para meu mimimi, ninguém está me amarrando em lugar nenhum, posso pular fora na hora que quiser. Mas, né, humanos. Não nego os benefícios, reconheço as comodidades e só preciso olhar para o lado para fechar a boca e parar de reclamar, mas onde mais eu registraria minhas repetidas crises existenciais/profissionais se não em meu blog?

A dose de equilíbrio que mantém a sanidade vem de projetos paralelos (a língua coça, mas ainda: não), dos hobbies mantidos na base da teimosia e do pouco sono, da insistência em começar um curso de línguas bem no momento mais corrido do ano. E do amor.

Pois eu dizia que o amor é um troço mágico. Entro no carro, desligo os neurônios burocráticos e olho pro lado. Temos o banco de trás mais barulhento da cidade e rimos muito. Não consigo nem imaginar minha rotina sem o vínculo com essas pessoas que dividem a vida comigo. Seria insuportável, eu seria certamente a pessoa mais amarga do planeta. Minha família é minha salvação de mim mesma. Tem muito "m" nessa frase aí, mas ela é muito verdadeira. Pode rolar certa acomodação, pode aquele pesadelo que me acompanha desde a infância ficar mais frequente, pode o setor onde trabalho estar desfalcado, pode o noticiário ser louco, pode o mundo me chocar com suas notícias de canalhice e desamor, pode até ter gente rindo do que não deveria, mas algo no meu trio marido-filhos tem tal poder que a vida, vejam só, fica ótima. O olhar de meu filho. Não sei descrever, fica só assim: o olhar de meu filho quando me encara e me sorri, feliz só por eu estar ali, eu vejo isso.

Sei que é a bolha, mas é dessa bolha que vejo o mundo. Sei perfurá-la com meu nariz, mas é sua existência que me mantém una.

Então é acordar e me lembrar das pessoas que estão sob meu teto. Como num passe de mágica, acho que está tudo onde deveria estar.

12 comentários:

Caminhante disse...

Lindo.

Mari Biddle disse...

Passei aqui e li esse post lindo. Beijocas.

Luciana Nepomuceno disse...

O amor é mágico. É mesmo.

Doces abobrinhas disse...

Magia no ar!!! Sou sua vizinha, moro em Blumenau , uma vez por mes estou em Floripa....rs...
Bjinhos
Roberta
www.docesabobrinhas.com

José María Souza Costa disse...

CONVITE

Primeiro, eu vim ler o seu blogue.
Agora, estou lhe convidando a visitar o meu, e se possivel seguirmos juntos por eles. O meu blogue, é muito simples. Mas, leve e dinamico. palpitamos sobre quase tudo, diversificamos as idéias. mas, o que vale mesmo, é a amizade que fizermos.
Estarei grato, esperando VOCÊ, lá.
Abraços do
http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

Murilo S Romeiro disse...

Fazer crescer essa bolha pra engolir tudo que nos cerca, o grande desafio.
Boa sorte!

Rogério disse...

Já há um bom tempo vinha sentindo muita coisa que você falou sobre o trabalho, a partir do momento em que se tornou um fardo, uma obrigação chata. Perdi o entusiasmo, e o que me consola é a consciência de que a culpa não é minha; meu trabalho, outrora dinâmico e desafiador, foi se tornando burocrático (para atender a conveniências políticas) e baseado em um sistema no qual nunca acreditei. A gente sente frustração por estar ali só pelo dinheiro, mas, né? Meu equilíbrio tem fonte idêntica à sua, só que limitado a uma dupla. E tem também outro fator que muito me entusiasma: em três meses estarei aposentado. Então, resolvi parar de sofrer por não conseguir consertar aquele mundinho pequeno (em todos os sentidos), caótico e medíocre criado por aquilo a que chamam aparelhamento do Estado, e curtir minha família como sempre fiz, esperando ansioso pela carta de alforria. Ou, como costumo dizer, o dia do Fico (em casa).

Anônimo disse...

Pois é Ritinha, tb tenho um certo complexo por causa da "inutilidade" dos nossos afazeres... esse eterno exercício de "enxugar gelo", esse faz de conta que estou tentando consertar o mundo... Mas, enfim: trabalho para viver, não vivo para trabalhar.
Sinceramente, acho que profissionalmente eu seria mais feliz como voluntária em algo como Médicos sem Fronteira (não sou médica e detesto agulhas, hehehe) ou Sea Shepherd (barco as vezes me deixa enjoada, kkk)...
Mas antes de ir atrás dos sonhos tive que encara a realidade e, apesar dos pesares, não me sinto no direito de reclamar da vida. Então, bola prá frente que amanhã é segunda.
Bjk
Sara

Anônimo disse...

Familia é tudo de bom. Viva a familia. Viva o amor!
Beijos,
Ju

Deise Luz disse...

Que texto lindo, Rita!

Mariana disse...

Nossa, esse negocio de contar minutos não tem como não gerar crises! Sei bem como é! Também conto minutos! Conto também paginas, dias de prazo e ml's de leite. E quando vejo ja acabou o ano, ja é meu aniversario e ja e de repente eu estou renovando o visto aqui de novo!
E esse sorriso que preenche tudo, eu também tenho um aqui, mas cada vez que ele aparece tem um dente novo que eu não sei de onde veio!
mimimimi, mas é verdade!

bjus Rita!

disse...

Uau. Vc tem o dom de colocar em palavras aquilo que sentimos.

 
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