A fonte

Day 19: Favorite nonfiction book


"Alguma coisa havia mudado em minha mãe que me impediu de reconhecê-la à primeira vista. Tinha quarenta e cinco anos. Somando onze partos, havia passado quase dez anos grávida e pelo menos outros tantos amamentando seus filhos. (...) Antes de qualquer coisa, antes mesmo de me abraçar, ela disse com seu estilo cerimonioso de sempre:

-Venho pedir a você que por favor me acompanhe para vender a casa.

Não precisou dizer qual, nem onde, porque para nós só existia uma casa no mundo: a velha casa dos avós em Aracataca, onde tive a boa sorte de nascer e onde não tornei a morar desde que fiz oito anos. Eu acabava de abandonar a faculdade de direito depois de seis semestres, dedicados sobretudo a ler o que caísse em minhas mãos e a recitar de memória a poesia irrepetível do Século de Ouro espanhol. Já havia lido, traduzidos e em edições emprestadas, todos os livros que teriam me bastado para aprender a técnica de romancear, e tinha publicado seis contos em suplementos de jornais, que mereceram o entusiasmo de meus amigos e a atenção de algusn críticos. Ia fazer vinte e três anos no mês seguinte, havia fugido do serviço militar e era veterano de duas blenorragias, e fumava cada dia, sem premonições, sessenta cigarros de um tabaco feroz. Alternava meus ócios entre Barranquilla e Cartagena das Índias, na costa caribenha da Colômbia, sobrevivendo feito um nababo com o que me pagavam pelos textos diários no El Heraldo, ou seja, quase menos que nada, e dormia o mais bem acompanhado possível onde quer que a noite me surpreendesse. Como se a incerteza sobre minhas pretensões e o caos da minha vida não fossem suficientes, um grupo de amigos inseparáveis estava disposto a publicar uma revista temerária sem recursos que Alfonso Fuenmayor planejava fazia três anos. O que mais eu podia querer da vida?"

(Viver para Contar, autobiografia de Gabriel García Marquez, tradução de Eric Nepomuceno)


4 comentários:

Tina Lopes disse...

Que momento maravilhoso o señor Marquez estava vivendo nesse trecho. =)

Vivien Morgato : disse...

Eu li esse livro de beicinho tremeeeendo....dizendo pra mim mesma: Olha o Coronel!olha a Amaranta! olha a cidade!

Tudo me deixava arrepiada, porque eu amo esse homem com tamanha intensidade, que nem sei.



Como sempre, querida, bingo.

Luciana Nepomuceno disse...

Eric Nepomuceno? família nobre ;-)

(momento Luciana bobinha com invejinha que não leu ainda esse livro)

Rita disse...

A gente lê sobre a vida do povo e entende que eles não poderiam ser outra coisa senão contadores de histórias...

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }