Sob o céu de Florença


Eu queria já contar da volta pra casa, das malas - ah, sempre as malas e essa mania de adicionar emoção às viagens; queria contar de nosso último trem na Itália, das despedidas, do voo de volta. Mas fazer isso agora seria não falar de Florença e, convenhamos, não seria justo. Porque Florença tem umas coisinhas sobre as quais vale a pena trocar uma palavra ou duas.

Ela tem o Duomo de Santa Maria del Fiore. É necessário viajar exclusivamente para visitá-lo, acredito; só assim tem-se tempo suficiente para gastar na fila absurda que se forma todos os dias à sua porta. Nosso hotel ficava praticamente ao lado; ainda assim, não conseguimos entrar - quer dizer, não quisemos trocar quatro ou cinco horas de andanças pela cidade por uma fila eterna sob um sol implacável. Em Florença, gente, não há nuvens. Mas a gente ergueu o pescoço muitas vezes. Muitas vezes.




Florença também tem o Batistério com seus famosos portões esculpidos em bronze. Suas figuras, badaladíssimas pelo uso até então inédito de perspectiva, são consideradas as primeiras obras do Renascimento. Para se olhar por uma eternidade.





Florença, como não poderia deixar de ser, guarda os túmulos de muita "gente grande". A maior ironia, talvez, fique por conta de o túmulo de Galileu Galilei estar situado dentro de uma igreja... Enfim. Na mesma igreja, Santa Croce, está o belíssimo túmulo de Michelangelo. Três esculturas apaixonantes celebram as três artes dominadas pelo mestre: pintura, escultura e arquitetura.




Ao lado dos restos mortais de Michelangelo estão os do poeta Dante; seu túmulo, também grandioso, contrasta com a simplicidade do local onde foram depositados os restos mortais de sua amada Beatriz. Um dia antes de visitar Santa Croce, encontrei por acaso, enquanto procurava a casa de Dante, uma pequena igreja; lá dentro, o túmulo de Beatriz me causou uma onda de emoção que não sei explicar ou descrever muito bem. Não há, de maneira clara em minha mente, nenhuma razão especial para que eu tenha me comovido tanto quando entrei ali; lembrei-me de como Dante a descreve no Paraíso de sua Divina Comédia, mas isso não explica muito; talvez tenha sido a simplicidade do lugar - uma capela, na verdade, muito modesta - pela aparência tão antiga (é uma capela de mil anos...) que nos joga no passado; ou por imaginar que Beatriz foi inspiração para Dante, objeto de um amor que parece ter sido muito marcante; talvez por ter olhado para umas poucas rosas deixadas sobre a pedra nua e ter imediatamente me lembrado de minha mãe; talvez; o fato é que fui tomada por uma onda de emoção que nunca vou me esquecer e chorei como quem visita o túmulo de alguém querido. No dia seguinte, olhando o suntuoso túmulo de Dante na Santa Croce, só lamentei que eles não tivessem sido enterrados juntos - poderia não significar nada, mas o pensamento me foi inevitável. Mimimi dantesco. :-)

Dante...

... e Beatriz.

Florença tem museus, né. Visitamos duas galerias, a Uffizi, maior museu de arte da Itália, e a Academia de Belas Artes, porque não resistimos à vontade de dar uma espiada no Davi original (há uma cópia da escultura de Michelangelo na Praça Vecchio, mas quem se aguenta?). A visita à Academia valeu a pena também por algumas esculturas inacabadas de Michelangelo, o que nos permite ter uma noção do tamanho da genialidade de alguém que arranca formas perfeitas de um bloco de mármore. É impressionante. Mas... o museu em si deixou a desejar, pelo menos para mim. Achei caro e pequeno. Por que não colocam tudo junto na Uffizi, né? Ah, tá, para o turista gastar mais (ô maldade, há toda uma história em torno de um lugar específico para o Davi e tal; bla).

A cópia de Davi. O original fica dentro da Academia, "infotografável".

Enfim, a Uffizi. Há mais Da Vinci no Louvre, é verdade; mas há Botticelli até onde a vista alcança e minha nova paixãozinha é essa aí. Entrei à caça d'O Nascimento de Vênus, mas me apaixonei pela Primavera. Boa surpresa.


Primavera.

Florença também tem sorvete.


Né, Lílian?


E pôr do sol.


E artistas que pintam o chão.


E um céu de um azul fora do comum. E olha que eu moro em uma cidade azul.

A partir de agora, "Sob o céu da Toscana" é para mim um pouco mais que o nome de um livrinho legal. Enfim. Chegamos. Já já conto da mala que quase foi.

 

9 comentários:

larissa disse...

Lindo!
Eu estava super ansiosa pela próximo post na Itália!
Bjo!

caso.me.esqueçam disse...

menina do ceu, que post! que fotos! que tumulos liiiiiiindos, adorei! os detalhes da porta me fizeram babar, realmente eh algo que tem que se ver de perto :/

Tina Lopes disse...

Olha, do tanto que você fala das filas, acho que o melhor negócio é viajar no inverno, mesmo, porque eu entrei direto, sem fila, na Santa Croce e, pra falar a verdade, em todas as igrejas e museus de Florença. Em Veneza também. O Ufizzi me fez congelar de emoção várias vezes. A sala de Niobe me deixou impressionadíssima - a das esculturas da mulher fugindo da fúria dos deuses, tentando proteger os filhos e filhas, ai que triste e lindo. E tudo o mais. As ruelas de Florença, a sensação de volta no tempo, o clima de Idade Média, tudo. Também achei fraco o Museu da Academia, mas temos que relevar o fato de ser um museu para acadêmicos - quando fui, havia diversos alunos pintando e rascunhando esculturas, super bacana. Mas nem comparar o Davi da praça com o Davi real. Bem, eu fui má menina e fiz foto, né? Foi meio sem querer, sem ver o aviso... Bjk e bem-vinda de volta, querida.

Mariana disse...

Que vontade!!! Adorei os artistas da rua!!! bjus pra patota!!!

Angela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angela disse...

Firenze linda! Olha nao tive esse problema das filas tambem nao. Era finalzinho de primavera, comeco de verao. Batemos por muitas e muitas igrejas pelas bandas dai, mas lembro ter ficado de queixo caido com o mosaico exterior de Florenca. E com tudo mais :)

Ai e esse beijo gelado da Amanda?

Luciane Curitiba disse...

Rita, fala sério, que lugares são esses? Gente, que sonho!! Que fotos lindas. . .e vcs lindos, né? Amei acompanhar sua viagem pelo blog, sen-sa-cio-nal!!Altas dicas pra quando eu for pra lá, rsss. Bjo grande!!

Juliana disse...

rita. eu li um livro que falava sobre a capela sistina, ou seja, não se dedicava muito às outras obras do michelangelo, mas fiquei louca por conhecer florença depois de lê-lo.


como é possível o cara transformar pedaços de pedra nessas maravilhas, né?

LÍLIAN disse...

Ai, que tô atrasadaaaaa....
Pois: sexta cheguei no fim da tarde, zerada de cansaço. Sábado pela manhã dei uma revisada na palestra da tarde, aprontei todo o resto, dei um alozinho para os amiguinhos do facebook, salvei o arquivo no pendrive e - O COMPUTADOR DEU "PREGO" - influenciado pela Itália, claro!

Pois.

Agora vejo essas fotos lindas, lembro de tudo e quase apronto as malas de novo. Mas ainda estou pagando caro o preço de todos aqueles sorvetes. YUMMI, YUMMI.

BJO!

LOVE,
LI.

P.S. Eu, de plantão, computador do trabalho. Como é hora do almoço, não acho que irão me demitir - tenho direito à higiene mental, pois... ;-)

P.S²: o computador do evento leu meu pendrive. Graças ao bom Deus, caso contrário...

 
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