Os devaneios do português


Meme dos livros, bom demais. Acompanhem as tuiteiras que embarcaram na brincadeira: Renata, Mari, GraziLu e Tina - esqueci alguém?

Day 05: A book that makes you laugh


Dei boas risadas com As Intermitências da Morte, de José Saramago. Se tem uma coisa que o Saramago sabia fazer bem, essa coisa era começar um livro. Lembro-me que iniciei a leitura de Ensaio Sobre a Cegueira na livraria e não pude deixar de comprar porque o início da história é impactante, convidativo: uma cara parado no sinal, esperando o verde, de repente fica cego. É a mesma coisa com Intermitências: "No dia seguinte ninguém morreu".

O "fato" inusitado, que causou "uma perturbação enorme" no mundo dos vivos, transforma-se em uma história absurda e, uh, tenebrosa - porque as pessoas deixam de morrer, mas não deixam de sofrer: quem está moribundo, segue moribundo; quem está ferido, segue ferido... mas não morre. Como o curioso fenômeno é restrito a um determinado país, não tardam a surgir os contrabandistas de moribundos; estes, mergulhados num sofrimento literalmente sem fim, fazem qualquer negócio para cruzar as fronteiras e morrer em paz. O caos logo se instaura naquele país de pessoas aparentemente fadadas a viver para sempre - um horror. Descrito com a ironia caprichada do saudoso menino português, recheado de situações engraçadíssimas criadas sob medida para que Saramago se esbalde com seu arraigado ceticismo, Intermitências da Morte traz risadas garantidas ou o seu dinheiro de volta (quer dizer, o dinheiro eu não garanto, mas se você não achar engraçado eu conto uma piada de papagaio, quem sabe).


"Embora a palavra crise não seja certamente a mais apropriada para caracterizar os singularíssimos sucessos que temos vindo a narrar, porquanto seria absurdo, incongruente e atentatório da lógica mais ordinária falar-se de crise numa situação existencial justamente privilegiada pela ausência da morte, compreende-se que alguns cidadãos, zelosos de seu direito a uma informação veraz, andem a perguntar-se a si mesmos, e uns aos outros, que diabo se passa com o governo, que até agora não deu o menor sinal de vida. É certo que o ministro da saúde, interpelado à passagem no breve intervalo entre duas reuniões, havia explicado aos jornalistas que, tendo em consideração a falta de elementos suficientes de juízo, qualquer declaração oficial seria forçosamente prematura..."

6 comentários:

disse...

Engraçado vc citar Saramago no livro que mais te fez rir, acho que ele nunca me passaria pela cabeça como um autor "engraçado" se eu fosse procurar um livro para esse topico.

Mas é verdade que Intermitencias é de chorar de rir, pelo absurdo da situação e principalmente pela maneira que ele conta a historia. Foi um dos primeiros livros dele que li (depois de Memorial do Convento) e depois nao larguei mais. AMO de paixão. So' nao gostei muito do ultimo, a viagem do elefante.

Como livro engraçado, talvez eu citasse algum do Nick Hornby, ele é otimo!

Murilo S Romeiro disse...

Olá!
Esse eu gostei muito. Realmente engraçado e, ao mesmo tempo, cruel. Gosto de Saramago, mas "Ensaio sobre a Lucidez ", ao contrário do sobre a Cegueira, foi duro digerir a primeira metade do livro ( enrolou demais para não contar nada ).
Até!
:o)

Luciana Nepomuceno disse...

Faço minhas as palavrinhas da Dé se ela não se incomodar. Jami pensaria no Saramago. Brilhante, baby. E esse livro é uma maravilha.

Rita disse...

Sempre dou risadas com Saramago. Dei mutias em O Evangelho Segundo Jesus Cristo também.

Beijocas

Rita

Vivien Morgato : disse...

Não li, mas agora preciso.

Discordo dos outros comentaristas: apesar de preferir Ensaio Sobre a Cegueira, Ensaio Sobre a Lucidez me deixou apaixonada, a despeito das criticas negativas.


A cena em que os politicos deixam a cidade escondidos e são flagrados de forma cômica pela população é demais. O tom anarquista é delicioso.

Rita disse...

Vivien, se você gosta de Saramago, recomento mesmo Intermitências. Divertidíssimo!

beijão!
Rita

 
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