A maior aventura das férias: as malas


Houve um tempo em que era tão comum algo dar errado com minha bagagem em aeroportos que eu chegava a me surpreender quando tudo corria bem e eu via minha mala chegar intacta às minhas mãos depois de aterrissar. Já me aconteceu de tudo: já peguei um voo para o Nordeste em que toda a bagagem de todos os passageiros foi enviada para outra cidade, enquanto nós ficamos vendo a bagagem do outro voo se acumular na esteira à nossa frente; já cheguei em casa para descobrir que minha mala tinha sido aberta e que eu tinha sido roubada; já peguei mala de outra pessoa e só descobri quando abri a dita cuja em casa e vi um enorme chapéu de praia onde deveriam estar as roupas das crianças. Etc. Dessa vez também experimentamos um pequeno incidente na chegada a Florianópolis, conto já. Antes, porém, vou matar minha vontade de descrever nossas andanças pela Itália, de trem, com duas crianças e nove volumes de bagagem. Nove. 

Bom, não eram todos grandes volumes, é verdade, mas acompanhem. Em nossa última semana em Paris, a irmã do Ulisses (que você vê nesse post, atrás do sorvete) juntou-se a nós e seguiu conosco pela Itália. Eu e Ulisses tínhamos três grandes malas (uma com nossa roupa, outra com as roupas das crianças e mais uma com patinetes, capacetes, livros e sapatos), e uma última bolsa de mão com roupas que as crianças poderiam precisar trocar, o laptop, a máquina fotográfica, essas coisas; a Lílian tinha sua mala grande e outro volume de mão; idem para Dona Tereza, minha sogra. O Ulisses achou pouco e comprou um componente para a guitarra dele que ocupava uma caixa grande de papelão. Uma caixa, vão pensando. E, finalmente, deixamos Paris com uma mochila com lanches rumo à viagem noturna no trem que nos levaria para Veneza.

A estação de trem de Paris tinha à nossa disposição carrinhos de bagagem, similares aos dos aeroportos, à custa de um euro (ou dois, não me lembro), então foi fácil. Quando o trem chegou, seguimos rapidamente pela plataforma, cientes de que não dispúnhamos de muito tempo para acomodar tanta bagagem no vagão. Como não conseguimos um vagão só para nós (os trens ficam lotados nessa época do ano - anotem aí, viajar no verão é uma m***a, em certos aspectos), precisamos dividir um vagão para seis pessoas. Nós éramos quatro pagantes em nosso vagão (a Amandinha viaja de graça e a Lílian viajou em outro vagão porque comprou a passagem dela em outro momento), além das duas outras ocupantes. Se eu for falar da sorte, vou falar das duas americanas que dividiram o espaço conosco, mãe e filha simpáticas e falantes, porque, claro, tudo poderia ser pior se tivéssemos que dividir o espaço com dois seres mal encarados, por exemplo. Agora visualizem a cena: fui a primeira a entrar no trem para procurar nosso lugar, enquanto Ulisses, Lílian e D. Tereza se dividiam nas tarefas de empurrar carrinhos e cuidar das crianças na plataforma. Quando entrei no trem mal pude acreditar no que nos esperava. A cabine era minúscula e praticamente todo o espaço disponibilizado para bagagem estava ocupado pela bagagem das duas americanas. Eu ri de nervoso, cumprimentei as duas e disse "I'm in trouble". Anunciei que eu tinha duas crianças e muita bagagem para já ir preparando o espírito das coitadas que viajariam com a gente. Nesse momento o Ulisses chega ao vagão com a caixa. Rapidamente tratou de enfiá-la sob um dos bancos. A caixa entalou. Não entrava, não saía e bloqueava a entrada do vagão. Eu me espremia no corredor para dar passagens aos muitos passageiros, todos carregados de bagagem, que circulavam pelo corredor estreito. Chegaram as crianças. Olhei para as americanas e perguntei "Are you scared?" (vocês estão com medo?) e elas soltaram uma sonora gargalhada. A mais nova delas prontamente começou a tentar ajudar o Ulisses a desentalar a caixa e depois de cerca de três minutos de intensa luta corporal-caixal conseguiram. Não restava alternativa e ele teve de erguer todos os nossos pesados volumes de bagagem para a cama superior, o que significava que um de nós não teria onde dormir. Àquelas alturas, ficamos felizes pelo fato de que todas as bagagens couberam na cama e seguimos rumo à Itália.

Ulisses, exausto, depois de encarapitar as malas lá em cima (veja no detalhe lá em cima a mala preta onde seria uma cama para alguém dormir).
  

Dona Tereza e eu: só nos restava rir.

Para quem nunca viajou em um trem noturno em vagão de segunda classe (os da primeira comportam quatro pessoas e devem ser mais amplos, não sei, estavam todos lotados semanas antes de nossa viagem), imaginem: um compartimento retangular com assentos para três pessoas em cada lado e uma cama alta sobre cada um dos assentos; na hora de dormir, os encostos dos assentos podem ser convertidos em outras duas camas a meia altura entre o assento propriamente dito (que vira uma cama) e a cama lá de cima; a altura desse encosto convertido em cama não permite que alguém permaneça sentado no assento inferior, o que significa que é preciso haver certo acordo quanto à hora de se deitar: se alguém decidir permanecer sentado "mata" duas camas ao mesmo tempo, o assento propriamente dito e o encosto que não pode ser convertido. Enfim. A americana mãe anunciou que era claustrofóbica e que permaneceria sentada durante toda a noite, já que não suportaria a ideia de ter o encosto convertido em cama sobre sua cabeça (caso usasse o assento inferior para dormir), nem tinha condições de escalar o caminho rumo às camas superiores. Oh well. Fiz as contas: Arthur e Amanda dormiriam em uma das camas lá de cima (a única disponível, já que a outra estava tomada por nossas malas), D. Tereza dormiria no assento inferior, a americana-filha dormiria num encosto convertido em cama acima da D. Tereza, enquanto eu e Ulisses passaríamos a noite sentados ao lado da americana-mãe. Não sei se um anjo soprou no ouvido dela, ou se as duas entenderam que isso complicava tudo, o fato é que a americana-mãe mudou de ideia e decidiu tentar se deitar em um encosto convertido em cama, oba! Aí foi fácil (veja que meu conceito de "fácil" mudou bastante com essa experiência): D. Tereza e a americana-filha ocuparam cada uma as duas camas inferiores, Arthur e a americana-mãe ocuparam cada um dos encostos convertidos em cama, eu me deitei com a Amanda na cama superior e Ulisses ficou em pé no corredor até que as crianças adormecessem. Quando o silêncio reinou, Ulisses entrou, migrei para a cama do Arthur e Ulisses se espremeu na cama junto com a Amanda. E todo mundo dormiu. O ar-condicionado tratou de preservar a beleza de nossa pele e precisei resgatar cobertores enfiados sob malas no meio da madrugada, enquanto Lílian pingava de suor em sua cabine. Diversidade.

Amanda e eu em nosso puleiro.

Amanda precisou ser acordada quando já chegávamos a Veneza, Arthur bateu altos papos com a americana-filha cheia de simpatia e todos sobrevivemos. Minhas crianças foram um sucesso à parte: sem choros ou grandes birras, comeram, usaram o banheiro quando solicitei, encararam tudo como uma brincadeira, olha que trem esquisito e que cama legal. Aí descemos na estação de Veneza e descobrimos que as estações de trem na Itália não têm carrinhos para bagagem. Ok.

Todos os passageiros desciam do trem e seguiam seus rumos. Nós descíamos e nos reuníamos (nos acumulávamos) em algum ponto da plataforma, combinando a logística de movimentação: alguém ficava tomando conta de parte da bagagem, outro seguia com uma mala e o olho nas crianças e outros dois arrastavam quantos volumes desse conta. Sempre conseguíamos arrastar tudo em três etapas. Aí chegávamos a um ponto da estação em que alguém se afastava para descobrir os taxis e fazíamos tudo de novo até o taxi. Fácil. O esquema se repetiu na saída de Veneza para Florença, na chegada a Florença, na saída de Florença para Milão, na chegada a Milão e no traslado para o aeroporto - quando cheguei ao aeroporto de Milão e vi carrinhos de bagagem, achei um luxo. Luxo, tô falando. Sempre comemorávamos cada etapa. Prêmio cara de tacho para mim que fui à cata de um taxi em Veneza: larguei meu grupo com a bagagem e saí da estação - dei de cara com água, claro; andei alguns metros pelo largo que fica em frente à estação e logo vi um ponto de taxi; era um ponto de water taxi que me cobrou a bagatela de 70 euros para nos conduzir ao hotel. Aí, pérola, perguntei se não havia outros meios, carro, por exemplo. E o moço, riu, né: "hahahaha, there are no cars in Venezia!". Tá bom, então.

A gente chegava e tudo valia a pena.

Em Florença, comprei mais uma mala para dividir o peso das outras e evitar os altos custos de excesso de peso no aeroporto de Milão; a Lílian comprou mais um volume de mão e agora nós tiramos de letra. Quer dizer, tiramos a experiência de letra: juro solenemente que vou viajar com pouca bagagem daqui pra frente. Vou dar um jeito; não há nenhuma necessidade de transportar uma roupa que só será usada uma vez, por exemplo. Já melhorei muito nesse quesito, mas vou aprimorar meus critérios, principalmente se no roteiro existir alguma passagem por estações de trem na Itália (e torço que haja, né).


No aeroporto de Milão, dando risada: com carrinhos de bagagem fica fácil.

***

Daí houve a emoção final: quando chegamos ao aeroporto de Florianópolis, vimos toda a nossa bagagem chegar, exceto uma das malas grandes. Foi bem irritante, principalmente porque a toda hora eu me deixava enganar por uma mala quase idêntica à nossa que ficou rolando por lá até que todos os passageiros tivessem ido embora. A funcionária da empresa aérea já veio nos atender e de cara levantou a hipótese de que outra pessoa, a dona da mala esquecida na esteira, tivesse se enganado e levado a nossa... como em um filme, ouvi a moça falar e imediatamente corri para o saguão do aeroporto. É engraçado como nosso cérebro funciona. Eu corria pelo saguão e só via malas, não via as pessoas. Fui avançando rapidamente por entre passageiros, carrinhos e malas, segui para a parte externa onde ficam os taxis, espiando para os volumes que os motoristas botavam nos porta-malas, a minha mala deveria estar ali. Já fazia certo tempo que o avião tinha pousado, muita gente já tinha ido embora, mas tive uma sorte danada: em um carrinho cheio de malas, já colado em um taxi prestes a ser colocada no porta-malas, vi a minha mala! Gritei "achei" e só então reparei na mulher que segurava o carrinho: "essa mala é minha, a sua tá lá na esteira!". E ela foi logo tirando a mala e me devolvendo e eu voltei correndo arrastando a minha malona, que nunca me pareceu tão leve, para dar a boa notícia à minha turma. Chegamos todos bem.

11 comentários:

Mariana disse...

Nossa uma odisséia a dessas malas hein Rita??? A gente aqui ja aprendeu a lição depois de 1 ida e 1 volta do Brasil por ano: acumulamos tudo a ser despachado numa so imensa mala! E que vai semi-vazia para poder trazer os presentes todos na volta. De resto so dois volumes de mão: um pra nos, outro pra Sofia. E com a minha bolsa e a Sofia a tiracolo, tudo isso ainda da trabalho, imagino esses três carrinhos de vcs!!! Não deu dor na coluna depois não??? E nota mil para os teus petits no trem, nossa!!! nem sei o que faria com a minha pequena intrépida numa situação dessas! por isso a gente so viaja de carro por aqui! Bom retorno à rotina em Floripa! Bjus pra patota!!!

Anônimo disse...

Seja bem vinda Rita & familia!!! QUe saga essa das malas. hihihi. Arthur e Amanda estão de parabéns pelo bom comportamento. Fofos.
Beijos,
Ju

Luciana Nepomuceno disse...

Que alegria: chegaram todos bem. Eu sempre me dou mal com malas, costumo carregar mais coisas do que preciso, fica tudo pesado, me arrasto por aí...mas vivendo e aprendendo, lentamente vou diminuindo os itens. Quem sabe um dia viajo com uma mochila apenas?

Gostei muito da ginástica pra dormir (bem menos se eu estivesse lá, com certeza) e admiro como seus filhos estão sempre lépidos, sorridentes, animados.

Beijos a todos

Grazi disse...

Nossa quanta emoção rsrsrs !!!
Da próxima vez vc leva só algumas roupinhas e vai lavando no hotel.

PS: Suas crianças ficam lindas nas fotos !

Anônimo disse...

Não sei como cheguei aqui , mas como mineira, se a prosa é boa, puxamos uma cadeira e sentamos,era para ser só uma passadinha, mas como tem sempre um bolinho e café, a cadeira virou cativa, peço então licença.
Fiquei fã.
Jane

Rogério disse...

Esses aparentes 'perrengues' funcionam como tempero quando o espírito está feliz e desarmado, né? Evitam a monotonia e dão assunto para muito tempo, além de um texto saboroso como é o seu. Tem uma coisa que quero perguntar desde uns dois posts abaixo: é mito ou verdade que Veneza exala um cheirinho característico, tipo mangue?
Bem-vindos de volta, que bom que chegaram todos bem. E ainda deram a suprema sorte de se ausentar do País no exato período em que a população foi bombardeada pelas notícias de podridão dos lesa-pátria de sempre.

Juliana disse...

rita, desculpe, mas morri de rir da sua aventura. =)

olha, acompanhei com água na boca a sua viagem. Delicinha demais! Seus posts me fizeram viajar junto com vcs.

Que bom que deu tudo certo e que vcs se divertiram muito.

menina, meus momentos tenso em aeroporto são o pouso ( tenho sempre a impressão de que aquele troço vai despencar. rsrsrs) e a hora de pegar a mala. Nossa, vc passou por todas as situações que mais temo. kkkkk

Rita disse...

Oi, meu povo!

Anotem aí: na próxima viagem meus filhos vão lavar as próprias roupas e eu vou levar duas mudas só. Me cobrem.

Beijocas!
Rita

(Ju, pode rir, pode rir...; Rogério, sentimos cheiros estranhos em algumas esquinas, sim; mas nada de cheiro generalizado no ar, não. :-)

caso.me.esqueçam disse...

hahahaha caramba, rita! que azar da porra eh esse com malas, mulher?! fiquei impressionada agora. O_o

e essa ultima foto? chega deu uma afliçao pensar em como vocês tiveram que dar conta de tudo isso, coitados. mas bom mesmo foi voce correndo pra procurar a mala que quase foi embora heheheh ai ai...

Maia disse...

Malas não viraram apelido de gente chata à toa, rsss... Adorei os posts da viagem, deu para viajar um pouquinho com eles e deu muita vontade de sair por aí de verdade de novo!

Rita disse...

Luci, pior foi o que não contei por vergonha: corri de volta para o trem para procurar uma piranha de cabelo esquecida lá. Sõ não entrei no vagão, correndo o risco de o trem partir e me levar sabe-se lá pra onde, porque os vagões estavam fechados. Detalhe: a piranha estava dentro da bolsa o tempo todo.

Maia, gente mala é muito mala, ne? ;-)

Beijos
Rita

 
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