Os iluminados


E os tontos.

Sempre que passo os olhos pelo texto do meu perfil aí ao lado, diminuo a velocidade do olhar na palavra "iluminadas". Fico me perguntando se os desavisados a leem como evidência inequívoca de corujice desmedida e sem noção, declaraçãozinha metida a besta daquela que acha seus rebentos os mais, ah, especiais dentre todos os fedelhos do universo. Mãe de duas crianças iluminadas, faz favor, etc. Ontem à noite pensei nisso, não por algum ato de luz dos tais especiais aqui de casa, muito antes pela falta de luz da mãe deles mesmo, coitados. Ah, os dias em que a gente erra a mão.

Aceito "errar a mão" como condição da maternidade, até aí nenhuma novidade. No dia em que eu declarar que não tenho mais nada a aprender em determinada área da vida, qualquer ela, tsc, coitada de mim. Imaginem quando falamos justamente de maternidade, aquele que é, de longe, o maior desafio de minha vida. No entanto essa aceitação não me impede de refletir sobre os tropeços e tentar evitá-los em eventos futuros, que a gente sempre quer melhorar um tiquinho a cada dia, quero crer. Mas, ai, há dias em que me olho no espelho e tudo que tenho para me dizer é um lamentável "muito bem, Flipper".

Ontem à noite, depois do jantar, as crianças se dividiram pela sala para pintar sei lá o quê e ver não sei o quê na TV. Avisei que o banho seria dali a pouco e já cantei a bola para o papai delas que "quanto antes, melhor", porque a noite estava fria e tal. Na hora fatídica, tudo tranquilo para o Arthur, que prontamente desligou a TV e correu para o banheiro. Nada tranquilo para a Amanda que, oh dear, cochilava no sofá. Bom, aí começamos nosso show de equívocos. Porque tudo poderia ser tão simples: deixá-la dormir sem banho uma noite, ninguém morreria por isso. Mas nãnãnãnão, vamos pentelhar. Ulisses levou Amanda para o quarto, já aos berros, despertada de sua soneca QUENTINHA no sofá quentinho, dentro de seu moletom quentinho. Aí eu bem que poderia ter botado a pititica na cama, trocado seu pijama, escovado seus dentes e apagado a luz. Nãnãnãnã, temquedarbanho. Daí iniciei todo um processo fadado ao fracasso de tentar convencê-la a encarar o banheiro, que, afinal, filha, já vai estar bem quentinho, o mano já tá tomando o banho dele, bla bla, buauaaaaaaaaaa. Etc. Sem acordo, o banho foi dado, tadinha, com a criança aos berros. E porque estava estressada, com frio e lutando, vejam bem, eu disse lutando, para escapar do banho, levou bronca homérica e depois se desculpou por ter gritado.

Momentos depois, eu embalava a pequena no colo, cheia de culpa. Ela dormiu limpinha e se sentindo, talvez, culpada por seu "mau comportamento". Eu dormi limpinha e com cara de pateta: foi tirar a roupa no banheiro, bater o queixo de frio e me sentir ainda mais idiota. Tentei comprar noção, mas não vende na farmácia.

Então que há dias em que acho que eles são uns iluminados mesmo, sabe, porque, combinemos, ninguém merece. A criatura tem três anos e eu espero que ela enfrente frio e sono porque eu não dei banho mais cedo. Obrigada. O pior foi o falatório: você precisa obedecer, bla bla bla, não faça escândalo, mimimimi, deixe de grito. Ai, ai.

O que mais? Quando Ulisses entrou no quarto do Arthur com a Amanda embrulhada na toalha para vestir o pijama dela (o quarto do mano estava mais quentinho), o Arthur estava lá, livro em punho, mostrando pra ela: "olha, mana, vou contar uma história pra você dormir! Não precisa chorar mais!". Iluminado, gente. Toda sapiência da casa ontem à noite na cabeça do mais velho, enquanto pai e mãe se agarravam ao dogma do banho bla bla bla pra dormir limpinha, nhen nhen nhen.

Enfim, nada grave, grau de drama tendendo a zero e hoje ninguém falava mais nisso. Mas não posso deixar de me sentir uma tonta porque sei que isso ocorre, em menor escala, em outras ocasiões. Nem sempre nos posicionamos de mente aberta diante de eventuais protestos infantis. O Arthur, por exemplo, é uma criança que se alimenta muito bem, experimenta tudo e raramente abandona um prato de comida. Mas é só abandonar e lá estou eu, general do maternal, "se não comer tudo, bla bla bla". Aff, são uns iluminados, viu. Tadinhos.


8 comentários:

Angela disse...

Vez ou outra dou uns foras desses tambem, inclusive ja dei o Fora Do Banho Com Max Sonolento igualzinho ao banho desse post (com excecao que ele ainda tava acordado) e ja aprendi a minha licao tambem. Olhando o lado bom: que bom quando notamos o erro "all by ourselves! ;)" e aprendemos com a experiencia! Consequentemente, Julia nao precisou passar por isso.

Quanto ao termo iluminado, adoro, acho super apropriado, e lembro do dia que senti que Max (Julia nao havia nascido) era iluminado sim. Foi durante a escrita do seu post de aniversario, 31 de Maio de 2008, la no fotolog, ihih :) . Ou filhos sao mesmo iluminados ou somos duas tontas ihih.
Beijao!!!

* A Revolução de Maxwell *

Chegou cedo, apressado e minusculo
Mas ja forte, determinado, esperto
Quando era ainda cedo para rir, gargalhou
E nunca mais parou.

Trouxe com ele muitos acompanhantes
E novos habitos.

Assim começou a Revolução de Maxwell.

Elmo, Thomas The Train, Wonder Pets, Diego.

No começinho da chuva,
Correr…
Não de fora de casa para dentro, a procura de abrigo
Mas de dentro para fora, apressado para sentir a cosquinha das gotas frias na sua pele.

Jogar futebol na grama, com três bolas.

Acordar cediiinho, e desmanchar a careta de sono da mama em meio segundo
Com o sorriso mais largo e iluminado que ela ja presenciou.
Todos os dias.

Ir ao shopping, não à compras, mas para andar nos brinquedos.
Por batom mas sóóó depois da despedida ao deixa-lo na babá.
Tirar carrinhos da bolsa a procura da carteira
Lembram do sorriso doce e iluminado do meu amor.

Sua revolução que mudou radicalmente as nossas vidas
Tem sido o maior presente de todos os nossos dias.

Se toda a alegria que você libera para o universo
For devolvida na mesma quantia para você, meu Maxwell
Serás o pequeno mais feliz da Terra.
E nós os pais mais felizes desse mundo.

Te amamos
Mama & Dada

Bia, Desperate Housewife disse...

Agora tendi o tuite do banho que vc botou ;o)
Olha, já fiz isso do banho tb, viu; mea culpa. Hj em dia, chegou em casa dormindo, dormiu no sofá etc; cama. Pra me economizar mesmo. E assim com comida, com escovação de dente etc. Só não amoleço com bagunça de brinquedo, pq sou neurótica, né =oP
E sim, eles são iluminados mesmo. E eu, ENQUANTO MÃE, sou uma besta quadrada, que depende da misericórdia dos meninos.
Um beijo, minha fada.

Deborah Leão disse...

Ah, lindíssima, pensa que é bom pra ela, isso. Porque de vez em quando as autoridades da vida vão ser meio injustas, mesmo. Vão dar umas ordens que não fazem o menor sentido, e ela vai ter que obedecer. De vez em quando ela vai se deparar com umas exigências absurdas, quando tudo o que queria era continuar dormindo de pijama.

Se as mães não falhassem, a gente correria o risco de esperar que o mundo não falhasse, também. E não teria vontade nenhuma de sair do ninho quentinho. Mãe é fofa, é linda, é amor, mas é meio pé no saco, e tem que ser.

Beijão!

xistosa - (josé torres) disse...

Eu vou escrever uma coisa que não se coaduna com o meu "viver".
Eu fui pai, parteiro e... babá quase a tempo inteiro de dois "iluminados", hoje com, 34 e 36 anos.
Ambos falarm pela primeira vez em pá... (talvez um papá mais pequeno).
Eram tempos em que as mães "iluminavam" os filhotes.
Tinha um emprego que me facultava ter horas livres para tudo...
foi isso que a mãe (m/mulher) aproveitou.
Os filhos, neste caso, são o reflexo do pai.
Não foi um grande reflexo... mas fiz o que sabia e não sabia. Inventava.
Mas, sempre que possível conciliava os desejos dos mais pequenos com o "obrigatório".
Nenhum levou um "tapa" (é assim que se diz em brasileiro???) e não foi necessário.
Também não prometia nada, mesmo que pudesse cumprir o prometido.
"Obrigava-os" a cumprir o dia-a-dia, como se fosse a coisa mais natural do mundo e da vida.
Não me arrependo, apesar de os trabalhos que os filhos dão aumentarem com a idade.
>Quanto mais anos têm, maiores são os problemas...
Mas o que fazer???
Somos, obrigatoriamente, os responsáveis por eles.
Cumpramos a nossa função.
Não é pedir muito, só o exigível.

Desculpe tanta conversa...
Cumprimentos deste lado.

(se me visitar e deixar o "caminho" para a sua casa, voltarei.
Se não o fizer vai ser muito difícil.
É que eu não percebo nada "disto" e estou velho para aprender.

Um adeus!!!

Rita disse...

Anginha, derretida, haha. Bonitinha sua declaração pro seu gatão. Eu fico com as duas hipóteses: somos tontas e eles são de outro mundo. todo mundo trabalhado na corujice. :-) beijos!

Bia, a gente dá conta, vumbora!

Deborah, tô sabendo... Mas, né, tadinhos! Hehe.

José Torres, É bem isso que a gente faz:tenta acertar...

Abraços!

Rita

Lílian disse...

Hoje eu precisava muito de uma risada. Pena que foi à custa do choro da Amandinha. Mas me vi fazendo coisas semelhantes e hoje, enfim, dou risada. Das nossas palermices. E de como nossos filhos sobrevivem a elas.

Beijoooooooooos!

LOVE,

LI.

Rita disse...

Lilian, :-D Bom que gerou risadas. Muito bom.

bj
Rita

Lílian disse...

Minha amada... É que demorei um pouco a aprender que sempre podemos lançar mão da infalível técnica de "passar um paninho"...
:-)))

LOVE,
LI.

 
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