Miniconto displicente III

Precipitação

Acordou e logo voltou a fechar os olhos, apertando as pálpebras como bordas de pastel. Queria nada menos que a perfeição: antecipou o parque, o cachorro, a bicicleta e o sorvete; lembrou-se do perfume dos bolinhos de nata invadindo a casa ontem, a essa altura já estariam no fundo da cesta. Abriu os olhos, agora sim, podia começar. Livrou-se dos lençóis, ignorou os chinelos. Com a cabeça saltitando entre o balanço, a caixa de areia e a escalada na mangueira, pôs-se nas pontas dos pés e fez uma pirueta. (Do teto, uma fada conseguiria ver a teia dançante de cabelos; seria como ver a primeira pincelada e já adivinhar a obra toda: uma menina.) Portando seu sorriso silencioso, saiu da camisola, vestiu com pressa a roupa eleita, sentou-se no tapete e calçou as sandálias de flor. Passou as mãos pelos cabelos e achou que já estava bom, abriu a porta e foi ao banheiro. Escovou os dentes da frente, viu-se no espelho e acreditou.

Desceu as escadas, ainda sem ouvir o barulho da água.

Parou no último degrau da escada, olhar fixo na janela da sala. Sentiu duas lágrimas grossas molhando as faces que tremiam, seu peito juntando-se aos humores do céu que despencava numa chuva dura como um brinquedo quebrado.

2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

quase não consigo sair dessa: "apertando as pálpebras como bordas de pastel"...que beleza de frase \o/

Rita disse...

:-)

 
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