Mexendo no que estava quieto


Quando eu tinha seis ou sete anos, minha tia me levou a uma festa em um colégio da cidade onde ela morava. Era uma espécie de “festival do guaraná” e consistia, basicamente, em música, comilança e crianças correndo. Durante anos, o que ficou na minha lembrança daquele domingo foi um lugar imenso, com pátios infinitos, largos sem fim, muros altíssimos e corredores quilométricos. Tempos depois, com onze anos, passei a estudar no tal colégio e, como geralmente acontece quando voltamos a um lugar que tínhamos visitado quando éramos menores, surpreendi-me com as dimensões dos espaços: mesmo que continuassem grandes, não eram, de forma alguma, tão descomunais como nos quadros da minha memória. Não houve decepção ou frustração, apenas achei graça e me dei conta de como nosso olhar molda os lugares por onde passamos.

Acabei de revisitar outro “lugar” por onde costumava passear em minha adolescência. Experimentei novamente aquela sensação de estranhamento diante de algumas dimensões que me parecem, agora, distorcidas em minhas lembranças. O que ainda não sei é se mudou o meu olhar ou se a coisa que visitei agora não é exatamente um bom exemplar do que eu costumava ver há mais de duas décadas. Porque me parecem tão diferentes, a de ontem e a de hoje, que me custa crer que estou falando da mesma coisa: inventei de ler um livro de Agatha Christie.

Eu já estava na fila do caixa da livraria quando caí naquela tentaçãozinha de pegar os pocket books que ficam ali piscando pra gente. Pensei “ah, vai ser divertido, o Poirot outra vez com suas sacadas geniais” e tal. Hum. Comprei e pus na estante. Deveria ter deixado lá. Na estante. Ou na arara da livraria mesmo. Durante sete dos doze capítulos d’Os Trabalhos de Hércules, lutei para encontrar vestígios da velha inquietação que, lembro-me nitidamente, fazia com que eu adiasse o jantar ou o lanche para descobrir quem, afinal, era o vilão da história. Procurei pelos nós na trama que faziam com que eu soltasse “ah!”s a toda hora; nada. Procurei pelo texto bom, bem escrito, que me deixasse, ao menos, com o prazer da boa leitura... nada. Detestei. Achei pobre, fraco, chato, boring.

Fiquei quase triste. Para me manter enganada, digo que Trabalhos de Hércules tem doze casos curtos - aos quais Poirot se dedica antes de se aposentar - e que, por serem contos, não têm a complexidade que as histórias mais longas dos livros que eu comia com açúcar tinham. Pode ser. Ainda assim, resta o fato de que achei tudo ruim, não só os enredos cheios de obviedade. Nada prestou. Tudo bem, tudo bem, eu não esperava nenhuma obra prima, mas custava ser pelo menos legalzinho? Hum-hum. Nem isso. Sabe a sensação de que preferia não saber, queria morrer enganada, hohoho, ignorance is bliss? Pois é. (Mas Rita, e os cinco contos finais? Não sei, não vou saber, larguei o livro.)

Um dia, quem sabe, eu leia outro romance da dama do crime e faça as pazes com ela. Não descarto a possibilidade de tentar de novo, em nome dos velhos tempos. Mas com a fila de coisa boa que nunca vou conseguir ler e dois filhos pra criar, hum, essa nova visita vai levar pelo menos outro par de décadas para acontecer.

Nota mental: deixe o passado lá. :-)

7 comentários:

Jaquee Ribeiro disse...

Tenho uma profunda admiração pela dama do crime e seu incrível Poirot mas não me arrisco com contos independentes de quem seja o autor. Tenho um grave problema com esse tipo de texto que me faz abandonar livros de grandes escritores e não quero que Agatha Christie seja mais um deles.

Juliana disse...

Acho que quem leu muito agatha fica com a sensação de que todos os livros são iguais. Ela se repete muito. De todos os que li, o que ainda me encanta é Punição pra Inocência.

Seu post me fez lembrar de um livro da Daniele steel que li com uns doze anos. Sim, eu sei, Daniele Steel... Mas eu tinha chorado rios com o tal do livro, passei dias com a história na cabeça, fiquei realmente marcada pelo livro. Anos mais tarde, dei com um exemplar num sebo. comprei na hora e vim lendo na rua. Decepção foi pouco. kkkk
Onde estava o livro mais lindo do mundo???kkkkk

É por isso que tenho pudores de reler certos livros. Eu fiquei louca por um livro do Saramago na época da faculdade - só de falar me dá um apertinho no peito - , mas prefiro deixá-lo no altar em que eu o coloquei. Vai que descubro que nnem é tão lindo assimm... hehehe

Caminhante disse...

Que triste! Se cruzar com uma Agatha por aí, também deixarei na memória. Vai que me acontece a mesma coisa?

Luciana Nepomuceno disse...

Eu ainda gosto. Leio uma Agatha por semana, sem falta. Tenho sessenta e poucos livros dela em casa e revezo. Eu já nem sei dizer se são bons ou não, são queridos que eu preciso encontrar com uma certa regularidade. Concordo com a Juliana, todos os livros dela são um só mas isso pra mim não é um demérito, pelo contrário, eu concordo com a Miss Marple, não há mais vida em grandes espaços que numa poça d'água estagnada. Entre o mundo inteiro e um quarto eu ficaria sempre com o quarto, mas divago...
(cê ainda me ama mesmo assim?)

Juliana disse...

rita, vc resolveu o meu dilema com Crime e Castigo. É o que vc disse: a tradução é truncada, uma confusão danada. Tô até mais aliviada. hehehehe Eu tava aqui sem entender porque não dava conta de um livro que todo mundo ama. =)
Vou procurar essa tradução de que vc falou. beijos.

Tina Lopes disse...

Sempre preferi a Miss Marple e também me importava mais com a ambientação e descrição dos personagens do que com os crimes e resoluções em si. Mas é isso, melhor sempre deixar o que passou pra lá. A memória é a melhor estante pra eles, e sempre há inéditos a serem lidos.

Rita disse...

Jaquee, nem sei se o problema é com os contos, sabe. Precisaria ler um romance dela agora para ter certeza. Mas não vou me arriscar, hehehe.

Ju, acontece com filmes também, ne? Já vi comédias que me fizeram cair do sofá de tanto rir nos anos 80... sem dar uma risadinha agora. Quer dizer, eu ria da lembrança de ter rido, mas não da piada, sabe. Doido, muito doido.

Caminhante, eu não me arriscaria, hahaha. Mas eis a Luciana para dizer o extremo oposto: ama e continua lendo. Quer dizer, vai saber...

Lu, que horas você dorme?

Ju, vou lá depois colar uns trechinhos de uma e de outra pra você ver!

Tina, acho que só li uns dois ou três com a Miss Marple. Lembro que gostava, também, mas eu gostava de todos e gostava muuuuuuito. :-/

Beijos,
Rita

 
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