A infância, as histórias, Saramago

Na contracapa de A Maior Flor do Mundo, de José Saramago, lê-se: "E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"

Ulisses descobriu A Maior Flor do Mundo por acaso, enquanto procurava por outro livro para encomendar para as crianças. Nem me consultou, porque sabia que não precisava, e aumentou a encomenda. Dias depois, quando voltei do trabalho no final da manhã, as crianças estavam divididas entre o outro livro e o do Saramago. E achei lindas as asas azuis na capa do concorrente, mas, ah, surrupiei discretamente o livro do menino português e li como quem bebe água depois da corrida. Não é uma história, simplesmente. É uma declaração de amor às histórias infantis em que o escritor nos diz que adoraria saber escrever para as crianças, com as "poucas palavras" que elas conhecem - e que, olha lá, "não gostam de usá-las complicadas": o livro apresenta a história que ele gostaria de contar, caso dispusesse de "um certo jeito". Sei.

O que ele contaria, se pudesse, é a história de um menino que salva uma flor. (O Pequeno Príncipe pulou na  minha frente, claro, mas há mais que isso.) E segue Saramago revelando a trama de sua história inventada (lindinha demais) para, no final, convidar o leitor a recontá-la, "com palavras mais simples que as minhas":

"Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?..."

Cabe um mundo de aventuras literárias em A Maior Flor do Mundo. O livro estende a mão e nos chama para, tal qual o menino da história que Saramago queria ver contada, salvar uma flor bem valiosa, a imaginação de nossas crianças: contem, recontem, imaginem, digam do seu jeito, criem. Num mundo onde tudo vem pronto e automatizado, com luzes e botões, Saramago pede ajuda aos usuários das palavras simples para realçar a magia da contação de histórias, da criação. Olha, muito amor, viu. Como todo livro infantil que se preza, A Maior Flor do Mundo (Ed. Cia das Letrinhas) é lindamente ilustrado. O autor das gravuras é João Caetano (que com o livro ganhou o Prêmio Nacional de Ilustração em 2001); o texto escorre (mesmo) da caneta do Saramago para as ilustrações que enchem as páginas e oferecem um prato cheio para as histórias que cabem ali.

Para crianças, que certamente saberão fazer bom uso; e para adultos que insistem em tentar aprender a ver o simples.

***

Navegando pelo tio Google, vi que a Maria Fro já se rendeu; e lá vi o link para outro post sobre o livro; e também para um site inteirinho dedicado ao projeto A Maior Flor do Mundo!

No Google, vi também o curta-metragem baseado no livro (Ângela, para você e Max). Não pude deixar de abrir um sorrisão desse tamanho, agora que o Arthur cismou em examinar insetos com sua lupa. Vejam lá.

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"Logo na primeira página, sai o menino pelos fundos do quintal, e, de árvore em árvore, como um pintassilgo, desce ao rio e depois por ele abaixo, naquela vagarosa brincadeira que o tempo alto, largo e profundo da infância a todos nós permitiu..." J.S.

6 comentários:

Suzana Elvas disse...

Oi, Rita;

Antes dessa moda de autor de livros ditos adultos escreverem para crianças eu conheci esse do Saramago e o do Calvino, "Quem Ficar Zangado Primeiro Perde". São dois livros deliciosos.
Abs,

Suzana

Luciane Curitiba disse...

Boa dica, Rita! Na escola da Lelê eles mandam um livro por semana para os pais lerem com a criança e para que a criança re-conte aos colegas com suas palavrinhas na semana seguinte. Detalhe: a média de idade da turminha dela é 3 anos, olha que amor!!Fico imaginando eles na sala contando aos colegas o que os pais leram. . .#muitolindo.

Angela disse...

Que lindo Rita! Max esta dormindo mas amanha vou mostra-lo. Vai se identificar muito com o menininho, e vai se encantar com o besouro. Obrigada!!! Ha uma retribuicao na sua caixa de email, a razao pela qual demorei a responder foi por que precisava acha-los aqui em casa para enviar.

Beijao!

p.s.: a minha experiencia de compra de livros da sua lista ha meses atras foi tao infeliz. A Submarino quase me passou a maior perna na minha compra de 18 livros, recebeu o pagamento e so enviou 2. Entao agora vou seguir todas as dicas, mas os livrinhos serao em ingles :( Max ja se deliciou com Tate, the Cat e Around the World in 80 Tales.

Vivien Morgato : disse...

Adoro S., como sempre, uma boa dica vinda de cá: tô jogando no facebook agooora mesmo. beijos.

Luciana Nepomuceno disse...

Eu gosto do Saramago como na música do Chico: dia ímpar tem chocolate, dia par eu vivo de brisa. Quando é, é muito. Mas não é sempre. Desse, que nem vi, já gostei, porque o antecipei nos seus olhos generosos. E porque quando se é grande e se sabe fazer menino me comove. Saudade de você. Bj..

Rita disse...

Oi, pessoas.

Suzana, não conheço o do Calvino, vou dar uma pesquisada. Abraço!

Luciane, o dia da biblioteca das crianças tem sempre um charminho: é o dia em que eles devolvem o livro que pegaram emprestado na semana anterior e pegam outro. Aí é aquela coisa de um ver a história do outro e tal. Gosto quando a Amanda pede para "ler" sozinha e aí já viu, ne... umas pérolas. :-)

Ai, Anginha, tô passada com o Submarino.. e aí você perdeu o dinheiro e ficou por isso mesmo? Nada de devolução? Ai, gente... (amei o presentinho no e-mail!) <3

Vivien, obrigada, querida! Beijocas!!

Lu, eu gosto do Saramago de ruma! :-D

Beijos, vocês!

Rita

 
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