A colina



Não é sempre que o calendário traduz meu estado de espírito. Não sou mais romântica no dia 12 de junho, nem amo mais ou menos as pessoas do mundo de janeiro a novembro que nos festejos do Natal. Sou igualzinha nos feriados. Gosto de aniversários de pessoas queridas, pelo pretexto de afagar ou ficar junto, de reforçar o que elas já devem saber, que são especiais - ou pelo menos queridas - para mim. Mas, normalmente, gosto de todos os sábados, tenho simpatia pelas terças, e bem que já tive algumas quartas-feiras inesquecíveis.

Vivo dizendo que o conceito de idade, que assimilamos como uma sentença, é supervalorizado; que o calendário já teve outras divisões e que mais vale o quanto ainda queremos estar por aqui ou a forma como tocamos a vida de quem cruza com a gente todo dia. Com 16, 38 ou 56 anos. No entanto, aqui estou, meio surpresa. Como se os números da folhinha de repente tivessem se agigantado para me sacudir e me dizer, ei, já se passou meio ano. A aparente contradição não me aflige. Eu sei que sua presença em minha vida tem essa força intrínseca que não cabe na contagem do tempo. Mas se escapa à contagem, ainda assim opera com uma força tão pungente que, ainda que eu tentasse muito, jamais conseguiria ignorar. Durante os últimos meses, nesse meio ano, tenho inaugurado um forma nova de me mesclar com minha rotina: ao mesmo tempo em que me engalfinho nos acontecimentos diários, no meu trabalho, nas minhas alegrias com minha família, nos planos bons, nas expectativas, nos tropeços, nas mudanças de rumo; ao mesmo tempo em que me enrolo com essa colcha de retalhos que costuro um pedaço por dia; em meio a isso tudo, aqui e ali, vejo você. Vejo você nas pistas que espalhei pela casa: no seu vestido preto e branco que pendurei em meu armário junto aos meus, na colcha de cama sobre a qual tantas vezes conversamos em seu quarto e que agora é minha, nos seus copos no armário da sala, nas suas fotos, suas fotos, suas fotos. Vejo você nas nossas conversas que invento, cheias de "ai, mãe, o que você não me diria agora, hein!"; vejo você naquele momento em que, ainda, olha só, miro o telefone e sei que não; vejo você naquela brincadeira que inventei, quando me desequilibro na yoga: você me segura. Vejo você na Amanda, todo dia, o mesmo azul no olhar. Vejo você nos choros que me assustam de vez em quando, porque vêm do nada, no banho, no elevador, no trânsito. Alguns sorrisos também chegam, falar de você é bom.

Em todos esses dias, nessas tantas semanas, tenho percebido que você é meu fractal: não há início ou fim, não há centro; a intensidade das cores e os limites das formas variam com meu olhar, mas estão sempre ali, oscilando e refletindo a verdade inegável de que eu, em certa medida, sou e serei sempre um pedaço de você. Posso estender minha mão e mergulhá-la na imagem mais linda que surge quando penso nisso: você vive em mim.

Meio ano não é muito, nem pouco. Não é uma medida, exatamente. É um ponto na estrada, como o alto de uma colina, de onde posso ver uma paisagem bonita. Vejo flores, um olhar terno e uma mão sempre estendida. Vejo um olhar amoroso, emoldurado por um semblante melancólico; vejo além e percebo as alegrias, as danças e os sonhos. Vejo uma mulher, uma filha, uma mãe. Vejo uma amiga. Vejo uma luz. Que não se apaga nunca.

8 comentários:

Nilma disse...

Lindas palavras Rita, a saudade apertou por aqui também, ao lembrar de pequenos detalhes.Um abração na linda familia.Nilma

Luciana Nepomuceno disse...

"e o tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender, como eu morro de amor pra tentar reviver" (citando de cabeça)

eu penso que o tempo é como a estrada, se faz no que nos permitimos trilhar. Admiro demais sua entrega, linda. beijo

Angela disse...

Ai amiga, eh bem assim.
Doce amargo.
Um abraco, ta?

Tata disse...

essa presença não acaba, é feita de eternidade e sentimento. coisa boa.

Liliane disse...

Me emociono sempre que voce escreve sobre sua mãe. Li ontem e nem consegui deixar um pitaco aqui, tantas verdades, tantos sentimentos que me trazem a lembrança dolorida das perdas que tive no meu caminho. A vida é assim seguimos em frente por que muitas vezes não há outra opção. E com o tempo e a distancia dos acontecimentos a perspectiva se abre e nos surpreende.

Rita disse...

Queridas,

muuuuuito obrigada pelo carinho. Cada comentário de vocês é um afago.
Beijocas,

Rita

MARIA JANEIDE disse...

Rita Alice, Ritalice? Como se escreve?
Não me acostumo a chamá-la de Rita...
Mas, a Rita é uma mulher extraordinária, que aprendí a conhecer através deste Blog, que leio sempre que o tempo me permite.
Navego por aqui como aprendiz. Eu, que tenho idade de mãe, me torno criança, adolescente, jovem, mulher madura, enfim, a idosa que sou, mas, bebendo da sua sabedoria.
Gosto do seu jeito leve de escrever e de revelar aos que a seguem, o que se passa no seu dia a dia, de forma despretenciosa, sempre no sentido de compartilhar. Isto demonstra a pessoa quee você se tornou, sendo filha daquela que a orientou para a vida. Seu amor e carinho por ela, transfere para nós, o desejo de sermos mais amorosos e carinhosos com os nossos amores. Atualmente, estou viajando por Paris, como uma Guia que nao deixa nada pasar despercebido. Por enquanto é virtual... mas, quando for de fato, já estarei cheia de dicas maravilhosas e irei lembrar-me muito de você.Parabéns! Bjs. Janeide

Rita disse...

Janeida, querida

Seu comentário chegou como um abraço e encheu meus olhos d'água. Muito obrigada por seu carinho, é um grande prazer tê-la por aqui.

Beijos!
Rita

 
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