Prendam as bruxas


A semana me engoliu entre gripes e intempéries várias, nem a vi passar. Eu faria uma boa lista das coisas que deixei de fazer enquanto mofava na sala de espera do consultório médico, enquanto lamentava o dia perdido no trabalho (em semana bem cheia por lá), enquanto sentia vontade de sair correndo diante de algumas novidades bem desagradáveis. O mundo girou com notícias que eu bem que gostaria de ter acompanhado de perto, minha timeline no twitter me deixou com água na boca com alguns papos bons dos quais não pude participar, seja porque não tinha tempo, seja porque não tinha cabeça. Não escrevi nada, li muito pouco, mimimimizei bastante. Chega, certo? Bem sei que minha vida continua mais para um filme leve do que para uma tragédia, ainda bem, mas me permito uma lamentação leve pelos meus tropeços ou pelas pedras que surgem de onde menos se espera. E já vou avisando que detesto começar uma história e não terminar, não sou de fazer suspenses por aqui, mas vocês vão me perdoar o deslize, porque ainda estou colhendo detalhes para contar a história de uma vez. 

Enquanto o prato principal está no forno, vamos às entradas: depois de ser nocauteada por um vírus mequetrefe (que, felizmente, sucumbiu à primeira dose do remédio) e perder um dia de trabalho (sei que parece bom, mas não é minha definição de alegria acumular serviço em uma semana que já está bem puxada), recebemos uma multa de trânsito, hey, que alegria. Sabe a que horas o carteiro entregou a multa? No exato momento em que Ulisses chegava em casa. Sabe de onde ele vinha? Da farmácia! Sabe o que ele foi comprar lá? O novo remédio da minha sogra, que vai substituir uma substância e começar de novo um tratamento bem longo. Ah, mas ele não conseguiu comprar o remédio, estava em falta. E quando ele estava tirando o carro do estacionamento da farmácia, bateu no poste. Coisa boba, sabe, perto dos perrengues do mundo, mas ninguém gosta, certo? Enfim. Tudo bem, porque as crianças estão ótimas e ontem o Arthur quebrou um dos óculos e só cortou a testa na segunda queda do dia. Então o mundo tem muitas dores e as minhas nem são dores, são mais conteúdo de conversas futuras regadas a risadas e teorias incríveis sobre a Lei de Murphy. Mas não estou achando lá muito ruim a semana estar acabando. Porque deu.

***

De bom teve Weezer no carro, cantado bem alto para matar saudades dos tempos em que Ulisses me emprestou uma fita K-7 (jovens, consultem o Google) com o CD azul gravado. Ele tinha surrupiado a fita de um amigo, que, por sua vez, nem se lembrava mais a quem pertencia. Nunca devolvi a fita até o dia em que ela sumiu, certamente levada por algum fã apaixonado pela banda. Eu ouvia e ouvia e cantava e berrava e pulava no quarto enquanto me arrumava para sair e dar aulas de inglês. Se eu olhasse pela janela do futuro naquela época e visse uma semana qualquer anos depois em que o Ulisses faria sopa numa cozinha nossa para aplacar minha gripe, em que lamentaria um pequeno acidente no carro com um comentário engraçado qualquer ao que eu responderia, olhando para os nossos dois filhos no banco de trás, "o que realmente importa está bem", eu certamente teria uma síncope de felicidade. Então não liguem, às vezes encarno a reclamona, mas não precisa nem me levar a sério. Não trocaria nada. Uma vírgula sequer.

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A história desagradável que vou contar em breve envolve revolta e indignação. Acho sensato escrever depois que eu digerir melhor alguns elementos da história, porque não quero correr o risco de ser injusta ou precipitada em meus julgamentos. Eu quero entender direitinho antes de falar. Entender direito antes de falar é algo tão importante, tão... elementar. Digo, eu posso falar sobre o que não entendo, lógico, dialogando, perguntando, até pitacando. O que não posso é divulgar como se fato fosse algo cuja veracidade não posso atestar. Bem, até posso, se o faço em casa, do tipo: "gente, e não é que o Pitecos do Sul ganhou o jogo!" E logo depois, ao descobrir que o jogo terminou empatado, posso olhar para o marido e a sogra e dizer "uia, eu achei que o Pitecos do Sul tinha ganhado, mas o Pitecos do Norte empatou!" Isso pode, acho. Mas não pode assim: leio uma notícia bombástica. Ela é bombástica e, como tal, pode me trazer visibilidade. Posso me beneficiar dela, afinal sou blogueira/jornalista/tuiteira/escritora, you name it. Então replico e publico algo carregado de equívocos e potencialmente prejudicial a várias pessoas, sem me perguntar por um segundo se aquela fonte é confiável. Porque eu quero "informar", sabe. Só por isso. Então divulgo, depois eu vejo, afinal todos só falam disso. Acho que assim fica ruim. Juro que explico tudo depois.

***

Quero um banquinho no meio de um parque onde eu possa sentar com meu livro e ler parágrafos cortados toda vez que ergo os olhos para ver as crianças. Quero cansar de ler e me deitar nas folhas que forram o chão e então comer biscoitos com eles. Quero rir boba e achar que o maior problema do mundo é aquele que a Amanda, três anos, contou hoje, enquanto voltávamos para casa no nosso carro amassado:

- Mãe, meu dia na escola foi horrível!
- Por quê, filha?
- Eu cansei de pintar!

7 comentários:

Mari Biddle disse...

Oh, vida horriver a de Amanda!

Olha, explica o segundo paragrafo, por favor. É uma analogia sobre futebol? Não entendi nada. Eu não estou adoentada mas sou leeeenta.

Espero que o vírus que agarrou em vc vá embora logo.

Bom final de semana.

*eu também quero ler no parque.

Luciana Nepomuceno disse...

Ai, baby. Pois é. Bjs

Anônimo disse...

Também bati o carro essa semana, mas ninguém se machucou e não fui multada. Ainda bem.
Larissa

Rita disse...

Mari, hahahahaha, vou explicar tudinho, gata, juro que vou. É que o assunto me faz tão mal que vou empurrado com a barriga. Assim que explicar, cutuco a senhorita no twitter. Bj!

Lu, :-*

Larissa, aaahhh, sinto muito! Espero que não tenha sido nada muito sério mesmo. Beijo procê.

Rita

Caso me esqueçam disse...

é engraçado como a gente se sente culpad@ falando sobre esses problemas cotidianos, porque a gente sabe que nao eh o fim do mundo, como voce mesma disse "o mais importante tah seguro", mas, né, sao essas coisas que causam dores de cabeça. nao tenho nenhum cancer, nem nenhum filho passando fome e nao vou entrar na onda de soh "reclamar" e me preocupar quando algo desse nivel acontecer. o negocio eh soh nao deixar que isso vire um habito e que a gente saiba colocar os pes no chao de vez em quando. as vezes quando tou choramingando com a faculdade penso "velho, isso é REALMENTE um problema ou voce pode relevar agora?" aih eu fico calminha :)

Caso me esqueçam disse...

agora a amanda, ela sim, tem motivo pra reclamar, viu. que vida dificil! :(

Rita disse...

Pois é, Luci. Acho mesmo que não reclamar é impossível. Agora mesmo estou com dor nas costas, hohohoho. Mas a consciência é fundamental, ne´. É preciso manter certa noção para que a gente não se esqueça nem da sorte que temos, nem do mundo em que vivemos.

Ei, falando em sorte... eu vou te ver!!! \o/

Beijos
Rita

 
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