Por onde a gente anda



Eu tinha outros planos para o blog hoje, mas aquela menina de asas me passou um meme irresistível, desses sob medida para a gente adiar posts e ficar de trololó cazamiga da rede (ai, deixa eu corrigir antes que digam que não sei português: com as amigas internautas, está bom assim, pois não? - Para não perder o mote, o bonde e o lote, passe aqui).

Mas eu dizia que ganhei um meme. Ele veio por aí, em boas caronas, e agora vou brincar de tentar lembrar. Vou deixar passar muita coisa porque quase passei batida na fila da memória e me esqueço de muita coisa boa, lamentavelmente. E isso é o bom desse meme, além dos trololós: os pequenos registros para a gente resgatar daqui a cinquenta anos. Se o blogger deixar, claro.

O papo é recorrente por aqui, tenham paciência. Seguem as dez perguntinhas básicas e as respostas que rendem muito papo na hora de qualquer café com bolo. Não haverá grandes revelações ou indicações cheias de requinte; apenas minhas pegadas que enfeitam minha vida e fazem meu mundo maior.

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Sim, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. Foi até hoje a experiência literária mais arrebatadora que tive. Eu me apaixonei por Marquez no primeiro capítulo e nunca mais me curei. Li em dois dias, quando já morava em Florianópolis e fazia Mestrado, e me lembro nitidamente que no final da tarde do segundo dia comecei a ler bem devagar, com o peito apertado de saudade daquela família. Eu não queria terminar e, depois de finda a leitura, fiquei passeando pelo apartamento com o livro na mão, relendo pequenos trechos aleatórios. Amor demais. Mas essa pergunta comportaria muitas respostas.

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Sim, Dom Quixote, de Cervantes. Comprei há muito tempo, quando ainda fazia faculdade, e comecei a ler em uma época de muita leitura e trabalho. Lembro-me que voltei ao início após ter lido cerca de vinte por cento da história porque sentia que não estava envolvida, dada a importância da obra. Voltei e voltei e abandonei. Mora na minha estante até hoje e, se ainda me quiser, não desisti dele ainda. Mas o fato de ter tentado há tanto tempo, várias vezes, sempre o empurra para mais tarde outra vez. Enquanto há vida, há esperança. Morro de inveja de quem leu.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Pergunta difícil. Eu leria Clarice Lispector para sempre, porque nem precisa ser uma história, pode ser qualquer página dela (do que li, claro, não descartando a possibilidade de um dia ler algo e não gostar, apesar de duvidar muito que isso venha a acontecer). Então eu acho que leria Laços de Família, com seus contos absolutamente apaixonantes e que tiram fotografias de nossa alma a cada parágrafo. Assustadores. Destaque eterno em meu coração para o lindo "A Imitação da Rosa".



4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Eu gostaria de ter lido Ulysses, de James Joyce, pela importância do livro para a literatura mundial. Já li trechos do famoso monólogo de Molly Bloom, mas ainda não me abracei com Ulysses por inteiro. Com o outro, aquele sem y, já, várias vezes. :-) Ah, eu sempre achei que James Joyce tinha o maior bom gosto para nomes. E, claro, preciso ler O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, porque isso é um absurdo. Tá, tá, eu sei. Já falei que vou ler.

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

Paula, de Isabel Allende. Completamente tomada pela emoção, soluçando de tanto chorar, em meus devaneios eu me transportava para a sala de Allende a via sentada escrevendo aquilo tudo de dentro de sua dor e de sua saudade. Nunca livro algum me fez chorar tanto. E olha que isso quer dizer muita coisa, porque sou a maior manteiga do pedaço. Mas nem é pela dor: é pela beleza que ela conseguiu criar da dor. Um livro de redenção, um final com imagens lindas, inesquecível.

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Sim, já falei disso por aqui. Lia Lobato e gibis, lia Pollyanna, oh, não diga, lia as enciclopédias de capa dura da estante da minha mãe, lia um livro azul e branco sobre mitologia e ciência e nunca vou me esquecer da impressionante gravura de Hércules erguendo o mundo sobre os ombros - uau, ele era forte; ganhei uma coletânea de histórias infantis uma vez, com o patinho feio na capa e era muito amor nessa vida; lia um livro sobre um grilo que tocava o terror na floresta escondendo-se dentro do tronco de uma árvore e imitando voz de monstro; lia tudo da biblioteca do colégio, obrigatórios ou não. Gostava de Jorge Amado e Sidney Sheldon, minha rede aceitava qualquer peixe. Sempre foi igual a ou melhor que brincar.

7. Qual o livro que achaste chato e mesmo assim leste até o fim? Por quê?

Lembro que não gostei de Senhora, de José de Alencar. Mas, né, José de Alencar e tal. Queria ler. E fui, fui, fui, até o fim. Sem tesão. Quem sabe volto um dia. Faz muito tempo e me lembro de ter gostado de outros do autor, então pode ter sido só um momento ruim.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.


Hehehe, sacanagem, né, Luciana. Algumas pitadas: O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz; qualquer coisa da Clarice Lispector; As Horas Nuas de Lygia Fagundes Telles, que me apresentou à autora e me deixou encantada, leitura bem recente; Madame Bovary, Flaubert, pelo retrato da época, pela loucura, a loucura; Paula, A Soma dos Dias, A Ilha sob o Mar, de Allende, pela Allende, adorável, articulada, de imaginação viva e um coração gigantesco, cheio de amor pelas pessoas; O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, porque todo mundo precisa de um best seller para guardar no coração e ele sabe fazer; na mesma linha "leia algo que vendeu muito", indico Os Pilares da Terra, de Ken Follet, mas isso é coisa da minha cabeça: apesar de não ser uma pessoa religiosa, tenho loucura pelos templos e igrejas erguidas mundo afora. Os Pilares conta a saga de várias gerações de diversas famílias envolvidas na construção de uma imensa catedral no interior da Inglaterra. Ah, saboroso. Cem Anos de Solidão, Do Amor e Outros Demônios, Crônica de uma Morte Anunciada, O Amor nos Tempos do Cólera, Doze Contos Peregrinos ("A Luz É Como a Água" é meu favorito) e o documentário Relato de um Náufrago, além da autobiografia Viver Para Contar, todos do eterno Gabriel García Marquez. Ensaio Sobre a Cegueira, Caim, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e o ótimo As Intermitências da Morte, do lindo Saramago. Eu ia indicar vários livros do Veríssimo, mas estou de birra, porque andei lendo umas crônicas tão machistas que fiquei de mal dele. Quando passar, se passar, eu indico o menino. Mas ele escreve direitinho. :-) Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte; Crime e Castigo, de Dostoiévski, na tradução de Paulo Bezerra. Contos do James Joyce (The Dead (Os Mortos) mora no meu coração: no início a releitura era obrigação; depois virou prazer). Jane Austen, sirva-se à vontade; Edgar Allan Poe, idem. O Violino e outros contos, de Luiz Vilela.  E Dom Casmurro, do Machado, para parar em grande estilo. Já falei que esse poço não tem fundo. Melhor por língua: os brasileiros, os americanos e os ingleses, os franceses, sei lá. Por estilo ou época literária: regionalistas, românticos; os não literários (Foucault!! Bordieu!! Edward Said!!); os poetas... pensemos.

9. Que livro estás a ler neste momento?

O Grande Gatsby, de Fitzgerald. Povo bem animado.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.

Rá! Umas meninas duns blogs bons por aí:

Luci, do Caso Me Esqueçam (quando as provas acabarem);

Amanda, do Porte Doree;

Juliana, do Fina Flor;

Tina, do Pergunte ao Pixel, que não vai fazer agora, mas quem sabe um dia (eu adoraria conhecer seus pitacos e sugestões).

6 comentários:

Caso me esqueçam disse...

oopa, acabei de postar la na xarah as minhas respostas. nao fiz de forma elaborada, mas da pra ter ideia das coisas. nossa, adorei tuas respostas! lembrei de um monte de outras leituras que gostaria de ter feito, que fiz e esqueci de citar (gente, esqueci de citar clarice, a monstra! fernando pessoa! machado!). e os habitos de leitura infantis… meu tio (o tal que foi assassinado e tal, que eu comento no perfil do blog), deixou uns livros que minha mae, por motivos obvios, tinha o maior ciume, guardava a sete chaves. e a gente sabe que o que eh proibido eh mais interessante, neh. entao, quando ela saia de casa, eu destrancava as sete portas e passava a tarde lendo os livros dele. tinha uns de terror que eu amava! mas depois tinha pesadelo de noite e nao podia dizer a minha mae o por que! uheuehueheuhe

vou ajeitar o comentario que deixei na brabu e transformar em post, ok?

beijo, rita!

Amanda disse...

Ai menina, não sei se vou saber responder isso tudo não, viu? :) Mas adorei suas respostas e ja anotei as dicas! Beijo!

Luciana Nepomuceno disse...

Vou comentar por resposta, tá? Eu sei, vai ficar imenso. Tá preparada?
1 — Eu já reli esse livro trilhões de vezes e sempre me impressiono com o vigor e encanto dos personagens. Lá é tanto o “o quê” como o “como” .

2 — Rá, pode me invejar. Eu li uma tradução, claro, morro de inveja de quem leu o original. Tá vendo, nunca é o bastante.

3 — Clarice, perfeita escolha. Sabe, pensei nela nessa resposta, mas tive um certo receio, muita intensidade para todos os dias e todas as horas.

4 — Da Simone eu gosto msmo é do romance A Convidada. E nunca consegui Ulysses. Fico com o da Clarice :P

5– Acho que já falamos nós duas sobre esse livro...eu terminei pingando. Ainda vou voltar a ele. Preciso respirar.

6– Quase igual \o/

7. Talvez porque é bem machista (se você for de julgar com olhos de hoje os livros de ontem): Aurélia toda rica e poderosa se desmanchando pro Seixas (acho que são esses os nomes). Eu gostei. Não tanto quanto os do Machado de Assis, mas bem mais do que O Guarani, ;)


8. Estou com a Ilha Sobre o mar aqui, me paquerando. E como eu pude esquecer o Poe? Imperdoável. Vou gostando do que você gosta, talvez com um pouco menos de entusiasmo pelo Saramago. Não sei, é bom, mas sempre me deixa travosa. Tipo caju. Prefiro o suco. E eu nunca consigo deixar de amar o Verissimo, sei lá coisa de pele...

9. O Grande Gatsby, de Fitzgerald. Gostei tanto. Está entre os meus queridos. Ai, já Du vontade de reler. Foco, Luciana.

10. Ótimas solicitações. TODAS ESPERA a Tina (em linguagem twittiana pra ver se ela atende mais ligeiro)

Caminhante disse...

Idem sobre o Dom Quixote. O que chorei em Paula não se compara ao efeito do Menina que roubava livros. Hoje, tenho medo até de folhear e começar a chorar de novo (falo sério).

Dária disse...

Então, ontem passei por aqui e fiz um comentário gigantesco sobre os livros que pôs aí, e os que gosto também rss
o blog no entanto não foi com a minha cara e deu um erro na hora que fui postar.

Não tive mais coragem de refazer, mas de qualquer forma passando para mandar um abraço e dizer que anotei algumas diquinhas literárias rss

ahh, e pra compartilhar alegrias: passei no exame da OAB =D (o velho motivo pelo qual não comentava mais aqui: estudo heheh)

Rita disse...

Luci, estamos esperando o post. Enquanto isso, vou conferir seu comment lá na Lu. Bj.

Amandinha, relax. Meme significa "meme que você não faça, tá valendo'. :-)

Lu, parece nosso skype, hehehe.

Caminhante, eu gostei muito da Menina que Roubava Livros, adorei o ponto de vista da história, claro, e achei algumas passagens memoráveis. Mas Paula foi um troço forte demais. Bj.

Dáriaaaaaaaaa, parabéns!!!!!!!!!! Nossa, que legal! Boa sorte e muito sucesso pra você! E que sacanagem essa do blogger, hein... Fiquei curiosa agora. :-D Bom vê-la por aqui outra vez, não suma mais! :-)

Beijos
Rita

 
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