Papai feminista


Então agora eu madrugo no trabalho e volto pra casa na segunda metade da manhã. Passo o bastão para o Ulisses, que pega e sai voando e só volta para os seus corridos dez minutos de almoço antes de sairmos juntos para levar as crianças na escola, no início da tarde - e, claro, voltar para o trabalho outra vez. E aí sabe o que ouço do Arthur quando chego em casa, de manhã, significando que é chegada a hora de o Ulisses sair? Isso, ó:

- Ah, nããããão, a mamãe já chegou!

Pensem bem. A gente engravida, sonha, curte, amamenta, o peito racha, o leite seca, o leite volta, o peito explode, ninguém dorme, o cocô vaza da fralda, o vômito lambreca nossos cabelos, a febre não baixa de madrugada, ninguém mais vai ao cinema e só namora quando dá. Aí o filho de apenas cinco-anos-quase-seis LAMENTA quando você chega em casa - só porque o paizão ali vai parar de brincar com ele. Honestamente? Bem honestamente? Acho o maior barato. \o/

É que todos os itens listados acima fizeram e fazem parte da rotina tanto minha quanto do Ulisses desde que nos tornamos pais (com as execeções naturais de gravidez e peito rachado): ele também, e suspeito que mais que eu, troca noites de sono pelas necessidades dos pequenos, faz tocaia para as febres, trocou inúmeras fraldas, tomou banhos de vômito, xixi e cocô, abdicou e ainda abdica de várias atividades para dispor de mais tempo com os pequenos. E uma vez com eles: cozinha para eles, cuida deles com tudo que a palavra cuidar "implica", dá banhos, arruma, brinca muito, pedala com eles, conversa muito, repete, explica, beija, faz cócegas, faz companhia, leva para passear, leva e busca na escola, na natação e onde mais for preciso, leva aos médicos, dá remédios, etc, etc, etc. E o diferencial que faz o Arthur fazer bico quando eu chego e ele sai: brinca de heróis, faz vozes engraçadas, corre pela casa e brinca de se esconder, carrega na "cacunda" e conta histórias como ninguém. Quer dizer, se eu reclamar, prendam-me. E que ninguém ache que estou exaltando algo que acho fora do comum: acho que assim é que é bom, assim que fica doce, nem cogito como seria se não fosse assim. Criar os filhos juntos é o "óbvio" para mim e me sinto muito feliz por ver que tenho em casa o sonho de consumo do universo feminista: um homem feminista, que entende que uma vez em um relacionamento a dois, com alguém que se dispôs a formar uma família com ele, divide com naturalidade a criação dos filhos, com todas as dores e delícias que essa aventura inebriante nos traz. É bom, muito bom. Feminismo é isso também, é entender que homens e mulheres podem caminhar juntos sem funções "naturalmente" pre-estabelecidas, seja na criação dos filhos, seja nos cuidados com a casa ou no que for.

Algumas amigas me perguntam se não sinto ali uma pontinha de ciúmes. Com sinceridade, respondo que não. Sinto-me feliz porque cresci com pai ausente e sei como ninguém o quanto desejei ter um por cento do que meus filhos encontram no Ulisses. Sei que meus filhos me amam, não preciso que eles me provem isso, tenho meus momentos com eles que também inflam meu ego de mamãe. Mas gosto mesmo de ver esse derretimento deles com o pai porque, no fundo, concordo com eles: Ulisses é o maior barato. :-)

E aí sabe o que faço? Abro os braços e chamo pro abraço. Vem todo mundo. Depois despacho o papai-mor e sento no tapete com eles. Minha vez. E o beijo do Arthur sempre vem fácil, amoroso que ele é; puxou ao pai.

9 comentários:

Angela disse...

Ihih hoje mesmo estava conversando com dois no meu trabalho. Um pai de dois meninos falando para um pai de um bebe de dois meses que nessa idade eles se derretem pela mae, mas daqui ha uns anos vao ser do pai! ... Max eh grudado no pai, e Julia ta indo no mesmo caminho. Eu falo para ele que nao precisam ser um genios para entenderem quem eh Disciplina e quem eh Diversao. :( Ciumes nao tenho nem um pouco pois nasci mesmo sem esse dom, mas gostaria que ele fizesse mais tarefas de casa para eu poder passar tanto tempo com a criancada quanto ele e que a disciplina fosse mais distribuida. Ele que era feminista ao extremo quando casamos (muito mais do que eu) virou a casaca e desvirou, mas nao toda. :O

Ulisses eh um barato, voce ganhou na loteria. E oh, ele ganhou tambem!

Caso me esqueçam disse...

sou super fa do ulisses, puta merda. inclusive, o primeiro post que li aqui era sobre ele, achei massa! um dia eu procuro esse post! mas realmente nao tem absolutamente nada a ver ter ciume disso! eh claro que uma criança vai ser super louca por aquele que brinca mais ou sei la, que o outro. quando eu era pequena eu idolatrava meu pai por isso, ele tava sempre brincando comigo enquanto minha mae ficava naquele papel de dar remedio, mandar fazer a licao etc. sabe, nao eh a mesma coisa. ela nao era tao legal. hoje em dia...

disse...

Putz... fiz um comentario gigante e deu pau qdo cliquei em enviar. Here we go again!

Rita, temos uma historia um pouco parecida com a sua neste ponto: meu pai sempre foi ausente. Nao porque queria, mas pq ele trabalhava embarcado (nas plataformas de petroleo) e sempre que voltava pra casa se sentia um pouco como "peixe fora d'agua", ele nao conseguia se encaixar na nossa rotina e nunca foi de brincar com a gente. Tem muito a ver com o jeitao dele, ele é uma otima pessoa, mas é fechadão, na dele. Eu sempre ficava com uma pontinha de inveja dos pais das minhas amigas, que eram quase sempre legais, brincavam com a gente... e perguntava pra minha mae pq o meu pai nao era assim.

Ao contrario da minha mãe, que é a melhor mae do mundo. Trabalhava, cuidava da casa, dos 3 filhos sozinhas, brincava, dava amor até nao poder mais. Ela é a mulher-maravilha! E me espelho nela para tentar ser uma boa mae pro Rafael.

Ja' o Roberto é como o Ulisses. O pai que eu sempre quis ter em casa. Que participa, troca fralda, brinca, da' banho, leva no médico, enfim, aqui em casa as responsabilidas sao compartilhadas. O carinho também. Um dos melhores momentos do meu dia é ver os meus 2 meninos rolando no tapete da sala fazendo bagunça... coisa boa demais.

E sempre penso na sorte que o Rafael tem de ter pai e mãe assim tão presentes em sua vida.

sharon disse...

Oi Rita!!!

Esses homens e pais presentes são deliciosos não são?

Meu marido, o Rodrigo também é assim. Cuida do pequeno como eu. Eu acho ótimo, assim eu também tenho um tempinho, não é? Claro, se eu conseguir não ficar babando nos dois brincando/lendo/tomando banho/deitadinhos no sofá.

Acho que os homens só ganham por ser próximos aos filhos. E hoje já está mais comum encontrar homens dispostos a isso. Conheço um punhadinho!

Mari Biddle disse...

Que os frutos dele ( ai, ficou tão estranho!) sejam iguais a ele!

Tudo menino bão de casar. Tudo menino feminista.

Borboletas nos Olhos disse...

Ai, tão bom esse papo que me deixa alegrinha e toda satisfeita porque meu pai e o pai do meu filho são adoráveis, presentes e participativos.

Rogério disse...

Desde sempre fiz questão de trocar fraldas, fazer mamadeira, essas coisas que nossa cultura antiga atribuía às mães. Eu costumava dizer que era um pãe, e tinha plena consciência do quanto ganhava com isso. Participar da vida dos filhos é uma coisa que não tem preço, e minha filha, hoje com 27 anos, de vez em quando lembra passagens nossas que me remetem a um passado gostoso. Tenho o temporão Lucas, com quase 8 anos, que é meu companheirão de futebol, piscina e xadrez. Desde sempre cuidei dele também, e sinto pena de alguns vizinhos que se mantêm no velho padrão de só cobrar, dar bronca e não dar asas a seu lado criança para brincar com seus filhos. Ulisses é um homem de seu tempo, e acho que eu também.

Rita disse...

Ô, gente, quero tanto ficar de papo aqui, mas hoje tá impossível. Amanhã é aniversário do pequeno e hoje meu dia, que já é normalmente meio corrido, foi um zzzzzzzuuuuuuuummmmm que nem vi. Volto aqui depois para responder a cada um dos comentários,combinado? Obrigada, adorei a recepção desse post, tanto aqui quanto na lista de blogueiras feministas. Delícia!

Beijos
Rita

Fabiana disse...

Rita, não vou ser mãe nem faço questão de me casar. Mas te dizer que a sua família é um alento neste mundo doente, viu. Acompanho a felicidade de vocês de longe e com o maior carinho. : )

 
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