O birô

O birô era o mesmo do antigo escritório mantido em nossa casa: grande, feito de madeira marrom escura, com um tampo de vidro. Você cercada de pastas, organizava muitos papéis para deixar tudo bem encaminhado antes de partir. Eu me deitava no sofá em frente ao birô e ficava observando você trabalhar cheia de energia, com os cabelos brancos bem volumosos, com aquelas ondas que eles faziam algumas décadas atrás. Você também observava meus cabelos, entre uma papelada e outra, e fazia algum comentário sobre eles, de novo. Eu passava a mão nos meus cabelos e voltava a fixar minha atenção em você. Sua energia era incrível, quase entusiasmada. Sabíamos que você partiria para um tratamento médico, retornaria, trabalharia um pouco mais e logo iria se despedir de vez. Mas não havia angústia. Havia essa energia indescritível vinda de você e que preenchia todos os espaços em minha volta, diante de mim: você em seu birô, como em minha infância.

Foi meu sonho dessa madrugada, foi assim que me acordei para o dia. Falta pouco para completar seis meses de sua despedida e finalmente vi você em um sonho longo, tranquilo, bom. E assim foi meu dia, com você em minha mente, grande, clara, sorridente. Uma saudade enorme. Amanda está tão grande e esperta; Arthur é um menino crescido. Eu sou sua menina, hoje, olhando o birô. O dia inteiro.



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