Miniconto displicente II


Copas e varandas*

Assim que dobrei a esquina percebi o vulto que se erguia rápido rumo às copas das árvores mais altas do outro lado do quarteirão. No primeiro momento pensei ter visto grandes asas brancas, pensei numa coruja de desenhos animados. Segundos depois de ter subido um pouco a rua, no entanto, voltei a notar o rebuliço no verde e pude ver que se tratava, na verdade, de um grande gavião marrom e acredito que o branco que não se confirmou não tenha sido mais que um recurso meu para clarear um pouco algumas visões. Dei mais alguns passos pesados e parei diante da árvore que servia de gangorra para o animal livre cuja imponência nem combinava com quem detinha tamanho troféu: havia algo de tolo naquele gavião vaidoso, como se ele não soubesse da liberdade que tem, já que, se a entendesse de fato, seria um ser feliz, não um esnobe. Com a rua inclinada entre nós dois, pensei no dia do gavião. O que teria feito desde as primeiras horas até aquele final de tarde quase cinza, meio confuso e que se rendia à inexorável chegada da noite. Tentei supor quantas presas teria devorado, quantos quilômetros teria voado, o que possivelmente teria merecido seu olhar vindo do alto. Pensei que ele escolhera  as copas da minha rua para se recolher e que aquilo, de alguma maneira estúpida ou secreta, aproximava nossas vidas. O dia dele cruzado com o meu, durante o qual não pude escolher copas ou observar além de cinco metros à frente de meu nariz, um dia de refeições nervosas e alimentos empurrados com rancor. Absolutamente imóvel a partir do momento em que interrompi minha caminhada para observá-lo, meu pássaro marrom certamente investigava o vulto a alguns metros e talvez, por que não, tenha me dedicado um pouco de sua atenção de caçador. Olhei, suspirei de cansaço e segui meu caminho para casa. Não voltei a olhar para as árvores do outro lado da rua, não ouvi piados ou batidas de asas. Não saberia dizer o que meu vizinho alado decidira fazer da minha despedida silenciosa e quase desdenhosa. Abri a grade do portão da minha casa, destranquei a porta pesada que me separa das árvores e entrei no espaço formado por paredes que me aquecem e me protegem do mundo que ajudo a confundir. Subi para o meu quarto e abri a cortina para adiar um pouco o momento de apertar os interruptores e me lembrar de minha visão inútil na escuridão. Destravei a tranca da porta que simula um encontro com o ar livre e fui para a varanda adivinhar se a Lua viria me salvar das lâmpadas. Não vi a Lua. Do outro lado da rua, a pupila negra como um alvo no centro do olho branco e redondo me observava investigativa, analisando-me em meu ninho. Devolvi o olhar com meu par de tristes pupilas cansadas e meu coração se trancou ainda mais quando as grandes asas se abriram e suas pernas se esticaram lançando-o num voo de quem sabe o que lhe basta, de quem se reconhece em sua forma de vida. No voo. Já quase não havia mais luz no céu e não pude segui-lo por muito tempo, meus pés tão presos às lajotas da varanda. Gosto de pensar que ele volta e lamenta meu sono fechado enquanto se entrega à sua solidão de caçador com a sabedoria de quem não cresceu.

Há dias em que eu voltaria ao simples, se pudesse. De asas abertas, sem muito pensar.  

***


5 comentários:

Caso me esqueçam disse...

cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é

xistosa - (josé torres) disse...

"Voava" eu pelo Google e "poisei" nesta casa. (Procurava uma foto que não recolhi).
Li e como gosto de comentar, penso que é isto que todos os 'blogueiros' apreciam, aqui fica a minha visão do "encontro".
Não seria o "Gavião do mar", com Errol Flynn, que me alegrou na juventude, pois este era terreno e "navegava" sobre a copa das árvores.
Era, (são) a liberdade que não os prende como os humanos.
A vida para eles é uma imensidão.
A nossa uma reclusão.
Seguiu a sua forma de vida: a liberdade!
E quão fácil é para ele. Subir aos céus e deixar-se planar...
Cumprimentos e talvez até um dia se souber o "caminho para cá".

Lílian disse...

Gostei do conto. E, a sério, gostei do comentário que vi acima do meu. BACANA.
Parabéns, cunhada!
LOVE,
LI.

P.S. Tô gostando de assinar assim. Me suponho alguém mais amável...

+ beijo.

Rita disse...

Luci, e num é... :-)

José Torres, seja bem vindo.Já dei uma espiada em seu catinho. :-)

Oi, "Li". :-)

Hoje me lembrei de você: uma amiga veio nos visitar e trouxe sapatilhas para a Amanda brincar de dançar os gatos dos Saltimbancos... não dançaram nada, mas Amanda passou a tarde com focinho e bigodes. :-)

Beijos
Rita

Lílian disse...

;-)

(Com bigodinhos pintados - não consegui colocá-los... )

Ks.

 
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