Meu encontro com Gatsby


Minhas primeiras impressões quando comecei a ler O Grande Gatsby, em tradução de Roberto Muggiati (Editora Record), foram de desapontamento. Primeiro pelo óbvio: foi começar a ler e me perguntar por que cargas d'água não tinha dado preferência ao original, já que se trata de um romance reverenciado mundialmente como uma das principais obras literárias da literatura americana. Depois, por algumas construções textuais que me pareciam meio truncadas e que me deixavam imaginando se seria coisa do texto original ou da tradução. Mas na real, o que pegou mesmo foi o fato de eu ter lido o prefácio do tradutor: apesar de conter algumas informações interessantes sobre a composição de Gatsby e sobre a carreira de Fitzgerald - além, claro, de breves considerações sobre o trabalho de tradução -, não gostei muito do tom do prefácio. Talvez por um ou outro detalhe que me soou coloquial demais da conta, fiquei com a impressão de que leria um texto... do Muggiati (em tempo: precisaria de um blog inteiro dedicado aos dramas da tradução literária; não estou nem tentando tocar no assunto). E é só escrever isso agora para ver o tamanho da bobagem, mas foi o que aconteceu. O que quero dizer é que iniciei a leitura munida de preconceito contra a tradução. E aí ficava toda hora: hum, devia ter comprado o original. Mas. Continuei lendo, grazadeus, e, lá pelas tantas, os personagens começaram a tomar corpo e a história seguiu por rumos que quase me fizeram esquecer a dor de cotovelo por não estar lendo as palavras escolhidas por Fitzgerald para contar sua história de amor e desencontros. Resumindo: gostei muito.

Como sou sempre a última criatura do mundo a ler as coisas, nem deveria falar da história, mas quem me segura? O Grande Gatsby fala de uma história de amor interrompida e do resto de uma vida inteira dedicada a resgatá-la. Uma tentativa dolorida e incerta que põe na boca do protagonista coisas como: "'Não pode repetir o passado?, gritou incrédulo. 'Ora, claro que você pode!'". Mas a vida é mesmo incerta e nem sempre o que parece nos conferir poder é capaz de nos dar o que mais desejamos, right?

O Grande Gatsby foi publicado em 1925 e é tido como um livro que retrata com precisão o burburinho das altas rodas da sociedade americana de então, com suas festas magníficas regadas a jazz e bebida contrabandeada. A ambientação é mesmo uma delícia, um passeio por subúrbios novaiorquinos, festas luxuosas e, claro, os casarões de Gatsby e seus conhecidos onde boa parte dos ótimos diálogos se desenvolve, além do mar logo ali com seus ventos e, onde a estrada encontra a ferrovia, o vale de cinzas que tudo vê... O narrador da história é um amigo de Gatsby, Nick Carraway, que conta os episódios que compõem a trama em flashback.  Nick também é amigo de Tom Buchanan, marido de sua prima Daisy - alvo da adoração de Gatsby. Tudo em Gatsby é cercado de mistério, suas origens e as de sua fortuna, suas atividades, suas amizades, suas intenções. O leitor precisa ser paciente e acreditar que as informações virão, mas isso não significa tédio, já que a história é servida de pequenos eventos para nos manter bem entretidos - e, ao final, tudo se costura. À medida que Nick libera as informações, passamos a entender os laços que uniram Gatsby e Daisy no passado e conhecemos a principal motivação de cada um de seus passos. O mais é deleite: para mim, a história cresceu a partir do meio do livro e foi ficando difícil largar o osso. A intensidade dos diálogos, os enfrentamentos dos amantes, os fatos inesperados, tudo se condensa numa reviravolta desconcertante e, ao mesmo tempo, sedutora. A história, de repente, funciona e nos vemos diante de um drama contado com beleza, aquela receita que, nas mãos certas, resulta em obras de arte.

A dor de cotovelo não passou de todo. Há momentos de lindas construções linguísticas (mérito do tradutor, aqui) e eu adoraria lê-las em inglês também. Não conheço a obra de Fitzgerald, mas acredito quando leio que essa é uma característica de sua escrita: às descrições precisas, às caracterizações primorosas de seus personagens e ao seu impressionante poder de síntese, soma-se uma habilidade engenhosa em construir passagens onde a linguagem é a detentora de toda a beleza. Às vezes simbólica ou até surreal, a linguagem em O Grande Gatsby tem daqueles momentos que abrem o sorriso em nossa cara, livro na mão:

"Trinta anos - a promessa de uma década de solidão (...) Mas havia Jordan ao meu lado que, ao contrário de Daisy, era esperta o suficiente para não carregar sonhos esquecidos de uma época para outra. Quando passávamos pela ponte escura seu rosto pálido tombou preguiçosamente sobre o ombro do meu casaco e a batida formidável dos trinta anos se apagou com o toque tranquilizador de sua mão.
E assim seguimos em direção da morte através do refrescante crepúsculo."

Já apaixonada pelo livro, abandonei as ressalvas à minha edição quando terminei de ler a história. Meu exemplar contém um apêndice generoso: um texto de M. J. Bruccoli sobre os erros textuais da escrita original de Fitzgerald, erros factuais na ficção e também em relação ao mundo real retratado em alguns cenários da história. É interessante ver o quanto já se estudou sobre a escrita dessa obra: há todo tipo de consideração, da localização de Fitzgerald enquanto escrevia o livro (Europa) à sua dificuldade em lidar com prazos editoriais, já que tinha por hábito reescrever muitas vezes seus textos. No apêndice estão ainda o prefácio à edição crítica de 1991, também de Bruccoli, o posfácio do editor americano, "notas explanatórias" e uma lista de leitura suplementar sugerida sobre a obra. Ou seja, a gente lê o livro e aprende um monte sobre o autor. \o/

O Grande Gatsby foi um fracasso literário em seu lançamento. O livro só entrou para a história "classe A" da literatura mundial mais de vinte anos após a primeira publicação. F. Scott Fitzgerald não chegou a saber disso. Morreu em 1940, depois de anos de endividamento, alcoolismo, doenças e do difícil drama familiar causado pela doença psiquiátrica de sua esposa Zelda. Quando Fitzgerald morreu de ataque cardíaco, escrevia roteiros para Hollywood e tinha iniciado seu romance sobre o mundo do cinema, The Last Tycoon. Devia acreditar em sua mediocridade, em seu talento insuficiente. Assim, como se nunca tivesse lido O Grande Gatsby, incapaz de prever o futuro.

"E assim prosseguimos, barcos contra a corrente,
arrastados incessantemente para o passado." F.S.F

Não que precise, afinal estamos falando daquele que é tido como o segundo melhor livro em língua inglesa do século XX, mas recomendo muito. Em inglês, certamente, mas também em português. :-)

5 comentários:

Lílian disse...

AMEI!
:-)

LOVE,
Li.

Vivien Morgato : disse...

Se a dica é sua: vale. Eu tentei ler várias vezes e seeeempre detestei: escrevi eisso e recebi criticas..rsrs...

Mas volto, por sua leitura.;0)

Caso me esqueçam disse...

credo, esse ultimo paragrafo eh um misterio pra mim. gostei do livro, mas nao a ponto de achar que ele merece ser classificado como segundo melhor livro do sec XX (em lingua inglesa). adoro a ironia do titulo, a riqueza dos personagens e a futilidade deles. tudo eh vazio. gosto da passagem em que deisy choooora ao ver as camisas de seda do cara.

Anália disse...

Oi, Rita!

Sabe que eu tentei ler o Grande Gatsby há muito tempo e não curt muito. Abandonei.
Quando li teu post, fiquei morrendo de vontade de ler o tal livro, desliguei o micro e fui diretamente à estante. Tinha esquecido que, como estou de mudança, a estante já está de casa nova e os livros todos encaixotados aqui e lá... Que desapontamento! rsrsrs

Bjs,
Anália

Rita disse...

Ois

Lilian, :-)

Vivien, parece que a maior galera larga o Gatsby pra lá, ne. Entendo. O livro só me fisgou mesmo após alguns capítulos, mas aí valeu bem a pena. Bj.

Luci, não seria esse parágrafo uma referência à tentativa maluca do Gatsby de viver com o pé no passado? Linhas antes ele falava do futuro no qual o Gatsby acreditava, mas que era, na verdade, uma redenção pelo "revival" que ele buscava com Daisy: até quando olhava para a frente, ele só via o passado. Enfim, viajemos, querida. Traz a cerveja. ;-)

Anália, você não foi a única. Uma amiga comentou comigo que remexeu a estante à cata do antigo exemplar e... teve uma crise alérgica, hahahaha!!! Mas fiquei contente de deixá-las com vontade de ler o livro. Beijocas!

Rita

 
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