Livro de retalhos


Ah, o prazer de descobrir pequenas preciosidades. Hoje levei a duplinha daqui para a Feira de Livros do colégio deles, no final do dia. Estrutura bem simples, sofrível até (não havia lugar para se sentar e explorar os livros, por exemplo; as poucas bancas espalhadas pelo ginásio davam a impressão de que era muito espaço para pouco livro, mas tuuudo bem), pouco para se ver, preços bem salgados. Quando ouço "feira de livros", penso logo em promoções imperdíveis, oportunidade para se conhecer o que há de novo, a hora certa para se comprar aquele dicionário cobiçado que está com 40 por cento de desconto, ou coisa que o valha.  Nada disso. Mas era no colégio e lá estávamos nós; e o que importa mesmo estava ali: a gurizada fuçando letrinhas. E rolava um lanchinho logo ali. O Arthur tratou de explorar umas bancas com alguns colegas de sala e eu fiquei cercando a Amanda para que ela não destruísse nenhum exemplar de 6-páginas-por-27-reais. Ela logo se cansou de não ter onde se sentar para folhear os livros e resolveu brincar de subir e descer arquibancadas. E eu me deparei com a tal preciosidade: Ponto de Tecer Poesia.

                                            

O visual patchwork da capa piscou para mim e abri assim, só para conferir. Ai, lindeza. O livro é todo ilustrado com técnicas de colagem, diversos tipos de bordado e pinturinhas em tecido etamine. Babando com as imagens, comecei a ler os poemas e, crente que estava entendendo a coisa, fui pensando "ai, que sacada legal da Sylvia Orthof, fazer poeminhas para os bordados"... Aí olhei direito e vi que a dona das imagens é, na verdade, a ilustradora Tatiana Paiva, que elaborou os bordados fofos para os poemas que foram originalmente publicados lá em 1987, pela Editora Ebal (a edição ilustrada pela Tatiana é de 2010, pela FTD). Prestando mais atenção às palavras da Orthof (que, agora sei, faleceu em 1997), fui me encantando tanto quanto pelas imagens:

Para tecer muita poesia
Dona Aranha foi à feira
comprou três quilos de beleza,
dois litros de chuvarada,
comprou um colar de contas
de orvalho sobre rosas,
comprou oitenta e três metros
de luar de purpurina.
Depois
teceu um rendado,
pediu ao sol,
emprestado,
um pouco de ouro em pó.
Aí, a Dona Aranha
deu uma laçada de volta,
meia-volta,
volta e meia,
teceu depressa esta meia
feita de poesia só.
E foi dormir numa rede,
lá no canto
da
parede.





A Amanda não chegou a dar duas olhadas para o livro ainda, mas não tem pressa, eu espero. Vou deixar o livro por aí e sei que um dia ele vai crescer aos olhos dela e fisgá-la de jeito. Já fisgou o Arthur, que leu comigo em casa e soltou vários "que bonitinho...". Quando olhei para ela pulando as arquibancadas, balançando suas marias-chiquinhas, enquanto eu descobria Orthof & Tatiana, pensei: vou comprar para inspirá-la a ver belezas em coisas miúdas. Como eu vejo nas marias-chiquinhas dela.





Com vontade de ver mais do trabalho da Tatiana Paiva, de quem já sou fã, visitei seu lindo site e vi que também são dela as ilustrações do Festa no Céu, de que falei nesse outro post. Danadinha, ela, viu. 

***

Calhou tanto um tiquinho de poesia nesse dia. Calhou tanto um pouquinho de leveza.

4 comentários:

Joana Faria disse...

Que LINDO!
Fui no site da Tatiana e AMEI as ilustrações dela. Adoro esse estilo de colagem que ela faz e a mistura de texturas também. E esse livro parece ser muito fofo. :)

Lílian disse...

Ai, Rita, que preciosidade!!! Lindo post, lindas fotos, lindo o texto que você escolheu...
Também quero uns metros de luar de purpurina, será que encontro essa feira?
LOVE,
LI.

Luciana Nepomuceno disse...

Quer dizer, não basta você ser linda, seus posts lindos ainda traz mais lindeza pra gente ir atrás...

beijos agradecidos

Rita disse...

Oi, meninas. O livro é tão lindo, queria muito que vocês procurassem por ele na próxima ida à livraria, nem que seja para dar uma espiada. Um mimo, tudo no capricho, cada detalhe pensado a partir dos poemas da Orthof.

Beijocas
Rita

 
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