A lista


Falei que logo contaria tudo sobre algo que mencionei rapidamente nesse post e por isso volto ao assunto agora, mas o faço apenas para não ficar em dívida com vocês, que respeito muito. Então vou só clarear eventuais curiosidades (tá, Biddle?), mas me perdoem a brevidade na abordagem. É que o assunto ocupou tanto a minha cabeça nos últimos dias que não consigo evitar certo ranço e se vocês pudessem me ver agora talvez achassem graça da minha cara de nojinho. Se eu tivesse escrito este post na semana passada, ele soaria bem agressivo e certamente seria mais longo. [Hehehe, li este parágrafo agora, depois de terminar o post, e morri de rir: ficou enorme.] Meu intuito inicial em compartilhar a história aqui era meramente um desabafo, afinal este é meu blog e posso usá-lo como saco de pancadas, se quiser. Mas passada essa vontade, restou outra que considero mais louvável: fornecer uma pequena amostra, vinda de dentro da história, de um daqueles casos em que a imprensa mais atrapalha que informa e, de quebra, prejudica um monte de gente. Todo mundo tem meia dúzia de exemplos para ilustrar isso, mas o que apresento agora, infelizmente para mim, é o mais amargo de todos.

O que eu sei porque me contaram: o Ministério Público está investigando supostas irregularidades na folha de pagamento de funcionários e pensionistas do Estado da Paraíba. Para isso, solicitou ao órgão do governo responsável pela folha de pagamento da galera uma lista preliminar com nomes que passariam pelo crivo da tal investigação. O órgão em questão é a PBPREV. [Correção possível: parece que a iniciativa foi do Governo, que solicitou a investigação ao MP] Pois bem, na semana passada, uma revista de circulação no Estado publicou essa tal lista preliminar. Os primeiros rumores davam conta de que o próprio MP teria fornecido a lista aos jornalistas, o que foi posteriormente desmentido. Até onde sei, não está claro até agora como a lista vazou para a imprensa. O que importa: a lista nunca poderia vazar para a imprensa, porque ela não é resultado de investigação. Ela é uma lista de nomes que seriam averiguados na investigação e acho que todo mundo com meio neurônio entende a diferença. Tá. E eu com isso?

Capítulo um. Minha mãe era funcionária aposentada do Estado da Paraíba. Logo após sua morte, em dezembro do ano passado, uma amiga dela atendeu a um de seus pedidos e se dirigiu ao banco para comunicar o fato, retirar extratos bancários de sua conta corrente e poupança, para posterior saque pela família, e garantir que não haveria equívocos em ajustes futuros com a PBPREV ou com o próprio banco. A consequência imediata dessa atitude é o bloqueio da conta bancária que somente volta a se tornar disponível para a família após liberação pela Justiça, mediante Alvará Judicial. Nosso alvará ainda não saiu, então a conta segue bloqueada até hoje. Não há problema algum com isso, a cidade onde minha mãe morava tem apenas uma Juíza e sua mesa deve ter pilhas de processos, ninguém estava mesmo contando com nada.

Capítulo dois. Em março nossa família comunicou à PBPREV a morte de minha mãe. Só em março? Sim, só em março. Um parêntese importante: eu não resolvi absolutamente nada referente às pendências burocráticas relacionadas com a morte de minha mãe. Eu nem consegui comprar flores. Eu não tinha maturidade ou estrutura ou chame do que quiser para resolver nada. Então eu seria a última pessoa desse mundo a questionar tal atraso, porque enquanto várias pessoas de minha família se dividiam para cancelar isso e aquilo, eu chorava e olhava fotos. E, afinal de contas, nossa conta seguia bloqueada. Bom, como se deu a comunicação? Através de documento protocolizado junto à PBPREV, instruído com Certidão de Óbito (com a data da morte, obviamente) e "solicitação de devolução de valores" que tivessem caído na conta após a morte dela.

Capítulo três. É natural que, até saber da morte dela, a PBPREV tenha creditado em sua conta valores como se viva ela estivesse. É natural que após a comunicação da morte o estorno fosse realizado de pronto. Bom, não foi o que aconteceu. A PBPREV seguiu depositando dinheiro na conta bloqueada de minha mãe e o primeiro estorno (espero que os outros ocorram logo) só se deu no início deste mês de maio. As razões que levaram a PBPREV a não solicitar ao banco devolução da totalidade dos valores em março (ou solicitar a nós mesmos, sei lá como seria isso) são desconhecidas para mim. Ficamos assim com cara de lua esperando a PBPREV se mexer porque, afinal, nem que quiséssemos nos mover para providenciar qualquer movimentação com o dinheiro na conta, não poderíamos fazer nada (nada = devolver os valores ao órgão) já que a conta segue bloqueada.

Capítulo quatro, o clímax. Voltemos à tal revista que publicou a lista. Eu não li a revista, mas vi a notícia replicada em vários sites na internet e o tom era o seguinte, basicamente: veja a lista de mortos e fantasmas do Estado. Vou desenhar: publicaram uma lista longa de nomes de funcionários mortos cujas famílias estariam se beneficiando indevidamente do dinheiro do Estado. Mas era aquela lista preliminar. Uma lista que não era resultado de investigação, já que lá estava o nome de minha mãe (e aí sou levada a crer que é perfeitamente possível que haja ali outros nomes na mesma situação) e nossa família nunca sacou um centavo de dinheiro indevido nenhum, além de ter comunicado a morte dela e solicitado estorno dos valores porventura creditados em sua conta após seu falecimento. Mas isso não vende, sabe. Vende o barulho, então fizeram um bem grande. E aqui eu queria deixar o óbvio bem claro, que eu acho excelente que se façam investigações dessa natureza e desejo que as punições aos aproveitadores tenham o efeito de coibir ações futuras da mesma natureza. Mas tem outra coisa que eu também acho excelente, que é a tal seriedade na notícia. A irresponsabilidade de se publicar uma lista que contém nomes de pessoas cujas famílias jamais sacaram um centavo indevido de dinheiro oriundo seja lá de onde e rotulá-las de vilões é difícil de ser descrita. Qualquer investigação de cinco minutos no processo referente a minha mãe na PBPREV evidenciaria o absurdo de incluí-la em uma lista de "mortos e fantasmas do Estado". A lista publicada, minhas pessoas queridas, tem a data da morte dela. Estou desenhando direito? Tem a data da morte. Assim, ó: a PBPREV só conhece a data da morte dela porque a gente comunicou quando pediu para que os valores depositados depois de dezembro fossem retirados da conta (bloqueada) dela. Mas ela é uma morta do Estado, de acordo com jornalistas paraibanos. Que eu vou amar de paixão para o resto da vida, concordam?

Capítulo cinco, eu de perna pra cima. Caí para trás com a notícia, chorei, fiquei angustiada, indignada, revoltada, ganhei o Oscar de mimimi. Comentei em alguns sites, depois cansei e deixei pra lá. Minha família entrou em contato com a PBPREV e solicitou uma certidão atestando o equívoco (olha, que doce, estamos chamando de equívoco) cometido por eles. Estamos aguardando. Estamos aguardando o alvará judicial para poder ir ao banco e pedir, ei, moço do banco, faz um favor e devolve isso aqui que não deveria estar aqui. Ou a PBPREV se resolver direto com o banco, o que vier primeiro ou o que as regras mandarem.

Capítulo seis, o tempo dirá. A intenção óbvia e entrar com ação por danos morais. O tempo vai me ajudar a amadurecer a ideia e entender direito os mecanismos de um processo dessa natureza.

Capítulo sete, o que eu queria aqui. Aqui, no blog, queria dividir a história com quem se importa e usá-la como exemplo de jornalismo perigoso: a notícia rendeu muito por lá e ainda ocupa bastante espaço na mídia local. As pessoas comentam e correm a lista em busca de nomes e se deparam com nomes de famílias que podem ser inocentes como a nossa, como saber? As datas das mortes estão lá, a PBPREV sabe. Se sabe, por que segue com os depósitos? Como a lista vazou? A quem interessa isso? Tchan tchan tchan! Esse episódio ilustrou para mim aquilo que eu e Ulisses comentamos sempre: é preciso desconfiar das notícias. Ô, nem te conto.

***

(Se eu passar a entender alguma coisa relevante de forma diferente do que está descrito aqui, voltarei com as devidas correções.)

7 comentários:

Mari Biddle disse...

Rita, eu quis muito que fosse uma metáfora futebolística e é essa quizumba toda!

Sinto muito por vcs estarem passando por isso. Eu pediria indenização por danos morais, sim! Se tem uma coisa que tenho nojo eterno é a corrupção. Mas essa preguiça imensa de por no mesmo saco gente que agiu de boa fé + 'mais gente sem carater sem vergonha', me faz ficar com uma raiva danada. Uma raiva que talvez uma boa indenização e uma retratação faça esvanescer.


Um beijo!

Claudia Serey Guerrero disse...

absurdo mesmo! grrrr

Rita disse...

Obrigada, meninas. Tô aqui, esperando. :-/

bjs
Rita

Amanda disse...

Nossa, Rita, choquei. Eh muito ruim se ver no meio de uma injustiça dessas, né? Veja como funciona essa coisa de danos morais, sim! Essa galera so aprende quando doi no bolso. Da proxima vez vão pensar duas vezes antes de lançar injurias por ai. Beijo!

disse...

Rita, quando comentei essa historia com o meu marido, na hora ele falou: "é golpe". Golpe de gente da propria PBPREV, que esperam depois ter acesso ao dinheiro depositado ou tentar um emprestimo/consignação no nome da pessoa, sem que a familia perceba. Sera'?

Iara disse...

Rita,

Ando meio devagar nos comentários (e, ultimamente, até nas leituras), mas não podia deixar de passar aqui pra manifestar minha solidariedade. Leviandade com o nome alheio é algo muito, muito sério. Tô com o povo aí de que um processo por danos morais caberia, mas vai da sua disposição pra continuar se chateando com isso.

Bjo!

Rita disse...

Amanda, Dé, Iara,

obrigada pela solidariedade, queridas. Estou aguardando, por enquanto, né. Vamos ver como isso vai se resolver.

Beijos procês.

Rita

 
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