Lá na minha escola


Tem rolado um papo muito bom na lista de blogueiras feministas sobre métodos pedagógicos de educação infantil. Papo vai, papo vem, a conversa chegou em homeschooling (e até unschooling, que vi aqui), e a gente segue se perguntando o que fazer para oferecer aos filhos uma educação que vá além das decorebas voltadas aos vestibulares, sempre, claro, levando em conta a importância da convivência com o meio escolar na formação do caráter e da personalidade dos futuros cidadãos que criamos. E toda essa conversa me deixou aqui bem saudosa dos meus tempos de colégio. E mesmo que há muito eu tenha percebido falhas importantes nos métodos adotados pela minha antiga escola, não posso deixar de reconhecer o gigantesco papel que ela teve na minha vida - e nem estou mais falando de educação formal.

Meu prazer em ir à escola tinha relação direta com o clima meio confuso em casa. Meus pais tinham um casamento difícil e a escola era meu porto seguro longe dos climas pesados em dias de discussões mais acirradas. Mas não era só isso. Eu gostava do prédio do colégio, por exemplo, vejam vocês. Adorava aquela coisa enorme, um misto de escola e convento que já tinha sido colégio interno em décadas passadas, com seus jardins internos lindos, a biblioteca com estantes muito altas e mesas imensas, o assoalho cor de vinho. Adorava a sala de música com o piano velho que vivia sendo afinado, os pátios de recreio em vários níveis que sempre me davam a sensação de estar em um lugar infinito de tão grande: acabava a quadra, vinha o campo, terminava o campo, vinha outro pátio, terminava o pátio, chegávamos à horta, da horta se via a mata e o verde não tinha mesmo fim. Sem falar das alas proibidas aos alunos, restritas às irmãs que ainda habitam as seções-convento do prédio: nada nesse mundo poderia ser mais transgressor que se esgueirar com nossas saias azuis pelos jardins do convento e deles sair pelas passagens “secretas” que levavam à capela. Naquele tempo eu ainda rezava, mas ali dentro eu nem conseguia. Entrava e ficava admirando o silêncio, a limpeza (a limpeza, nunca vou me esquecer da limpeza daquele lugar), o altar tão cheio de simbologia confusa - e eu nem suspeitava o tamanho da confusão do mundo, apesar de achar que já sabia. E então abrir lentamente a pesada porta de madeira, espiar, sinalizar para a amiga que o caminho estava livre e voltar para o reino das salas de aula - grandes, iluminadas, com janelões que tocavam o teto e revelavam o verde sem fim da mata para além da horta. Ainda me espanto como eu conseguia prestar atenção às aulas. Mas revolucionário mesmo era convencer o chefe de disciplina (veja bem) a nos levar à torre dos morcegos. Meu colégio tinha uma torre, como nesse mundo eu poderia não gostar dali?

Mas nada me deixava mais feliz que o auditório e seu palco. Porque palco tem bastidores e minha cabeça tem muitos deles. Então imaginação pouca não servia, mas isso nunca foi problema. Em tempos de preparações para eventos (dia disso, dia daquilo), o que já era bom virava o céu e as horas de ensaios e preparativos pareciam voar na velocidade dos meus pensamentos mais apressados. Penso nas tardes de ensaios, nas horas silenciosas na biblioteca, nas aulas de música com a amiga prodígio que tocava Beethoven, na descoberta do mundo que sinalizava para mim de dentro daquelas paredes e penso que fui uma criança/adolescente muito sortuda.

Na sala de aula sobravam decorebas e aulas maçantes, tarefas diante das quais hoje eu me escandalizaria. Sempre havia três ou quatro professores com uma visão um pouco mais moderna em torno dos processos de aprendizagem, mas, via de regra, a coisa era mesmo muito quadrada e tradicional. Lembro de sublinhar trechos dos textos no livro de História, guiando o lápis com a régua, durante a aula inteira: eram os trechos que cairiam na prova. No que se tornava o caminho mais curto para acharmos História a disciplina mais chata do pedaço, fazíamos uma leitura automatizada, praticamente sem discussões críticas ou questionamentos de qualquer sorte. Ainda assim, lembro-me de passar horas folheando aquele livro com ilustrações de sarcófagos e reis amamentados por lobas e sei que nem tudo se perdia.

Lá na discussão da lista, falaram que o conteúdo aprendido pode mesmo nem ser o principal mérito de nossos anos escolares e isso faz muito sentido mesmo. Sempre que penso em meus anos de colégio, penso mais no aprendizado social a que tive acesso do que propriamente nos conteúdos estudados. A escola é um grande ensaio para a vida. Nem cheguei a ler todo o texto sobre unschooling que mencionei no início desse post, mas acho muito difícil que uma ideia assim me cative (apesar de acreditar que pode ser uma excelente saída para crianças envolvidas em determinados estilos de vida que as impeçam de frequentar a escola).

Olho para meus filhos todos os dias, com suas histórias envolvendo os coleguinhas e os professores, o episódio do recreio, o tom de voz usado por Fulana, a birra do Beltrano e sorrio por dentro. Penso no conteúdo curricular, sim. No entanto a escola oferece muito, muito mais que isso. E aí torço de verdade que eles tenham uma experiência semelhante à minha. Se der para ser com aulas de História bem interessantes, tanto melhor.

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Esse papo pode ir muito longe e outro dia volto a falar dos conteúdos curriculares. Hoje eu só queria dar vazão à nostalgia mesmo. :-)

16 comentários:

Caso me esqueçam disse...

ô, lembrei imediatamente de um colegio de freiras que estudei (o nossa senhora das neves). era isso: eu amava o predio! me sentia muito bem nos patios do colegio, adorava quando a gente escapava pra la (geralmente era proibido). a gente via as freirinhas passando, ai como eu gostava!

antes de camilo vir embora pra frança, fomos dar uma passada la. hoje em dia eh faculdade de medicina, muita coisa mudou. maior frescura pra entrar no colegio, a gente foi acompanhado por um cara durante toda a visita, mas eu nao deixei de me emocionar quando passei pelos corredores, quando revi as salas de aula que estudei. foi lindo! :)

Joana Faria disse...

Ah, que lindo. Amei ler isso.
Eu também sinto saudade das minhas escolas. Tive 2 marcantes: a escola de Salvador, que apesar de também ser um colégio de freiras, era o caos na Terra! Era uma coisa gigante, mais de 60 adolecentes por sala, um inferno pros professores, divertidíssimo pros alunos. Eu tinha crises de riso homéricas, daquelas que não param, que não adianta o professor fazer cara feia, não vai passar.
Depois a minha escola na Inglaterra, com o uniforme de saia, camisa e gravatinha (que eu não usava só pra teimar e ser meio rebelde). Essa era bem mais civilizada e bem organisada. Sem tanta distração, eu me refugiava nas aulas de arte. Tínhamos que recriar quadros de Van Gogh, Botticelli e Klimt. Eu ficava horas pintando. Ainda não sabia que era aquilo que eu ia querer fazer pra sempre.
Realmente, escola é muito mais do que a decoreba e passar nas provas (aliás, sempre fui péssima em provas).
Morro de saudade.

Cléa disse...

Rita,lendo seu blog fiz uma viagem ao passado.Gente aquele colégio era tudo de muito bom.Espero sinceramente que meus filhos sejam tão felizes e tenham muito o que lembrar desse tempo com eu.Abraço

Jaquee Ribeiro disse...

Aulas de história... eu tive sorte (quase) sempre pude contar com bons professores, mesmo que isso não tenha influenciado na opinião do restante dos alunos, e não é à toa que se tornou minha disciplina favorita. Mas minha escola nunca foi tão interessante quanto a tua.

Luciana Nepomuceno disse...

Eu estudei 11 anos na mesma escola e foram anos incríveis. Também era um colégio de freiras, elas moravam lá e uma vez meus pais demoraram tanto a mes buscar - é uma longa história - que eu fui jantar com elas: foi o máximo, amei. Eu curto muito minhas memórias do tempo de escola e ai! a biblioteca era maravilhosa.

Rita disse...

Oi, gente. Como os comentários que o blogger levou parecem ter sumido para sempre, vou reproduzi-los aqui, colando-os da minha caixa de e-mails. Se eles voltarem, apago as cópias. :-)

Bjs,
Rita

Anônimo disse...

caso.me.esqueçam:

ô, lembrei imediatamente de um colegio de freiras que estudei (o nossa senhora das neves). era isso: eu amava o predio! me sentia muito bem nos patios do colegio, adorava quando a gente escapava pra la (geralmente era proibido). a gente via as freirinhas passando, ai como eu gostava!

antes de camilo vir embora pra frança, fomos dar uma passada la. hoje em dia eh faculdade de medicina, muita coisa mudou. maior frescura pra entrar no colegio, a gente foi acompanhado por um cara durante toda a visita, mas eu nao deixei de me emocionar quando passei pelos corredores, quando revi as salas de aula que estudei. foi lindo! :)

(Luci do www.casomeesquecam.blogspot.com)

Anônimo disse...

Joana Faria:

Ah, que lindo. Amei ler isso.
Eu também sinto saudade das minhas escolas. Tive 2 marcantes: a escola de Salvador, que apesar de também ser um colégio de freiras, era o caos na Terra! Era uma coisa gigante, mais de 60 adolecentes por sala, um inferno pros professores, divertidíssimo pros alunos. Eu tinha crises de riso homéricas, daquelas que não param, que não adianta o professor fazer cara feia, não vai passar.
Depois a minha escola na Inglaterra, com o uniforme de saia, camisa e gravatinha (que eu não usava só pra teimar e ser meio rebelde). Essa era bem mais civilizada e bem organisada. Sem tanta distração, eu me refugiava nas aulas de arte. Tínhamos que recriar quadros de Van Gogh, Botticelli e Klimt. Eu ficava horas pintando. Ainda não sabia que era aquilo que eu ia querer fazer pra sempre.
Realmente, escola é muito mais do que a decoreba e passar nas provas (aliás, sempre fui péssima em provas).
Morro de saudade.

(Joana, do http://joanafaria.wordpress.com/)

Anônimo disse...

Cléa:

Rita,lendo seu blog fiz uma viagem ao passado.Gente aquele colégio era tudo de muito bom.Espero sinceramente que meus filhos sejam tão felizes e tenham muito o que lembrar desse tempo com eu.Abraço

(Clea, amiga das antigas)

Anônimo disse...

Luciana:

Eu estudei 11 anos na mesma escola e foram anos incríveis. Também era um colégio de freiras, elas moravam lá e uma vez meus pais demoraram tanto a mes buscar - é uma longa história - que eu fui jantar com elas: foi o máximo, amei. Eu curto muito minhas memórias do tempo de escola e ai! a biblioteca era maravilhosa.

(Luciana, do http://borboletasnosolhos.blogspot.com/)

Anônimo disse...

Jaquee Ribeiro:

Aulas de história... eu tive sorte (quase) sempre pude contar com bons professores, mesmo que isso não tenha influenciado na opinião do restante dos alunos, e não é à toa que se tornou minha disciplina favorita. Mas minha escola nunca foi tão interessante quanto a tua.

(Jaquee, do http://justseventeenyears.blogspot.com/)

Rita disse...

Oi, gente.

Como o blogger ousa apagar as memórias de vocês, né???

Eu tive anos muito felizes no meu colégio. Sabe uma coisa que eu amava? Barulho de chuva durante a aula, sou louca? Ah, eu adorava assistir aula com o mundo despencando lá fora e sempre que penso nisso bate certa tristezinha (olha a confusão) por causa das muitas crianças que frequentam escolas com péssima estrutura e interrompem as aulas quando chove, quando falta água, quando falta carteira... Porque eu sei que mesmo sendo alguém que sempre gostou de estudar, o fato de estar num ambiente bonito ajudava muito na relação com aquele mundo. E é aquilo, os métodos de ensino estavam longe do que considero bacana, mas, meu, como já falamos aqui, escola é mais que isso, ne?

Luci, já levei meus filhos pra brincar no parquinho da minha ex-escola! Nossa, adorei! Mas tá diferente agora: um dos pátios virou piscina e a antiga quadra das partidas de vôlei-pereba agora é coberta, ai que chique. :-)

Adorei os comentários de vocês!

Beijocas
Rita

Lílian disse...

DELICIA DE TEXTO, CUNHADA!

Lembrei de tanta coisa, dias tão bons... Acabei parando nos "saltimbancos": faltei uns dias, não ganhei papel nenhum. De tanto ver os ensaios decorei a peça todinha e substituía qualquer um que faltasse ao ensaio, mas não ganhei papel nenhum. É, a vida é assim... A gente ri, a gente chora, a gente segue, com ou sem AQUELE papel, né?
Bjus, saudades!

Love,
Li.

Angela disse...

Amei minhas escolas, todas! Otimas lembrancas, sentimento de que fiz de tudo muito! Aprendi muito tambem. Nao conseguiria educar meus filhos em casa, me falta competencia. Mas se nao faltasse, ainda assim mandaria para a escola. Alem do curriculo escolar, acho que tem muita coisa se desenvolvendo ao paralelo e preparando-os para a vida.
Ai se pudesse agorinha mesmo te emprestaria a minha professora de Historia do ginasio. Por onde andara, vou aqui procurar ela nessa internet. Beijocas

Rita disse...

Oi, Lilian

Uia, Saltimbancos. OS Saltimbancos? Uau. Beijocas!

Anginha, eu também não teria coragem de manter meus filhos longe da escola, por tudo que se falou aqui. Saudades! Ah, o Arthur adorou o dinossauromóvel! Thanks!

Beijocas
Rita

Lílian disse...

Sim, OS saltimbancos. Superprodução do colégio das Dorotéias, em Manaus. Vc não tem noção de como a garotada fez bonito!

Só não entendi o que esse post veio fazer aqui de novo: talvez me fazer lembrar mais uma vez dos saltimbancos. Tão bom...

Pena que não ganhei papel nenhum.
Bem, a vida É assim.

Lílian.

 
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