Devagar e em silêncio


Lembro-me bem de uma coisa que me saltou aos olhos quando comecei a praticar yoga em 2006: a ausência de espelhos nas salas. Achei bem coerente com uma prática que dizia voltar sua atenção ao equilíbrio de cada um, sem comparações com o desempenho alheio e sem manter o foco na aparência do nosso corpo. Passei a observar e, de fato, sempre que via alguma cena ou foto de centros de yoga, notava a ausência de espelhos, um grande contraste se pensarmos nas academias de ginástica, por exemplo. (Para mim, que tinha certa agonia diante de tanto narcisismo das academias, foi o primeiro deleite.)

Minha professora atual de yoga costuma dizer que yoga é intenção. Vale a tentativa, a consciência corporal (consciência das funções, do alinhamento, do equilíbrio, não da aparência) e a atenção voltada ao movimento e à respiração. Assim, a meta é tentar. Praticar yoga é tentar praticar. E eu gosto muito disso, dessa visão que reconhece as limitações individuais, o grau de intimidade com a prática, as diferentes "tendências" de cada corpo. Em uma sala de yoga com dez pessoas é possível termos dez níveis de evolução diferentes e, ainda assim, todos praticarem juntos as mesmas posturas, em total harmonia e com o mesmo grau de eficiência. Porque ninguém precisará alcançar onde o outro chegou ou imitar um posicionamento que simplesmente seu corpo (ainda) é incapaz de atingir: valerá a intenção devotada por cada participante, a concentração com que cada um tentará compor a postura e a forma consciente com que cada um estará respirando - com ritmo, som e em harmonia com os movimentos: inspira, sobe; exala, desce... E, sem mágica ou milagre, a evolução acontece, o corpo aprende e se expande.

Hoje Ulisses não pôde sair do trabalho na hora planejada e chegamos bem atrasados à nossa aula de yoga. A professora precisou adaptar o "cardápio" ao curto tempo de que dispúnhamos. Ainda assim, no final da aula, eu estava absolutamente satisfeita. A aula encolhida foi igualmente prazerosa porque cada dez minutos de yoga bem praticada valem a pena. Hoje vi como um tiquinho de prática no meu dia me acrescenta tanto, sem que para isso eu tenha feito qualquer contorção mirabolante. Apenas prestei atenção à minha respiração, à minha coluna, ao meu equilíbrio; alongueeei e isso é bom. Para os entusiastas da filosofia por trás da prática, uma sala de yoga é como um templo. Para mim, é um templo de mim mesma. Lá consigo fechar os olhos e enxergar o que a luz me impede de ver. Lá consigo conversar com meu corpo e ouvir dele que é bom estar aqui e poder me valer de meus braços e pernas para dançar lentamente ao som de minha respiração. Lá me sinto bailarina e os pensamentos se assentam à medida que experimento posturas que me mostram que sempre há o além - ou simplesmente sinto-me bem quando presto um pouco mais de atenção aos ombros.

A aula de hoje me acalmou, puxou-me para dentro. Andei difusa nos últimos dias, tanto barulho, tanta comilança (não que eu esteja reclamando, uai); mas hoje me ouvi: quero conversar comigo, fazer um pouco de silêncio e me permitir pensar sem pressa. Os planos são muitos, o mundo corre, mas eu vou devagar. Que a estrada é longa e é preciso respirar direito.

***

Tenho uma saudade que fica aqui, mesmo quando a sala está barulhenta. Ela fica sussurrando no meu coração: queria, gostaria, ah, se pudesse. O sussurro tem voz firme e aberta e um par de olhos carinhosos e de olhar vasto. Sinto assim, sozinha, independente da multidão. Amor é uma coisa que fica dentro. Tenho uma saudade que fica. Não passa. Não passa. Há dias, como hoje, em que quero parar e ouvi-la. E quase sinto seu abraço, aquele das comemorações. Há dias em que a sala borbulha e eu miro um cantinho lá perto da porta e a imagino ali. Meus olhos ficam quentes, minha alma fica tonta. Tenho uma saudade que ficou para sempre.

8 comentários:

Lílian disse...

Eu comecei a praticar yoga numa academia e, lá, a sala tinha espelho. Apenas um, mas tinha. O professor tinha formação exemplar na arte, mas a sala da academia se prestava a outras práticas, de forma que lá... Bem, havia um espelho.

Mas gostei tanto da visão que você descreve, da sala sem distração, sem comparação. Da quietude, do alongaaaaar - não tenho podido muitos movimentos, por causa da queda da cama, da protusão-quase-hérnia, parei com tudo. :-(((

Tenho saudades.

Agora, quanto à SUA imensa saudade, quero falar nada não. Tudo parece redundar. Tudo parece inútil. Certas saudades só devem ser sentidas,mesmo.

Beijo.

Rita disse...

Lilian,

a correria no trabalho tem me ajudado a me manter mais ausente de mim, sabe? Daí de vez em quando paro para me coçar e me lembro de tudo como se pensasse em um filme. Estranho. Enfim, obrigada pelo comentário que foi como um abraço bom.

Na torcida pelas melhoras para que você volte a se esticar. Com ou sem espelhos, mas com o olhar voltado para você mesma, onde mora a beleza, néam? :-D

Beijocas
Rita

Anônimo disse...

Oi Rita,
Q saudades da Estrada Anil.
(Eu adoro o frio pq até as boas leituras ficam melhores no frio...q delícia tremer enquanto te leio!)

Será q poderia falar mais desse yoga q pratica?! Tenho tanta vontade, mas da única vez q tentei me pareceu de uma soberba irremediável, uma busca espiritual q hierarquizava tanto, manja? (ex. vc fuma?! oh horror, horror! sua indgna dessa aula!)Larguei mão...

Qto a saudades, é um sempre mesmo.
(e gostei de te ler falando nela, sentindo ela...mais serena)

Beijo!

Juliana Paiva

Rita disse...

Oi, Juliana!

Olha, eu tive uma péssima impressão na primeira vez que procurei um centro de prática de yoga. Era swasthya yoga e essa linha é bem diferente da hatha, que é a que eu pratico. Fiz um post sobre isso. Passa lá, se você puder, e depois a gente conversa mais:

http://www.estradaanil.com/2011/01/yoga-forever.html

Nesse post falei justamente sobre o tal ar de superioridade que me afastou da swasthya de uma vez por todas. Na hatha, o papo é bem outro. No centro de swasthya que visitei só vi vaidade. Na hatha encontrei uma prática completa... bom, vai lá no post, depois a gente papeia. :-)

Beijo grande,
Rita

Borboletas nos Olhos disse...

Eu não faço yoga. Mas sinto saudade. Vale?

PS. tava justamente comentando com a Iara que passei um tempão sem espelho nem em casa, nem na bolsa, nadica.

Rita disse...

Lu, é engraçado isso em nossa cultura, ne. Tem espelho em todo lugar. No elevador, por exemplo. Será para dar a impressão de que o ambiente é maior? Ou para conferirmos o cabelo mesmo?

Beijocas

Lílian disse...

Para conferir o cabelo. E a roupa. E a maquiagem. E aquela ruga nova. DEFINITIVAMENTE...........

Melhor a beleza interior, mesmo. A sua, a minha, a de cada um e, claro, a do elevador da Harrods,que é sem espelho... kkkkk....

Mais beijoooo!

:-)

Anônimo disse...

Obrigada pela resposta, Rita...vou ler o post ;)

Juliana Paiva

 
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