Boca do Inferno



Meu primeiro contato com a escrita da cearense Ana Miranda veio com o livro infantil Mig, o Descobridor. Comprei para o Arthur que gostou da sonoridade das rimas, das brincadeiras com palavras semelhantes e das palavras impressas em letras grandes e coloridas que já conseguia ler. Outro dia, garimpando as prateleiras da livraria, deparei-me com outro livro da Ana, Boca do Inferno. Não tinha qualquer referência sobre o livro, mas a mistura de História e ficção me cutucou. E lá fui eu para o Brasil Colônia e sua era Barroca.


De imediato o livro me cativou pelas ricas descrições, como se Ana Miranda estivesse nos mandando notícias lá do passado e não apenas o descrevendo. À medida que avançamos na leitura, torna-se evidente que a extensa bibliografia que serviu de base para suas pesquisas na construção do livro não foi consultada à toa. O leitor realmente viaja no tempo e dá de cara com personagens históricos, como o poeta maldito Gregório de Matos e sua língua sem papas, ou o célebre Pe. Antônio Vieira, interagindo com os personagens fictícios do romance. O resultado é uma construção bem amarrada do que pode ter caracterizado parte de nosso período colonial e uma gama de personagens bem envolvente.

Conspiração, assassinatos, corrupção, conluios, inimigos políticos fazem parte da trama que busca retratar os meandros dos bastidores do poder (e fazer referência a episódios verídicos da época). Em Boca do Inferno interessa menos revelar quem está de fato envolvido no crime que ocorre no início da história que retratar as negociações obscuras e os jogos de interesse do governador, alcaides, secretários, desembargadores e quem mais fizesse parte das classes dominantes da cidade da Bahia. Resolver, ou não, um crime relacionava-se mais com questões de manutenção de poder que com busca por justiça.

E aí, como quase sempre acontece quando leio romances históricos, bate aquela felicidade por ter nascido mais pra cá na linha do tempo. Não me parecem nada aprazíveis aqueles tempos em que mulheres eram vistas como um mal necessário, a Inquisição tocava o terror e as vontades do Rei de Portugal definiam os destinos por aqui; livros eram artigos raros, a igreja parecia ter tanto poder quanto a coroa (na linha se correr o bicho pega, se ficar o bicho come), as decisões de Portugal chegavam por suas frotas após meses no mar, como numa ilustração da hierarquia mundial que se fortalecia e que deixou seu rastro até hoje. Sem falar que é meio deprimente ler sobre nossas riquezas sendo despachadas a preço de nada para Portugal e lá negociadas a preço de ouro, enquanto miséria e alienação religiosa reinavam por aqui. E escravos. Fui lendo e pensando que ali se fala do século XVII e que a abolição só viria séculos depois...

A figura polêmica de Gregório de Matos dá o tom de boa parte dos capítulos, com suas sátiras destinadas a fazer chacota de quem cruzasse seu caminho, sua carne fraca, seus romances eternos (#not) e suas paixões fulminantes (como a que o conecta à personagem fictícia Maria Berco). Achei fenomenal a maneira como Ana Miranda inseriu nomes históricos em sua trama e nos oferece um texto com ares de documentário, enquanto nos prende numa trama recheada de intrigas.

Segundo li, Boca do Inferno foi o primeiro romance de Ana Miranda, integra o rol dos cem maiores romances da língua portuguesa do século XX e ganhou o Prêmio Jabuti de 1990. Para quem se liga em História do Brasil, literatura barroca ou simplesmente em histórias bem escritas, fica a dica.

***


E da série “dívidas antigas”: venha cá, Fitz. ;-)

11 comentários:

Cecilia disse...

Oi, Rita
Também gostei bastante do Boca de Inferno. Não é espantoso como a Ana Miranda consegue reproduzir em detalhes um tempo passado?
Outro dela nessa linha é O Retrato do Rei. E eu que gosto muito de história gostei bastante de ler 1808 e 1822.
Beijos

Rita disse...

Oi, Cecilia. Eu fiquei espantada mesmo, hehehe. E pelo que andei lendo, ela se especializou nessa coisa de fazer romances históricos a partir da obra literária de alguém: o Romantismo de Gonçalves Dias, as sátiras de G. de Matos.. quer dizer, a mulher não é fraca, néam? :-) Ganhou meu respeito e admiração, total. E como escreve a danada, gente! Haja fôlego!

Beijocas
Rita

Borboletas nos Olhos disse...

Gosto bastante da cearense arretada (hehehe)e Boca do Inferno é daqueles que se lê em espantos e alegrias de tão bem escrito.

E o Grande Gatsby, oh, céus, como se escreve assim? É um delírio de letras, delícia...cê vai ler no original?

Juliana disse...

ô, rita, eu tenho aquele em que ela fala do Gonçalves Dias. Só não li ainda.

Cecilia disse...

Eu gostava muito das crônicas dela na Caros Amigos. Nas últimas que andei lendo (faz tempo), ela contava que tinha se mudado pra uma praia do Ceará, com o vento do mar entrando pelas janelas, e eu fiquei morrendo de vontade de ir lá tomar um café com ela. Será? Beijos!

Rita disse...

Lu, eu comprei uma tradução de Gatsby porque vi e não resisti. Mas já me arrependi. :-(
É cedo, no entanto. Falo disso no post que farei quando concluir a leitura, ok? Bj!

Ju, quando lê conta pra nós? :-D

Cecilia, devo ter lido crônicas dela lá também. Mas sinceramente não me lembro... eu lia muito a CA entre os anos 2000 e 2003, depois parei mais. Tola, eu. Ela escrevia lá nessa época?

Beijocas, vocês.

Rita

Caso me esqueçam disse...

ai, livros historicos :)

::

li o grande gatsby ha uns dois meses. nem sei o que comentar. nao gostei muito, mas acho que foi porque tinha acabado de ler mme bovary e ali, sim, me deixou de saco cheio. tudo o que eu queria fazer era acabar com esses livros! e a traducao (li em portugues - ate porque nao sou boa em outras linguas :)) era uma porcaria! :/

Joana Faria disse...

Ah, Gatsby! Quando terminei de ler imediatamente fiz um desenho da Daisy Buchanan. Fiquei com vontade de desenhar o livro inteiro, aliás...

Mas posso falar uma coisa? Gostei mais do Tender is the Night. É tão dark e sinistro, me absorveu por completo.

Madame Bovary eu estou lendo agora. Estou amando! Tive que interromper porque ganhei Istanbul do Orhan Pamuk (alguém já leu?) que eu não resisti e devorei. Tenho mania de interromper as leituras e voltar depois. Sempre faço isso (mas em minha defesa, sempre termino tudo também.) Já estou terminando Istanbul. Assim que acabar, volto ao Flaubert. :)

Anônimo disse...

Reproduzindo o que blogger apagou:

Comentário da Luci:

ai, livros historicos :)

::

li o grande gatsby ha uns dois meses. nem sei o que comentar. nao gostei muito, mas acho que foi porque tinha acabado de ler mme bovary e ali, sim, me deixou de saco cheio. tudo o que eu queria fazer era acabar com esses livros! e a traducao (li em portugues - ate porque nao sou boa em outras linguas :)) era uma porcaria! :/

Luci (http://casomeesquecam.blogspot.com/)

Anônimo disse...

Joana Faria deixou um novo comentário:

Ah, Gatsby! Quando terminei de ler imediatamente fiz um desenho da Daisy Buchanan. Fiquei com vontade de desenhar o livro inteiro, aliás...

Mas posso falar uma coisa? Gostei mais do Tender is the Night. É tão dark e sinistro, me absorveu por completo.

Madame Bovary eu estou lendo agora. Estou amando! Tive que interromper porque ganhei Istanbul do Orhan Pamuk (alguém já leu?) que eu não resisti e devorei. Tenho mania de interromper as leituras e voltar depois. Sempre faço isso (mas em minha defesa, sempre termino tudo também.) Já estou terminando Istanbul. Assim que acabar, volto ao Flaubert. :)

(http://joanafaria.wordpress.com/)

Rita disse...

Luciana, respondendo (de novo, né blogger):

Estou lendo uma tradução que estou achando meio esquisita. Oremos.

Juliana, lê e conta se é bom? :-)

Luci, não estou muito satisfeita com a tradução que estou lendo também... comento quando acabar a leitura, ok?

Joana, esse é meu primeiro livro do Fitzgerald e, olha, já me arrependi de não ter comprado o original. Porque essa tradução tá me parecendo meio esquisita. Mas vamos ver, ainda estou no comecinho, a semana foi punk. Espero avançar bem na leitua no final de semana e aí troco ideias contigo. Beijo!

Valeu, meninas.

Rita

 
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