There is a light that never goes out

  

Então o príncipe vai casar and I couldn't care less. Todo mundo falando da realeza inglesa e por mim tudo bem porque vejo pouca TV, tudo certo. Ainda assim ontem vi um tiquinho e lá estava ela, linda, elegante, absoluta: Londres. Não sei como falar sobre Londres sem parecer piegas ou deslocada, algo com ares de deslumbre terceiromundista ou coisa que o valha. Nunca fiquei na cidade por tempo suficiente para sentir seus reveses e se precisei lidar com algum grau de arrogância, sinto que o fiz com aquele conforto que o olhar minimamente crítico nos traz e que nos permite sorrir com paciência.

Meus anos de cursinho de inglês tinham aquele tempero de "preparação", eu estudava para viajar. Também cultivava uma profissão e me alegrava com os novos horizontes, mas viajar era o bicho, era o que me excitava e me fazia olhar pra frente, era o que me dava coceira: outras culturas, outro jeito de ver o mundo, gente falando um idioma que ainda hoje me soa como música, como poesia. Atualmente percebo a força das relações culturais e de poder que me faziam parecer mais óbvio visitar a Inglaterra antes de revirar a minha América do Sul, mas gosto de pensar que a vida é longa e temos planos de, a partir de 2012, preencher certas lacunas, digamos, latinas. Também é verdade que a música me puxava para aquele país de Cure & cia. Seja como for, meu imaginário sempre namorou as ruas de Londres e a culpa pode ser tanto de Agatha Christie, da voz do Mark Knopfler ou do livro de inglês da quinta série, não importa muito, não mais. Porque depois de ter passado meio ano lá, de ter voltado depois e renovado a paixonite, tudo agora tem certo sabor de melancolia e memórias de uma cidade que funciona.

Eu moraria em Londres e lá seria feliz porque gosto da dinâmica da cidade ou do pouco que pude perceber dela. Tanto há treze anos, como no ano passado, senti-me confortável, ativa, grande e pequena. A sensação de que tudo cabe no mesmo lugar, que inúmeras culturas repartem cada metro quadrado, que cada um dos muitos idiomas possíveis será ouvido em algum momento do dia faziam com que me sentisse maior, mais aberta, mais pensante. Ao mesmo tempo, a grandiosidade de sua arquitetura e as dimensões deliciosamente espichadas de suas ruas e parques (adoráveis) me tornavam pequenina e constantemente encantada, no melhor dos sentidos. Eu gosto de estar lá. Mas o que mais gosto é que esse é plural. Então "minha" Londres, cof, cof, não é a do príncipe que vai casar num ritual que não me diz nada*, mas, e eis onde esse post quer chegar, está bem mais para a Londres cantada pelo deprimido mais delicinha ever, meu adorável Morrissey, com ou sem a banda mais indispensável de qualquer Londres, os meninos dos Smiths.

Esses devaneios me chegaram hoje no carro, enquanto Hang The DJ embalava minha tarde. Sempre que ouço Morrissey e suas incuráveis lamentações, vejo de novo alguma rua de Fulham ou alguma esquina meio feiosa em um subúrbio mais afastado, tipo um que precisei visitar certa vez para recuperar a bolsa esquecida no taxi. Smiths, para mim, cheiram mais a Londres que aos anos 80, então meu deslocamento com eles é no espaço-tempo de minha cabeça saudosa. Talvez se eu tivesse ficado lá mais tempo, talvez se estivesse torta de saudades do Brasil, estivesse aqui xingando o metrô lotado nos horários de pico ou já estivesse contaminada pela mania de falar mal do clima da cidade - que, para mim, sempre se mostrou verde e azul, não cinza. Mas essa não sou eu porque comigo nunca foi assim. Comigo foi só beleza e descoberta, com ou sem dinheiro, com ou sem tomate no café da manhã. Comigo é Morrissey e sua voz absoluta enchendo minha cabeça e meu coração com aquela coisa maluca que a música faz com a gente.


"Take me out tonightBecause I want to see people
And I want to see life
Driving in your car
Oh please don't drop me home
Because it's not my home, it's their home
And I'm welcome no more


 And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well the pleasure, the privilege is mine"


Costumo dizer pro Ulisses que morro de achar graça dos dramões do Morrissey - ninguém consegue ser mais convincente que ele falando exageros chiliquentos, ask me why and i'll die, hahahahahaha! Ninguém consegue, como ele, ser exagerado e performático, afetado e melodramático e, ao mesmo tempo, cantar com a voz mais doce aquela frase que se parece tanto com nossas dores mais comuns, I was looking for a job and then I found a job, and heaven knows I'm miserable now. Oh my dear sweet lord, how much I absolutely adore him. O que pode ser mais universal que o sentimento expresso em how I dearly wish I was not here? Quem nunca se sentiu assim, por um segundo que fosse?

Ontem li que ele escreveu, e está prestes a lançar, sua autobiografia, mas não sabe se alguém terá saco para ler cerca de seiscentas páginas, oh, como ele sofre. Eu leio, my dear, juro que leio. :-)
____________________

*E aí ontem estava eu lá olhando com preguiça para a TV, pescando cenas da deslumbrante Westminster Abbey, enquanto eles falavam que noiva isso e aquilo, e eis que alguém diz, como quem fala a verdade mais óbvia, que muita coisa mudou nos últimos tempos, mas toda mulher continua sonhando em entrar na igreja com seu vestido branco. Hehehe. #not. Achei graça.

13 comentários:

Bia, Desperate Housewife disse...

Eu, qd adolescente, sonhava em ir pra Londres por causa do Smiths e do DuranDuran =oP
Sabe q sinto o mesmo em relação ao Rio de Janeiro; qdo lá vivia de reclamar do calor (e com razão), da desorganização etc, mas, apesar de viver numa cidade ok, ela é OK; ñ esplêndida, entende...
Adorei esse post, adoro o exagero do Morrisey.
Bjo.

Borboletas nos Olhos disse...

Eu não sonho muito Londres não. Minha imaginária Inglaterra é de campos, de chalés ou vastas mansões (você bem pode suspeitar porquê). Minha cidade assim, íntima e próxima feito espelho, é a barulhenta e velha Roma, sei lá de onde vem esse amor.

Se for mandar notícias pro Morrissey pode dizer que eu leio também, tá? amo biografias e eu ainda compro livros pelo número de páginas, quanto mais melhor.

E eu não casei de branco...foi de um lindo amarelo reaproveitado do vestido de formatura, ahahah. Hoje não casaria, mas se fosse assumiria meu vermelho ;-)

Ah, i'm back!

Vivien Morgato : disse...

Londres deve mesmo ser múltipla e o dia que eu estiver lá, quero andar ouvindo Smiths..rsrsrs..
Beijos.

Liliane disse...

Rita, sua linda,
A monarquia ficaria linda num museu
I couldn't care less about them...
E Londres é para mim também uma lembrança ensolarada! Passei por lá apenas 4 dias de verão cheios de sol.E fui atraída para lá pelas canções dele e pelas brumas de Avalon também, tenho que confessar...
Tanto drama nessa criatura tanta tristeza. A melancolia de Morrissey me encanta e hipnotiza. Me lembro a primeira vez que escutei essa musica no rádio em 1986 e me apaixonei perdidamente por ele até hoje!
beijos
Li

http://youtu.be/Ke1-MTDBAro

Angela disse...

Espero que um dia va a Londres, e se for, vou lembrar de voce o tempo todo!

As vezes acho que muitas vezes nao importa aonde moramos, sempre temos razoes para nos deslumbrarmos e para sentirmos saudades de onde viemos. Se moramos a vida toda na mesma cidade, sentimos saudades dos lugares distantes aos quais nunca fomos. Se mudamos radicalmente (ham-haaaam) nos deliciamos com a diferenca mas nunca deixamos de olhar para tras.

O Morrissey exagerado eh uma delicia, sempre me vem a memoria de mim mesma ouvindo Bigmouth Strikes Again na fita (cassete!). Nao eh a melhor das letras por sinal, mas na epoca eu so entendia o refrao, e nem sabia se era sweetness our witness oh-oh-oh-ha-ha. Ha muito nao escuto, talvez conserte isso nesse domingo de Pascoa.

Igreja com o vestido branco... tres palavras: Ai Ai Ai!

Glória Maria Vieira disse...

Eu me sinto como você já se sentiu, Rita. Estudo para viajar e me encher de outras culturas, de outras pessoas. Eu espero que eu chegue lá como você, sabe?!

Perdão pela ausência nos coments. Ando meio desconecta da vida se assim posso dizer...

beijo enorme, sua linda!
Lembrei de você esses dias...

Glória Maria Vieira disse...

E ah: Morrissey nunca ouvi falar. Mas procurarei ouvi-lo e volto pra dizer o que achei, combinado?!:)

Eu, ainda, tenho essa pretensão de me casar com tudo que- ao ver do véu- tenho direito. AUHSUAHSUAHS Coisa de menina, né?! Pois é, Rita, eu acho que sou... :~

Rita disse...

Oi, Bia. Só para você saber, toda vez que ouço Nowhere Fast agora me lembro de você, hahaha!

Lu, Roma também não é fraca, né, vamos combinar. Uns buracos aqui e ali, mas eu bem que gosto, hehehe. Bj!

Vivien, vai, querida! Recomendo!

Liliane, Theres a light that never goes out faz parte da minha história com Ulisses... o/

Anginha, Morrissey é uma cosinha de outro mundo. Sabe que ele me lembra da época de CG, também? É que foi lá, bem naquela época, que me apaixonei pra valer pelos Smiths. Meio tarde, né, mas ainda bem que não foi nunca. :-)

Glorinha, querida, não tenho nada contra casamentos na igreja com o aparato que for, se isso faz sentido para os noivos. Há pouco tempo fui a um lindo. O que achei o ó foi o comentário da mulher no programa colocando todas as mulheres no mesmo barco, porque, ne, vamos combinar que hoje milhões e milhões de mulheres não dão mais a mínima para um ritual que, religião à parte, é bem machista (sorry!), com o pai "entregando" a filha aos cuidados do marido, hehehe. Enfim, esquenta, não. Não faz sentido pra mim, mas sou supertranquila com quem pensa diferente. :-) Beijos!
Rita

Gloria disse...

Concordo com você, sabe?! A entrada da mulher com o pai do lado sendo entregue a outro homem como se fosse uma espécie de mercadoria, de transição de domínio é sim machista. Tanto que, apesar de querer casar com o tal "tudo que tenho direito" e etc, etc, etc, eu quero entrar com meu avô, mas por uma questão de amor, o que, ao ver de todo mundo que não saiba da minha posição, será mais um segmento tradicional seguido... NÉ?!:~

Caso me esqueçam disse...

apesar de eu ser essa pessoa dramatica, nao suporto gente chorona, mas fui apresentada à morrissey por alguem que eu, ai ai ai, amei muito, daih que eu super simpatizo com essa dor e esse sofrimento e esse tom anos 80 que sempre me vai ser meio... como dizer... decadente? triste? sei la. eh daquelas tristezas boas!

Joana Faria disse...

Ah... London...

Fui levada pra lá à força, raptada pelos meus pais, ainda pequena. Odiei durante os 3 primeiros meses. Não falava inglês e chorava escondida no banheiro da escola.
Mas depois aconteceu uma coisa engraçada: eu sonhei em inglês e a partir desse dia, Londres aconteceu pra mim. Passei 10 anos lá.

Meu irmão brinca, dizendo que Londres me salvou. Que se a gente não tivesse ido pra lá, hoje em dia eu ia gostar de pagode. rs. Eu digo que não, impossível. Morissey, Robert Smith e Mr. Bowie já preenchem muito o meu coração. Não tem espaço pra mais nada. Só Londres mesmo.

Rita disse...

Glorinha, todo o aparato faz sentido se faz sentido pra você - afinal é do seu casamento que estaríamos falando, certo? Bj!

Luci, eu também adora a decadência anos 80; sei que é um troço emocional mesmo, as lembranças da adolescência e tal. Mas, putz, Morrissey é fatal. Bj.

Joana, aaaahhhh, Robert Smith ainda vai ter post nesse blog, pode esperar. :-D

Beijocas,
Rita

Thially Botelho disse...

Menina que texto incrível, uma das melhores dissertações que eu já vi e ao contrário de você não sou tão bons com textos assim,enfim eu queria através deste lhe dizer o quanto eu me identifiquei com esse texto e lhe dizer que eu fiquei 30 minutos do meu tempo lendo essa preciosa dissertação.Eu sonho ir pra londres e amo the smiths, se um dia você ver essa mensagem, queria muito que me procurasse em uma desses meios de comunicação criado pela mídia, sobretudo o "skype" e o "facebook" meu nome é Thially Botelho, muito obrigado!

 
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