Rascunhos



Fui uma menina de diários, daqueles com cadeadinhos prateados e capas plastificadas onde se lia em letras de fontes rebuscadas Meu Querido Diário. Tive grandes e pequenos, houve os tempos de notas rápidas e os de longas confissões secretíssimas. Gostava de registrar para lembrar um dia e nada nesse mundo me apavorava mais que a possibilidade de minha mãe ter acesso àquelas páginas tão preciosas sem qualquer importância. Não que eu tivesse algum segredo capaz de chocá-la em potencial, mas a vergonha que me tomava cada vez que cogitava minhas letras lidas por outros olhos que não os meus... horror. Durante muito tempo os guardei em caixas dentro de caixas dentro de caixas em fundos de gaveta, protegendo meus pequenos segredos pelo tempo que eles importassem para mim, unicamente para mim. Anos, décadas depois, meus confidentes de páginas borradas e caligrafia infantil foram esquecidos no escuro daquelas mesmas caixas. Minha mãe certamente os leu todos e quase posso ouvir suas risadas. Ela guardou alguns deles, que encontrei entre objetos e papéis antigos acondicionados em velhos armários da casa onde cresci, logo após sua morte, em dezembro passado. Não valiam mais que alguns risos tristes.

Não lamento por não tê-los mais hoje em dia, eles que eram tantos. Porque o principal guardei comigo e não há chave capaz de abrir caminho a qualquer bisbilhotice além daquela que eu mesma displicentemente permitir. Trago comigo o mesmo prazer quase escondido (deve ser ilegal) de quando, à luz débil do meu abajur laranja, manuseava a caneta colorida e marcava no papel os desgostos e as alegrias dos meus dias previsíveis: trago comigo o prazer de olhar nos olhos das palavras e tentar enxergá-las, trago comigo o mesmo gosto pelo jogo de gato e rato a que chamam escrita. Leio e meu mundo cresce, escrevo e minha alma se forma. Eu queria usar a palavra "clandestino", mas Clarice o fez de forma tão precisa que eu não ousaria tamanho pecado. Mas mora aí, no que é oculto, turvo e suspeito aquilo que me põe em contato com meus mundos possíveis. Rascunhos; sou feliz com rascunhos.

7 comentários:

Tina Lopes disse...

Eu tive um diário com chave mas minha irmã bisbilhoteira o lia escondido, pois o cadeado era uma piada; passei a inventar histórias nele, para que ela achasse minha vida mais interessante do que era. Aos 15 ganhei de aniversário uma máquina de escrever Olivetti Lettera verde. Passava as tardes batucando-a, sobre meu colo, trancada no meu quarto. Não tenho a menor ideia do que escrevia, nem gostaria de rever nada agora. Rascunhos. ;)

Juliana disse...

Meus diários eram indisciplinados, como tudo na minha vida. Devo ter escrito umas dez paginas neles ao longo de toda vida. Prometia que seria uma " diarista" profícua, mas a preguiça sempre era maior e mais foerte que eu ,pra variar.

Mas falando sério, me arrepiei. Texto lindo, tb pra variar.
beijos



Mas falano sério

Borboletas nos Olhos disse...

Texto lindo, como disse a fina Ju. Eu não tive diários, lia muito, escrevia pouco. Lá pelos 18 anos tinha uma agenda que coletava citações, isso é tudo que consigo lembrar...chuiff, deu vontade de ter segredos em letrinhas miúdas.

Mari Biddle disse...

Eu tive diários.

Já depois dos filhos criados, minha mãe voltou a escrever diários como parte da terapia.

Meus diários tinham de flores secas-passadas a ferro, a papel de bombom.No final do ano nenhum fechava. Eu escrevia em codigos coisas mais sérias.

=D

Caso me esqueçam disse...

ganhei meu primeiro diario da minha melhor amiga. na capa, tinha um ursinho segurando uma cartinha rosa onde havia um coracao. as paginas eram rosas... e eu escrevia sobretudo o que eu tinha comido naquele dia hahaha anos depois mantive por dois ou tres anos uns diarios. alguns eram codificados, eu e essa minha melhor amiga criamos um tipo de alfabeto (que com certeza podia ser desvendado muito facilmente, mas enfim...). dai surgiram os blogs. devo ter tido uns seis. hoje mantenho dois. e sei que isso tudo veio por causa do tal diario do ursinho. quero estimular meus filhos a escrever. ler eh importante, eh fundamental, mas escrever liberta.

Rita disse...

Tina, pois eu adoraria saber o que você tanto datilografava, viu...

Ju, obrigada, querida. Beijinho.

Lu, deve ser por isso que hoje você 980 blogs!

Mari, ai que vontade de ler os seus!

Luci, como assim DOIS blogs? Qual é o outro, senhor?? E concordo: escrever liberta. É por aí. Muito, muito por aí.

Beijões!

Rita

Vivien Morgato : disse...

Tinha um diáro e minha cadela comeu, rasgou e destruiu.;0)
Minha letrinha de infância ficou rolando pela casa.

 
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