O mundo na ponta dos dedos



Eu ainda me lembro do dia em que minha mãe comprou nosso primeiro telefone. Era vermelho, com disco e um fio preto que insistia em se enroscar todo. Na parte da frente, havia um pequeno espaço destinado ao número que minha mãe prontamente escreveu com caneta bic e sua caligrafia inconfundível em um pequeno pedaço de papel cartonado e colocou ali. Foi um evento. O telefone ganhou uma mesinha própria, com cadeira de palhinha para que pudéssemos conversar confortavelmente - ainda que rapidamente - e fico pensando nos designers premiados que inventaram o troço.

Eu fiquei em êxtase. Um telefone. Receberíamos telefonemas, falaríamos com outras pessoas que não estavam ali e a minha casa seria como a casa das amigas que já tinham a coisa. Uma ascensão social, praticamente. Eu gostava de limpá-lo muito bem limpo para que brilhasse ainda mais e parecesse sempre novinho. E quando ele tocava, ah, quanta euforia. Foi por semanas o melhor brinquedo da casa. Certa manhã minha mãe me disse que ligaria dali a algumas horas para me dizer tal coisa e passei a manhã rondando a tal mesinha: estava "esperando um telefonema". A internet só revolucionaria nossas vidas muitos anos depois e o telefone fixo (bem fixo, um modelo sem fio custava mais caro) reinou durante muito tempo, ao lado do videocassete, como o bonzão do pedaço. Eu tinha um telefone fixo e isso bastava para que eu fosse considerada uma pessoa conectada.

***

Hoje meus filhos se divertiram um monte com o Google Earth. Arthur queria encontrar nossa casa e a Amanda ria horrores com a Terra que girava com um toque na tela. "Passeamos" por ruas de Paris e sei lá mais por onde e logo tirávamos o zoom para que a Amanda fizesse o que ela faz melhor desde que nasceu: girar o mundo. Depois fui para a cozinha arrumar a mesa e fiquei me lembrando de mim, magricela e descabelada esperando um telefonema, sentada na cadeirinha de palha da mesinha "moderna". Mais ou menos 3 décadas me separam daquela manhã e hoje vejo meus filhos girando o planeta com a ponta dos dedos.

Deve ser isso que chamam de vidão.

10 comentários:

Angela disse...

Menina nem me fala, aonde esse mundo vai parar? :) Ha uns meses atras peguei o celular de pete e la estava o safari aberto na pagina do google earth com o nome "maxwell" na caixinha de busca... Antes de ontem fomos ao velorio da tia de Pete, e como ele ainda nao esta pronto a responder as mil perguntas que seguiriam ao evento (eu estou), resolveu deixar as criancas distraidas no fundo da sala. Estava Max, a prima Maddy da mesma idade, a prima Tori de dez anos e Julia. Cada um com um iPhone ou iPod Touch, proprios ou emprestados, entretidos e brincando como se fossem mestres... Inclusive Julia! tem quem aguente uma coisa dessas?

Angela disse...

correcao: google earth nao, google google.

Rogério disse...

Bela coincidência: ontem nos divertimos aqui em casa com o Google Earth, e passeamos por Paris. Só que não foi à toa, porque decidimos passar uns oito dias por lá, a partir de 19 de maio. Os franceses têm a má fama de não aceitar outro idioma que não o seu, mas vão ter que engolir meu inglês ou espanhol, já que meu francês se limita a 'je ne parlez pas français'. Não dá pra passar fome por conta da frescura alheia, né? O livro autografado da cunhada já está comigo. Amanhã vou tentar dar uma fugida à agência do correio. Um grande abraço.

Borboletas nos Olhos disse...

Eu tenho uma foto numa mesinha com cadeira de palhinha que suspeito ser muito parecida (senão igual) à sua. Eu não lembro do dia que ele - telefone - chegou, minhas memórias infantis são escassas e mais ou menos restritas ao batizado de uma bineca em que me tranquei no quarto porque o paquera foi convidado. Enfim, digressões á parte, eu acho lindo isso do mundo na palma da mão se dá vontade de ir lá explorá-lo e não de ficar acomodado a t~e-lo quase real tão perto. Enfim, a Amanda é fofa, se eu encontrar uma bola de ftebol estampada de mundo já é dela. Quem sabe não é de um belo e direcionado chute que ele tá precisando pra entrar nos eixos?
;-)

Amanda disse...

Que post LINDO! Repeti ele inteiro pro Aurelien. Eh incrivel mesmo, né?, como a tecnologia avançou nos ultimos anos... Imagina como estaremos daqui ha 50 anos.

Também lembro do primeiro telefone (não da chegada dele), ele era bege e a gente tinha que enfiar o dedo no buraquinho e girar. :)

Lembro quando compramos um video-cassete, foi na casa de alguém que tinha acabado de chegar do paraguai, coisa muito fina.

Lembro da minha televisão com 13 botões de canais e bom-bril na antena. Alias, outro dia fui desenhar uma TV pras crianças que tomo conta e elas perguntaram "o que é isso?". Não reconheceram a antena e os botões, pode?

Rita disse...

Não, Anginha, ninguém aguenta. Morro de curiosidade para ver como vai ser o futuro dessa galerinha. Meu, a gente só usou internet na faculda, não foi??

Rogério, ei, que coisa boa. Diquinhas: a Tina, do blog Pergunte ao Pixel, visitou Paris recentemente e fez posts ótimos. O link tá aí na blogroll. Eia, que legal!

Lu, você sabe que comigo funciona assim: quanto mais vejo, mais quero ir lá conferir. Ou você não ficou com vontade de dar um pulinho no Takjiquistão só por causa das fotos da Joana? Hein? ;-)Adorei a imagem da Amanda chutando o mundo-bola. Só não garanto o alvo...

Amanda, que bom que gostou. :-) MORRI de rir com a história da TV. hahahahaha Hoje o desenho é mais simples, dear, é só fazer um retângulo. :-O

Beijocas,
Rita

Rogério disse...

Obrigado às duas: a você pela dica, e à Tina por praticamente me ter colocado no centro da cidade. Você acha que é programa de indio visitar os túmulos de Oscar Wilde e Jim Morrison?

Rita disse...

Ih, Rogério, você está perguntando à pessoa errada. Quando visitei a Westminster Abbey fiquei emocionadíssima visitando os túmulos de poetas e escritores, de gente como Newton e Darwin. E amo Wilde, então vou anotar a dica e, quando der, vou lá também. :-)

Abçs
Rita

Caso me esqueçam disse...

adorei o post! hahahaha nao eh foda? eu me sinto velha quando me dou conta dessas evolucoes. quer dizer, mudanças. prefiro chamar assim :)

imagina minha vida aqui se eu nao tivesse internet? minha nossa! e olha que eu nao falo com meus amigos sempre, alias, eu nunca falo com meus amigos por skype e etc. no maximo, um TT. mas eu posso. eu posso ouvir a voz da pessoa amada que ficou no brasil na hora em que eu quiser. posso ver a rua dela ao vivo! eh incrivel :D

Rita disse...

Luci

hoje a gente viu o gostoso que essa tal de internet pode ser. Seu comentário foi um presságio, hahaha!

Beijão!
Rita

 
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