Manchas da melancolia


Cor da pele.

Em algum dia do ano de 2001, senti uma forte pontada no fundo do estômago que se repetiria nos dias seguintes, em crescente intensidade. As dores compunham o ponto alto de um quadro que também incluía apetite perto de zero e uma consequente magreza de gerar comentários preocupados e/ou maldosos, dependendo do grau de amizade. Cerca de quatro ou cinco dias depois do início das dores, eu já estava tomando um medicamento para manter minha suposta úlcera sob controle, até que o final de semana passasse e eu pudesse ser examinada por um bom gastroenterologista. Eu não tinha dúvidas sobre a presença da úlcera - o que mais causaria tamanhas dores estomacais? - e me esforçava muito para não pensar nela. Mas os sobressaltos no meio da noite, quando eu acordava me contorcendo de dor, garantiam que eu não me esquecesse.

Quando o final de semana passou, fui submetida a uma endoscopia. Na terça-feira, vi-me sentada no consultório do tal gastro que, com o resultado do exame em mãos, observava-me em silêncio, provavelmente, pensava eu, procurando as melhores palavras para me dar a notícia.

- Pode falar, doutor.

Ele então pediu que eu confirmasse nome, idade, estado civil e algum outro detalhe qualquer para adiar a hora fatídica. Então, sem dizer uma palavra sobre úlceras, ácidos ou dietas, perguntou como andava a minha vida, assim, como quem reencontra um antigo colega da escola. Respondi o que me veio à cabeça, sei lá, que estava tudo normal, não fosse essa dor insuportável que estava acabando com minhas noites e me deixando bem preocupada e tal. Ele, então, perguntou algo como "e o que mais?". E aí veio com perguntas sobre eventuais fatos que tivessem me causado alguma tristeza mais espinhosa, por exemplo. Respondi dizendo que a única coisa que poderia se encaixar ali era a morte de meu pai, mas isso tinha passado há mais de seis meses. E então ele me passou o exame, dizendo que meu estômago era tão cor-de-rosa quanto o de um bebê e que aquelas manchas roxas que via em meus braços eram conhecidas pelos franceses, com sua mania de poetizar tudo, como "manchas da melancolia". Que meu problema era de fundo emocional, que eu procurasse um bom profissional da terapia, encarasse minhas dores de frente, as verdadeiras, e deixasse de lado essa pseudoúlcera porque ela nunca existiu. Cancelou imediatamente qualquer medicação e sugeriu, também, que eu buscasse ajuda de um bom nutricionista para recuperar algum peso e a autoestima.

Como num passe de mágica, a dor deixou de existir no exato segundo em que acreditei no que saía da boca daquele médico, no exato momento em que o peso que eu carregava comigo em meu estômago dissolveu-se como algodão doce na boca. Saí de lá estupefata com o alívio físico, examinando com outros olhos as manchas de pancadas que vinham surgindo misteriosamente pelo meu corpo, sem que doessem ou sem que eu me lembrasse onde tinha me esbarrado, hematomas sem pistas de suas origens.

Segui os passos sugeridos pelo gastro, recuperei sete quilos e, algum tempo depois, embarquei na terapia. As manchas sumiram logo e aprendi na pele e no estômago o poder da somatização.

Na noite do último sábado, algumas manchas vermelhas surgiram em meus braços, próximo à região das axilas. Queimavam e coçavam e não eram assim a pintura mais linda do mundo. Horas depois, acordei no meio da noite com os braços em fogo e só voltei a dormir depois de uma dose de anti-histamínico e a certeza de que minha glote não fecharia. No dia seguinte as manchas praticamente sumiram, mas retornaram com força total horas depois, a despeito da nova dose de remédio, e tomaram conta de todo meu corpo, com exceção do rosto. Cheguei a me perguntar se eu estava dentro de um filme de ficção, sei lá, um Distrito 9 da vida, prestes a me transformar em um ser alienígena casca grossa. Hoje fui a um alergista que diagnosticou a boa e velha urticária, sem causa aparente, que pode ir embora logo, voltar hoje ou amanhã, durar uma semana, um mês ou um ano, acrescentando que conexões entre urticárias e problemas emocionais somente vêm à tona por falta de melhor diagnóstico. Hum.

Acho que fico com os franceses. E um antialérgico por garantia.

6 comentários:

larissa disse...

Oh, meu corpo também somatiza tudo,ao invés de dores e manchas, eu tenho queda de cabelo! Quanto mais ansiosa eu fico, mais o cabelo cai, e quanto mais eu me preocupo com a queda de cabelo mais ela se agrava! Mas apesar de saber as causas do problema é muito difícil controlar.

Juliana disse...

Ah, ritinha, num é poético, mas fiquei muito identificada com o seu post.

Em 2001 (ó ,coincidência), eu achava que tava com a maior gastrite do mundo e os exames não diziam nada.
Passei toda a infância com urticárias. Depois elas voltaram no fim da adolescência. Passando de médico em médico, tomando mil vacinas, acabei encontrando um médico que me disse o mesmo que o seu. quando eu conseguisse botar pra fora tudo o que tava me fazendo mal, as urticárias sumiriam. Há anos que deixei de ser dependente de antialérgicos.=)

adorei " manchas de melancolia". nome mais que acertado.

disse...

"Manchas de melancolia"... gostei. Desde a época da faculdade tenho problemas de pele que "coincidentemente" acontecem em periodos de muita ansiedade. Elas desapareceram por muitos anos e voltaram com tudo depois que o Rafael nasceu.

Coçava, coçava e tinha noite que eu mal dormia de tanta coceira na mão, que ja' estava em carne viva. Fui em uns 3 médicos até que o ultimo perguntou se tinha algo errado na minha vida. Nada. Minha vida estava maravilhosa, um filho lindo, um marido perfeito. Mas sai' do consultorio e desabei. Chorei 1h sem parar. Sei la porque. Acho que era so' stress acumulado, a avalanche de novas emoçoes e o medo de enfrentar tudo isso sozinha, longe da familia. Medo de nao dar conta, medo de nao ser boa mãe. So' pode.

Desde entao melhorei, estou muito mais tranquila. Mas qdo fico nervosa, a coceira na mao volta na hora. Incrivel. E entao tento me acalmar, respiro fundo e espero passar.

Fabiana disse...

Que dó, Rita! (Sei que sua intenção não é esmolar piedade de ninguém, mas sou trabalhada na somatização e não consigo não me solidarizar.)

Melhoras, minha linda, melhoras.

Anônimo disse...

Rita,

Veio bem a calhar seu post. Eu ando com cólicas que não passam há dois meses. Como meu pai morreu de câncer de intestino há dois anos, fiquei logo angustiada. Então fiz mil e um exames, incluindo uma colonoscopia, e nada. Faço uma ultrassonografia esta semana ainda, mas o resto deu absolutamente normal.

Mas a cólica não passa. Nem lembro como era a vida sem cólica :(

Meu pai morreu há dois anos, minha cachorra (que era parte da família de verdade) morreu em janeiro, de um câncer feio que a consumiu em pouco tempo. Me fez reviver demais a época da doença do meu pai.

Enfim...já pensei muito que é psicológico. Infelizmente, me dar conta disso não ajuda a fazer a cólica passar :(

Beijos,
Aline (da Julia)

Rita disse...

Oi, Larissa. Não deixe seu cabelo lindo cair, viu? :-) O meu cai muito também, mas não deve ser somatização. Cai há anos, sempre! Eu devia andar com uma vassoura. bj.

Ai, Ju, nem me fale em antialérgicos (eu sei, fui quem começou): estou tomando, por cinco dias, e estou toda branquela de novo. Mas e o medo da coisa voltar assim que acabar o remédio... ui.

Dé, é coincidência demais, né não? Eu ando bem atarefada; e toda a história da perda muito recente, alguns planos que me deixam ansiosa, enfim. Normal ficar colorida e com coça-coça, ne. Bj.

Fabi, obrigada, querida. Beijinho procê.

Aline, esse é o ponto, viu, saber da coisa só não resolve. Ai, por que a gente é tão complicada, ne. Credo. Quero nascer mesa. #not

Beijões procês
Rita (com uma cor só, por enquanto)

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }