Gravidade zero e encontrei a Lygia


Há dias em que me assombro com o acúmulo. Penso no tanto de estrada percorrida, nas pessoas com quem já cruzei, no tanto que mudei, no muito que aprendi. Penso nos planos, nas mudanças de rota, nos desencontros, nas dores. Lembro de mim sentada no batente do portão, na calçada daquela rua fria, olhando a lua. O que eu queria, olhando a lua? Lembro-me exatamente de como me sentia, mas não sei o que esperava. Que a lua acenasse de volta? Que também me visse? Se via ou vê, bem que deve achar graça das idas e vindas, tão segura lá em cima. Ainda olho a lua, quase sempre no trânsito, e lhe pisco um olho para que ela saiba, just in case; ainda é muito bom, mesmo que o batente do portão pareça de outra vida. E aí olho para o que eu acho que seja a frente e tento imaginar só um pouquinho o tanto que ainda virá. Tenho planos, projetos e anseios tão gostosos que só de imaginar a delícia me vem água à boca, pareço uma menina deslumbrada olhando a lua.

Quero dançar pela vida, como quem patina no gelo. Quero ficar na ponta dos pés sobre as estradas. Quero ir, arriscar e saltar. Depois rodopiar e descer mais leve, como quem flutua sem gravidade. Porque nem todo acúmulo pesa e às vezes a vida canta lindamente.

***

Hoje concluí a leitura do meu primeiro livro da Lygia Fagundes Telles, As Horas Nuas. E isso é o bom dos livros: eles estão por aí, não importa o tamanho do nosso atraso, sempre há tempo e, mais dia, menos dia, a gente abre a capa certa e segue em frente. Custa-me crer que atravessei um curso de Letras inteirinho sem me apaixonar por ela. Agora quero tudo dela. Li uns contos na internet também, esses dias e a sede só aumentou. Li por aí que ela completará 88 anos dentro de poucos dias, aí fuço a rede e vejo que ela diz que só não morreu ainda por causa da literatura. Bom, penso toda animada, isso pode significar que ela ainda escreve loucamente, né? Tomara. Agora vou por aí procurar mais dela e torcer que a fonte demore muito para secar... opa! Não seca, né - artista não morre. Lygia não morre. Nunquinha.

As Horas Nuas fala de Rosa Ambrósio, atriz em crise, alcoólatra, e as personagens que rondam suas memórias e seu presente: o gato Raul (com suas lembranças de outras encarnações - impagável!), o marido, o amante, a filha, a analista... os amores do passado, o palco, a bebida. Os capítulos compõem uma costura colorida com pontos de vista diversos - a analista, o gato (a-do-ro), a própria Rosa. O tempo da história é o tempo dos dramas da protagonista: ainda que divague pelas impressões do gato ou da analista Ananta, tudo sempre retorna à órbita de Rosa Ambrósio com sua mente fervilhante de medos e fantasmas. A laje que sustenta Horas, no entanto, é, para mim, o jogo irresistível da linguagem: ironia, perspicácia, lirismo - são muitos os elementos que recheiam a narrativa, tornando-a riquíssima. A escrita de Lygia é uma cachoeira de construções de tirar o fôlego e é um pouco como ler Clarice, é preciso respirar fundo e meter a cara. Parece-me viciante. Quero mais.

11 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Inebriante, a escrita dela é inebriante. Que bom que você chegou, vício é bom partilhado \o/

Borboletas nos Olhos disse...

Ahahah, relendo ficou meio arrogante né? "que bom que você chegou", ahahah. Tem muita coisa que não li, não vi, não sei. Mas ela, ah, faz tempo que quero bem.

Juliana disse...

ah, rita, lygia era minha companhia nas tardes que eu passava ,teoricamente, estudando na biblioteca da facul. Devorava todos os contos, devorei Ciranda de Pedra e tenho que dar um jeito de me apaixonar por As Meninas.


ah, e sabe a música que veio na minha cabeça depois de ler o post?
"believe I can fly
I believe I can touch the sky
I think about it every night and day
Spread my wings and fly away
I believe I can soar
I see me running through that open door
I believe I can fly
I believe I can fly
I believe I can fly"

tô cantarolando aqui.

Só queria saber de onde desenterrei essa música! kkkk

Beijosss!

Amanda disse...

Eu li Ciranda de Pedra na escola e nao lembro de ter adorado nao... :/

Cecília Santos disse...

Ah, Rita, eu li esse livro, é lindo! E olho pras minhas cachorras, com seus olhares e gestos tão expressivos, e penso: será que vocês também, como o Raul,...?

Renata disse...

gosto muito dela. e a mim toca mais do que Clarice...

Priscila disse...

Fiquei muito curiosa para ler algo dessa autora.
Já estou tomando nota para providenciar algum de seus títulos na minha próxima remessa de livros.

Obrigada pela sugestiva.

larissa disse...

A Lygia é maravilhosa mesmo! Me lembrei de uma novela que teve na Globo: Ciranda de Pedra, inspirada livremente em sua obra. Mas não sei como foi que ela autorizou que fizessem uma coisa daquela, um livro tão lindo...

disse...

Meu primeiro foi As Meninas, obrigatorio para o vestibular. Amei. So' mais tarde li outros, como Ciranda de Pedra e Verão no Aquario (tenho esses ultimos em casa, posso te emprestar). Também fiquei com essa sensaçao de quero mais. Até procurei na biblioteca aqui da cidade mas nao encontro... preciso achar um tempinho para ir numa livraria portuguesa aqui em paris para tentar encontrar outros livros.

Beijos!

Tata disse...

Lygia é bom demais. Recomendo 'Ciranda de Pedra' pra continuar... :-)

Rita disse...

Luciana, sua arrogante, hahahahahaha!

Ju, também vou devorar os contos, você vai ver! Ou vai saber, sei lá. Bj.

Amanda, ah, foi? Procê ver, que coisa. Tem nada não, viu? Hehehehe.

Cecília, eu acho que meu cachorro foi jacaré na outra encarnação. :-)

Renata, Clarice conhece a alma da pessoa, é um troço meio estranho. Mas Lygia F. Telles tá me encantando também. Ai, amo tanto seu blog, viu?

Priscila, vai fundo! Os contos, pelo menos os poucos que andei lendo, são uma delícia também.

Larissa, quero ler Ciranda de Pedra também.

De, separa aí!

Tatá, pode deixar. E eu recomendo seu blog lindo. Beijo!

Valeu gente, obrigada por dividir os pitacos comigo.

Beijos,
Rita

 
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