Febre

(Prometo que responderei, assim que der, aos comentários nos últimos posts. Tá corrido. Beijos!)

***

Tá lá o Bono ajoeilhado no chão.

Nos anos 80 e 90, sempre que alguma banda de que eu gostava muito se apresentava no Brasil, eu suspirava, via pela TV e "avisava" à minha mãe que se, um dia, o U2 aterrissasse por aqui, eu iria ao show "de qualquer jeito". Minha mãe devia achar graça daquilo porque, né, ia como, dear, com que dinheiro, senhorita, etc. Bom, não precisamos descobrir a solução para o impasse porque o U2 nunca veio.

Veio muito tempo depois, em 2006, na turnê Vertigo, quando eu já morava em Florianópolis e ela, então, ligou pra mim: "bem que você falou que um dia ia ver esse povo, hein?". Dessa vez o impasse foi outro. O Arthur era um bebezão de sete ou oito meses e não contávamos com nenhuma estrutura do tipo "com quem deixar". A solução foi o revezamento: fui ao primeiro show e Ulisses foi ao segundo. Claro que curtimos, ambos fomos com amigos bons de farra e matamos a vontade de ver a banda. Mas, ah, que coisa.

Agora fomos juntos e foi tudo muito bom também. Eu queria escrever que foi fantástico, usar palavras como irretocável e maravilhoso, mas no final do post vocês vão saber o motivo por me contentar com "muito bom" - não me refiro ao show em si, mas a certa circunstância que interferiu muito na maneira como vou me lembrar dele. Mas há outra palavra que posso usar: inesquecível.

Por partes, então, o show primeiro. Pra falar o mais óbvio, quem vai a um show do U2 não vai curtir a música somente. A música certamente é o principal e se ela fosse ruim tudo aquilo seria parafernália desperdiçada. Essa semana li o post do Medina em que ele diz que não gosta do tipo de show que o U2 produz porque toda aquela grandiosidade quebra um pouco a magia do improviso, o sublime da apresentação imperfeita, tira a beleza da simplicidade e por aí vai. Bom, essa foi minha leitura, pode ser que o Medina tenha tentado falar outra coisa. Não sofro desse mal. Ainda guardo com carinho a lembrança do show, ahn, sublime dos Los Hermanos em um teatro de Floripa, mas uma coisa não me impede de apreciar a outra. E se Bono e The Edge sentarem em banquinhos para cantarolar Beautiful Day, vou achar lindo também. Seja como for, o que vimos no Morumbi foi bem espetacular mesmo. Em alguns momentos, arrepiante; em outros, só beleza; em outros, explosão.


O palco do 360º é a materialização de um delírio: uma gigantesca aeronave com suas pernas de aranha encravadas no solo. No centro, uma estrutura redonda que dava a todos os lados do estádio a possibilidade de ver cada detalhe do que se passava no palco - inclusive os tropeços que também aconteceram. À minha mãe eu teria dito e não é que aterrissaram mesmo? Antes do U2 entrar em cena, a banda Muse, que eu nunca tinha visto mais gorda, vejam vocês, arrebentou. Com suas guitarras arrebatadoras (ai, não conheço outra palavra), esquentou o clima na medida. Ali ao ladinho do palco fiquei imaginando como ia ser legal ver os caras do U2 logo ali, tão pertinho como nunquinha tinha sonhado em 1989. Nem em tempo algum. Olhava ao redor e via o estádio absolutamente lotado; olhava pro alto e via a lua, que mora longe, mas não é boba nem nada e também espiava tudo.

Muse

Os acordes de Even Better Than The Real Thing deram início ao show. Não tem jeito, o tempo passa, o tempo voa, mas o amor verdadeiro permanece, hohoho. E se a música é boa no carro ou em casa, ao vivo ganha um poder tal que nem consigo descrever. E logo depois, milhares de pessoas disseram ao Bono o que ele já sabe, if you walk away,walk away, I Will Folloooooow!! Daí pra frente, música boa atrás de música boa, um Bono simpatia, um Edge na medida, um Adam Clayton toooodo performático, hihi, e aquela bateria bombando dentro da minha caixa torácica, afe, Larry.



Para "perfeito" o show não serve. Não entendi o que Seu Jorge foi fazer ali, por exemplo, e pelo jeito o Bono também não sabia, senti zero afinidade entre estrela e convidado; sinceramente, se a intenção era dar um tom cool ao show, para mim virou um momento desconforto. Tudo deslocado, nada a ver com nada e, olha só, Medina, teve até microfonia. Felizmente durou pouco e logo estávamos aos pulos, so high, e-le-va-tion!



As coisas espetaculares estavam lá, claro. O imenso centro da nave, que pairava sobre o palco durante a maior parte do show, movia-se, dilatando-se em pontos de luz que desciam até o nível do palco (veja o vídeo aí embaixo). Como de costume, Bono usou seu espaço em prol das campanhas em que se engaja mundo afora. Tivemos Desmond Tutu nos telões pós-modernos, Anistia Internacional (homenagem a uma líder asiática que ficou anos em prisão domiciliar após vencer eleições em seu país), minidiscurso pelo combate à fome - enfim, Bono. E também não seria Bono se não houvesse uma garota emocionada pescada da plateia - que leu parte da letra traduzida de Beautiful Day - e um garoto igualmente pinçado para os seus dez segundos de fama. Isso, aliás, pareceu-me demais da conta: todo show tem um guri, com, sei lá, dez anos, colado no palco, e o Bono encontra esse guri? Hum, tá. Well, whatever.

De certa maneira foi muito bom ver que o Bono está ficando velho, parece que fica tudo certo assim: foi ídolo antigo e parte da delícia está aí, suas canções entoaram anos que já vão longe e é bacana ver os sinais nele também. Mesmo assim, ainda se pendura no microfone-pêndulo, com barriguinha evidente e muitas rugas a mais.


The Edge, tocando pra mim.

Bono, declarando-se.

Agora, pótietar? Aiiiiii, foi tão bom, The Edge tocou praticamente só para a galera que estava do lado de cá do palco, hohoho, o Bono estava logo ali e eu vou ficar velhinha gostando de she moooooves in mysterious ways, aaahan.... It's all right, it's all right, all right... E eu acho que deveria ser proibido a pessoa morrer sem ouvir Where The Streets Have No Name ao vivo. Eu acho.

Palhinha:


***

Minutos antes de Muse entrar no palco, liguei para casa pela última vez para dar boa noite às crianças e ter certeza de que estava tudo bem com a Amanda, que estava resfriada. Tava tudo bem, legal. O que eu só fiquei sabendo na manhã seguinte, é que ela teve febre alta durante a noite e enquanto eu saracutiava no show, minha pequena dormia mal. Sem mim. Comigo longe, em outra cidade. Ah, viu. Aperto é pouco.

Vai ser assim, em 2031:

- Lembra do show da turnê 360º?
- Ah, nem me fale. Inesquecível: enquanto eu dançava, Amanda estava com febre em casa. :-/

Não gosto nem de pensar no tamanho da bronca que a minha mãe me daria. Se bem que seria bem desnecessária, já me penitenciei um tantão. Desculpa, filhota. Desculpa mesmo.



 

8 comentários:

Angela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angela disse...

Ja tinha vindo aqui tres vezes, esperando o feedback do show. :) Imagino os sentimentos quando voltou, mas todas nos maes temos uma historia dessas para contar. Acontece, e sabemos que se pudessemos prever, nao aconteceria. Mas imagino que a Amandinha ja nem se lembra da noite de febre, e se ja estiver melhorado ja deve estar saracoteando por ai!! :)

Entao, nesses ultimos dias, por conta de saber que eles estavam por ai, lembrei exatamente como voce, de quando era crianca la por volta dos 10 anos e sonhava em ir para alguns shows. Os sonhos, na minha mente, nao eram algo que se concretizariam muito facilmente. Eram, como sao os sonhos, quase inatingiveis. Os mais deliciosos eram os sonhos de ver o U2, The Cure e The Police. Ha 19 anos atras, fui ao primeiro, do U2 - Achtung Baby. Ate hoje ainda nao esqueci. O do Cure se realizou no mesmo ano e tambem foi maravilhoso, mas nao inesquecivel. The Police tinha se dissolvido, Sting cantou pertinho em pequenas salas de show com David Byrne e como nao consegui "portadores" (nao podia dirigir) perdi. Ate que ha uns anos atras, The Police se juntou para mim, quer dizer, para umas turnes, e la fomos eu, Pete e Julinha (ainda no forninho) para um show 90% ao ar livre, assistido da segunda fila em um anfiteatro enoorme porem gostoso, e foi inesquecivel. Mas nao como o do U2...

Outro dia te falei que eles tocaram aqui pertinho nove noites seguidas e nem fiz esforco para ir. Mas da ultima vez que estive ai de ferias, varias amigas falaram que iam atravessar o Brasil, gastar a maior grana, ficar em hotel, so para ve-los ai nesses dias. Entao pensei, sou uma boba mesmo... Deixei o site dos tickets aberto nos ultimo meses para nao ter perigo algum de me esquecer, enquanto decidia se vou ve-los daqui ha uns meses (dependendo do feedback das amigas do Brasil) quando estarao aqui pertinho novamente.

Compro? ;)

Grande beijo, queria ter ido ai com voces!!!

p.s.: O Muse eh muito bom, poderia ter te apresentado. Aqui quem vai abrir eh o Interpol, que voces me apresentaram!

Juliana disse...

ó, eu nem ligo muito pro U2, mas vou dar uma olhadinha no youtube depois desse post.

Não sou fã, conheço o básico do báscio, mas dá pra sacar que os caras sabem fazer show.

disse...

Menina, nem me fale nesse aperto no coracao de deixar os filhotes pra curtir show... desde os 12 anos eu esperava uma oportunidade de ir no show do Paul McCartney, que eu AMO de paixão. Nao pude ir nas 2x que ele tinha ido ao Brasil, eu era muito nova, morava longe... e entao ele decidiu vir fazer show em Paris qdo o Rafael tinha 3 meses! 1 mês antes comecei a procurar baby-sitter (cheguei até a falar com a Amanda!), fiz entrevista, deixei o menino com a moça com um aperto enorme no coracao. Chorei muito ao sair, liguei varias vezes pra baby-sitter, me senti a PIOR mae do mundo. Fiquei imaginando 1000 coisas horriveis. Mas eu fui. E foi o melhor show da minha vida em deixar meu filho com uma desconhecida.

Rafael ficou numa boa, dormiu, acho que foi o baby-sitting mais facil da moça...

Tina Lopes disse...

NÃO CREIO que você ligou do show pra casa! hahahah confesso que eu não ligaria não, só antes de sair pro show e olha lá. Adoro o CD que tem Elevation e tals. Não ouço mais U2, mas é implicância minha com a nostalgia, vc sabe como é. Adorei o post, me lembrou da frustração de não ter ido ao Rock In Rio (o primeiro, claro).

Anônimo disse...

Showzão!! Fantástico, não sabia se pulava, se cantava, se só ficava olhando... fiz tudo, no domingo estava rouca e com algumas dores nas pernas.
Mas, apesar da grandiosidade do 360, acho que o Vertigo foi melhor... talvez por ter sido o primeiro que vi... Where The Streets Have No Name no Vertigo arrepiou muito mais.
Só fique triste pq eles não tocaram "no line on the horizon", do último cd... (pelo menos no show de sábado não).
Sara

Anônimo disse...

Oi, cunhadaaa!!

Carácoles, que post legal!

Eu, com minhas zebritas colunares e comprando ingresso de ultimíssima hora JAMAIS conseguiria ficar naquele gargarejo super-ultra-mega-power, né?

Todoscasos, concordo contigo quando diz que o show é... bem... SHOW! Deixa agora eu me "amostrar" um tiquinho...rsrsrs... Lá em BONS ARES (eeeeee) não tinha garoto pequeno não, só a mulher subindo no palco, mesmo. Quanto ao convidado, o de lá foi León Gieco, um músico super-ultra-mega-etc querido por lá. Não senti essa empatia, o estilo deles difere totalmente, me parecia mais um bom músico admirando outro. De qualquer forma, a trajetória do cara é bem impressionante para 'los hermanos' (nada a ver com aqueles que você viu no teatro, coisa e tal, de quem também gosto até) e a galera quase delirou. Fiquei imaginando quem, quem, quem seria o convidado brasileiro. Nunquinha pensei em seu Jorge, 'visse'?

Mas o show foi massa!!! Sobre a Amanda, bem... Essa febre tem nome e sobrenome: SAUDADE (o mesmo aconteceu com o Pedro, quando fui a Londres).

:-)!

Rita disse...

Oi, pessoas maravilhosas que eu gostaria de ter tido no show comigo, tudo bem?

A quem interessar possa, Amandinha teve sinusite, está no antibiótico e espoletando como dantes. Tuuuudo igual. :-)

Beijossssssss

Rita

 
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