Bagunça


Certa vez minha terapeuta me falou que é preciso trabalhar esse lance (ela não falou assim "trabalhar esse lance", exatamente, relevem) de "comprar" as dores alheias. Que é bom e normal ser solidário, mas devemos ser capazes de nos separar da dor do outro - algo que dever ser imprescindível na profissão dela, por exemplo, sob pena de ela não ser capaz de tocar o bonde. Eu tenho mesmo esse problema. Eu sofro muito mesmo pelos outros, eu sou de ficar dias e dias impressionada com a dor de alguém que nem conheço - algo que ganhou proporções bem maiores depois que virei mãe, mas que já existia antes da maternidade. Eu não sei o que isso faz de mim, provavelmente é imaturidade emocional. Ou  não, não faço ideia. Nem sei se tem jeito, não me imagino diferente. Até que me esforço e em tempos de minhas próprias dores bem que fico alheia ao resto do mundo. Mas eu queria tirar o nó da garganta. Porque eu já chorei muito por aquelas crianças, já tentei bancar a descolada e mudar de assunto, já cuidei de minhas coisas e fui ao cinema. E hoje faz quatro meses que minha mãe foi embora e ainda é  um dia em que revivo os acontecimentos de 09 de dezembro (por essa hora isso, essa hora aquilo, tal hora ela estava assim, tal hora isso, etc.), mas hoje meu peito se aperta por aquelas famílias cariocas. E aí vou ao cinema e dou boas risadas vendo Rio e cinco minutos depois penso, gente, essa cidade está de luto. E sei que amanhã vou a uma festa infantil, que segunda-feira terei coisas a resolver no trabalho e que a semana me trará bons momentos. Mas que de vez em quando vou parar e suspirar pelas famílias das crianças, pelo mundo que produz situações assim e pelo horror disso tudo. Eu não vi nenhum telejornal (não vejo há meses, acho), não li nada além de meia reportagem num portal da internet que abandonei depois de três frases, logo que fiquei sabendo do que tinha acontecido, pelo twitter. Gosto muito de minha timeline e foi lá que fiquei sabendo do tipo de cobertura que a imprensa deu ao caso nos últimos dias. E ainda que eu tivesse condições emocionais de assistir a tudo, ler tudo e não me desmontar, eu não o faria. Porque repudio o sensacionalismo, o pouco profissionalismo e a mania doentia de entrevistar quem está chorando a perda de um filho, a perda que acabou de acontecer. Mas é como se eu estivesse vendo tudo, meu coração segue encolhido.

Eu vou ler meu livrinho, o cinema foi bom, essa semana tem show e amanhã vou comer brigadeiro. Mas o mundo é um lugar estranho.

Esse post não tem muito nexo, minha tristeza é assim mesmo, espalhada e misturada com minha vidinha tola.

***

Gostei muito desse post do Alex porque também torço muito para que muitos estejam por aí, rindo completamente, de corpo inteiro e alma leve.

11 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Obrigada pelo "trabalhar esse lance". No mais, ainda estou menos. Mas sempre vindo aqui pra me lembrar do que é possível. Bj!

Anônimo disse...

Sou assim mesmo...e é bom viver o luto, nosso ou não ...passar por todas as fases...no futuro não ficará lacunas. Tenho pena mesmo é de quem foge do que sente...só vão sofrer mais no futuro pois a ferida não conseguirá cicatrizar. Meu pai se foi há 9 anos...hoje eu sinto a dor da saudade( hj sei que saudade é isso, de quem não vamos mais ouvir a voz)mas como vivi todas as fases do luto, consigo lembrar dele e rir dos vários momentos bons que passamos juntos e rimos juntos. Já algumas pessoas que ignoraram a dor e fingiram superação hoje sofrem muito por isso...Também sofro pelas crianças´do Rio. Eu sofro ao ver a dor do outro. Sou assim.

Caso me esqueçam disse...

ai, so acompanhei o caso pelo tt e olha, que nojo! a tv brasileira eh muito sem nocao! fico feliz de estar longe nessas horas, de nao precisar ver esse circo todo que foi montado em cima de gente morta e dor alheia...

Tina Lopes disse...

Bem, vc(s) já sabem o que penso do circo todo. Quanto a sofrer junto, é preciso trabalhar muito esse lance, mesmo. Uma coisa é solidariedade, humanidade, enfim. Conheço uma pessoa que entrou em parafuso com a morte de um menino, nem vou contar qual pq foi um caso escabroso de latrocínio, famoso. Simplesmente a pessoa travou, desenvolveu síndrome do pânico em grau elevado, teve a saúde prejudicada. É preciso um certo distanciamento, senão não aguentamos.

Pri Sganzerla disse...

Eu entendo seu sentimento. Pois sem querer eu tomo as dores do mundo e sofro com intensidade. E isso me faz mal. Então decidi me alienar parcialmente: não assisto às repetições sádicas das "notícias" na tv, evito ficar remoendo textos na internet e procuro não entrar na discussões intermináveis que as pessoas fazem sobre "a tragédia da semana". Pra me poupar. Pra estar inteira. Pra poder dar conta do meu cotidiano.

E se isso for imaturidade emocional, sabe que não estou preocupada? rs Ainda considero melhor ser crítica e sensível às dores do mundo do que ficar apática, banalizando tragédias ou fazendo a manutenção desse circo "voyeurista" que a nossa sociedade criou...

Bjos! :-)

by Rapha C.M. disse...

Pois é, o sentir a dor alheia tb ficou mais forte em mim depois da maternidade... Acho que os nossos filhos representam claramente o valor de uma vida!
Bj!

Rita disse...

Luciana, sua visita sempre melhora essa estrada, viu? Bj.

Anônimo, acho que sempre vou ser assim, um pouco. Mas eu queria pegar mais leve comigo mesma. Tenho medo, às vezes. Abraços.

Luci, hoje chegou a revista semanal que minha sogra lê. Li uma ou duas reportagens que me interessaram, mas não quis conferir o tom da revista na reportagem de capa. Não li, não dou conta. Bj.

Tina, eu percebo isso e vou me esforçar. Aliás, já estou fazendo isso, da única forma que sei, fugindo da notícia. Então junto as duas coisas: boicote a imprensa sangrenta e tento me manter à distância. Se eu ler, desabo. Bj.

Pri, parece que estamos na mesma sintonia. Empatia, pra mim, justifica muita coisa nesse mundo; só preciso aprender a lidar com situações em que a dor alheia me atinge de forma, digamos, um pouco exagerada. Sei lá. Pra frente. Bj.

Rapha, com certeza, pelo menos comigo isso se evidenciou muito. Fiquei mais medrosa, mais solidárias, mais apaixonada - e com mais cabelos brancos, hohoho.

Valeu pessoas, adoro nossos papos.

Bj
Rita

Rogério disse...

Eu tenho muito essa coisa de sentir dor alheia, tentar resolver problemas alheios. Sexta-feira passada levei a faxineira da empresa ao laboratório e paguei seus exames, porque 'o kit está em falta no SUS'. Minha analista me sugeriu uma espécie de auto-análise porque isso é sintoma de baixa autoestima. Ela acha isso, eu acho que ela falou bobagem e a vida segue. O episódio do Rio me chocou - postei algo a respeito -, as agruras da vida alheia por obra e graça de um governo desumano me chocam, os terremotos e tsunamis me desmontam e não vejo motivos para reagir diferente. Quer saber? Nós somos normais.

Rita disse...

Oi, Rogério. Acho que somos bem normais mesmo. Estranho seria nem ligar, ne?

Anônimo disse...

Riiiiita! Que maravilha encontrar você, conversando sobre familia, cidades etc com uma amiga que trabalha aqui na Receita,surgiu o nome Esperança e consequentemente você, estou feliz por isso, acho que lembrará de mim, Sônia, sua ex cunhada,rsr! Beijos, liindo seu blog.

Rita disse...

Sônia, há algum problema com seu e-mail?

 
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