Wonderfully pretty


Hoje me lembrei de Puppy, meu gato com nome de cachorro que tive na infância. Puppy veio pelo telhado e ficou, vindo provavelmente em um sábado atraído pelo cheiro da carne que meu pai trazia do mercado dentro do balde vermelho. Sua relação com o balde vermelho, aliás, foi uma das mais sólidas que já tive a honra de acompanhar de perto. Ele nunca deixou de se assanhar cada vez que meu pai pegava o balde para sair para o mercado, por volta das quatro e meia da manhã, todos os sábados. Esperava agitado, rebolando impaciente, com aquela certeza que os gatos têm porque sabia que se esbaldaria com restos engordurados horas mais tarde. Comia como se não houvesse outras seis vidas e passava o resto do dia espichado em alguma sombra do quintal, engordando. Dava gosto ver.

Puppy foi minha paixão de infância, eu era absolutamente deslumbrada por sua beleza. Adorava ficar espiando as carinhas fofas que ele fazia enquanto cochilava, nos noventa por cento do tempo de sua vida. Os outros dez por cento eram dedicados a me dar sustos, com pulos esquisitos e arranhões ardidos, e a se esconder dentro do guarda-roupa, o que lhe rendeu muitos xingamentos.

Puppy era guloso, teimoso, briguento e preguiçoso. Ou seja, era um gato. Mas era irresistivelmente charmoso. Parte de seu poder de sedução se devia à sua indestrutível autoconfiança. Puppy se bastava e os carinhos que lhe fazíamos nada mais eram do que doses de generosidade por parte dele, quando ele se prontificava a nos conceder a honra de alisar seu pelo lustroso e bem lambido. Com ele não existia isso de vem cá, pra eu te fazer um carinho, vem. Não, ele me tinha. Então ele mandava. E quando ele dizia aproveita e alisa agora, eu obedecia, feliz como quem ganha um pote de whiskas.

Puppy quebrou o tabu de uma casa onde animais de estimação não eram bem vindos porque minha mãe não gostava. E quebrou com estilo, gato em casa de asmáticos. Destruiu muitas cadeiras, desfiou várias cortinas, mas ficou. Era irresistível. No dia em que caiu doente, porque alguém que não gostava dele o iludiu com um alimento envenenado, precisei cobrir os ouvidos com almofadas para não sentir a dor que seu choro me causava. O veterinário não conseguiu fazer muita coisa. Minha mãe foi docinha, perguntou o que eu queria que fizesse com o corpo, mas eu não fazia a menor ideia e nem me lembro do que foi feito dele. Lembro que tive a certeza de que o pulo em meu pescoço no dia anterior não foi um susto dos que ele gostava de pregar, mas um abraço de despedida. Mas arranhou mesmo assim, o danado.

4 comentários:

Angela disse...

Que lindo!!! Os gatos tambem invadiram a casa da minha mae anti-bichos e minha irma asmatica. Achei uma ninhada de cinco (quatro malhadinhos e um preto e branco) quando era pititica, devo ter tocado neles e a mama os abandonou. Quando concluiu-se que nao ia mais voltar, seguimos as instrucoes do veterinario e conseguimos salvar dois. Uma morreu tambem envenenada (que tristeza!) e Charles Brown o preto e branco viveu longos 22 anos. Passou sua extrema velhice com minha mae, a anti bichos, que cuidou de Brown ja todo rabujentinho como uma pro. Tambem nunca vou esquece-lo. Deve ta la, com o Puppy ;)

Borboletas nos Olhos disse...

"Puppy era guloso, teimoso, briguento e preguiçoso." Vai que Puppy é meu apelido e eu nem sabia ;-)

Que delícia de post! Gosto das histórias contadas assim, como lembranças de fim de tarde, em cores de outono. Quase escuto folhas caindo e céus em laranja esmaecido. É belo e terno e,ainda assim, verdadeiro (porque também há verdades no duro e frio e cortante, mas não hoje, não aqui).

E gosto, especialmente, de arranhões que são abraços no só depois. Tenho um ou dois e dei vários.

Um beijo, baby.

Juliana disse...

Rita, ah, que coisa mais linda!

Rita disse...

Anginha, eu conto pra todo mundo que o gato de vocês viveu 18 anos. Foram 22!!! Meldels!! :-O

Borboleta felina, uiiiii. hahahahaha

Ju, obrigada, flor. bjinho...

Rita

 
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